quinta-feira, 23 de março de 2017

Mulas e Dzos na Trilha

23/03/2017 - Quinta-feira – 6º Dia de Trek Everest BC - Junbesi a Nuntala
Dia nublado e temperatura de 9ºC quando acordo às 6 da matina mas quando saímos de Junbesi às 8 e 20, o sol dá as caras com timidez num joguinho besta de esconde-esconde. Inicialmente, sobe-se, ou melhor, escalaminha-se (será assim até o Eve BC?) degraus de pedra, pra mim demasiado altos, considerando minhas curtas pernocas. Mas nem tudo são espinhos porque o sendero atravessa encantador bosque de pinheiros. Após 1 hora de árdua subida, o terreno vira chão batido e o sol brilha firme num céu despejado de nuvens, onde paramos num mirador e avistamos atrás de nós Lamjura La. O passo, um côncavo coberto de neve, aninhado entre duas encostas de montanhas, parece tão longínguo mas dista apenas 11 km. Saímos do aconchego do bosque e passamos a caminhar a céu aberto numa trilha que percorre encostas de montanhas. No 2º mirador, sentada à comprida mesa, diante da guest house, provo o saboroso queijo de vaca vendido pela dona do estabelecimento. A simpática anciã pergunta se tenho filhos enquanto apalpa meu casaco e toca na minha blusa falando algo que não entendo. Nir chamado a traduzir, explica que ela observou que estou com a camiseta do avesso, hahahaha. Deste mirador já é possível se ter um vistaço do Everest, Lhotse e Makalu. Muitas nuvens toldam as bandas do norte onde esses 8 mil se localizam, e só consigo avistar a ponta do cume do Kusum Kanggaru (6.367 metros). Coisa boa que a trilha agora passa a ser o bom e velho chão batido, enfeitado por prímulas azuladas. Lá embaixo, no vale, serpenteia o rio Ringmu em cujas margens espalham-se diversos vilarejos. Novamente, ingressamos num bosque com rododendros floridos. Nir chama minha atenção prum bando de veados pastando numa encosta. Passamos ao largo de Phaplu, situada no lado de lá do rio. Ele conta que muitos turistas vêm de bus de Kathmandu até essa vila, (demora 13 horas a viagem!!), indo então até Lukla numa pernada de 3 dias, dali seguindo pro Everest BC. Acrescenta que quando Lukla tem muito nevoeiro, os helicópteros pousam em Phaplu, esperando o tempo melhorar pra retomar o vôo. Passa-se por uma big avalanche de terra. A impressão que tenho é a de que a qualquer momento vai despencar mais terra e rochas. Caminho em silêncio, porque sei que podem as ondas sonoras emitidas pelo conversê provocar novo desmoronamento. Caladinha, então, eu, né!! A trilha de chão batido tangencia a vila de Salung e segue, assim, com amáveis subidas até uns 30 minutos antes de Ringmu. Tanta benesse estava durando muito, em se tratando de zona montanhosa, porque pouca demora, tem início uma escadaria de pedra que faria o pagador de promessas, se tivesse de percorrê-la, repensar sua dívida com Deus. O pior é que nunca se vê o topo da maldita escada, tanto que começo a me irritar e brigo com meus botões. O tempo nublou geral faz mais duma hora. Trovões soam ao longe e fina cerração paira sobre o ambiente. Chego ao restaurante em Ringmu com as roupas encharcadas de suor. Tiro-as e peço pra Nir colocá-las diante do fogão à lenha na cozinha de modo que sequem durante o tempo em que ficarmos aqui almoçando. Terminada a refeição, saímos de Ringmu debaixo de vento e frio mas sem chuva, aleluia. Outra subida bem íngreme, calcorreando uma estrada de pedras nos leva aos 3.071 metros de Trakshindu Pass. Coisa boa que, sempre após um passo, vem a confortável (nem sempre) descida. Decorridos 20 minutos, estamos diante do 3º monastério budista mais antigo do Nepal, de mesmo nome do passo. Atraída pela música e mantras entoados pelos monges, entro no recinto. Uma beleza o som dos instrumentos de sopro e percussão seguido pelo cantochão dos mantras pausados por precioso silêncio entre um e outro. Após, descida até Nunthala com duração de pouco mais de 2 horas. Desde Trakshindu, venho observando somente o tráfego incessante de mulas, porque desta vila em diante apenas trilhas e estradinhas impossíveis de serem trafegadas por veículos automotores. Intenso o vai e vem dos animais porque alimentos e materiais como botijões de gás são conduzidos a partir de Lukla até Gorak Shep, retornando os animais de lombo vazio das zonas de altas montanhas. Segundo Nir, o movimento chega a 200 animais por dia, daí porque as trilhas são atapetadas de bosta fresca. Embora estejamos descendo uma íngreme ladeira, a coisa se complica porque grande parte da trilha está lamentavelmente coberta dum misto de lama e merda de mula. O risco de escorregar e se estatelar nesta mistura fedorenta é grande. Passados 40 minutos, atingimos terreno seco e chego incólume às 17 e 16, salvo botas e barra da calça imundas, a Nunthala, uma gracinha de vila. Em ambos os lados da rua principal, diversas guest houses e armazéns com as tradicionais fachadas pintadas de branco e aberturas em azul. Algumas das residências têm jardins na frente com rododendros floridos, outras um páteo espaçoso com piso de pedra. Conheço durante a janta, uma jovem francesa que conta ter trabalhado durante 2 anos em uma das aldeias mais severamente atingidas pelos terremotos de 2015, onde vieram a perecer mais de 1000 pessoas. Comenta que isso mudou sua vida e mais não fala sobre a catástrofe. Minha curiosidade nem ousa perguntar o motivo!!


