quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Carnaval em Praia Grande

Bueno, como é mais perto e menos dispendioso resolvi trocar Floripa por Praia Grande durante o feriadão de carnaval. E foi até bom porque caiu uma chuvarada poderosa na região de Palhoça interrompendo o trânsito na BR 101 por horas a fio. Peguei o ônibus que sai às 13 de Porto e já no caminho a chuva deu as caras.
A viagem que se faz de carro em 2 horas e meia leva 4 horas e quinze de busão! O ônibus abandona a BR 101, na altura da vila São João, situada alguns quilômetros de Torres, e envereda por uma estradinha vicinal de chão batido. Tudo tão bucólico! Rios correm paralelos à estrada; aqui e acolá pequenos vilarejos com suas casas de madeira coloridas; já altos e verdejantes os talos das plantações de arroz exibem a boa safra. O ônibus pára toda hora pra pegar e largar passageiros. Há que se ter paciência. Eu, que nunca ando desprevenida, levo três livros e não tiro os olhos de “Um sonho chamado K2”, escrito pelo grande alpinista paranaense Waldemar Niclevicz. Adoro cada página lida e mergulho fundo na descrição das três tentativas de escalar a "montanha das montanhas", considerada a mais difícil de todas, cuja altura só perde pro Everest. Já perto de Praia Grande, vou até a frente do ônibus e filmo um pouco a paisagem. Não só pra desentorpecer as pernas já meio dormentes de tanta inatividade, como por compulsão mesmo, confesso. O ônibus estaca à margem gaúcha do rio Mampituba, o que me obriga a atravessar a ponte de arame balouçante, já que a de cimento se encontra coberta pela água que transbordara do rio. E lá me vou com duas mochilas, uma de 15 litros, outra pequenina, mais um saco com 60 metros de corda 11, tipo estática, que Kaloca me pedira para trazer. Sem elas, impossível o rappel, explica num dos email, trocados entre nós. Do outro lado do rio, já em Santa Catarina, os táxis esperam os viajantes. Embarco num deles e peço que me leve até a Pousada Colina da Serra. Em lá chegando, Pauleca já está me esperando, carinhoso me envolve num abraço afetuoso. Mariazinha, conta ele, fora à cidade fazer compras junto com Mariana, sua filha. Me dirijo até o bar e verto, num copinho, um pouco de cachaça de amora. Estalo a língua, satisfeita. Eita coisa boa! Botamos as novidades em dia e, inevitavelmente, conversamos sobre o tempo que não promete se comportar muito bem no feriadão. Confirmando a previsão, a chuva, até então mansinha, torna-se vigorosa, intensa. Nada, entretanto, de apavorante: chuvas de verão. Estou tranqüila, na boa, só se chover canivete, não faço meus passeios, podes crer! Agora, já na cozinha, jogando conversa fora com Maria, divirto-me com suas estórias enquanto ela prepara a janta. Por enquanto, de turista, só eu. Os demais chegam, na sexta, à tardinha. Kaloca, que fora me esperar mas se enganara quanto ao horário de chegada do ônibus, dá as caras. Combinamos nossos passeios sem grande precisão de detalhes. Como a meteorologia prevê chuva pra sexta e sábado, decidimos fazer um bóia cross no Mampituba amanhã. Caso a previsão do tempo se confirme, descer o rio com chuva não vai atrapalhar nosso passeio, muito pelo contrário, apenas dará um tempero diferente. Acordo durante a madrugada e escuto as bátegas caindo grossas e ruidosas sobre o teto da cabana. A sexta amanhece nublada, vez por outra, cai uma poeira aquosa, apelidada "chuva de molhar bobo". Maior moleza descer o Mampituba deitada na enorme bóia. As corredeiras, apesar de o rio se encontrar cheio, não apresentam muito risco, e Caloca, sempre atento, me puxa quando encalho numa pedra por uma corda atada em minha bóia. Em duas horas, alcançamos o balneário situado no centro da cidade e retornamos à pousada. Combinamos, então, pro dia seguinte, caso não chova muito, fazer canionismo numa garganta pequena, descoberta por ele, na comunidade de Rio do Meio. Na pousada, só eu ainda de hóspede. Os turistas, devido à chuva, só virão amanhã, sábado. Após a janta, enquanto Maria lava a louça e finaliza a limpeza da cozinha, eu escuto-a desfiar recordações de sua infância passada em Timbopeba, lugarejo distante 10 km de Praia Grande. Mariana e Orides, caseiro da pousada, jogam canastra, placidamente, sentados a uma das mesas do refeitório. Cansada, afinal já são quase meia noite, me retiro, sob protestos, pra cabana tal qual uma cinderela obediente ao badalar das horas. Já deitada, me acomodo com um suspiro de satisfação entre os travesseiros, continuando a leitura das aventuras de Niclevicz. Coisa linda deve ser o Paquistão e a cordilheira do Karakorun de onde desponta o imponente K2. Vontade de conhecer tal lugar....

