Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
02/04/2017 – Domingo – 16º Dia
de Trek Everest BC – Lobuche a Gorak Shep
Devido
à nevasca de ontem tudo está coberto por fina camada de neve. O que tem de
lindo esse cenário branco, tem de ruim pra caminhar, mas simbora, fazer o que
né? Hoje saímos às 7:15, uma hora mais cedo do que o usual porque pretendemos, em chegando a Gorak Shep, subir o
Khala Patar para então amanhã ir ao acampamento-base do Everest. Lobuche é um lugar privilegiado porque daqui se
distinguem mirando o sul, em seu fundão, os picos Kangtega e Thamserku. Próximas à
vila e, por isso, parecendo grandonas, Taboche, Soloche e Lobuche. Caminhando rumo ao norte, Pumori, Lingtren e
Khumboche, à esquerda, são figurinhas fáceis, entrevistas a todo instante, enquanto,
à direita, impõe-se amiúde o imponente paredão norte do Nuptse. Classifico os trekkers em 3 estilos. O “páginas em branco” é aquele cara com ânsia de chegar, não faz mais que andar, andar e andar, levando de recordação fotogramas borrados justapostos às pontas
de suas botinas. O "competitivo ou atleta" faz da caminhada treinamento visando melhorar a performance em outras atividades
esportivas. Por último, o "vagabundo ou andarilho" caminha pelo prazer
de descobrir e curtir paisagens interessantes bem como interagir com culturas distintas da sua. Depois de ter
passado pelos dois primeiros estágios estou quase alcançando o terceiro, por
mim denominado “pernada nirvana”. A distância a Gorak Shep, embora sejam curtos 5kms, é dura,
porque numa trilha de neve muitas vezes escorregadia devido à lama e
ao gelo. À tranquila pernada que se inicia no plano vale onde foi construída Lobuche, sucedem-se um tantão de subidas e mais subidas. Antes do primeiro passo, numa tradicional parada, onde há recipientes de lixo feitos de pedras, guias e porters descansam antes de encarar
os 5.200 metros do Lobuche La. Vencido o passo, avista-se, adiante, algumas
centenas de metros abaixo, a imaculada alvura do glaciar Khumbur. Seguem-se morros
branquinhos de neve num sobe-sobe constante pra então, figurativamente falando,
despencar a trilha em Gorak Shep, situada a 5.160 metros, onde chegamos às 10:35
sob um céu de anil e sol esplendoroso. Deixamos as bagagens no quarto a nós destinados
(Flavio e eu teremos de compartilhar durante 2 dias o dormitório porque o lodge
está lotadaço e Nir não conseguiu, ao contrário das outras vezes, um quarto pra
cada um....oxalá não precise eu de protetor auricular caso ele ronque),
almoçamos e nos tocamos a enfrentar os 390 metros de desnível existentes entre
a vila e uma das cristas do Pumori, chamada, em razão da cor escura de suas
rochas, Khala Patar. Quando estamos quase a atingir a finalera da rampa, um vento
começa a soprar tão forte que por duas vezes agacho-me receosa de ser
derrubada. Durante a subida, do lado direito, vislumbram-se Changche, Lolha, o escuro topo em formato triangular do Everest, seguido pelo Nuptse. Ao atingirmos o topo do
Khala Patar, estes picos já se encontram escondidos por maciços de nuvens. Flavio, surpreendentemente, chega depois de mim – primeira vez durante o trek - quase se arrastando ao Khala. Sentado numa pedra, deprimidíssimo, revela choramingando que o mesmo sucedeu numa montanha peruana, impedindo-o de continuar o trek. Com pena, procuro consolar o coitado salientando que não é pouca coisa atingir 5.450 metros. Evidente que ele tá sofrendo alguns dos efeitos deletérios causados pela altitude. Pouca demora, graças a deus, ele se recompõe e arma seu tripé pra fotografar a paisagem circundante. Como não estou a fim de me expor na estreita e íngreme rampa revestida de pedras sob risco de ser derrubada pelas enérgicas rajadas de vento, aborto os 100 metros restantes que conduzem ao dito “topo” do Khala Patar. Pra ver o quê? A porção superior do
Pumori? Pra dizer que eu atingi os 5.550 metros do Khala? Hahahahaha!! Comparada
à descida do Nagarjun, esta parece mais fácil porque há largos trechos de gramínea
sobre o solo arenoso, evitando perigosos escorregões. De volta ao Buddha Lodge, bebendo
chocolate quente, tenho ao meu lado, um satisfeito Nurbu. Como não fala
inglês, quando olho pra ele, o porter retribui, exibindo sua bela dentadura num
amplo sorriso. Lá fora, dirigindo-se ao BC do Everest passa uma caravana de
yaks carregados com carga. Tão agradável o tilintar dos guizos e badalos que os peludos
bovinos têm pendurados nos pescoços! Durante a descida do Khala, confirmo meu sentimento
de decepção com o Everest. Caso não fosse sua altura vertiginosa, passaria
despercebido em meio a picos que, se não são mais altos que ele, assim parecem. Isso é fato, perceptível por qualquer pessoa dotada de visão, daí a objetividade do comentário, pra não parecer que estou implicando com o Everest. Reconheço, contudo o subjetivismo no tocante ao seu formato (só visto em fotografias), já que não me impressionou tanto quanto a pirâmide perfeita do Cho Polu, a rampa nevada do Lingtre, a aparência de leque do
paredão sul do Thamserku e a esquizofrenia escultórica do Ama Dablam. Com
certeza, no quesito altura, Eve prova que tamanho é documento, merecendo o
justo título de Kid dos picos!