24/03/2017 - Sexta-feira – 7º Dia de Trek Everest BC – Nuntala a Bupsa
Situado no nordeste do Nepal, Solukhumbu, um dos 14 distritos que fazem parte da província nº 1, criada pela nova constituição de 2015, é a região por onde caminharemos durante os demais dias deste trek ao Eve BC. O país é uma sociedade com pluralidade de culturas em que os sherpas são meramente a mais famosa minoria num país onde não há maioria. São cerca de 30 etnias que nem sempre conviveram de forma pacífica. Bueno, depois dessa pequena introdução, deixemos o aspecto histórico e voltemos à Nunthala e sua manhã nublada, com temperatura em torno de 11ºC. Partimos dos lugarejos, geralmente, às 8 e 15, horário fixado por nosso dear guide Nir. Assim, pontualmente, deixamos pra trás este vilarejo encantador e iniciamos a descida de mil metros que se estende até o rio Dudh Koshi. Começa a esquentar bastante o que me obriga a guardar o agasalho na mochila e ficar de manga curta, coisa boa!! A trilha percorre um largo trecho de floresta cujo terreno é aquele característico pedrario que tanto “amo”. Vai à nossa frente um rebanho de dzos (cruza de yak com boi) tangidos por três jovens. De repente, um dos animais resvala na ribanceira e escorrega encosta abaixo. Um dos rapazes tenta segurá-lo pelo rabo não logrando êxito devido ao peso do bicho. Nenhum mugido se escuta enquanto o pobre dzo rola pela ribanceira. Cessada a queda, que dura uns 2 minutos, eis o dzo de pé, sem qualquer ferimento aparente, sendo rebocado de volta à estrada. E nenhum dos homens se atucanou ou se desesperou durante a queda do boi. Nas zonas abertas, chama atenção as cicatrizes deixadas pelos deslizamentos de terra nas encostas das montanhas situadas na margem oposta do rio Dudh Koshi. Cruzado o rio, começa a subida naqueles degraus infamemente altos. O tempo continua nublado. Atravessamos Juving, vila grandota, com dezenas de casas onde paramos numa tea house pra tomar chá e comer biscoitinhos de côco. Como muitas casas, esta também têm antena Sky, exibindo a tv um programa sobre desperdício de água no país. Continuamos a cansativa subida até Kharikhola onde fazemos uma boa pausa pro almoço. A vila é grande com vários lodges, contando também com posto de saúde, o que denota sua importância no distrito de Solukhumbu. Terminada a refeição, percorremos o restante do povoado até a ponte metálica sobre o rio Khari. Do outro lado da margem, começa outra subida no pedrario, dessa feita sem falsos planos, até Bupsa, avistável no alto duma colina. O tempo se torna mais fechado e pingos miúdos estão caindo quando chegamos às 15 e 50 na vila que conta com um pequeno monastério. Bem menor que Kharikhola, Bupsa situa-se bem acima do rio, empoleirada numa crista de montanha. A cerração baixou de vez tanto que nem se pode avistar mais Karikhola do outro lado do rio. Descobri a razão de as escadas dos lodges serem tão íngremes quanto as lombas. São feitas bem verticais pra não ocuparem muito espaço no interior das residências. Na janta, resolvo provar a típica comida nepalesa, o dal bhat, que vem a ser mutatis mutandis, arroz (bhat) com feijão, no Nepal substituído por sopa de lentilha (dal). Acompanha, conforme a região, verduras da estação, uma casquinha gostosíssima, bem fininha, feita de farinha de trigo, batatas com curry ou picles. Só falta a farinha de mandioca pra eu me sentir no Brasil hehe