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Chuvaral no rio do Boi

Depois de mostrar a Claudia e Val a parte de cima do canyon Itaimbezinho, vamos hoje percorrer a linda trilha do rio do Boi, situada em sua parte inferior. Entrevêem-se, de cada lado da estrada, de chão batido, culturas de fumo, de banana e de arroz, as três fontes econômicas da região. Nas roças, colhe-se a última leva de folhas de fumo, postas a secar em estufas, construídas junto às residências dos agricultores, e, posteriormente, vendidas às indústrias de tabaco, localizadas, em sua maioria, em Santa Cruz, no Rio Grande do Sul. É bucólica a paisagem: carros de bois passam ao largo da estrada carregados de produtos agrícolas, pessoas nos alpendres das casas abanam afáveis enquanto tomam chimarrão. Vacas de olhares plácidos atravancam a estrada. Respira-se a vida interiorana em toda sua simplicidade. O cheiro gostoso de alguma erva, similar à macela, perfuma os caminhos. Sem falar no odor cheiroso da cambraia, uma linda e delicada flor branca que se encontra à beira de regatos e rios da região. Chegamos no posto do IBAMA de onde enveredamos pela trilhazinha que conduz ao leito do rio do Boi. Quando lá chegamos (ao nosso grupo se juntara um casal de paulistas, o Fernando e a Cíntia, muito simpáticos, também, hospedados na Colina da Serra), percebo os estragos causados pela enchente de março. Das outras vezes em que aqui estivera – e já foram seis! – o rio apresentava encantadores pocinhos e tobogãs formados por lisos lajedos de rochas. Era uma delícia escorregar por eles. Agora, dos desvãos e das curvinhas deliciosas, só resta uma paisagem quase uniforme, à semelhança da planície de pedras que vai até o poço do Malacara. Entretanto, o estrago, graças a deus, foi mais na sua embocadura. À medida que adentramos no canyon, reconheço a feição que dele recordava quando aqui estive há dois anos atrás. O clima é de indecisão, sabe-se lá se chove ou não. E lá vamos nós atravessando o rio pra lá e pra cá, o que requer certos cuidados devido à correnteza um tanto quanto forte. Caloca chama nossa atenção para umas pedras sobrepostas umas às outras: “aqui deve ter um nicho de jararaca”. Dito e feito: vemos enrodilhada a víbora abrigada entre as rochas! Exclamações de medo pipocam das bocas femininas. O mulherio debanda assustado. Avanço um pouco, pouca coisa, e indago de Caloca se não há risco de ela pular na gente. Ele afirma que a jararaca está apenas esperando que passe algum rato (elas são muito pacienciosas) pra então dar o bote. Eu nunca havia visto uma cobra tão de perto. Senti, confesso, um medinho. À frente, um lindo morro pontiagudo chama a atenção: é o da Mamica. Me faz lembrar o seio das guerreiras amazonas que amputavam um deles pra melhor acomodar seu arco e flecha. A água límpida embora de um tom amarelo escuro permite ver com nitidez as pedras acomodadas no leito do rio: sobressaem da monotonia cinza do basalto azuladas incrustações de ágatas, ao passo que uma ferruginosa oxidação colore de laranja as pedras escuras. Seixos redondos e polidos, uma maciez tocá-los! Não resisto e num dos tantos poços que o rio forma mergulho pra espantar o calor e limpar o suor que umedece meu corpo. O sol está definitivamente bem escondido entre os maciços de nuvens que cada vez mais se avolumam sobre nós. Numa curva do canyon surge a primeira cachoeira, apelidada maliciosamente de Leite de Moça, já que o córrego que por ela despenca nasce no morro da Mamica. Bem apropriado, não é mesmo? Cada vez mais as paredes do canyon vão crescendo e se tornando mais e mais altas. Em certos trechos, os impressionantes paredões apresentam-se desnudos de vegetação, cobertos apenas de líquens que conferem uma cor esbranquiçada à pedra. Sentamos pra lanchar e Caloca ordena, temeroso da chuva iminente, que