domingo, 7 de fevereiro de 2016

Auyantepui e suas plataformas

Dessa vez, não farei trek solita, como de costume, mas acompanhada por 8 europeus: 5 belgas, 2 franceses e um espanhol. Contrariando a regra de seres frios e mal humorados, (por acharem que a civilização européia é superior?!! Será?!), os membros da expedição, exceto a francesa (infelizmente, a moça faz por merecer o estereótipo), são prestativos e bem humorados. Os belgas e franceses são amigos e costumam viajar juntos, alguns inclusive pedalando mundo afora. Sobraram de avulsos, eu e o espanhol. Feliz estou porque há alguém falando idioma que entendo bem. Quando se apresentou fez questão de frisar “yo soy catalán”......hummmm, já vi esse filme com os bascos quando fiz o trek na cordilheira Huayhuash no Peru. Bueno, afora nós, os clientes, há 3 guias e 18 porteadores pemones que transportam bagagens e equipamentos, acondicionados em cestas de vime e palha, chamadas guayares (para os ianomâmis brasileiros é jamachi). O guia-chefe é o infatigável Fred Espinoza, cujos dotes culinários foram muito elogiados por Henry. Vamos ver se ele faz jus ao elogio. Os outros dois guias, Mario Osorio e Ricardo Navas, ficam na maior parte do tempo contemplando Fred cozinhar, limitando-se a picar algum alimento ou ralar queijo. Ao contrário do grupo, contratei um personal porter, Antonio, porque não tenho condições de carregar mochila cargueira nos costados. Quando saímos da aldeia Uruyen, às 9:20, neste 1º dia de trek, o tempo permanece nublado embora a névoa que escondia o Auyantepui tenha se dissipado. Ainda bem que o leve chuvisco, quando levantei às 7, não se manteve. Trilhamos um sendero bem demarcado na savana cujo destaque em matéria de vegetação é a Bulbostyle Paradoxa, com florescência similar à da sempre-viva. Resistente ao fogo lembra em muito nosso candombá. Ao cruzarmos o rio Ocoiñe, paramos para um mergulho refrescante pois o sol conseguiu se livrar da tela de nuvens, elevando exageradamente a sensação térmica. Uma pena que o rio, devido a pouca chuva na região, esteja tão raso. Aproveito e encho a garrafa de 600 ml e a água se mostra cristalina tal qual água mineral. Deixamos para trás a planura das pastagens verde-amareladas da savana, iniciando então a ascensão. Circundando a face sul do Auyan há 3 extensos platôs rochosos, formando como que gigantescos degraus que antecedem o topo do tepui. Hoje subiremos, contudo, somente até a 1ª plataforma. Percorremos uma mata relativamente cerrada pra desembocar no espaço aberto do cobiçado platô, após a árdua subida de 3 km que durou 2 horas, penando no calor escaldante do verão venezuelano!! A recompensa é a encantadora visão dum mundo de pedras cobertas por musgos e líquenes, arbustos e flores, sombra e água fresca. Almoçamos no alto da plataforma tendo aos nossos pés o vale de Kamarata delimitado pelo cada vez mais onipresente Auyantepui. Fred prepara sandus com kani kama, queijo e abobrinha regados a suco. Descansamos brevemente. Terminada a refeição, assim que reiniciamos a caminhar, São Pedro nos presenteia com um céu nublado....coisa boa!! Muitas flores ao longo do caminho: begônias, brincos de princesa, callhandras, entre outras cujos nomes  desconheço. Grande extensão da parede do tepui exibe-se esbranquiçada devido à ação dos líquenes. O caminho agora se torna moleza: uma suave descida sucedida por um trecho plano até o acampamento. Na trilha, a areia branquinha e as dezenas de arbustos queimados por combustão natural, faz-me recordar demais do cerrado da Chapada dos Veadeiros. Considerando que Uruyen está a 497 msnm e o acampamento Guayaraca a 1.011 até que o desnível não foi dos maiores já enfrentados. O Garmin registra 10 km vencidos em 5 horas e 30 minutos quando, por volta das 15:30, chegamos ao acampamento. Mais