terça-feira, 21 de março de 2017

Atolada em neve

21/03/2017 - Terça-feira – 4º Dia de Trek Everest BC - Sete a Junbesi
Saímos de Sete às 8 e 15 com céu de brigadeiro, dia mais perfeito impossível que nem a baixa temperatura - 5ºC – macula. A trilha, linda, quase toda dentro dum bosque de coníferas e floridos rododendros. Destacam-se algumas árvores de lótus em cujos galhos pendem as alvas florescências. Reza a lenda que Buda já nasceu taludinho - 8 aninhos, vejam só! -, parido desta flor. Vai ver por isso é tão formosa. Passamos por Dagchu, no topo da crista duma montanha, onde 2 gurizinhos sentados ao sol, comem arroz usando as mãos. Tanto aqui quanto no Butão o povo dispensa talheres. Com mais ½ hora de caminhada, atinge-se a marca dos 3.000 metros de altitude na comunidade de Bhakange, já em Goyem, onde paramos pra tomar chá acompanhado por deliciosos biscoitos de côco, oferecidos pelo gentil Nir. Sentados ao ar livre, o cenário é deslumbrante. Tudo ao redor está embranquecido da recente neve que tem caído neste final de inverno. A coloração verde dos topos das montanhas é encoberta pela branca cobertura das nevascas. A subida adquire certa dificuldade mas nada que se compare à dos 2 dias anteriores. À medida que nós aproximamos de Lamjura village, a trilha vai se sendo oculta pela neve até que não reste trecho algum do terreno pedregoso. Decorrida 1 hora e 30 minutos chegamos ao vilarejo de Lamjura localizado a menos duma hora do Lamjura Pass. Comemos num misto de armazém e restaurante muito acolhedor. Na cozinha um bom fogo arde no fogão à lenha. Quem prepara a refeição é a dona do estabelecimento. Peço um gostoso veg fried rice e lemon tea que como na rua aquecida pelo sol das 13 horas. Tudo branco, que cenário! Parece cena de filme do Dr. Jivago. O tempo continua magnífico: céu azuladíssimo e sol brilhando sem nuvens a toldá-lo. Vários aviões passam naquele vai-e-vem incessante entre Lukla-Kathmandu-Lukla. O céu até então livre de nuvens começa a ser preenchido de mansinho por elas. Como num passe de mágica, em questão de 10 minutos, baixa cerrada névoa toldando por completo a paisagem. Durante o almoço, batendo papo com uma alemã, fico sabendo que a pobre mulher não pôde continuar além de Namche Bazaar porque lá foi vencida pelo mal de altitude. E olha que Namche está tão-somente a 3.440 metros! Terminado o almoço, retomamos a caminhada subindo outra crista de montanha que conduz até Lamjura Pass. A encosta apresenta espessa camada de neve. Atravesso durante 45 minutos um manto de imaculada e ininterrupta brancura. Dificulta a pisada a fofura do terreno nevado onde afundo algumas vezes até metade da anteperna. Nir, aflito, solta ohs de preocupação nas três vezes que caio no solo macio. Ao alcançar os 3.600 metros do Lomjura Pass, nada se pode avistar exceto as bandeirolas coloridas das preces budistas, típica demarcação de altitudes significativas. A densa cerração esconde toda a região. Logo após cruzarmos o passo, observo com espanto, vindo em sentido contrário, uma moça vestindo camiseta de mangas curtas apesar do baita frio que faz. Elogio-a dizendo que é uma super woman, o que lhe arranca risadinhas. Do passo até Junbesi, só descida em outra linda floresta de coníferas e rododendros. O solo mantém-se ainda firmemente encoberto por neve o que exige cuidado redobrado porque bobeou se torce um pé ou joelho já que a chance de escorregar em tal tipo de terreno é grande. À medida que se perde altura, a neve vai escasseando pra finalmente se pisar em chão batido. Dentre as várias vilas existentes desde o passo, destaca-se a de Tragobuk onde há um monastério. Chegamos a Junbesi, situada a 2.700 metros de altitude, às 18 e 30, quase noitinha. A vila fez parte da rota traçada por Hillary e Norgay na expedição ao Everest em 1953. Foram 10 horas de caminhada em que exigente não foi a subida e sim a descida! Mas valeu tão longa pernada porque o percurso é muiiitoooo lindo!!. Com o sugestivo nome de Apple Garden Guest House, nossa pousada tem sua fachada enfeitada com uma linda roda de orações. O amplo edifício tem 2 pisos e os quartos são de bom tamanho, embora banheiros, por uma óbvia questão econômica, sejam compartilhados, oferecendo-se, contudo, aos hóspedes os 2 modelos: ocidental e buracão. Há eletricidade e plugs nos quartos de modo que posso carregar os dispositivos eletrônicos sem custo algum. No refeitório, uma salamandra é acesa ao final da tarde quando começa a esfriar. A dona da guest dispõe a comida nos pratos com certo requinte, que beleza! O banho de chuveiro custa 250 rúpias, ou seja, 2 dólares e meio, já o de balde custa bem menos. Resolvo não encarar nem um nem outro, porque estou há apenas 4 dias sem me lavar, afora o fato de não precisar dividir cama com nenhum ser vivente. Dá pra resistir uns diazinhos mais. Como aqui não pega NCell, uma das 2 operadoras nepalesas de telefonia celular e internete (no segundo dia em Kathmandu, tratei de adquirir um Sim Card por 48 dólares, com cobertura nacional, conforme apregoa a empresa. Triste engano, igualzinho ao Brasil, a propaganda é enganosa), compro cartão de wifi de 500 Mb por 500 rupias (5 dólares) da outra operadora que dura um dia. Pago o preço, não quero e não gosto de ficar alienada do noticiário. Liberdade pra mim não significa renegar relógio ou manter-me desinformada, e, sim, exercer a opção de me conectar ou não, tá ligado? 