não demoremos muito. Uma pena, pois assim não poderemos curtir a segunda cachoeira, a do Braço Forte. Sei lá por quê, julgo precipitada a urgência dele já que só algumas gotas caem indecisas. Feliz, grito “vai ficar só nisso, Caloca, não passa disso!” Ele, cauteloso, “pode ser ... pode ser” e suas passadas largas exibem a desenvoltura de quem desde os 14 anos palmilha sobre pedras de leitos de rios. Um cabrito esse guia!! Que inveja! E não é que de repente a chuva começa a cair em caudal?!! Dos paredões, desabam enxurradas avermelhadas de água, cachoeiras brotam como passe de mágica escorrendo fartamente entre a vegetação que recobre as rochas. E o rio, até então límpido, transforma-se: suas águas colorem-se de marrom e trêfegas escorrem resolutas, avolumando-se numa espantosa velocidade. Quem não era ágil, vira gazela, e as travessias, fáceis, passam a ser feitas com cautela. Numa delas, a corda, que todo bom guia que se preza sempre carrega, é lançada e dessa forma, improvisa-se uma ponte a fim de facilitar a travessia. Uma certa emoção toma conta do pequeno grupo, afinal se percebe, distintamente, no rio, o forte redemoinho que, ávido, mostra suas garras querendo abocanhar os canhestros turistas. Tudo tão sereno e de repente aquilo que era pura mansidão vira furor. É....não dá mesmo pra brincar com uma bacia de captação cujo alcance no entorno do canyon é de 15 km. Sãos e salvos, somos resgatados até a outra margem. Todos nós respiramos aliviados e retornamos intactos ao posto do IBAMA. Outra pequena aventura a adrenalizar nossa trip. Melhor celebração que essa nem a mais fina champanhe pode proporcionar!

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Rapel do Café

O dia amanhece porreta! Avisto do meu quarto, lá embaixo no vale, uma plantação de arroz coberta por nuvens que rastejam rentes ao capinzal. São seis da manhã e eu bem desperta já estou excitada com meu terceiro canionismo. O primeiro, o do Café, que vou mais uma vez repetir, nem conta porque, à época ainda cheia de medo, Kaloca desceu junto comigo todas as cachoeiras. Com prazer, abro um parêntese pra contar algumas coisas sobre esse praiagrandense da gema a quem admiro demais! Guia formado pela Embratur e monitor da Associação Brasileira de Canionismo já nasceu aventureiro. Suponho que adquiriu o gostinho de rapelar quando de seu nascimento, afinal, desentranhar-se do útero materno deve ter-lhe despertado o fascínio pela altura. Foi, com certeza, seu primeiro canionismo, hehe. E depois disso não mais parou. Escalador, já solou o Cerro Negro, na Argentina quando, frustrado, não alcançou na segunda tentativa o cume do Aconcágua. Persistente, não desiste de chegar ao topo da montanha mais alta da América. Seus olhos risonhos garantem: “eu vou conseguir!!” Tanto que fez uma promessa: deixou o cabelo crescer. Só será cortado quando atingir o topo da montanha. Embora não receba patrocínio algum, se manda estrada afora com recursos próprios. Seu grito de guerra é “quanto pior melhor” enquanto abre um largo sorriso maroto. Não há mau tempo pra Kaloca. Considero-o uma versão masculina de Poliana. Desde que o conheci não contrato senão ele como guia nas minhas andanças através da região. Daí, claro, foi ele quem nos acompanhou durante os 5 dias de nossa permanência em Praia Grande. O escolhido pra nos levar de carro até o ponto da estrada da serra do Faxinal, que dá acesso à primeira cachoeira do Café, foi Luiz Antonio, primo da Maria, um fofo de primeira grandeza! O céu, até então claro, nubla e eu penso cá com meus botões “merda”. Céu cinzento quando se está dentro dum canion dá uma baita má impressão. Tudo fica mais escuro ainda. Imagine você, confinado entre estreitos paredões de rocha basáltica, cuja coloração já, naturalmente, escura, torna-se ainda mais escura, sem o brilho reconfortante