uma vez, o céu volta a desanuviar. No local do acampamento há um singelo galpão aberto, onde alguns índios amarram suas coloridas redes nas pilastras que sustentam o teto de palha. Já outros preferem o recato da mata, pendurando suas hamacas aos troncos de árvores. Cumprida a tarefa da montagem das barracas, os porteadores deitam-se nas redes e só se levantam no dia seguinte quando então lavam a louça da janta e do café da manhã. São totalmente relax! Feitos os necessários exercícios de alongamento, vou ao rio, que corre a 100 metros donde estamos acampados, e tomo um banho na água agradavelmente fresca. Pronto, eis restaurada a energia perdida. Beleza pura este recanto do planeta! Às 17:30 com a escuridão já quase instalada, tem início o show das luzinhas emitidas pelos pirilampos. No céu, novamente encoberto, vez por outra as nuvens se dissipam e permitem que se admirem trechos crivados de estrelas. A janta gourmet está dos deuses: sopa de legumes (cenoura e mandioca), costeletas de porco ao molho shoyu com mostarda, purê e bananas fritas. De fato,  Fred é um cozinheiro de mão cheia! Às 19 horas, graças a deus, o silêncio se instala no acampamento, já que belgas e franceses, recolhidos às suas barracas, param, enfim, de conversar. Eu nunca vi gente tão tagarela, por deus!! Detalhe: dos 8, 7 são homens! Causa espécie que queiram ver animais na trilha já que não sabem manter silêncio. Tá na cara que nunca os verão, porque os bichos, apavorados com o incessante falatório, devem estar cuidando de se proteger de tal escarcéu, se escondendo mata adentro, hehehe. Entretanto, as  risadinhas e o conversê, em tom baixo, dos porteadores naquela algaravia estranha, que é seu idioma, me delicia. Portanto, só me resta dizer por hoje au revoir!

Curtindo Uruyen, aldeia indígena pemone

Mucha moneda, poca plata, assim é a moeda venezuelana, o bolívar. Ao câmbio oficial 1 dólar vale em torno de 230 bsf. Porém no câmbio paralelo pagam 550 bsf por una doleta. É um horror transacionar com esta moeda. Só são emitidas cédulas de 50 e 100 bsf. Tanto que o papel-moeda vale mais que seu próprio valor nominal. Não há cédulas velhas, são todas bem novinhas, porque o governo está sempre emitindo mais e mais grana. Dessa forma, um bolo de dinheiro com uma altura de 5 cm compra apenas uma dose de rum! Tem de se andar com uma sacola grande pra acomodar a dinheirama que pouco vale diante da odiosa inflação. A política cambial venezuelana (leia-se chavista) é absolutamente perversa, tanto que sou advertida para evitar compras com cartão de crédito. Isso porque, aqui, ocorre a proeza bíblica da multiplicação dos pães: por exemplo, uma compra de 1.600 bolivares (equivalente a 3 dólares) feita no cartão de crédito, resulta num valor próximo aos 130 dólares a ser debitado na tua fatura mensal! E, nas duties free da área internacional do aeroporto de Caracas, dólares não são aceitos, apenas bolivares, alcunhados pelo falecido Chaves de "fuertes"....seria cômico se não fosse trágico! Bueno, essas recomendações são feitas por Henry, no sábado, durante o almoço num restaurante especializado em arepa, tradicional prato regional. A comida consiste num pão de milho, recheado com vários tipos de carnes, legumes e queijos. Escolho uma arepa com carne mechada (carne desfiada com molho picante), abacate e queijo branco. Às 15 já estamos na ala nacional do aeroporto embora o voo saia somente às 19 horas. A cautelosa antecipação é pra evitar a prática do overbooking, feita na cara dura pelas companhias aéreas. Aguardam-se 4 horas num aeroporto bem xinfrim (se fosse bacana até compensaria a longa espera) para voar 1 hora até Puerto Ordaz onde pernoitamos. Cedinho, 7:30, já estamos no busão em direção a Ciudad Bolivar onde pegamos 3 avionetas do tempo de Saint Exupery. Aqui