03/04/2017 – Segunda-feira – 17º
Dia de Trek Everest BC – Gorak Shep
Tá
frio pra caramba aqui em Gorak às 7 e 30: -4º C! Também pudera, estamos a 5.160
metros de altitude! O dia está tão lindo quanto ontem, sem pingo de nuvens. A
boa do dia é fazer sabem o quê? Turismo no Eve BC, hahaha!! Saímos às 8:30 da
vila e, inicialmente, percorremos um vale espremido em ambos os lados por
dezenas e dezenas de montanhas pra depois subir até a crista da moraina direita
formada pela geleira do Khumbu. Caminha-se ao longo dela em uma ascensão
constante, sem lances exigentes ou agressivos. O movimento de porters e yaks é
intenso. Quando escuto o ruído dos guizos, sei que a caravana dos
pesados animais está próxima. Hora de se encaixar em qualquer canto à margem da
trilha e esperar que passe. A regra “first ladies” aqui não se aplica, o que
vale é “first cattle”, hahaha. Não cesso de ficar embasbacada com a quantidade
de carga suportada pelos porters. Desde as mais simples como as tradicionais
marinheiras contendo objetos pessoais dos montanhistas aos mais singulares objetos
como os transportados pelos dois homens que se dirigem ao BC: um leva nos
costados 2 mesas metálicas enquanto o outro tem nas paletas uma pia!! Nem só na
pernada se chega ao BC, turistas há que sobem a cavalo! Admirável a exótica
combinação dum pastor de yaks que pintou o cabelo de amarelo pra que adquirisse
cor similar à da jaqueta. Pensando bem, trilha movimentada tem suas vantagens, se
presencia cada bizarrice. O cenário, espetacular, exibe magníficas montanhas em ambos os lados da geleira do Khumbu: à esquerda Pumori e Lingtren, à frente, fechando
a moraina, erguem-se Khumboche e Changche, enquanto à direita, espremido entre Lolha
e Nuptse, a pequenez do Everest. Após termos andado um bom bocado pela crista
da moraina, desce-se até o BC, instalado numa baixada a 5.280 metros, distante poucos
metros do glaciar. Este é o acampamento-base sul do Everest ao passo que o acampamento-base
norte está no Tibete a 5.150 metros. No acampamento-base sul há dois tipos de BC. O primeiro, mais afastado da cascata de gelo do Khumbu, demanda, por óbvio, maior esforço dos montanhistas em atingi-la. Destina-se às agência mais “pobrinhas”. Seria o BC “2ª classe”. O outro, aos pés da encosta norte do Khumboche, bem mais próximo à cascata de gelo, pertence às agências com maior poder de fogo em termos de grana e influência junto ao governo nepalês. Seria o “1ª classe” do BC. Santo deus, nem aqui no acampamento-base se está livre de divisão de classes. Bueno, entra-se no Everest atravessando a cascata da
geleira do Khumbu que desce através da fenda existente entre o Lolha e Nuptse. Do
Lhotse nada se vê escondido que está por esta montanha. Descansando da pernada, sentada numa pedra, o silêncio de que desfruto é quebrado pelo marulhar das águas derretidas do glaciar e vez por outra pelo crocitar
dos corvos. Muitas expedições ainda estão chegando embora algumas já tenham seus
acampamentos montados enquanto outras se apressam na montagem das tendas cuja
cor predominante é a amarela devido à excelente visibilidade que tal coloração
assegura. De escaladores nem sinal, ainda não chegaram, só há sherpas. Alguns tentam aplainar o
terreno super irregular coberto por pedras de diferentes tamanhos. Diria que
soa como fazer buraco n’água tal esforço, missão impossível nivelar o empedrado
terreno. Sei lá, a impressão que tenho vendo o acampamento-base é dum grande
zôo, em vez de comida admiramos e atiramos perguntas aos sherpas e escaladores. Bueno, de
volta ao Buddha Lodge, ocupado por dois grandes grupos de turistas das mais
diversas nacionalidades, eis-me recostada em almofadas no refeitório, confortavelmente,
aquecido, bebericando masala milk tea e comendo biscoitinhos de côco. Curto,
durante o resto da tarde, a movimentação de turistas retornando do BC. A
maioria aparenta ter entre 20 a 40 anos, se bem que há expressivo número de
pessoas com idade superior a 50. Poucos deles passarão a noite na vila, preferindo
dormir em Dingboche ou Periche. Àqueles dotados de maior fôlego, uma caminhada puxada
até Pangboche encurta em muito o roteiro pra quem tem dias apertados de férias.
Pros sortudos que gozam de mais tempo, o trek a Gokio exige pernoite em Dzonglha.
E há os que retornam de helicóptero de Gorak Shep a Lukla e a Kathmandu, devido a doenças (mal de atitude, a maioria), ou por outras causas. Enfim, com um
menu variado de rotas, pode-se dizer que todos os caminhos conduzem a Lukla,
seja na pernada, de helicóptero ou a cavalo.
15º Dia de Trek Everest BC - Sábado - Dingboche a Lobuche
Acordo
às 2 da madrugada, e percebo que o céu se mantém estrelado. Agora 6:20, os -2ºC
fazem com que meus dedos estejam enregelados. Escovo dentes e lavo o rosto no sacrifício
porque não se desfruta do conforto dum banheiro na Guest House Yak. No pátio
descoberto, 2 bombonas com água fazem de pia. O céu límpido permite que se veja
super bem, não só Lhotse e um cordão de nuvens flutuando atrás de si, como Island Peak e
Cho Polu. Agora 8:15, a temperatura amena dispensa agasalhos quentes, tanto que
uso apenas uma camiseta de mangas compridas sobre a de mangas curtas quando
começamos a pernada ao longo do árido vale. Não muito distante de Dingboche, com
pé direito super baixo, feitas de pedras e encimadas por telhados de ardósia,
espalham-se três pequenas casas, pertencentes a proprietários de yaks (lembram
a dos 7 anões da Bela Adormecida). Pouco importa sejam tão humildes porque ter
os picos Taboche e Cholatse nos pátios traseiros é luxo pra poucos. A caminhada
transcorre tranquila no vale onde, mais abaixo no mesmo nível de Periche, se
distingue o fio d’água de cor parda do leito do Tsola, rio que, por certo, tem origem
em algum dos muitos glaciares existentes no Solukhumbu. A paisagem ao redor é
magnífica. Basta virar a cabeça pra trás que se vê Kangtega e Thamserku, à
esquerda, Taboche e Cholatse e à frente Lobuche. Suaves subidas conduzem até
Thukla onde chegamos cedo, 11 horas. A pequena vila com poucas guest houses não
seria digna de menção se não estivesse localizada aos pés do Taboche e do Cholatse.