22/03/2017 - Quarta-feira – 5º Dia de Trek Everest BC - Junbesi
O dia amanhece belo, céu azul de brigadeiro, temperatura amena. Resolvo em vez de sair com Nir e Flavio pra conhecer o monastério de Thubten Chholing lavar umas roupas e descansar porque hoje ficaremos nesta aprazível vila. Ademais, a costela que trinquei há quase 2 meses está doendo um pouco, provavelmente de carregar a mochila que, entre camel bag com 1,5 litro de água, e outras bugigangas, deve pesar quase 4 kg. Pra mim é muito considerando que tenho dores frequentes na lombar devido à artrose. O caminho é longo, tenho pela frente mais 19 dias de caminhada até Lukla, sem desconsiderar o segundo trek de 10 dias até o Annapurna Base Camp quando acabar este. Daí por que prefiro me poupar. Aproveito a manhã ensolarada e lavo peças de roupa num tanque cuja “torneira” é uma bela carranca feita em madeira. Em 2 horas as vestimentas estão secas. Respondo a alguns comentários no facebook e publico novas fotos. Terminadas as “obrigações”, dou um rolê pela vila onde há 2 stupas, uma grandona de 300 anos, ainda em reconstrução após os terremotos de 2015 e outra menorzinha, poupada do embate entre as placas tectônicas. A dona da pousada é bem moça, mãe dum casal de piás. Eventualmente perde a paciência com as crias: não chega bem a gritar, levanta, porém, a voz num tom irritadiço. Ocupadíssima, não consegue dar conta de tudo, é claro. Trabalhando o dia inteiro, conta com ajuda na hora das refeições duma irmã e empregada. Um guri duns 12 anos (não é parente) cuida um pouco das crianças e dá uma mão na cozinha descascando batatas e legumes. Quando volto do tourzinho na vila, encontro-a no páteo terminando de dar banho nas crianças as quais enrola em toalhas, pondo-as sentadas em cadeiras uma diante da outra pra se aquecerem ao sol das 11 horas. À tarde, visito um dos 2 monastérios existentes em Junbesi, fundado em 1639, onde compro 2 lindas echarpes de seda amarela. O Lama além de me presentear com a efígie gravada num broche dum notável sacerdote budista (esqueci de perguntar o nome) ainda dá 2 sementinhas cuja função é proteger meus deslocamentos seja de carro, moto, avião ou bicicleta. Pena que não poderei comparecer ao festival budista que acontecerá em abril, aqui, no monastério, porque estarei me deslocando pro norte, rumo ao Eve BC. Nir não é só um guia mas uma babá. Cuida de seus turistas com dedicação genuína. Sua pronúncia de inglês é terrível, ele distorce as palavras duma forma que ficam irreconhecíveis. Contudo sua boa vontade em explicar - se for necessário ele repete n vezes a palavra - é comovente. Prolixo, ele se perde em explicações que mais confundem que clarificam naquele inglês, pra mim, pelo menos, muitas vezes ininteligível. Nurbu, o porter, magro que nem graveto, está carregando além dos 30 kg permitidos. Tudo porque Flavio não respeitou os 15 kg convencionados pra cada um de nós. Chocólatra, o cara pôs na mochila uns 10 kg em barras de chocolate! Sentindo-se culpado, resolve contratar outro porter de modo a aliviar Nurbu de paletear peso extra. Mas nem Nir tampouco Nurbu querem isso. Sempre de olho nas gorjetas, sabem que se houver mais um no staff o dinheiro terá de ser dividido não entre 2 mas entre 3. Consigo dissuadir Flavio da inconveniência de tal decisão, enfim, aceita pelo “piedoso” carioca. Nurbu, quando entra em meu quarto, vasculha, sem qualquer pudor, com seus pequenos olhos escuros, meus pertences espalhados sobre a cama. No início, até desconfiei dele, injustamente, percebendo depois que o pobre rapaz era movido apenas por curiosidade. Chega na guest house um grupo de gurias pedalando mountain bikes, terminando de lotar a pousada. No grupo, há europeias e nepalesas. Como a pousada tem duas salas de refeição, me mudo pra da frente porque a do lado da cozinha está cheia de gente falando alto e gosto de silêncio quando escrevo. Às 16 o tempo vira: o sol desaparece por completo e, agora, 17 e 30, a cerração espalha-se sobre a vila, não se enxergando além de 20 metros. Interessante como os estrangeiros percebem nosso idioma. Associam a uma língua latina, não atinando se é francês, italiano ou espanhol, nem cogitam em arriscar o português, pode? Pelo visto Portugal não representa muito pro resto da Europa!