já começa a aventura! Na nossa, há 6 assentos. O piloto, Carlos, maneja com perícia o balouçante veículo. As turbulências, quando as há, são leves. O céu alterna corredores nublados com espaços abertos donde vejo enquanto nos afastamos de Bolívar as casas diminuindo de tamanho e o rio Orinoco passando ao largo desfilando suas águas amarronzadas. Voando a uns 1.000 metro de altura, dá pra distinguir bem a paisagem. Relevo, inicialmente, plano, monótono, com vegetação predominantemente arbustiva. Impactante a desfiguração provocada pela construção da gigantesca usina hidroelétrica de Guri, no limiar da floresta amazônica. Após 50 minutos de voo, a espessa vegetação da floresta amazônica começa a dar pinta. Aqui e ali, pontos amarelos e rosados quebram o predomínio do verde. Ao passar pelo rio Carrao, a devastação causada pela mineração é desoladora. De repente, na paisagem plana, os tepuis começam a aflorar, espocando tal pipoca no solo. Majestoso é pouco pra descrever a belezura desse tipo de elevação, em forma de meseta, com paredes verticais, cuja altura varia de 2 mil a 2.900 metros. Paramos na aldeia Kamarata para deixar 2 caixas de papelão com comida (o cheiro é muiiitoooo bommm). O piloto desce e as entrega a um índio que, juntamente, com sua mulher, estão esperando a encomenda sentados em sua motocicleta. Quando aterrissamos, em Uruyen, até eu bato palmas!! Que deu um pouco de medo de voar na tal avioneta, ah, isso deu! Uruyen é uma das tantas aldeias indígenas pemones, localizadas no setor ocidental do Parque Nacional Canaima. O lugar conta com 8 ou 9 casas de adobe em formato de oca, feitas pela comunidade cujos tetos de palha exibem elaborados trançados. A paisagem que se desfruta de qualquer lugar onde se esteja é a da magnífica face sudeste do Auyantepui e de suas encostas revestidas de vegetação. Com altas muralhas formando recortes variados, sua superfície alcança 700 km², motivo por que é de longe o maior de todos tepuis existente no globo terrestre. Daqui da aldeia, já dá pra perceber a maravilha que vai ser essa pernada. Atrás de nossa casinha, corre o rio Yurwan de águas cristalinas. Esta região onde estamos chama-se vale Kamarata, rodeado por dezenas de outros tepuis além do Auyan. A Venezuela detém a maioria dos tepuis do planeta:  115!  A maioria localiza-se aqui no Parque Nacional Canaima. O restante – 140 - estão distribuídos pela Colombia, Brasil, Africa e Australia. O mais alto tepui do planeta é o Roraima onde já estive há um par de anos. No almoço, preparado pela pemone Dulce, é servido arroz, peixe e salada. E um tempero muito apreciado pelos pemones, o kumate. O molho é obtido mediante um complexo processo em que se misturam aji e yuka. Dependendo da tribo, são acrescentados, cupins, formigas ou peixes. Pura proteína, tá ligado? Eu adorei o ardido tempero. Os pemones que habitam o vale Kamarata pertencem à tribo Kamarakoto. Na dinâmica política dos pemones, o líder máximo é chamado capitão-general (?!!), já nas comunidades, o manda-chuva tem a patente de capitão (por tupã,  não entendi e também não conseguiram me explicar o motivo de os índios terem adotado a hierarquia militar dos brancos). Conversando com um dos pemones, comento sobre os efeitos deletérios causados pela mineração. Ele conta que tal atividade econômica foi estatizada, porquanto eles próprios se indignaram com o impactante sistema de extração do ouro usando máquinas e mercúrio. Exigiram do governo a proibição desse tipo de garimpagem. Atualmente, os indígenas continuam a exploração aurífera mas no sistema antigo de bateia  que não polui o ambiente. Um breve descanso após almoço (meu descanso foi arrumar e desarrumar minhas tralhas num frenesi compulsivo que nem 20 anos de terapia têm conseguido resolver) e tocamos rumo ao canyon do