Maior realce que ter como pano de fundo esses dois belíssimos picos,
impossível. Nem me incomodo com a demora em ver servido o almoço (toda a comida
é feita na hora, daí levar uns bons 30 minutos seu preparo), porque, sentada ao
ar livre, tenho o privilégio de desfrutar da visão desses 2 lindos 6 mil. Após
o almoço em Thukla, sobe-se uma ladeira por 45 minutos com muito vento e frio
até alcançar os 4.830 metros do Thukla Pass, emoldurado por coloridas bandeirolas com mantras
budistas escritos. Ao redor do passo foram erguidos memoriais em homenagem aos
montanhistas e sherpas que perderam suas vidas ou ao subir ou ao descer do
Everest. Algumas foram construídas como stupas, outras são singelas pilhas de pedras.
O que importa, né? Tudo serve pra marcar a ausência do ente querido que já não
se encontra mais entre os seus. Ao ler os epitáfios escritos pelos familiares e
amigos daqueles homens e mulheres que morreram realizando seus sonhos, não tem
como não se emocionar: meus olhos marejam enquanto mantenho um minuto de
silêncio em respeito aos bravos montanhistas. Após o passo, o até então
onipresente Ama Dablam torna-se invisível aos meus olhos e ganho a companhia do
belo pico Pumori (7.161 metros) e do, igualmente, atraente Lingtren (6.714
metros). Este último lembra o cerro Solo, situado à entrada do povoado argentino
de Chálten. Passa-se a percorrer trilha em terreno plano, igual ao do início da
manhã, com a diferença que esta está crivada de pedras. Deve ser,
possivelmente, vestígio dalguma moraina. De vegetação, pequenos arbustos da
família do juniper são lançados no fogão pra perfumar o interior das casas. Passamos
bem ao largo das duas grandes tendas amarelas e uma menor, vermelha,
pertencentes ao acampamento-base do Lobuche
(6.145 metros), outro pico muito procurado no processo de aclimatação pra quem
ambiciona o cume do Everest. Duns dias pra cá, tem sido uma constante chegar no
início da tarde às vilas onde pernoitamos, não sendo diferente aqui em Lobuche.
Sentada num dos bancos que rodeiam o amplo e envidraçado refeitório do Alpine
Lodge, percebo encantada que está nevando. No pátio, mesas e cadeiras, não
demoram muito em serem cobertas por flocos de neve, adquirindo branca
coloração. A nevasca estende-se noite adentro. Desde Phakding, não há um dia
que não veja, nas vilas por onde passo, bandos de corvos à espreita de
alimentos deixados à toa. Se o cara bobear e virar as costas à sua comida, a
ave não hesita e nhac no alimento. Seria o típico furto famélico, eximindo,
assim, de culpabilidade o corvo ladravaz hahahaha. Durante a janta, o ambiente
no refeitório chega a estar sobreaquecido pra compensar a temperatura abaixo de
zero no exterior. Fico um tempão ali, postergando ao máximo o retorno ao
quarto, porque, exceto o salão de refeições, o resto da pousada é muuuiiito fria.
Quando percebo que só restam eu e outro guia, posto a última foto no Face e, enfrento,
tiritante o longo e gélido corredor, recolhendo-me à pequena geladeira que é
meu dormitório.
30/03/2017 –
Quinta-feira – 13º dia de Trek Everest BC – Tengboche a Dingboche
Às 5 e 30 quando acordo está um baita dia o que não me espanta porque quando levantei durante a madrugada para fazer xixi o céu estava todo estrelado. Às 8 e 15, nos despedimos de
Tengboche, donde se tem uma visão
espetacular do Nuptse, Lhotse e Ama Dablam. Ah, do Everest mal e mal se vê a
miniponta de seu cume, motivo por que nem merece minha atenção, é um anão diante
dos outros hahahaha!! O movimento de helicópteros está animado, inclusive um
deles pousa aqui na frente do hotel pra deixar alimentos e pegar turistas que
retornam a Kathmandu. Nem sei se é o caso desses, mas muitos turistas não conseguem completar o circuito Everest BC por causa do mal de altitude. A trilha, inicialmente, é uma descidinha
no bosque de rododendros. Depois só encosta de montanha a céu aberto. Do
Nuptse, Lhotse e do minúsculo e escuro ponto que é o Everest pouco se vê porque há
sempre uma parede de nuvens escondendo-os. O Ama Dablam, contudo, não deixa
barato pras nuvens, e impõe sua branca nudez sobre a região. O dia continua
lindaço. Kungde, pico do qual gosto muito, fica pra trás, mas ainda se vê à
direita o leque de rochas que forma a parede oeste do Thamserku. Não é uma trilha
exigente embora continuemos a ganhar altitude gradualmente. Passamos por
Pangboche encarapitada a 3.985 metros. A vila tem boas guest houses, feitas de
pedras, material usado na construção de 90% das residências do Solukhumbu.