domingo, 19 de março de 2017

Entrando em território sherpa

19/03/2017 - Domingo – 2º Dia de Trek Everest BC – Shivalaya a Bhandar
Acordo às 6 com um aguaceiro que soa mais forte do que é na realidade porque os pingos de chuva caem sobre o telhado da guest house, coberto de de zinco. Tá fazendo 7º C quando levanto pro breakfast e o céu mantém-se nublado ainda que o chuvaral tenha cessado, graças não a Deus, porém a Shiva ou quiçá a Buda, esclarecendo que no Nepal as religiões dominantes são o hinduísmo e o budismo. No topo das montanhas tudo branquinho porque ontem durante a noite nevou nos pontos mais altos da região. Provo no desjejum champa, um mingau de painço com sal, açúcar e manteiga de yak ou de vaca, usada conforme a região onde é feita. Bem sem graça pro meu paladar ocidental, seu valor nutritivo é muito apreciado pelos nepaleses que vivem nas zonas rurais. Saímos de Shiva, situada a 1.767 metros, às 8 da matina. Vez por outra o sol rompe a barreira das nuvens aquecendo um pouco a atmosfera embora se mantenha abaixo dos 10º C. Bom é que não há vestígio de vento. A trilha até Deurali – 8 km que rende 4 horas de duro ascenso devido ao desnível de 1 mil metros – é cansativa: 70% do terreno são degraus de pedra e quando não há escadaria, chão coberto por pedaços irregulares de pedra que exige pisada cuidadosa de modo a proteger duma torção os tornozelos. Tanto percalço é compensado pela fotogenia dos rododendros e suas belas flores dum intenso vermelho. Várias vezes cruzamos a estrada que liga as vilas de Shivalaia a Deurali, ingressando logo a seguir na rede de trilhas que ligam os vilarejos nepaleses. Nesta região do país, há denso povoamento devido às inúmeras vilas edificadas ao longo dos caminhos, inobstante muitas delas contarem apenas com 3 ou quatro casas. Observo que cuidados quanto armazenamento e reciclagem do lixo são praticamente inexistentes nas comunidades, haja vista a quantidade de detritos jogados displicentemente nos barrancos, não muito distante das residências. Dum ponto da trilha já dá pra avistar Deurali, encarapitada algumas centenas de metros antes do passo de igual nome, com 3 mil metros de altitude. Um pouco antes de chegar a esta vila, porta de entrada nas terras sherpas, que se estendem até a região onde se encontra o Everest, vejo a primeira dentre as centenas de stupas construídas ao longo da rota. Chegamos à vila sherpa ao ½ dia onde almoçamos num restaurante cujo veg fried rice polvilhado com queijo mole, tipo colonial, me agrada muito pela generosa porção servida, capricho no preparo e uso equilibrado dos condimentos. As casas, rebocadas de branco, têm aberturas azuis e algumas exibem nas fachadas desenhos de flores. Terminada a refeição, retomamos a curta e agradável descida até Bhandar, feita em 1 hora e 30 minutos, percorrendo bosques e mais uma vez cruzando a estrada que liga Jiri, Shivalaya, Deurali e Bhandar. Como toda a região montanhosa, os agricultores escavam nas encostas das montanhas terraços onde plantam seus legumes, hortaliças e cereais, formando um tapete de variados tons de verde. Destacam-se nesta época do ano as plantações de trigo, cevada além de alho e cebola. Bhandar localiza-se num pequeno vale rodeado por montanhas a 2.200 metros de altitude. Os sinais de devastação causados pelos terremotos de 2015 - dá um aperto no coração – também aqui estão presentes, com casas, stupas e monastério arruinados. Chove torrencialmente à tarde pouco depois de nossa chegada. À noite, contudo, o céu explode de estrelas.


20/03/2017 - Segunda-feira – 3º Dia de Trek Everest BC – Bhandar a Sete
Dia lindo, nuvens esparsas no céu azul. Temperatura de 9ºC, boa pra caminhar, ainda mais que sem vento. Bom começo de semana, já que hoje é segunda-feira. Ao sair de Bhandar, às 8 e 15, uma cena me toca profundamente: vejo sentada no chão, uma mulher super concentrada quebrando com martelo blocos de granito a serem usados na reconstrução de sua casa destruída pelos terremotos de 2 anos atrás. Um pouco além de Bhandar, num trecho de 40 metros, a estrada se encontra interrompida devido a recente deslizamento de terra, o que exige cuidado na travessia. À medida que nos aproximamos de Kinja dá pra perceber que estamos numa garganta formada pelo rio Likhu, percorrendo sua margem esquerda. O rio apresenta inúmeras pequenas corredeiras cuja espuma branca é um contraponto às suas águas esverdeadas. O trajeto é tranquilo até Kinja porque esta vila, 600 metros abaixo de Bhandar, situa-se a 1.630 metros de altitude. Tem-se então pela frente subidas razoáveis, descidas decentes, entremeadas de terreno plano de chão batido. Muitos aviões e helicópteros podem ser vistos e ouvidos durante o percurso porque esta é a rota entre Kathmandu e Lukla, voando as aeronaves preferencialmente pela manhã porque a probabilidade de baixar cerração ocorre no início da tarde. Atravessamos três pontes pra chegar ao centro de Kinja onde estão os restaurantes e guest houses pois o povoado se distribui em ambas as margens do rio Likhu. Pequena e aconchegante, as fachadas das casas são enfeitadas com vasos de gerânios e begônias. Os telhados de zinco brilham à luz do sol. Contudo, após um pé de vento, tem começo a chuva. Saímos de Kinja às 13:10 sob forte garoa. A trilha percorre uma encosta bem vertical sulcada por altos degraus de pedra, o que demanda certo esforço em razão de meu metro e meio de altura. Atravessamos um trecho curto no bosque que lembra um brete já que bem estreitado por paredes em ambos os lados da trilha. Embora miúda, a chuva continua e só pára quando estamos perto de Sete. Suo pra caramba da empinada subida, minhas roupas estão empapadas não da garoa mas de suor. Inobstante o mau tempo e a pouca visibilidade proporcionada pela cerração, percebe-se que o flanco da montanha, oposta à nossa, é coberto por cerrada floresta onde vivem tigres e ursos pretos. Dá pra ver, virando pra trás, o passo de Deurali coberto ainda da neve invernal. O rastro de destruição dos 2 terremotos de 2015 é como uma ferida que ainda não sarou. Difícil uma vila nesta região não ter sido atingida pelos tremendos sacolejos entre as placas tectônicas indiana e euroasiana. Quando chego a Sete às 16:45, o sol dá as caras. Enquanto no primeiro trecho da pernada Bhandar a Kinja demorou-se 3 horas pra percorrer 11 km, neste segundo, de Kinja a Sete, situada a 2.575 metros, caminhou-se 4 km em 3 horas e ½. A gritante diferença não se deve só à diferença de altimetria entre as vilas (900 metros) mas também por ser a curta subida beeemmm íngreme. A guest house é um baita muquifo e suja de dar nojo. O painel solar é tão pequeno que não consegue iluminar os dormitórios. Apelo pra lanterna de testa pra me orientar dentro do quarto quando anoitece. O banheiro tem largas frestas entre as tábuas de madeira de modo que parece que se está no interior duma geladeira quando ali se adentra. A peça onde se faz as refeições tem tripla função: além de refeitório serve como cozinha e quarto de dormir pro dono da pousada. Este, aliás, desde sua recente viuvez passa os dias bêbado. Mesmo embriagado o viúvo não incomoda e limita-se a sorrir quando olho pra ele, engrolando palavras que percebo desconexas ainda que em nepali. Quem toca a pousada é a filha mais velha, séria adolescente de 17 anos, ajudada pelas duas crianças, suas irmãs. Ela, coitada, se mostra envergonhada em ver o pai borracho. A paisagem se torna deslumbrante no final da tarde, colorida daquela quente tonalidade alaranjada resultante dos últimos reflexos do sol poente. O espetáculo é tão belo quanto rápido, escondendo-se o sol atrás das montanhas, salientando-se dentre elas um imponente pico nevado. Terminada a janta, bem gostosa, aliás, na escura cozinha-refeitório-quarto de dormir, vou pro quarto. Além do cansaço está muito frio, não apetecendo ficar com meus parceiros conversando. É o primeiro dia que sinto as mãos geladas, daí porque quero mais é me aconchegar embaixo das cobertas ainda que sujas. Que Ganesh não permita que eu chegue ao fim desta jornada ou com sarna ou cheia de piolhos nos cabelos, hehehe