rio Yurwan. Calor na medida certa, céu pintalgado de nuvens fofas, tipo flocos de algodão, usufruo da visão desbundante do poderoso Auyantepui durante toda a pernada. O paredão cheio de pontas irregulares em seu topo lembra uma muralha, sobressaindo entre a compacidade rochosa algo semelhante a um gigantesco portão, como aqueles dos castelos medievais. À esquerda, outra escultura nas rochas remete às torres de vigia. Resguardado está o pétreo feudo! Depois de atravessar um trecho de savana, penetra-se numa mata que tem como limite a superfície lindamente amarelada do rio Yurwan. Não há como resistir a um tchibum nas águas frescas onde, infelizmente, a pulseira de prata que enfeita meu pulso direito é reivindicada por alguma entidade.....será? Se for Yara, que faça bom proveito....arghhh!! Atravessamos o rio e continuamos a caminhar ao longo do verdejante bosque até um brete de tirar o fôlega cujas paredes bem próximas uma da outra tornam o local escuro como aquelas antigas igrejas católicas (lembrei demais da garganta Kaigangue, localizada em Praia Grande/SC). O brete desemboca num lago circundado por paredes rochosas de 20 metros de altura donde despenca uma cachu cujo jorro d’água retumba no anfiteatro de pedra. Fico desbundada, nunca tinha visto algo igual. A pernada de retorno se dá quase ao entardecer, motivo por que apuro o passo já que não trago lanterna na mochila. Vou pro meu quarto assim que termina a janta, dessa feita, preparada pelos guias. Não demora muito chegam os dois belgas com quem divido o quarto. São tranqüilos e custo um pouco a dormir porque minha cama sem mosquiteiro não me protege das baratas que insistem em dar rasantes sobre meu rosto. Não resta outra alternativa, a não ser sair a cata dum filó pra me proteger das cucarachas.....hehe. 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Caracas

Às vezes me dá uma baita preguiça de organizar as viagens, talvez por isso ano passado não tenha feito nenhum trek. Claro está que também influiu a alta do dólar inflando o real de tal modo que nada mais restou de realeza na moeda pátria. Bueno, há um par de anos, Orlei Junior, profe de escalada, numa daquelas conversas que se tem ao pé duma parede enquanto estamos nos equipando, na ponta dos cascos, prontos pra trepar nas pedras, acenou com tentadora proposta de rapelarmos o Salto Angel, maior queda d’água do planeta. Contudo, a ideia não vingou. No final do ano passado, Dib, fotógrafo especializado em trips de aventura, enviou um convite via FaceBook pra eu participar duma expedição fotográfica. Sabe pra onde? Pro Auyantepui donde a cachu se lança numa verticalidade de 979 m parede abaixo!!! Não hesitei, aceitei o convite no ato. Depois que me pus a pensar na magnitude de tal indiada. Infelizmente, a trip não decolou por falta de quórum mas a essa altura eu já estava tão super mega pilhada - até vídeos sobre o assunto já curtira no youtube – que contatei uma agência venezuelana especializada nesse tipo de turismo de aventura. Ficou então acertado que eu me juntaria a um grupo de belgas que partiria de Caracas em 6 de fevereiro e de lá rumaríamos até o Parque Nacional Canaima onde a aventura teria início. Embarco, assim, na quinta, por volta das 13 horas, num avião da Copa, com conexão no Panamá, chegando em Caracas passados 15 minutos da ½ noite. Quando da aterrissagem já dá pra perceber, embora noite, que a cidade, situada a 900 msnm, é rodeada por montanhas. Um alívio sair da cabine refrigeradésima do avião pro calorzinho gostoso da capital venezuelana. Henry Gonzales, dono da Explora Treks (http://exploratreks.com/), aguarda diante do portão de desembarque segurando plaquinha com meu nome. Afinal, não nos conhecemos ainda. Deixa-me no hotel, localizado no bairro Palos Grandes onde fico, bem baixada, na