Muitos currais de yaks, todos eles vazios, já que o transporte de cargas nesta
época do ano não permite que os bichos esquentem lugar. Daqui pra frente mulas
e dzos não têm mais vez nas trilhas. Pangboche é porta de entrada pra quem quer
escalar Ama Dablam. Pra tanto, deve se cruzar o rio Dudh Koshi e pegar a
trilha que conduz àquele acampamento-base. Uma estradinha bem estreita, num terreno
escarpado onde lá embaixo se encontra o Dudh Koshi, desce até Shomare onde paramos
prum lunch break. Aqui já está almoçando o simpático casal de alemães que conheci em Junbesi
e que ocasionalmente encontro. A partir de Shomare, a
paisagem sofre dramática alteração: salvo a presença de pequenos arbustos espinhentos
inexiste qualquer outro tipo de vegetação. Caminhamos por 2 horas no árido vale
banhado agora pelo Imja Khola. Cercado por montanhas sem grande expressão,
apenas Ama Dablam é digno de nota. Conforme nos deslocamos, novas faces Ama desfila de seu mesmerizante e esquizofrênico perfil. Quando próxima de Dingboche, se agiganta, à esquerda, Taboche. No fundão da vila, destaca-se, ao lado do Lhotse, Island Peak, montanha muito
procurada por turistas devido ao seu status de “facinha”, também é escalada pra
aclimatar antes de os montanhistas se lançarem em busca do cume do Everest. Às
14:00 estamos entrando em Dingboche cuja rua principal, demarcada por muros de
pedras, tem em ambos os lados lodges, padaria e até um salão de sinuca. Várias
lojinhas vendem desde toucas de lã a papel higiênico. O tempo muda a partir das
16 e 30, baixando aquela cerração e sensível queda de temperatura. Após
conversar com Silvia, jovem italiana de 20 anos, que viaja sozinha, carregando
pesada mochila, vou pro quarto onde descanso até a hora da janta. Os 4.500
metros de altitude - não é pouca coisa, não é mesmo? - estão cobrando seu
preço, na forma duma dorzinha de cabeça e um pouco de sono. Agora 18 e 20, vejo
pela janela envidraçada do refeitório que a cerração se dissipou restando
apenas pequenas caudas de nuvens nas partes mais baixas das encostas das
montanhas ao redor da vila. Island Peak, até então obnubilado, ressurge lindo tal
qual bolo polvilhado com açúcar de confeiteiro.
31/03/2017 – Sexta-feira – 14º
dia de Trek Everest BC – Dingboche
Desperta às 5 da manhã porque, como não gosto de fechar cortinas pra escurecer o quarto, a claridade é o melhor despertador já inventado. O dia promete ser deliciosamente comportado. Agora 7 e 30, o bom tempo dá alô exibindo impecável céu
de brigadeiro. Dentro do hotel a sensação térmica é mais baixa que a da rua
onde o termômetro marca 5ºC. Hoje é dia de “descanso” em Dingboche. Descanso, em treks que envolvem alta montanha, nem sempre significa ficar de barriga pra cima, sem nada a fazer. Pra nos
fortalecer, já que daqui em diante, só há ganho de altitude, vamos aclimatizar subindo
o Nagarjun, um pico de 5.040 metros. O ascenso é suuuuperrrr puxado. Nem
consigo curtir o visual enquanto calcorreio a puta rampa que conduz ao cume porque só concentro em
harmonizar a respiração a cada passo dado. Meu foco é respirar com
calma e caminhar sem pressa de chegar. Descanso algumas vezes pra recuperar o fôlego
sem sequer pensar em fotografar ou filmar os arredores. A energia dirige-se apenas pro cobiçado cume. Que alívio quando alcanço o amontoado de
rochas escuras ao final da duríssima, e bota dura nisso, ascensão ao cume do Nagarjun!!
O cenário é recompensador: à leste Ama Dablam, Kangtega (6.782 metros) e Thamserku,
ao sul, nas bandas de Namche, Kungde e, a sudoeste, Taboche (6.542 metros) e
Cholatse (6.440 metros) voltados pro vale que leva a Lobuche. Dá pra ver ainda Island
Peak, também conhecido como Imja Tse (6.160 metros) bem como a perfeita forma
piramidal do Cho Polu (6.735 metros). E pra completar tanta belezura e grandeza,
avisto, de inhapa, boa parte do flanco nordeste do Makalu (8.463 metros)!! Sorte
nossa de o tempo estar tão legal, proporcionando alta visibilidade da região. Durante nossa permanência no pequeno cume do Nagarjum, vão chegando mais turistas,
alguns com ar abatido, outros bem serelepes. À margem direita do rio
Tsola, se vê a vila de Periche, segundo Nir bem mais fria e ventosa que
Dingboche embora situada a mesma altitude. O tempo, pouca demora, mostra seus
maus bofes e rapidinho a cerração encobre a paisagem, motivo pelo qual iniciamos
o descenso pelo bem demarcado sendero. Não tão cansativa, é claro, quanto a
subida, exige ainda assim bastante cuidado porque coberta de areia fina. Percebo quão bom é o uso dos bastões
nesse tipo de terreno, evitando escorregões à toa. Além da cerração, o frio ventinho
que sopra aumenta o desconforto durante a descida. Chego exausta em Dingboche e,
após o almoço, venho pro quarto descansar. Aquecida embaixo do edredom, entremeio
leitura de contos de Katherine Mansfield com deliciosas cochiladas. Tenho de
fazer certo esforço pra levantar, porque se não tivesse de jantar permaneceria
deitada. Não só a altitude quanto o tempo colabora pra que eu me sinta
preguiçosa. Sinto que o esforço despendido na descida do Nagarjun deixou marcas dolorosas em minhas
coxas. O número de turistas aumenta a cada dia que passa, tanto que hoje
a Guest
House Yak, onde me hospedo, se encontra com lotação esgotada ao contrário de
ontem, parcialmente ocupada. Observo que as pousadas, por questão econômica, não utilizam em seu interior
isolamento acústico. Assim, as paredes que
separam os dormitórios não passam de finas divisórias de compensado, razão por que
deixam vazar o mais insignificante dos ruídos. Em meio à vulgaridade dos sons emitidos pelos
vizinhos de quarto, observo que o céu noturno, até então envolto em brumas, ostenta
em meio a oceanos de estrelas uma lua crescente.
