domingo, 30 de dezembro de 2007

Trilha do Poço Malacara

No domingo, o sol aparece no início da manhã mas breve sua presença porque sem muita demora  Praia Grande fica coberta por espessa camada de nuvens. Vamos eu mais Caloca mostrar um trecho do Malacara, considerado um dos canions mais lindos do planeta, pra Valeria e Claudia, minhas amigas que vieram do Rio de Janeiro e Brasília conhecer a região. Nos acompanham Mariana, Luiz Antonio e Gustavo, parentes de Mariazinha, dona da Pousada Colina da Serra onde estamos hospedadas. Porque gostamos de caminhar rápido, eu e Val tomamos a dianteira e chegamos à frente dos outros no bolicho do Toninho Schimidt aninhado às margens do rio Malacara.
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Cai uma chuva fininha. Toninho, uma figura pra lá de querida, me recebe de braços abertos, e, de imediato, me serve, uma cachacinha. Figura pitoresca diz que encabula quando fica sem falar. “Não sei por que mas envergonho quando calado”....pode? Esse é o Toninho!! Cunhou um bordão que nunca canso de escutar a cada vez que o visito. “Diz Toninho, diz”. Daí ele estufa o peito e com o olhar perdido no horizonte, atende ao meu pedido empostando a voz: “chove lá fora, pinga aqui dentro". Esse Toninho é uma figuraça!! Emérito contador de saborosos “causos” dentre eles se destaca o da cobra que o picou. Conta ele que tinha lá seus sete anos quando roçava com seu pai um pedaço de terra. Tropeça numa pedra e se estatela no chão quando sente uma fisgada na barriga supondo que fosse a ponta duma pedra. Qual o quê! caíra sobre as presas duma jararaca. Levado pro hospital, apodrecia, quando foi resgatado de volta à vida pelas mãos do Dr. João. “Graças a ele estou aqui vivinho”, exclama enquanto aponta a feia cicatriz em seu abdômen. Casado com Eni, ainda apaixonada e ciumenta, embora viva com ele há mais de 20 anos, Toninho não se intimida e galanteia as turistas que o visitam. A chuva, entretanto, não veio pra se instalar e quando o resto do pessoal nos alcança, dela só restam terra e grama umedecidas. Nos tocamos, então, pro poço do Malaca caminhando sobre o leito do rio. O canion que já havia sido castigado pela presença fulminante do tufão Catarina, em 2004, teve suas feições desfiguradas quando a avassaladora enchente de março transformou sua encantadora embocadura recheada de poços e cascatinhas em uma árida planície de pedras. Completamente mudado o Malaca! Como diz Caloca, só outra enchente vai dar nova feição a essa parte inicial do canyon. À medida que nos aproximamos, as paredes vão se tornando visíveis e maiores: já dá pra se avistar as Gêmeas, duas lindas cachoeiras situadas além do poço, ponto final da trilha permitida pelo IBAMA para se passear. Tudo tão mudado desde a última vez que aqui vim! Mesmo assim me atiro com prazer nas águas escuras do pequeno lago e nado até as pedras do outro lado da margem. Da pequena cascata jorra uma água espumenta formando mansos redemoinhos em sua superfície. Tiramos nossos lanches das mochilas e comemos nozes, amêndoas, avelãs e um bolo de banana delicioso feito pela mãe de Caloca. Sobre nossas cabeças, um gavião-tesoura mergulha no cinza do céu em um elegante vôo. Esta bela ave preta e branca, oriunda do Canadá, está fugindo do inverno rigoroso daquelas plagas em busca de terras mais quentes, provavelmente, porque seja época de procriação. Retornamos por uma trilha lateral ao leito do rio, caminhando dentro de uma mata cerrada pontuada aqui e acolá pelo vermelho vivo das helicônias. Quando chegamos à barraca de Toninho, este mais alegre do que nunca entretém seus amigos com um animado conversê. Famintos - afinal, nosso lanchinho de frutas secas fora pra lá de frugal -, logo surgem das mochilas bandejas de cerejas, pedaços de queijos, pacotes de biscoitos e o restante das frutas secas, logo colocadas sobre a rústica mesa de madeira que há no alpendre. Ninguém se faz de rogado e os petiscos são rapidamente devorados. Resolvo inovar e misturo cereja com queijo: é uma delícia..... aconselho! Na mesa de sinuca, sempre há moradores da Vila Rosa jogando: no momento, dois amigos de Toninho disputam com seriedade uma partida. Gustavo espadana alegremente no rio aproveitando o fim de tarde caliente observado por seu pai. Caloca e Claudia sentados mais além conversam animadamente. Próximas ao balcão, Val e Mariana descansam da caminhada, sentaditas em mochinhos. Eu filmo as pessoas e curto, curto demais o ambiente, a paisagem. Pouco importa se inverno ou verão, se sem sol ou com chuva: bom demais estar de volta à Praia Grande!!
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