do sol e do céu azul. Ai...ai...dá um puta medo, tá ligado?! Nesse canionismo, chamado Rapel do Café, desce-se uma garganta cujo desnível beira os 500 metros. Portanto, não é das mais altas da região. Foi, assim, batizada por Kaloca, em homenagem ao luxuoso café colonial, repleto de quitutes que espera os intrépidos aventureiros ao final da indiada, no sítio de Valmor. As saborosas iguarias reabastecem todas as energias dispendidas durante a prática deste fascinante esporte. Bueno, doze são as cachoeiras cujas alturas variam de 6 a 47 metros. A distância percorrida entre a primeira e a última cachu fica em torno de 1,5 km. Embora pouco extensa a garganta, demora-se em torno de 5 horas pra atravessá-la de ponta a ponta. Eu, entretanto, entro às 10 da manhã e saio às 19 horas. O álibi pra tanta demora é que sou novata, uai! Somente duas cachus foram batizadas. Uma delas é a do Varal, assim chamada, porque, na sua aproximação, há que se descer até uma pequena platibanda onde se fica preso num backup, qual roupa pendurada na corda, pra daí então iniciar os movimentos de descida até o poço situado 25 metros abaixo. Por isso, é considerado um rapel mais técnico. A cachoeira mais difícil, no meu entender, é, contudo, a Sinistra, justamente assim apelidada, porque suas águas escorrem por um brete que impede a passagem dos raios solares. A sua complicadésima aproximação e uma passada exigente duma rocha pra outra faz com que ela seja bem mais técnica que a do Varal. E, aqui, cometo - ala putcha - aquela “barberagem”, típica de iniciantes. Pois não é que me trapalho e fecho as pernas?! Gurias - prestem atenção! -, quando se faz rapel, é necessário deixar as pernas bem a-ber-tas, ouviram?! A imperícia faz com que eu pendule e bata com os costados no duro lajedo. Mais susto que dolorido o pancadão! Ainda bem que não houve fratura porque senão eu iria pagar o maior mico saindo resgatada do canion. Que horror, eu, mais uma vez, envolvida com bombeiros. Nem pensar! Já basta Arequipa!! Mas a Sinistra - não à-toa, foi assim batizada - reserva outra surpresinha após 37 m de descenso. Um pequeno poço obriga que se nade até sua borda de onde é feito novo rapel de modo a enfrentar as turbulentas águas que jorram por um paredão de 10 metros até o solo. Infindável aventura pruma cagona como eu! Brota, então, um medo de que a água me carregue poço afora. Fico paralisada. Peço a Kaloca que estenda a corda. Ele recusa, dizendo que eu tenho de nadar até a borda do poço. Quase choro. Apelo pros meus brios, respiro fundo e resolvo encarar. Pois não é que chego?! Eita Caloca, meu guia e mestre!! Sempre me incentivando!! Um dia, juro, e promessa é dívida, vou rapelar esta Sinistra na buena, sem grandes sobressaltos. Apesar de todo o cagaço, estou tinindo trincando, na ponta dos cascos, louca pra fazer outro canionismo! E que chegue duma vez a hora!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Réveillon na Colina da Serra

Fazendo as honras da casa, me coloquei no papel de guia de Claudia e Val. Como é véspera da virada de ano, decidem as gurias que não é bom fazer nenhuma trilha pesada. Querem se guardar pra meia-noite, tais quais cinderelas já um pouco passadas, entretanto. Solamente um passeiozinho leve. Então proponho conhecermos uma cachoeira, a Magia das Águas, localizada no parque da pousada de mesmo nome. E lá vamos nós! O lugar fora atingido pela enchente de março e apresentava-se diferente da última vez em que lá estivera. Um estrago só a terrível enxurrada fez em Praia Grande, no início do ano, desfigurando em muito a paisagem. O sol a mil, e as gurias, nem aí, aproveitam com gana as reentrância das rochas, deixando-se massegear pela correnteza do rio. Bom demais, gritam elas! De repente, o céu tolda-se de muitas nuvens. Pegamos as mochilas e batemos em