29/03/2017 – Quarta-feira – 12º dia de Trek Everest BC – Namche Bazaar a Tengboche
Com
céu de brigadeiro, às 6 da manhã, faz frio, coisa de 5º C. Avisto, enfim, os generosos flancos cobertos de neve
do Kungde. Saímos de Namche às 8 e 15, rumo a
Tengboche, onde pernoitaremos. A trilha de chão batido, aberta em encosta de
montanha, é limitada à direita por penhascos que formam o paredão oeste do
canyon onde desfila o rio Dudh Koshi. Segue nessa moleza até Phunki Tenga,
salvo curtos trechos de subidas ou descidas mais ardidas devido à presença dos
famigerados degraus de pedra. É um mar de montanhas e gargantas que se sucedem
vertiginosamente. A cada curva de estrada desponta, ao norte, o quase
imperceptível cume do Everest, escondido pela escura cimeira sul do Nuptse e
pela grandiosidade dos paredões do Lhotse. À leste, as duas cristas, tais asas angelicais encravadas em cada lado da pirâmide principal do Ama Dablam, parecem
abençoar a região. Apesar de ser um 6 mil (mais exatamente 6.812 metros) e o terceiro
mais procurado pico do Himalaia, isso não quer dizer que seja uma montanha
facilmente escalável. Pelo contrário, exige alto nível de conhecimento técnico
em sua ascensão. Nos dois mirantes, onde há stupas caiadas de branco, os
turistas param pra curtir e fotografar Everest, Nuptse, Lhotse e Ama Dablam,
os mais emblemáticos da região. O motivo
pro crescente afluxo de turistas na trilha se deve, a um, porque a maioria são jovens com pouco dias de férias, e, a dois, porque partindo de
Lukla o bate e volta do trek ao Everest BC dura 15 dias. Como a alta temporada
da primavera está em seu início, o número de turistas indo pra Gorak Shep é bem
mais superior ao que retornam de lá. Paramos prum chá em Kyangjuma, donde
desfruto, sentada a uma mesa ao ar livre, as nunca cansativas presenças de Ama
Dablam, Lhotse e Taboche destacando-se contra o fundo azul do céu. O cenário
magnífico, a aconchegante vila e a simpatia de seus moradores faz com que eu
lamente não poder pousar aqui. Ao sair de Kyangjuma, percorro uma alameda de
rododendros, pena que ainda não floriram. O tempo muda, assim, num estalar de
dedos. Quando me dou conta, o céu nublou geral e nem bem 11 e 30 são....tsk tsk
tsk. Claro está que ausente o sol, baixa uma friaca. Uma boa descida conduz a
mais uma das tantas pontes metálicas que unem uma margem a outra do rio Dudh Koshi. Continuo
ladeira abaixo até Phunki Tenga, porque a vila se alça à modesta altitude de
3.250 metros, mais abaixo, portanto, de Kyangjuma, situada a 3.600
metros. Nir se dirige ao check point existente na vila onde aproveitamos também pra
almoçar. A partir de Phunki Tenga, dentro dum bosque de coníferas, ziguezagueando por encosta de montanha, começa a fudida duma subida tão íngreme é, demorando a
exaustiva pernada 1 hora e 45 minutos. Numa curva de trilha, as nuvens de tão baixas flutuam a poucos metros do solo. Encontramos Tengboche às 14:30 envolta em brumas.
Um pórtico com rodas de oração em seu interior marca a entrada na vila. Nossa
guest house com o sugestivo nome Tashi Delek (saudação em tibetano que significa boa sorte) fica a 50
passos do monastério onde assisto a breve cerimônia budista naquele
que é considerado o templo mais importante do Solukhumbu. Jovens da região são
enviados pra estudar budismo ali, devendo permanecer castos durante o curso.
Após a graduação, os casamentos não só são permitidos como incentivados. Durante a janta, no
aconchegante refeitório envidraçado, rememoro os impressionantes procedimentos
realizados, à tarde, na trilha por um jovem porter (95% têm entre 16 a 35 anos). Carregando um compensado de 2,50 m por 70 cm de largura, o rapaz usava
na lombar uma espécie de rolinho pendurado às costas de modo a amortecer o
impacto da madeira na coluna. Na testa, uma faixa de pano presa à carga firma e
equilibra melhor o fardo. Chego à
conclusão de que os verdadeiros super heróis são eles, os porters!!
27/03/2017 - Segunda-feira
– 10º Dia de Trek Everest BC – Phakding a Namche Bazaar
O
céu se revela sem rastro de nuvens que manchem de branco sua pura coloração azulada. Temperatura
amena pra quem está a 2.640 metros. O barulhento ruído de aviões e helicópteros indica que as aeronaves retomaram as atividades diárias, voando apressadas de sul a norte pra compensar o stop forçado causado pela envolvente cerração que teimou em reinar durante o dia anterior. Mais
britânicos na pontualidade impossível: são 8 e 15 quando deixamos Phakding. O
dia promete ser longo e árduo por causa do desnível de 830 metros entre
Phakding e Namche Bazaar. Porém a trilha nem se revela tão difícil quanto imaginei.