cama, durante a manhã, assistindo ao canal estatal Telesur que, disciplinadamente, alimenta o culto à personalidade do falecido presidente Chaves. Somente na China, à época de Mao, e agora na Coreia do Norte, se encontra algo comparável. Almoçamos eu e Henry, num restaurante popular, um combo com direito a prato principal, água ou suco, mais sopa ou sobremesa. Escolho suco e iogurte. Tudo muito gostoso, bem caseiro; a acidez do iogurte na medida certa. Palos Grandes é bairro de classe média alta, bem movimentado, com trâfego de carros intenso. Os caraquenhos usam e abusam da buzina já que não há punição, como no Brasil, para tal espécie de infração. À tarde, Mario, um dos guias que participará da expedição, vem me buscar para eu conhecer o cerro Avila que havia entrevisto do avião quando da aterrissagem. O Avila é um dos cerros que compõe o Parque Nacional Waraira Repano ou Parque Nacional El Ávila, minicordilheira com 80 km de  extensão e 16 km de largura cujo ponto mais alto é o Pico Naiguatá com 2.765 msnm. Há várias entradas para se acessar o parque. Em sendo assim, o guia escolhe subir pela Sabas Nieve, onde dois militares (um homem e uma mulher) da Guarda Nacional vigiam o lugar de fuzil em punho. A acintosa vigilância tem como causa o aumento crescente de roubos que flagelam os venezuelanos nesta tormentosa crise por que passa o país. Tão tormentosa a situação econômica que itens básicos de alimentação se tornam escassos nas prateleiras dos supermercados. Daí por que os assaltos às cozinhas das residências são cada vez frequentes!! E quem sai dos mercados com suas sacolas frequentemente se vê espoliado de suas compras. A trilha é freqüentada por dezenas de pessoas que se exercitam pelas íngremes encostas. Paramos no mirador onde conheço a simpática e falante Edith, colombiana que veio pra Venezuela quando o país usufruía de boas condições econômicas. Nos dias atuais, ironicamente, quem goza de prosperidade é a Colombia. Ela inicia o papo convidando-me a provar dum picolé de tamarindo, guloseima super apreciada na cidade. Conta que vive no bairro Califórnia e revela, sempre sorridente, que gosta muito de bailar. Maliciosa, esclarece que sambar “es como matar cucarachas” e dá risada quando evoca a imagem da popular dança brasileira. Tenho de rir, porque os passos miúdos do samba são um contraponto ao bailado esparramado dos ritmos caribenhos. A pele lisa de Edith é invejável, considerando que se encontra na faixa do 50 e tantos anos. Também, pudera, com toda essa ascendência indígena! Podicre, quero ser índia noutra encarnação! Todas as pessoas com quem converso se queixam espontaneamente da violência sem que eu precise puxar assunto. Sinto que estão transbordando de indignação. Mario explica que o pífio salário mínimo – em torno de 20 dólares – “menor que lo de Cuba”, faz com que muitos caraquenhos prefiram assaltar a trabalhar. Isso porque - pra comprar um calçado - é necessário economizar durante 10 meses! Caminhamos um pouco pelo elegante bairro de Altamira cujas casas e edifícios luxuosos denotam o alto poder aquisitivo de seus moradores. Não vejo mendigos nas ruas tampouco gente caminhando neste agradável bairro sombreado por alamedas de árvores. Entocados, os venezuelanos, da classe baixa à alta, todos estão com medo! Diante de tantos relatos assustadores de violência urbana, mais assustadores que os existentes no Brasil, opto por permanecer na segurança de meu hotel onde janto um fettucine al sugo, muito bem feitinho. De bebida, escolho rum a las rocas, que significa com gelo, hehe (on the rock, tá ligado?). Em Roma como os romanos, já que nesta zona do Caribe são produzidos os melhores runs do planeta. O difícil é ficar numa dose só porque essa bebida é assanhada de boa! E pega rápido que nem dengue em país tropical.