retirada. Quando estamos quase alcançando a estrada principal, a chuva despenca com força total. Buscamos refúgio em um abrigo de ônibus e lá ficamos sentadas esperando a chuva amainar. Resolvo pedir carona prum fiatezinho que passa sem pressa. O motorista nos dá carona até o supermercado Magagnin de onde podíamos telefonar e pedir que alguém da pousada viesse nos buscar. Não demorou muito, João Paulo veio nos resgatar e lá subimos nós a serra do Faxinal em direção à Colina da Serra. Coisa boa o verão, passada meia hora o sol volta a reinar num céu limpo e sereno. Dentre as muitas pousadas em Praia Grande – e conheço várias -, essa é a bambambam! Talvez porque tenham se criado ao longo dos anos que venho me hospedando aqui, laços de amizade entre mim e seus donos, Maria e Paulo. Maria é um caso à parte: dona de um senso de humor afiado me diverte com suas observações irônicas. Além do mais suas comidinhas caseiras são muiiiitooo apetitosas, destacando-se o bolinho de arroz que, invariavelmente, requisito quando chego. Já Paulo, o Pauleca, “o nosso marido”, como brinco com Maria, é uma pata choca com os filhos, trata Mariana, de 17 e João Paulo, de 25, como se ainda fossem bebezinhos. Adoro ficar na cozinha, fumando um cigarrinho e bebericando as cachacinhas preparadas com frutas variadas. A de amorinha está louca de especial e me sirvo de outro copinho enquanto tagarelamos alegremente. Quase não vejo Maria parada, quando não está preparando comidas para os hóspedes, está ajeitando as cabanas – em número de seis – ou então lavando roupa. Não pára essa mulher, que máquina, incrível sua disposição!! E hoje então a azáfama é intensa pois os preparativos da ceia estão a milhão. Sua simpática sobrinha, Mara, veio de Sombrio pra ajudá-la e prepara, conforme indicações precisas de Mariazinha, uma mousse de morango dentre as muitas sobremesas do cardápio. O lombinho exala um odor picante de bons temperos e a tradicional lentilha borbulha cheirosa sobre o fogão a lenha. Me sinto em casa, bem à vontade e adio o quanto posso minha ida à cabana. Mas, enfim, crio coragem e deixo aquele aconchego todo. É necessário tomar banho e me enfeitar para a festa. A ceia é servida às 22:30 horas e na mesa comprida os hóspedes sentam-se depois de se servirem fartamente dos quitutes colocados sobre o bufê. Quando a meia-noite junta os ponteiros no relógio, rumamos pra colina: dali dá pra se enxergar os fogos de artifício que espocam em Torres, praia gaúcha situada a pouco mais de 40 km de Praia Grande. Os lindos desenhos coloridos arrancam exclamações de alegria de todos nós. E graças a deus, ninguém fica se abraçando, beijando e desejando feliz ano novo. Suspiro de alívio...ufaaaa....ainda bem!!! Isso talvez se deva porque a maioria das pessoas são hóspedes e mal se conhecem. O céu estrelado prenuncia bom tempo para o dia seguinte. Fico feliz já que farei canionismo com Caloca no Rapel do Café. Oxalá permaneça bom o clima! Já estou sentindo aquele friozinho na barriga só em pensar que amanhã, ou melhor, hoje, afinal já é uma da madrugada, vou estar descendo doze cachoeiras!!! Coisa boa tudo isso!!!

domingo, 30 de dezembro de 2007

Trilha do Poço Malacara

No domingo, o sol aparece no início da manhã mas breve sua presença porque sem muita demora  Praia Grande fica coberta por espessa camada de nuvens. Vamos eu mais Caloca mostrar um trecho do Malacara, considerado um dos canions mais lindos do planeta, pra Valeria e Claudia, minhas amigas que vieram do Rio de Janeiro e Brasília conhecer a região. Nos acompanham Mariana, Luiz Antonio e Gustavo, parentes de Mariazinha, dona da Pousada Colina da Serra onde estamos hospedadas. Porque gostamos de caminhar rápido, eu e Val tomamos a dianteira e chegamos à frente dos outros no bolicho do Toninho Schimidt aninhado às margens do rio Malacara.