Embora íngremes, as subidas e descidas nem muito longas são. Na paisagem linda
demais, destaca-se Thamserku (6.623 metros), bela montanha nevada, em forma de
leque, além do Khumbila, pico com formato piramidal e
pouca neve nas encostas. O rio Dudh Koshi corre ora à
esquerda, ora à direita, dependendo tal posição da necessidade de se cruzar à margem oposta. Pra tanto, a travessia se faz sempre sobre as firmes e longas
pontes metálicas. Caminha-se geralmente a céu
aberto mas vez por outra adentramos florestas de pinheiros que exalam agradável
odor resinoso. Intensifica-se o número de turistas retornando de Gorak e isso
que nem estamos no auge da alta temporada. Um casal da Malásia, vindo de Khala Patar, com
quem converso rapidamente na trilha, conta que apesar da boa visibilidade do
lugar, o frio era congelante, em torno de -25ºC, a ponto de suas câmeras
digitais terem descarregado mega rápido, mal podendo fotografar Everest e
demais picos circundantes. Em Monjo, enquanto aguardo Nir cumprindo os
procedimentos burocráticos de carimbar nossos cartões Tim no check point, conheço
Richard, um holandês dotado das clássicas feições de homem bonitão: alto,
magro e de olhos azuis. Sem guia e porter, carrega solito seu mochilão. Até
aqui nada incomum em se tratando de trekkers. O que torna Richard
extraordinário é ser ele portador de esclerose múltipla. Tem 51 anos e foi
diagnosticado doente aos 45. Até agora, a manifestação mais grave da doença é a
evidente dificuldade na fala. Por isso carrega com ele um papel contendo alguns
dados pessoais e telefones em caso de emergência. Poxa, cara fora de série esse
Richard, sem quaisquer mimimis: libertou-se do medo de viver e do medo de
morrer! Viva Richard! Nova travessia sobre o Dudh Koshi, percorrendo agora ponte
beeem mais alta que as anteriores - em torno duns 40 metros de altura - que nos leva à margem direita do rio onde está
a encantadora vila de Jorsalle. E ali paramos pra almoçar. As
guest houses voltadas pro rio permitem assim que ocupantes de quartos e refeitórios desfrutem do lindo
visual de suas águas esverdeadas. O tempo até então ótimo ameaça
dar uma virada quando nuvens começam a dar o ar de sua desgraça no céu até
então límpido. Eu que estava sentada no terraço do restaurante, sou obrigada
a entrar porque um vento começa a soprar energicamente. Agora já se vêem menos
mulas e mais dzokios na trilha porque a pelagem basta destes animais os
protegem melhor do frio, conforme o ganho de altitude. Todavia, a partir de
Namche, são usados somente yaks, cujo pelo espessíssimo resiste a temperaturas
abaixo de zero e altitudes acima de 4 mil metros. De Jorsalle em diante, só
subida, mais exigente quando se caminha sobre terreno em degraus e menos dura em se tratando de chão batido. O bom é caminhar num cenário sombreado por bosques
de pinheiros. Se a ponte de 40 metros me pareceu alta a que cruzo agora é o
Everest das pontes. Medindo prováveis 100 metros de altura natural que oscile devido ao peso dos transeuntes e animais. Estranhamente, há outra ponte, 30 metros abaixo que deve conduzir a outras paragens.
Passamos por Top Danda onde, caso o tempo estiver claro, é possível vislumbrar Everest (8.8458 metros),
Nuptse (7.861 metros)
e Lhotse (8.516 metros). Infelizmente, o lugar, encoberto por nuvens, não permite que se veja
montanha alguma. Mulheres vendem maçãs e garrafas d’água enquanto turistas
descansam após a super ardida subidinha. E o resto da pernada até Namche transcorre
tranquila, numa larga estrada de chão batido, percorrendo-se ainda bosques de pinheiros. Outra
vez, coisa boa, terminamos cedo a pernada, entrando às 15 e 10 em Namche Bazar.
Pouca demora, a cerração envolve a vila que assim permanece até a noite. A
princípio não gosto muito de Namche pois parece uma moderna e limpa Thamel. No
dia seguinte, entretanto, já estou adorando, especialmente, por causa do
aconchegante Himalayan Java Café onde afora free wifi é possível carregar sem
pagar os dispositivos eletrônicos. Antes da janta, vamos eu e Nir pro Java Café
onde o gerente é amigão do guia. Nos esbaldamos na internet. Ele falando com
seu irmão que vive na Coréia do Sul e eu postando fotos no Face. À noite, em
meu quarto, quando olho pela janela luzem estrelas no céu.
28/03/2017 – Terça-feira – 11º
Dia de Trek Everest BC – Namche Bazaar
Hoje descansa-se em Namche. Mesmo assim, acordo às 6 da matina e o dia já está claro.
Da janela do quarto, sou presenteada com os gratos 6.187 metros do Kungde, vistos dos pés à
cabeça, opa, do sopé ao topo. O motivo de tal contentamento é porque tenho
entrevisto este pico desde o 8º dia, quando então me
dirigia de Bupsa a Surke, enfrentando aquele fétido e escorregadio mar de lama,
bosta e urina. Acontece que naquele trecho só era possível avistar seu topo
nevado e agora consigo enxergá-lo por inteiro, ulalá! Às 7 e 20 quando baixo ao
refeitório, Namche e adjacências estão envoltas em forte cerração. Não se distingue
um palmo adiante do nariz. Kungde e outras tantas montanhas como Thamserku,
Kusum Kangguru e Khumbila, destaques na paisagem, estão escondidas pela névoa. Estamos
esperando o tempo abrir para visitarmos o Sagarmatha National Park donde se pode
ver Everest, Nuptse, Lhotse e Ama Dablam. O sol espreita através das nuvens,
resistindo bravamente à cerração que obstinadamente tenta ofuscá-lo. Graças a
Buda, o bom tempo vence a parada e saímos a passeio. O Parque Sagarmatha tem modesto
e pequeno museu com exposição de fotos de animais e flora. Dois painéis resumem,
em breves pinceladas, o motivo de os sherpas terem se mandado do Tibete, donde são
originários. De acordo com a primeira versão, eles fugiram de lá pra escapar de
mudanças políticas que ocorriam no leste do país. Já a segunda, afirma que eles
podem ter vindo pro Nepal em busca de clima mais ameno. O certo é que os
sherpas ocupam terras nepalesas há somente 400 anos. Em homenagem, ergueram, no
interior dum pequeno anfiteatro de pedras, enorme estátua masculina
representando esta etnia. Ao norte, sobressairiam, se não houvesse tantas
nuvens, Everest, Nuptse e Lhotse. O pouco que consigo ver, antes que as nuvens
toldem por completo os picos, é a grande parede do Nuptse que parece se fundir ao
flanco oeste do Lhotse. Do Everest mal e mal se descortina a pontinha de seu cume. Terminada
a visita ao parque, empreendemos curta porém duríssima subida a Syangboche
(3.900 metros), considerando que o desnível desde Namche é 450 metros. Nessa vila,
foi construído pequeno aeroporto onde pousam helicópteros e as avionetas monomotor
Pilatus Porter. Domina a pista de pouso, a perfeita pirâmide dos 5.761 metros do Khumbila, outro
pico que avisto da base ao cume, quando ontem entrevira apenas seu topo. Após o
almoço, me toco pro Himalayan Java Café. Flavio resolve dar a graça de sua
companhia – coisa rara - e ali ficamos, durante o resto da tarde, batendo papo,
(quando quer, ele sabe ser sociável; na maioria das vezes, entretanto, prefere manter
distância, tanto que não foi uma nem duas vezes que escolheu sentar à mesa diferente
da minha pra fazer sozinho sua refeição), navegando na internet e folheando
livros sobre o Nepal ilustrados com fotografias de excelente qualidade.