sexta-feira, 17 de março de 2017

Moleza de Pernada

17/03/2017 - Sexta-feira - Jiri
O simpático nepalês que será nosso guia durante os 24 dias que durarão nosso trek até o Everest Base Camp chama-se Nirbahadur Jirel, ou simplesmente Nir. Embora caloroso seu sorriso não esconde a má qualidade dos dentes frontais, escovados cuidadosamente todas as manhãs. Nos pega no hotel às 5:15 e nos leva à rodoviária, nada mais do que um grande pátio onde os busões estão estacionados, aparentemente, em aleatória desordem. Contudo, os cobradores apregoam em alto e bom som as rotas e horários orientando assim os passageiros. Aos nossos olhos de ocidentais, a desorganização choca e delicia mas funciona que é uma beleza tanto que saímos 6 em ponto. Os 184 km são percorridos em 6 horas por vários motivos. A estrada inicialmente asfaltada cede lugar ao chão batido e à medida que subimos (Jiri encontra-se 500 metros acima de Kathmandu, que se situa a 1.400 metros de altitude) mais sinuosa e estreita se torna. Devido aos 2 terremotos de 2015, alguns trechos estão sendo reconstruídos. Por fim, a demora em tão curta distância se deve ao fato de o busão parar em todos os vilarejos (e os há às dezenas) para pegar e largar passageiros. Cochilo o tempo todo embora o bus não ofereça qualquer conforto mas estou tresnoitada ainda devido à diferença a maior de 9 horas entre Porto Alegre e Kathmandu. Chegamos em Jiri às 14 horas e lá se encontra quem será nosso porter, Nurbu Sherpa. Magrinho, de baixa estatura como a maioria dos nepaleses, fala quase nada de inglês. Seu vocabulário compreende “some, tired (no decorrer do trek quando chegávamos nas guest houses, ele perguntava, curioso “tired, tired?”). Guia e porter pertencem a grupos étnicos distintos, o primeiro ao Jirel, o segundo ao Sherpa, motivo porque aos nomes são acrescidas a origem étnica. Jiri é considerada uma town, ou seja uma cidade, considerando que sua população alcança mais de 7 mil almas vivendo em 1.500 residências. O trek começará daqui por isso vamos dormir na casa de Nir que nos oferece, assim que chegamos, maçãs e uvas deliciosas, estas sem sementes. Sua mulher, uma gordinha, não fala bulhufas de inglês, limitando-se a sorrir quando a encaramos. Quando da ocorrência dos terremotos em abril e maio de 2015, sua casa teve as estruturas seriamente abaladas. E o coitado fizera um pouco antes empréstimo de 4 mil dólares pra aumentá-la. Sem grana pra reconstruir a residência porque ainda está em débito com o banco, passou desde então a dormir no curral de ovelhas que sofreu melhorias com a introdução dum tabique de madeira dividindo o espaço em 2 peças. Nós somos instalados na primeira enquanto os donos da casa ficam na segunda peça. Orgulhoso de seus dotes de cozinheiro, a janta preparada por Nir está bem boa. Volta e meia falta luz elétrica o que não atrapalha em nada a rotina da casa porque ainda é dia. Curiosa sobre a existência duma beberagem alcoólica feita de milho, painço, cevada e trigo peço uma prova. De cor amarelada, a bebida chama-se chang e seu gosto não cai muito no meu gosto, hehehe. Começa a chover e a temperatura baixa bastante, o que exige grossos cobertores durante a noite. Oxalá, até amanhã a chuva tenha parado pra gente começar o trek com o pé direito! 