Cai uma chuva fininha. Toninho, uma figura pra lá de querida, me recebe de braços abertos, e, de imediato, me serve, uma cachacinha. Figura pitoresca diz que encabula quando fica sem falar. “Não sei por que mas envergonho quando calado”....pode? Esse é o Toninho!! Cunhou um bordão que nunca canso de escutar a cada vez que o visito. “Diz Toninho, diz”. Daí ele estufa o peito e com o olhar perdido no horizonte, atende ao meu pedido empostando a voz: “chove lá fora, pinga aqui dentro". Esse Toninho é uma figuraça!! Emérito contador de saborosos “causos” dentre eles se destaca o da cobra que o picou. Conta ele que tinha lá seus sete anos quando roçava com seu pai um pedaço de terra. Tropeça numa pedra e se estatela no chão quando sente uma fisgada na barriga supondo que fosse a ponta duma pedra. Qual o quê! caíra sobre as presas duma jararaca. Levado pro hospital, apodrecia, quando foi resgatado de volta à vida pelas mãos do Dr. João. “Graças a ele estou aqui vivinho”, exclama enquanto aponta a feia cicatriz em seu abdômen. Casado com Eni, ainda apaixonada e ciumenta, embora viva com ele há mais de 20 anos, Toninho não se intimida e galanteia as turistas que o visitam. A chuva, entretanto, não veio pra se instalar e quando o resto do pessoal nos alcança, dela só restam terra e grama umedecidas. Nos tocamos, então, pro poço do Malaca caminhando sobre o leito do rio. O canion que já havia sido castigado pela presença fulminante do tufão Catarina, em 2004, teve suas feições desfiguradas quando a avassaladora enchente de março transformou sua encantadora embocadura recheada de poços e cascatinhas em uma árida planície de pedras. Completamente mudado o Malaca! Como diz Caloca, só outra enchente vai dar nova feição a essa parte inicial do canyon. À medida que nos aproximamos, as paredes vão se tornando visíveis e maiores: já dá pra se avistar as Gêmeas, duas lindas cachoeiras situadas além do poço, ponto final da trilha permitida pelo IBAMA para se passear. Tudo tão mudado desde a última vez que aqui vim! Mesmo assim me atiro com prazer nas águas escuras do pequeno lago e nado até as pedras do outro lado da margem. Da pequena cascata jorra uma água espumenta formando mansos redemoinhos em sua superfície. Tiramos nossos lanches das mochilas e comemos nozes, amêndoas, avelãs e um bolo de banana delicioso feito pela mãe de Caloca. Sobre nossas cabeças, um gavião-tesoura mergulha no cinza do céu em um elegante vôo. Esta bela ave preta e branca, oriunda do Canadá, está fugindo do inverno rigoroso daquelas plagas em busca de terras mais quentes, provavelmente, porque seja época de procriação. Retornamos por uma trilha lateral ao leito do rio, caminhando dentro de uma mata cerrada pontuada aqui e acolá pelo vermelho vivo das helicônias. Quando chegamos à barraca de Toninho, este mais alegre do que nunca entretém seus amigos com um animado conversê. Famintos - afinal, nosso lanchinho de frutas secas fora pra lá de frugal -, logo surgem das mochilas bandejas de cerejas, pedaços de queijos, pacotes de biscoitos e o restante das frutas secas, logo colocadas sobre a rústica mesa de madeira que há no alpendre. Ninguém se faz de rogado e os petiscos são rapidamente devorados. Resolvo inovar e misturo cereja com queijo: é uma delícia..... aconselho! Na mesa de sinuca, sempre há moradores da Vila Rosa jogando: no momento, dois amigos de Toninho disputam com seriedade uma partida. Gustavo espadana alegremente no rio aproveitando o fim de tarde caliente observado por seu pai. Caloca e Claudia sentados mais além conversam animadamente. Próximas ao balcão, Val e Mariana descansam da caminhada, sentaditas em mochinhos. Eu filmo as pessoas e curto, curto demais o ambiente, a paisagem. Pouco importa se inverno ou verão, se sem sol ou com chuva: bom demais estar de volta à Praia Grande!!

