sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Espanha: Pontevedra

Conversando com Enrique (lembram do mexicano hospedado no mesmo hostal onde eu estava em Valença?), mudo de ideia e resolvo conhecer além de Vigo também Pontevedra, ambas cidades localizadas na Galícia, (província autônoma espanhola) à beira do Atlântico. De Valença a Vigo são apenas 20 minutos por uma autoestrada excelente. A cidade de cara já dá uma noção de quão grande é, afinal tem cerca de 300 mil habitantes. Fico meio atordoada caminhando por ruas com trânsito intenso de veículos já que as cidades por onde andara tinham em média 40 mil criaturas. Depois de deixar a mochila no hostal onde reservara um quarto, - o pior de todos os que eu estive: um ape escuro com uma vibe estranha....gostei nadica de nada dele - rumo ao centro histórico e me deparo ao longo do caminho, com um canteiro no meio da rua, onde várias bananeiras foram ali plantadas!! Nada de notável na Cidade Velha, a não ser o enorme porto, um dos melhores portos naturais do mundo que deu origem a esta cidade rodeada de montanhas. Depois dum almojanta num restaurante perto da Catedral, volto pro hotel já noite e paro num bar com mesas nas calçada onde peço uma taça de vinho branco. As ruas molhadas da garoa que caíra há pouco refletem as luzes dos postes já acesos. Dia seguinte, cheia de boas expectativas sobre Pontevedra, pego o busão na grande rodoviária de Vigo e em 20 minutos estou lá. Embora o tempo também esteja nublado como em Vigo, após deixar minha bagagem no hostal bem maneiro que reservara, vou bater perna pela cidade animada com sua boa vibe que senti assim que desci do ônibus. Passo por uma delicatessen que vende apetitosos pratos como carnes, saladas, empadões, croquetes (comprei 4: deliciosos), sobremesas, enfim, você monta uma refeição completa pra levar pra casa. Pernis de presunto pata negra pendurados de ganchos no teto e outros embutidos além de queijos completam o acervo de víveres do lugar. Mais adiante uma peixaria exibe em bandejas cheias de gelo desde gordos badejos a frutos dos mar como camarão, polvo, calamares, berbigão, vieiras, ameijoas e outros bivalves que eu nem suspeitava da existência. E pra completar meu delírio por vitrines de comidas, uma confeitaria me deixa babando com as variedades de doces à mostra, destacando-se as cristinas, uma espécie graúda de bomba recheada com nata e frutas e o bolo de Santiago, feito de amêndoa, enfeitado com a espada do Peregrino. Passo ao largo da interessante construção arredondada do Santuário da Peregrina, prédio rodeado de andaimes, pois está em processo de restauração. Pra tirar fotos é uma pena que tal esteja acontecendo. Chego no centro histórico onde diante duma praça está a igreja de São Francisco, estilo gótico, enfeitada com altares laterais; ao lado o convento dos franciscanos que atualmente é sede da Secretaria da Fazenda, apenas no último andar, ainda, vivem alguns monges. Continuando meu rolê vou até o Mercado Muncipal de Abastos onde são vendidos frutas, verduras, queijos, peixes e variados frutos do mar. No andar de cima, pequenos quiosques preparam na hora pratos com os produtos locais. Dois barcos pendurados do teto enfeitam o imenso salão onde se espalham mesas e cadeiras. Escolho calamares empanados na farinha de trigo (delícia pura) e uma taça de verdejo. O mercado foi edificado propositadamente diante do rio Lérez de modo a facilitar o desembarque de pescados e outros produtos marítimos oriundos do Atlântico. O rio é pouco largo e une-se a outra margem pela ponte do Burgos, construção datada da Idade Média. Depois da pausa pro almoço, continuo a bateção de perna no emaranhado de pequenas ruas, onde as fachadas costumam ter balcões envidraçados, alguns graciosamente ornamentados e pintados de branco. Casualmente, me encontro na Plaza de las 5 Calles onde cinco ruas se encontram num pequeno largo. Em frente a casa onde viveu Ramon del Valle Inclán, escritor galego, precursor do realismo mágico. Dizem as boas ou más línguas, que sei eu, que ele se mudou pra cá pra poder fumar seu baseado em paz, combustível inspirador, talvez, de sua prosa fantástica. Atravesso a plaza Espanha, marco inicial da cidade velha, rodeada de vários prédios imponentes. Apesar do tempo úmido e nublado, os pontevedrinos curtem seus cafés e bares, seja em mesas nas calçadas ou nos interiores dos estabelecimentos. Vou até o hostal descansar um pouco, afinal, bati perna pra caramba. Alojado num prédio moderno, conta com um enorme quarto onde se dispõem 20 beliches. Cortinas diante das camas fornecem a necessária privacidade. A área comum tem geladeira, microondas, fogão. Bons banheiros masculinos e femininos. As toalhas são alugadas a 1 euro. Como é baixa temporada, o hostal não tá lotado. A maioria dos hóspedes está fazendo o caminho de Compostela. Quando a noite cai, saio na cata dum bom lugar pra jantar e encontro a pulperia Casa Fidel. Ali peço, de entrada, zamburinas a la plancha, que vem a ser vieiras; de prato principal o clássico pulpo a feira: cozido em água, cortado em pedaços, são postos sobre uma táboa de madeira e temperados com azeite, sal grosso e páprica, acompanhado de batatas cozidas na mesma água onde ferveu o polvo. É de comer suspirando de...prazer!! Pra arrematar a refeição, um flan gelado imerso em calda de frutas. Acompanha a refeição, um alvarinho geladinho! A noite pontevedrina está fervida, os bares cheios de gente, não sei se porque é sexta-feira ou se é assim todos os dias. Fico vagando um pouco pelas ruas estreitas do centro histórico com suas construções feitas de granito o que lhe confere um certo quê austero em razão da coloração escurecida da pedra. Numa pequena praça, uma linda fonte na frente dum café, noutra maior, eis a estátua de Ramón del Valle Inclán, com fraque, óculos de aro arredondado e bengala, diante dum restaurante com as mesas quase todas ocupadas. Arcadas marcam a passagem de certas ruas conferindo um ar misterioso às vias. Imagino donzelas apressadas, saindo furtivamente de alguma taverna, escondendo os rostos nos capuzes largos das longas capas que cobrem seus vestidos. Aaahhh...essa Idade Média que gostaria tanto de tê-la conhecido pra espreitar sua vida cotidiana. Como não há um túnel do tempo, só me resta imaginá-la!

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