18/03/2017 - Sábado – 1º Dia de Trek Everest BC – Jiri a Shivalaya

O dia amanhece seco, neste primeiro dia de trek - coisa boa! - apenas gordas e brancas nuvens pairam no céu. Café da manhã preparado por nosso orgulhoso anfitrião é um prato de massa com verduras!! Como tudo, fazer o quê, né? Saímos às 8:10 da casa de Nir. O percurso, fácil, praticamente em terreno plano, é rodeado de bosques de coníferas. Embora ainda no final do inverno, pessegueiros e rododendros exibem sua bela floração rosa e vermelha colorindo a trilha por nós percorrida. Diversos vilarejos com 6 ou até menos casas encontram-se ao longo da estradinha. O caminho é bem sinalizado com placas indicando as aldeias e suas altitudes. Os cestos feitos de bambu chamam-se dokshe, os grandes, e doko, os pequenos, servindo pra carregar verduras, frutas e capim entre outros usos. Um deles é o de servir de galinheiro pra galinhas e pintinhos. Ao longo da trilha muitas casas com paredes rachadas, tão danificadas suas estruturas que se tornam imprestáveis como moradia. O jeito que os nepaleses encontraram foi expulsar dos estábulos ovelhas, cabritos e vacas passando a morar ali. E aqueles que não tinham estábulos fizeram casas com folhas de zinco em formato de meia lua. Nepal tem uma quantidade enorme de rios que exigem longas pontes metálicas pra alcançar as vilas, via de regra, localizadas em uma das margens. Shivalaya, onde pernoitaremos, não foge a essa regra, tendo sido construída na margem direita do rio de mesmo nome. Chegamos na village às 10:40, não tendo durado nem 3 horas nossa pernada! A altitude ainda não é um problema porque aqui em Shiva não ultrapassa os 1.767 metros. Pelos padrões nepaleses, é considerada uma aldeia de porte médio com dezenas de casas, guest houses e lojas. Por conta dos terremotos de 2015, suas casas de pedra abaladas nas estruturas pelo 1º tremor, ruíram quando exsurgiu o 2º. Assim, ao invés de tijolos ou pedras, material mais caro, foi usada madeira na reconstrução do vilarejo. Ficamos no hotel Kala Patthar Lodge, super simples, cuja patente é o famoso buracão, conhecido como banheiro turco. Eu prefiro o turco ao ocidental, bem mais higiênico porque a gente não encosta no vaso. Nos quartos, pequenos, 2 camas de solteiro. Graças a estarmos ainda em março, as guest houses encontram-se parcialmente ocupadas, o que desobriga eu e Flavio de partilharmos o mesmo quarto. Nunca tinha visto algo assim: as chaves dos quartos são pesados cadeados! Após o almoço, começa a ventar, prenunciando forte chuvaral, porém caem apenas uns minguados pingos d’água. A temperatura porém declina sensivelmente. A tarde se faz bela após a garoa, com um belo sol iluminando a paisagem. Passeando pela vila fui dar na margem do rio onde um grupo de homens e mulheres trabalham num método bastante antiquado de obter das fibras dum arbusto chamado argelio papel. Assim transformada, a matéria prima é exportada pro Japão onde será utilizada na fabricação do yen, papel-moeda japonês. Compro uma baita duma maçã duma suculência deliciosa. Custa 25 rupias (75 centavos de reais!). Adoto como dieta alimentar o veg fried rice, ou seja, arroz frito com verduras. Nosso pacote permite que tomemos uma xícara de chá ou chocolate a cada refeição. Escolho o de gengibre na janta. E pra minha felicidade, não só a internete daqui do hotel é melhor que a do hotel em Kathmandu como sendo a luz elétrica, não há cobrança pra gente carregar os eletrônicos....melhor impossível o início do trek!

segunda-feira, 13 de março de 2017

Pink Moon

Saio de Guarulhos na madrugada de domingo e após as intermináveis 14 horas de vôo Sampa-Doha, mais 4 horas aguardando o vôo pra Kathmandu, no agora belíssimo novo aeroporto da capital do Qatar, com dezenas de lojas das mais badaladas grifes de roupas e acessórios, joalherias vendendo ouro a quilo, academia de ginástica, praça de alimentação, salas de repouso e trem conduzindo os passageiros em trânsito dum setor a outro, chego à capital do Nepal por volta das 11 horas da segunda-feira. Pra minha surpresa, ao invés do velho e demorado sistema à moda antiga de obtenção do visto, com quinhentos carimbos e filas intermináveis, ainda existente em 2014, quando aqui estive, encontro o aeroporto Tribhuvan informatizado, não sendo mais necessário levar as exigidas fotos 3x4 já que câmeras automáticas tiram o teu retrato no ato. Depois do pagamento da taxa de permanência (no meu caso, 100 dólares porque vou ficar 2 meses), passa-se nos guichês para carimbar o visto de entrada no passaporte. Não levou mais que 30 minutos todo o processo. Dessa vez tenho parceiro. E nossa relação, suponho, será uma aventura dentro da aventura porque só vim a conhecê-lo pessoalmente no aeroporto de Guarulhos. Explico. Flavio, anos atrás, me convidou pra fazer parte dum grupo do facebook chamado Fotógrafos de Montanha em razão de eu ter ido ao Paquistão, em 2008, fazer o trek até K2 BC. Desde então mantive  com ele breves e esporádicos bate-papos via messenger quando surgiu há 6 meses atrás a oportunidade de fazermos juntos duas aventuras no Nepal: a primeira será aquela considerada a cereja do bolo de qualquer trekker que se preze, Everest BC, no Sagarmatha National Park, já a segunda, será outra pernada, numa região não tão badalada, pra conhecer o Annapurna BC, situado no Annapurna Conservation Area. Vai nos buscar no aeroporto, Nawaraj, irmão do dono da agência Trek Around Nepal, que está organizando essas 2 indiadas. Como todo nepalês (e aqui abro um parênteses pra comentar que não precisa ser nepalês, qualquer ser vivente que domine um idioma que não é o seu, via de regra, fala rapidíssimo pra exibir sua fluência e desenvoltura na língua estrangeira) que fala inglês, dispara a conversar bem rapidinho neste idioma. Não entendo nada e nem faço questão porque quero mais é curtir meu retorno ao país que tanto amo depois de 3 anos sem vir cá.  Graças a deus que o guri (pra mim quem tem 23 anos é guri) não fica muito tempo no hotel, combinando que virá nos ver amanhã. Nossa guest house, como são chamadas as pousadas aqui, não fica exatamente no coração da Thamel mas a poucas quadras das ruas mais badaladas do icônico bairro. Simples, o Elbrus Home não tem TV nos quartos, apenas ventilador e o WiFi é lento mas isso é normal no país. Contudo, o gerente e o resto do staff são prestativos e simpáticos como todo o povo nepali é. O gerente, de nome Khem, aprendeu sei lá com que outro turista a dizer “bom dia” a todo brasileiro hospedado em seu hotel. Cada vez que me vê dispara uma saraivada de “bom dia, bom dia”, dita em alto e bom som. Ao cabo de 2 dias, aquela saudação em português começa a me causar ligeira irritação e fico em dúvida se é gentileza ou ironia ao contraponto de nossos profusos namastês. Como chegamos cedo, deixamos as bagagens nos quartos e nos tocamos pra rua. Tenho de comprar saco de dormir porque o meu, muito muquirana, só aguenta até -7º C. Sem dormirmos há quase 2 dias, quando anoitece, retornamos ao hotel e desabo na cama desmaiando de cansada. Quarta e quinta eu e o parceiro batemos perna pela Thamel pra que ele conheça e se ambiente no bairro, até porque é sua estréia em terras asiáticas.  Tentava liberá-lo de andar comigo (na verdade, não gosto de fazer compras acompanhada) mas o rapaz insistia que não se incomodava e dale a entrar de loja em loja junto comigo. Entre uma compra e outra (só eu que comprava, ele se limitava a olhar eu comprando), levo-o a conhecer a hoje destruída Durbar Square, o que me deixa muito triste ao ver os belos templos em ruínas após os 2 terremotos que devastaram o Nepal em 2015. Visitamos ainda o templo de Swayambhunath, pouco atingido pelos terremotos - graças a deus, ou a Shiva, né? - conhecido como templo dos macacos haja vista a quantidade de micos que lá habitam. Tanto num lugar quanto no outro vamos a pé porque não são longe do hotel. Embora suja, barulhenta, poluidíssima devido não só ao tráfego intenso de carros e motos quanto à existência do crematório a céu aberto, que funciona 24 horas por dia, adoro estar em Kathmandu. É como se voltasse pra casa. O céu azul, a temperatura morna, refrescando, convenientemente, à noite, tornam os dias muito agradáveis. Um privilégio poder usufruir da super hospitalidade do nepalês que curte e valoriza o turista, tendo na ponta da língua a carinhosa saudação “namaste”, seja pra quem tá passeando pelas vielas do bairro ou pra quem entra em algum estabelecimento comercial. Tão gostoso quanto comer uma misturinha de frutas vendidas em carrocinhas nas calçadas, é entrar numa confeitaria e provar os deliciosos doces nepaleses feitos à base de amêndoas, açúcar e leite. A presença, no meio da avenida super movimentada, duma vaca empacada, em meio ao tumultuado e movimentado trânsito da cidade, é algo absolutamente inusitado, de deixar a gente de boca aberta, não acreditando no que se está vendo, hahahaha.  A intrincada geometria dos fios elétricos correndo a poucos metros acima das cabeças dos passantes me deixa levemente receosa de levar um choque. E não tem preço poder assistir dum terraço aos finais de tarde incendiados por pores do sol indescritivelmente belos ainda que causados “graças” à poluição que paira sobre a capital nepalesa. Por fim, pra comemorar meu retorno a este país encantador, sou saudada com o surgimento duma ruborizada lua cheia no canto direito do céu nepalês.