sábado, 29 de dezembro de 2007

Canions Itaimbezinho e Fortaleza

Descobri Praia Grande, localizada em Santa Catarina, meio ao acaso em 2002. Estava procurando um lugar maneiro pra comemorar meus 50 anos quando, ao ler numa revista de turismo sobre aquela pequena cidade cujo principal atrativo são os canyons em seu entorno, não vacilei e me toquei pra lá. Curiosa, peguei um ônibus em Porto Alegre e me fui BR 101 afora. No trecho da rodovia onde há a vila São João, um pouco antes de Torres, o ônibus dobra à esquerda e envereda por uma estradinha vicinal, de chão batido, num trajeto pra lá de sacolejante. Gastam-se 4 horas pra percorrer 230 km. Mas fazer o quê se não sei ainda dirigir, né? Desde então não parei mais de ir a Praia Grande. Visitei vários e diversos canyons ou peraus como são chamados na região estes magníficos acidentes geológicos. De todos os tamanhos e formatos, os canyons são estupendos, de perder o fôlego. Conheço o Josafaz, o maior deles com mais de 16 km de extensão, o Faxinalzinho, o Itaimbezinho, o Molha Côco, o Índios Coroados, o Malacara, o Churriado, o da Pedra, Macuco ou das Bonecas e o Fortaleza, sendo que estes dois últimos estão no município de Jacinto Machado, distante de Praia Grande cerca de 60 km. Atualmente, já dominando um pouco o medo de altura, faço canionismo, tendo rapelado o canyon da Pedra e a garganta do Café. O Malacara desci por uma trilha aberta na encosta de sua parede sul. À época, ainda não me animava a rapelar suas cachoeiras. Entretanto, acampei e passei uma noite naquele magnífico grotão. Foi aí que conheci Kaloca, o meu mestre em canionismo. Portanto, nada melhor que passar a virada de ano neste lugar que tanto amo!! Assim, lá me vou com duas amigas escolhendo um roteiro light já que elas não são tão aprofundadas assim em esportes radicais. Por óbvio, iniciamos nosso roteiro com uma caminhada de borda ao redor dos clássicos canyons Itaimbezinho e Fortaleza cuja parte superior situa-se no Rio Grande do Sul e a inferior em Santa Catarina. Embora o dia esteja meio nublado, graças a deus, não apresenta viração ou nevoeiro. Este fenômeno é causado pela diferença de temperatura e pressão entre o litoral e a serra resultando numa espessa formação de nuvens no interior dos canyons dificultando, assim, a visão dessas profundas e extensas gargantas. O canyon do Itaimbezinho faz parte do Parque Nacional dos Aparados da Serra e seu acesso se dá pela estrada da serra do Faxinal que une Praia Grande a Cambará, cidade esta já localizada em terras gaúchas. O canyon com pouco mais de 5 km de extensão é o único na região que não se apresenta verticalizado, ou seja, em degraus. Há duas trilhas na parte superior: a do Cotovelo de onde se avista lá embaixo o rio do Boi serpenteando serelepe em meio às rochas que recobrem seu leito. Do mirante tem-se uma visão dos impressionantes paredões rochosos cuja altura média fica em torno de 700 metros. Chamam a atenção os pinheiros nativos e o campo de turfas por onde os pés descuidados podem se afundar até o tornozelo depois de uma temporada chuvosa. Já da segunda trilha, alcunhada de Vértice, vislumbram-se as cachoeiras das Andorinhas e a do Véu de Noiva. As belíssimas quedas d'água apresentam-se volumosas para encantamento dos turistas. Há uma boa infraestrutura no parque com lanchonete e mesas ao ar livre pra quem quiser fazer um piquenique. Deixamos o parque pra trás e continuamos a subir a serra chegando então a Cambará de onde uma estradinha com pouco mais de 20 km nos conduz ao canyon Fortaleza, com quase 8 km de extensão, situado no Parque Nacional da Serra Geral. A trilha, bem demarcada, permite admirar o esplêndido canyon e uma de suas cachoeiras, a Fortaleza, que despenca de seu paredão sul numa vertiginosa e volumosa queda d’água. Caso o tempo permita, consegue-se até avistar o litoral, distante pouco mais de 40 km. Entretanto, tal visão nos é furtada porque a visibilidade não é lá das melhores. O céu continua nublado, rapidamente a massa cinzenta transforma-se em pesadas e baixas nuvens pretas, raios ao longe riscam o céu de prateado. Trovões metralham o silêncio da tarde. Nuvens velozes saem do interior do canyon formando um cenário de filme americano, gênero catástrofe. Eu, embasbacada diante de tal espetáculo, saco ávida minha câmera do bolso da bermuda e passo a filmar antes que a chuva finalmente caia em pingos grossos e cortantes. O vento me empurra pra frente, eu me vejo entre assustada e deslumbrada com tal manifestação selvagem da natureza. Molhada até os ossos sinto na pele a chuva me vergastar avidamente. Nem dou bola. Estou como o diabo gosta, hahahahaha!!! Passados 15 minutos, a chuva cessa abruptamente e o sol aparece meio tímido. Aproveitamos a estiagem e enveredamos então até a trilha que dá na cachoeira do Tigre Preto, situada numa garganta lateral do Fortaleza. Pra se ver a cachoeira de frente tem de se atravessar o arroio Segredo. Pra isso, passa-se bem junto à borda da cachoeira. Parece assustador, contudo, ela forma um largo platô, quinze metros abaixo de onde, então, despenca por mais 180 metros até atingir o fundo da garganta. Continuando a caminhada, contorna-se a borda do canyon e chega-se afinal na Pedra do Segredo, um monolito de rocha basáltica de 5 metros de altura apoiado numa área de apenas 50 centímetros quadrados, dando a impressão que a qualquer instante irá despencar canyon abaixo! No final da tarde, retornamos à Praia Grande. Se o tempo houvesse nos brindado com um sol radioso, o passeio não teria sido tão bom. Afinal, uma pequena tempestade de verão faz o sangue correr mais rápido e o coração bater acelerado, não é mesmo?