Retornamos ao hotel somente à hora da janta e, no envidraçado refeitório, apenas 1/3 de seu amplo salão está ocupado por turistas, a maioria alemães. Antes de deitar,
dou da janela de meu quarto o último vistaço na noite de Namche: a vila devido à densa névoa
que a abraça exibe um excitante aspecto fantasmagórico, fortalecido pelo soar
periódico de badaladas vindas do monastério.
25/03/2017 - Sábado – 8º Dia de
Trek Everest BC – Bupsa a Surke
Céu de brigadeiro e termômetro
marcando algo em torno de 10ºC. Começo de dia perfeito pra caminhar. Antes de
partirmos pra Surke, onde pernoitaremos, subo até o monastério de Bupsa donde
se tem uma vista linda dos terraços de plantações de cereais espalhados nas
encostas das montanhas ao redor. Uma cadela e sua cria, ambas de pelagem preta,
brincam diante da stupa. Fico então sabendo que os dogues em nepali são
chamados de kukur e os gatos de suri beralo. No horário marcado, 8 e 15, iniciamos
nossa jornada diária, quando cruza por nós, decorridos 30 minutos de caminhada,
uma mulher carregando às costas, numa caixa retangular improvisada em berço, uma bela
nenê. A orgulhosa mãe pára quando escuta meus ohs e ahs de admiração e retira o
pano que protege do sol o rostinho da criança: o bebê está quietinho, de olhos
bem abertos. Após quase 3 horas de ininterrupta e íngreme subida paramos em
Thamdada, eu, Nir e Nurbu pro nosso já tradicional chazinho com biscoitos de
côco. Flavio, que prefere se manter apartado, caminhando sempre à frente, não participa,
assim, de nossos teas break. O céu continua azulão sem nuvens a toldá-lo. O
tráfego de aviões e helicópteros é intenso entre Kathmandu-Lukla-Kathmandu. Durante
a pernada, paro pra fotografar pessegueiros, rododendros e lótus floridos
exibindo suas delicadas flores rosadas, vermelhas e brancas. Lá embaixo, o rio
Dudh Koshi desfila suas águas verdes em sinuoso traçado. Quando vêm mulas em
sentido oposto ao nosso, o bom costume local ensina que a preferência de passagem pertence aos
animais. Assim, cada vez que avistamos um grupo de mulas ou dzos, paramos,
espremidinhos à margem da trilha, cedendo o passo aos bichos. Os líderes da
tropa levam pendurados nos pescoços badalos ou colares com pequenos sinos cujo agradável
tilintar metálico muitas vezes avisa sua iminente aproximação. Desde Thandada
só descida num mar de lama, bosta e urina deixadas pelos animais. Não sei o que
fede mais, se a urina ou a merda. Gordas moscas varejeiras voam ao meu redor tentando
fazer de meu rosto pista de aterrissagem...arghhh!! Pra se protegerem do fedor
e da poeira levantada pela passagem dos animais de carga tanto Nir quanto Nurbu
usam máscaras sobre os narizes. Nir pra me consolar diz que a partir de Namche Bazar
só yaks são usados e que seus excrementos não têm odor porque os bichos só
comem grama. Triste consolo esse, ainda faltam dois dias pra Namche. No meio da
profunda irritação que a maldita trilha provoca, dou de cara com o visual dos esbranquiçados
cumes nevados dos picos Numbur (5.500 metros) e Kungde (6.187 metros) e suas esvoaçantes caudas de neve formadas
pela ação dos fortes ventos soprados naquelas altitudes. Levamos quase 2 horas
pra chegar a Poyan, por causa da trilha fedorenta. Embora esteja a vila a 2.780
metros, está fazendo muito calor, tanto que almoço sentada a uma das mesas
dispostas ao ar livre no jardim do restaurante. Deixamos Poyan às 14 horas e continuamos
subindo e subindo até cruzar o passo Chutok donde se avista a imponência dos 6.367 metros do pico Kusum Kangguru. Hoje o dia está sendo
duro porque Nir pegou esse atalho que conduz a Surke de modo a evitar passar
por Lukla. E o tal atalho pra mim tá alongando mais a caminhada, não termina
nunca, puta merda. O fato é que mais que cansada estou irritadíssima o que me
leva a ser inclusive injusta com o coitado do Nir, admoestando-o durante o
caminho pela péssima escolha de itinerário. No dia seguinte, peço sinceras
desculpas pra ele que, generoso, não guardou mágoa alguma de meu mesquinho
comportamento. Antes de iniciarmos a descida até Surke, avista-se Lukla ao
longe situada numa crista de montanha. A visibilidade está excelente porque o
céu manteve-se limpo, sem vestígios de cerração durante o dia. Enfim, começamos
a descer e pouco antes de Surke os rastros duma grande avalanche materializam-se
nas ruínas duma casa destruída. Bueno, desmoronamentos são uma constante nestas
zonas montanhosas, sendo que este foi o segundo do dia visto por mim. Chegamos,
após 3 horas de caminhada desde que partimos de Poyan, a uma das 3 guest houses
existentes em Surke. Localizada dentro do canyon do Dudh Koshi, a 2.200 metros,
com casas espalhadas em ambas as margens do rio, o vilarejo é úmido porém super
fértil. Prova disso são verdejantes plantações de centeio, alho e cebola nos
terrenos ao lado das casas. A enraizada vocação agrícola não deixa ninguém
morrer de fome no país.