sábado, 26 de novembro de 2016

0rdálio Praiano

Resolvida a fazer algo diferente em termo de pernada, escolhi encerrar o ano de 2016 com a pouca conhecida travessia Cassino-Chuí. A um, porque  tridiferente de tudo o que já fizera: terreno plano calcorreando um litoral a perder de vista e, a dois, porque, tendo nascido em Rio Grande, seria uma forma de homenagear a terra natal onde a praia do Cassino se localiza. Não dei a mínima importância ao comentário de tia Janina quando a par de minha decisão. “Mas Beatriz é só água e areia”, pontuou ela dando uma risadinha zombeteira. As recordações da infância eram as que importavam, sem defeito que maculasse a reputação do balnéario aos olhos da criança que outrora fui. A menina apenas conhecia a faixa de litoral compreendida entre os molhes e Querência, ou seja, uma extensão de pouco mais que 8 km. Àquela época, tudo era grandioso: dunas enormes, ondas atemorizantes, golfinhos nadando a 100 metros da praia, castelinhos de areia e um céu sempre azul, pura e total felicidade, hahaha. Me toquei faceira da vida pro Cassino, no sábado, hospedando-me no icônico Hotel Atlântico, construído no final do século XIX!! Quando criança veraneava na casa de minha bisavó, no “quadro”, assim chamado o quarteirão de casas situado justo em frente ao hotel onde, em certas noites da semana, assistia, na companhia de minhas tias-avós, ao show de variedades apresentado por Ludio. Desde aquela época - e olha que já se passaram mais de 5 décadas -,  tem-se mantido o verdor da folhagem ostentado pelos plátanos plantados no pátio interno do Atlântico. Pra minha alegria, à tarde, um campeonato estadual de bandas e fanfarras acontecia no balneário. Fantasiei, como a tolinha romântica que às vezes sou, que o evento era em minha homenagem, pra comemorar o retorno da filha pródiga, hahahaha. Eu mais duas amigas riograndinas  permanecemos, por um bom tempo, curtindo o desfile que exibia numa das bandas - sinal dos tempos, aleluia – uma baliza gay, super aplaudido pela platéia. À tardinha, chegou o restante do grupo, 11 clientes, 2 guias, um cozinheiro e um motorista. Fomos todos a uma pizzaria onde a confraternização foi de pouca demora já que o toque de alvorada no dia seguinte seria tempraníssimo. No domingo, o tão aguardado primeiro dia iniciou com café da manhã servido às 5:30. Terminada a refeição, partimos pros molhes do Cassino, considerado o ponto zero da travessia com finalera na barra do Chuí distante 210 km. O que posso dizer de tal pernada? Foram 7 dias de clima irregular, ora nublado, ora ensolarado. Houve dias com vento sul fortíssimo, sendo que, num deles, impossível manter longas conversações senão ficaríamos com a boca cheia de areia (parafraseando o famoso ditado, “em boca fechada não entra terra”), em outros, um vento ameno atenuava a elevada temperatura daquele ambiente onde inexiste a benção refrescante duma sombra. À noite, contudo, o céu explodia de estrelas, baixando uma agradável friaca, lembrando um pouco as variações térmicas existentes em zonas desérticas. A paisagem, enclausurada, à esquerda, pela imensidão gigantesca do Atlântico e, à direita, pelas dunas - tão pequenas se comparadas àquelas de minha infância -, sofria superficiais modificações quando intervinham na, faixa de areia, ora animais mortos (uma baleia com o filhote ainda preso pelo cordão  umbilical, um boto e uma capivara quando passamos ao largo da reserva ecológica do Taim), ora a presença dos faróis Sarita, Albardão - o maior do litoral  brasileiro - e o do Chuí. Reforçando, mais ainda, tão desolador cenário meia dúzia de vestígios de cascos de barcos e navios que empurrados pelo vai-e-vem das marés vieram dar com os costados à beira mar. No litoral brasileiro, comum a existência de riachos e rios riscando o areal rumo ao mar. O nosso, o gaúcho, é claro, não foge à regra. Daí termos sido obrigados a vadear durante boa parte dos 7 dias de pernada  dezenas de córregos cujas nascentes, em sua maioria,  se originam do acúmulo das águas da chuva represadas entre as dunas, distantes poucos quilômetros da praia. Tais lugares, por óbvio, foram os escolhidos pra acampar onde podíamos nos banhar após a exaustiva jornada. Da turma, o destaque foi o carismático Alemão, um autêntico vira-lata que nos acompanhou dos molhes do Cassino até a barra do Chuí. Uma figuraça o dogue que, ao longo da pernada diária, ora avançava ora recuava como se fosse o zeloso guardião dum rebanho de ovelhas (não querendo ser maldosa mas sendo, hehe, pra mim, alguns “colegas” revelaram mais feição de lobos em pele de cordeiro). Do mulherio, pena, mas não consegui tirar nenhuma pra comadre, provavelmente, a falta de senso de humor me tenha afastado delas, sérias demais as gurias pro meu gosto; já dos homens, simpatizei com dois paulistas. Sublimamos tédio e cansaço sofridos durante a pernada em caçoada, compartilhada alegremente entre os três. Assim, por cada um de nós a travessia foi batizada de abismo horizontal, flagelo praiano e calvário à beira mar. E quando comecei a querer incluir o carioca no rol de meus afetos, este se revelou um pseudo místico: à noite não resistia ao voto de silêncio que se auto impusera e quebrava o mutismo contando piadas sem qualquer pingo de graça. O grupo, em matéria de experiência como caminhante, era díspare. Gente que nunca fizera trek na vida, outros que realizavam singelas incursões em fins de semana e, por último, aqueles com vivências mais relevantes tipo a pegada de Santiago de Compostela. Não dá pra deixar de passar em branco, 3 mulheres que estavam repetindo, repetindo (!!!) a travessia porque o mau tempo as obrigara a desistir em ocasiões anteriores. Porém a vocação de autoflagelação ou, vá lá, de bancar o estóico – se assim preferirem -  ao enfrentar tão exaustiva jornada, cuja distância média entre acampamentos batia frouxo nos 33 km diários, saltava aos olhos até dum cego. Será que todos estavam querendo pagar por pecados desta, de anteriores e quiçá de futuras encarnações?!! A pergunta que não quer quer calar: seria uma emulação inconsciente aos dos antigos mártires cristãos da Idade Antiga?! Com certeza, nin-guém foi poupado de sofrimentos físicos. Houve os que foram abençoados em só ganhar bolhas leves, outros, contudo, as tiveram purulentas entre dedos e sob plantas de pés, sem falar de osteítes nas canelas e bursites nos joelhos, acumulando algumas criaturas toda essa gama de machucados! Digno de menção o preocupante episódio de hipotermia sofrido por um dos participantes! Em 14 anos de canionismo, trek e montanhismo, calcando a botina em leitos de rios, florestas, serranias e altas montanhas, pela primeira vez fui “agraciada” com uma bolha no quarto artelho do dedo do pé esquerdo que me acompanhou desde o primeiro até o sétimo e último dia do trek. E não adiantava costurá-la ao final da jornada a fim de drená-la. Retornava impiedosa dia após dia decorrida 1 hora de caminhada. Como não há mal que sempre dure, no quinto dia, apenas no quinto dia, houve uma significativa quebra no jejum paisagístico a que fui submetida ao percorrer roteiro tão despido de atrativos. Foi a incursão até à beira da costa da lagoa Mangueira. Ao dar-se as costas ao mar a onipresente e insípida coloração arenosa da zona litorânea cede lugar - graças a deus! – a um verdejante solo coberto de gramíneas donde brotam delicadas e coloridas flores amarelas e roxas. Percorridas algumas centenas de metros, ingressamos numa espécie de grande anfiteatro, formado por cordões de dunas separados por vales que se sucedem num raio de 5 km, lembrando tal cenário uma miniatura dos Lençóis Maranhenses. Pequenas esculturas moldadas na areia pela ação do vento reafirmam minha crença de que o grande arquiteto do Universo é a indomável, criativa e ardilosa natureza. Um pouco antes de alcançarmos a margem da Mangueira, a inesperada presença de dois belos exemplares de centenárias figueiras quebram a monocromática brancura dos cômoros. Belo recanto “escondido” no meio do areal litorâneo! Pra mim a viagem valeu por ter conhecido esta parte da lagoa Mangueira que povoou minha imaginação infantil, juntamente com as lagoas Mirim e dos Patos. Entretanto, Mangueira se diferencia das demais por possuir características que a tornam única no Brasil. Ela não tem acesso ao mar, tampouco rio algum nela desemboca. São 123 quilômetros de extensão de águas provenientes da chuva bem como de lençóis freáticos, em uma área de 820 km². Por isso, tais condições garantem que sua água tenha uma coloração verde-clara quase transparente. Nem tudo porém foi só espinhos, bolhas e traumas musculares. Valeu o trek por testemunhar, ao longo de 210 km de litoral, o uso de energia eólica menos danosa ao ambiente que as demais modalidades de produção de energia elétrica. De quebra, as monumentais lâminas de aço remetem aos românticos moinhos de vento de antigamente tão combatidos pelo adoravelmente tresloucado Dom Quixote. Também valeu o trek por alguns belos, breves e vibrantes pores do sol e amanheceres.  Por ter conhecido Hermenegildo, apelidado carinhosamente de Hermena pelos nativos, em cujos jardins nascem onze-horas, flor que desencavou reminiscências infantis há muiiito esquecidas: as das coloridas imagens vividas no jardim da casa onde nasci há 64 anos. Por fim, valeu a viagem por conhecer, ainda que de relance, Barra do Chuí, o último balneário fincado no extremo sul do Brasil. Viajar é bom demais mesmo quando a pegada não envolve cenários espetaculares ou pessoas interessantes. Sempre algo manero ocupará um cantinho de meu coração já que esta alma não é assim tão pequena.