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Inté Brasília!

Parto de Alto Paraíso no ônibus das 7 da matina e chego às 10:30 em Brasília. Claudia me espera na rodoferroviária. Vamos pra sua casa onde vou pousar porque amanhã embarco de volta pra Porto. Ela no caminho me mostra alguns cartões postais da capital federal, como o Parque da Cidade, rebatizado Parque Ana Lídia, em homenagem ao brutal assassinato de uma menina, nos idos de 1970. Tal crime, infelizmente, até hoje permanece sem solução. Estou começando a gostar muito de Brasília. Quando aqui estive na década de 70 a cidade não era tão ricamente arborizada: tinha pouco mais de 10 anos. Canteiros decorados com variadas espécies de flores e flamboyants orgulhosamente floridos de vermelho enfeitam as ruas e amplas avenidas. Almoçamos no jardim de um restaurante de comida natural no setor sul, comida deliciosa, onde numa mesa comunitária pode-se trocar idéias com quem está ao lado. Converso um pouco com uma mineira casada com um goiano. Nesta cidade, a gente encontra pessoas de toda parte do Brasil e ainda de outros países do planeta. Trilegal! Claudia, seu pai e sua mãe, dois goianos encantadores! levam-me pra conhecer o Memorial Juscelino Kubitschek, uma construção em concreto branco, onde estão depositados os restos mortais do mineiro, simplesmente, conhecido como JK. Fico chocada quando subo ao primeiro piso e encontro um ambiente escuro, em cujo centro há uma construção em pedra, também, preta onde jaz o esquife, mais uma vez o preto, gente!! contendo os restos mortais do presidente. Meu deus, pobre JK! não merecia esse ambiente lúgubre, homem solar que era, amante da boa música (o fundo musical lá dentro deveria ser ou de um alegre samba ou de uma macia bossa nova, uai!!), da risada fácil e dos amplos espaços - afinal não foi à toa que escolheu o planalto central pra construir a nova capital dos brasileiros -, hoje confinado a esse mausoléu soturno, de arrrepiar os pelinhos dos braços. Será uma vingança da viúva, magoada por suas sucessivas escapadas?! Saio de lá contente por estar novamente a céu aberto. Reflito com meus botões que, se existe mesmo vida após a morte, o pobre Juscelino não deve estar lá muito satisfeito de se ver encerrado naquele ambiente tão solene quanto fúnebre. Que homenagem.....ou será castigo? Meu périplo continua e seguimos em direção ao Lago Paranoá. Seu Alfredo me pergunta se conheço o Palácio da Alvorada. “Só de fotos e filmes”, respondo ao bom goiano.
Residência oficial dos presidentes da república, este edifício foi o primeiro prédio construído em alvenaria por Niemayer e inaugurado em 1958, dois anos antes, portanto, da inauguração do Distrito Federal. Descemos e seu Alfredo pergunta se eu não vou fotografar o palácio. Pra ser gentil, faço-lhe a vontade, mas não tenho lá muitas ganas de. Enfim, não me custa nada. Faço um clique apenas e não é que a foto até que sai boa? Circundamos o lago pra conhecer a Ermida Dom Bosco, situada na margem posterior à do Palácio. Excepto por nós e um casal de namorados sentados num banco em frente ao lago, não há mais ninguém no local. Tranqüilo, tranqüilo. Os raios do sol poente refletidos na superfície das águas colorem-na de prata. O silêncio da tardinha é quebrado pelo rumorejar macio das pequenas marolas quando batem na areia. Nuvens pesadas se fazem presentes no céu. As luzes ao longe já evidenciam os preparativos da cidade para a noite prestes a cair. Deixamos os pais de Claudia em casa e vamos jantar num dos muitos restaurantes bacaninhas que abundam na cidade. Tão agradáveis, a maioria com mesas no exterior aproveitando o clima quente da região. Adoro estar ao ar livre, começo a desgostar cada vez mais de ficar presa entre quatro paredes, basta de ares gelados, afinal quem gosta de frio é pingüim! Quero morar aqui!! Brasília me aguarde! Au revoir!!