26/03/2017 - Domingo – 9º Dia de Trek Everest BC – Surke a Phakding
Saímos de Surke às 8:05 sob pesada névoa embora não esteja frio, acusando o termômetro confortáveis 14ºC. Uma longa mani wall de pedras escuras com mantras escritos em tinta branca sinaliza a rota que conduz a Lukla. O caminho é tranquilo inobstante em contínua ascensão. Como a cerração não dá arrego, aviões não conseguem pousar em Lukla e os poucos helicópteros que tentaram não lograram êxito, retornando a Kathmandu. Da ponte sobre afluente do rio Dudh Koshi, avista-se despencando paredão abaixo comprida cachoeira. Mais duas travessias são feitas nas fortíssimas e longas pontes metálicas construídas sobre o rio Dudh Koshi. Enormes painéis de madeira avisam como identificar sinais de enchente e as providências a serem tomadas nas inundações à entrada de Mushey. Nesta pitoresca vila, com boas e espaçosas residências edificadas em pedra, muros de taipa delimitam os terrenos das propriedades em ambos os lados da rua principal. Dezenas de coloridas rodas de oração estão espalhadas ao longo do vilarejo, além de 2 grandes stupas e um belo pórtico com rodas douradas de oração. O povoado, pelo visto, professa fervor budista mais intenso que nos outros pelos quais tenho passado. Nos trechos de subidas, estas seguem o cansativo estilo de serem calçadas com degraus de pedra. Colada à Mushey, segue-se a vila Cheplung com um belo monastério encravado no alto duma parede rochosa de montanha, lembrando um pouco o Tiger Nest no Butão. A umidade provocada pela cerração deixa fina película d’água em meu rosto. Pessegueiros floridos dão um toque rosa à paisagem. Numa parte da trilha, a cobertura vegetal da encosta da montanha foi arrancada por um grande desmoronamento obstruindo considerável trecho da estrada. Foi preciso, então, construir uma ponte metálica que se estende além do terreno intransitável de modo a manter a trafegabilidade entre os povoados. Meninas saindo do colégio usam deselegantes uniformes que consistem em folgadas calças brancas cobertas com uma sobreposição de paletó azul-marinho sobre bata vermelha. O ensino na escola primária dura 5 anos, prolongando-se por mais 10 anos na high school, conforme a condição econômica das famílias. O número de porters indo e vindo é contínuo, paleteando desde mesas, camas, fardos monumentais de lenhas e de caixas de víveres às mochilas dos turistas. Alguns deles, devido ao peso dos fardos, caminham com o torso dobrado em ângulo de 90º. Apoiando-se numa pequena bengala, mantêm preso aos dentes cordão envolvendo a carga de modo a firmá-la melhor. O trajeto até Gath, vila onde almoçamos, se dá ao longo da margem leste do rio Dudh Koshi. O povoado é bem grandote e o restaurante brilha de tão limpo. Escolho momo recheado com queijo e molho picante. Uma delícia! Às 13 já rumando pra Phakding, leio num cartaz, indicando distâncias e tempos entre vilas, que falta apenas uma hora pra alcançarmos nosso destino. Cada vez mais gente na trilha, tanto indo quanto voltando de Gorak Shep, o último vilarejo antes do acampamento-base do Everest. O caminho é tranquilito tanto nas subidas quanto nas descidas, tendo como bônus o belo e esverdeado visual do rio Dudh Koshi e suas agitadas corredeiras, à mão esquerda. Mais outra grande cicatriz provocada por avalanche de terra, na encosta da montanha situada na margem oposto do rio. Bom demais chegar em Phakding às 13 e 50 porque vou poder dar uma banda na movimentada vila onde há dezenas de lojas, alfaiatarias, bares, night clubs bakeries e guest houses pra todos os gostos e bolsos. Cartões de crédito de variadas bandeiras são aceitos em restaurantes e lodges. Do lado de lá do rio, na margem oeste, atravessando a comprida ponte metálica, descubro uma confeitaria Hermann e suas deliciosas tortas além de vários tipos de bebidas quentes. Escolho uma torta de maçã, deliciosa, e um capuccino. Uma pena que a cerração manteve-se firme e densa durante o dia inteiro, garoando na metade da tarde quando estava dando um rolê na vila. A quantidade de corvos nos telhados, fios elétricos e muros é espantosa. Contudo, não param muito tempo empoleirados, voando de lá pra cá, num veemente crocitar durante a irrequieta movimentação. O quarto tem banheiro mas o chuveiro acionado à base de energia solar não é quente o suficiente prum demorado banho que inclui lavagem de cabelo, motivo por que pago 300 rupias (3 doletas) pra tomar um banho de chuveiro a gás. Já tá na hora duma limpezinha corporal mais aprofundada, afinal, faz 9 dias desde o último banhão. E, aleluia, meu Sim Card NCell pegou, lento, mas pegou, não vou precisar comprar um cartão de wifi local, ebaaa!!