domingo, 30 de agosto de 2015

Cemitérios à Beira Mar

Domingo de céu nem tão aberto assim quando saímos de Mundaú às 7 da manhã rumo a Icaraí de Amontada, Johny, o mesmo barqueiro da navegação que fizéramos ontem à tardinha no rio Mundaú, nos atravessa pro outro lado da península. Se assim não fosse, teríamos que adentrar o continente, pegar 2 rodovias, a 163 e a 168, pra voltar a pedalar na praia. Colocadas as bicis no barco, não dá 15 minutos e já estamos no outro lado da península, poupando precioso tempo. Próximo a Mundaú, ainda se vê vegetação de mangue, devido à presença do rio. Tô começando a apreciar esse vento, a um porque ele é favorável, e a dois porque evita que eu sue como uma condenada. A primeira praia pela qual passamos é Baleia seguida de Apiques. Contudo, a ordem de Comandante Alencar é seguir em frente, sem paradinhas e assim aproveitarmos a larga faixa de areia deixada pela maré baixa. Caso sejamos pegas pela preamar, teremos de pedalar, ou melhor, empurrar as bicis ao longo de 3 km de arrecifes, próximos às dunas. Conforme ensinamento de Nara, o bom é sair quando a maré cheia está nos seus últimos suspiros, num movimento de recuo, iniciando a expor, assim, maior extensão de terra. Ao contrário do dia anterior, algumas nuvens de coloração acinzentada fogem da usual brancura que costumam exibir. Será que choverá, pergunto aos meus botões? Ao longo da costa, as folhas dos coqueiros farfalham ao vento. Paro duas vezes pra fotografar dois pequenos cemitérios pousados sobre dunas. Com seus túmulos branquinhos, caiados de cal, singelas cruzes de madeira escura assinalam sua origem cristã. Desde Lagoinha, as indefectíveis estações eólicas têm dado o ar da graça, exibindo a bizarrice moderna de seus moinhos de vento. Urubus repartem entre si o enorme corpo morto duma tartaruga. É o ciclo natural da cadeia alimentar: atiram ao mar os pescadores suas redes em busca do peixe-sustento, ao passo que os urubus se atiram às carniças. Uma extensão grande de recifes, cujos afloramentos estão bem visíveis em razão de a maré ainda estar vazando, forma piscinas naturais cheias de água transparente tão clarinha é. Muita gente pesca nos atóis, aproveitando a maré baixa. Ultrapassado enfim o tal pedrario, Comandante Alencar permite que paremos em Caetanos de Cima. Eu louca que estou pra bebericar tanto água de côco quanto ypioca, fico desapontada quando a encarregada do Bar e Restaurante das Mulheres avisa que está sem água de côco, tampouco vende cachaça. A explicação de não vender o destilado tem origem no tanto que botam boneco (tradução do cearês: badernaço de bebum) os homens ao beberem a danada. Pra minha alegria, mal pedalados 2 km, eis Caetanos de Baixo, com mais opções de barzinhos que o de Cima, e, graças a deus, sem as rígidas regras do estabelecimento anterior. Capitaneado pela falante Claudia, entramos no Estrela do Mar, fresca tenda coberta por folhas de coqueiro, que serve não só água de côco como ypioca. Tento avisar Comandante Alencar e Menina Brandão mas fico em dúvida se entenderam meu gestual sinalizando nossa paradinha porque as duas queridas estão 200 metros além. Felizes da vida que nem pinto no lixo, eu e Cris nos lavamos na água de côco, além de cerveja – ela -, e esta senhorinha de ½ idade, na branquinha. Claudia gentilmente nos dá pra provar 2 espetinhos camarão ao alho e óleo. Oxente, boa demais essa vida! Percebemos eu e Amotinada Tavares que Comandante Alencar se equivocou em relação à localização da temida faixa de pedras, porque é aqui, próxima a Icaraizinho, que a dita cuja se aninha. Na beira d’água, os primitivos currais de peixes feitos com escuras varetas fincadas no mar, à semelhança dum labirinto, atraem os peixes pelas sombras que lançam à água. E dale a atravessar pequenas barras formadas por riachinhos. Delícia tudo isso! Já em Icaraí de Amontada, praia, atualmente, eleita a queridinha dos fortalenses, apelidada carinhosamente de Icaraizinho, tem um ar de paraíso perdido, segundo os nativos, semelhante à Jericoacoara de 20 anos atrás. Pousadas charmosas com boa infra atraem os turistas de maior poder aquisitivo. Porque açoitada essa parte do litoral durante alguns meses do ano pelos fortes ventos alísios, a prática do kite surf vem cada vez mais se difundido, o que seduz a galera jovem e descolada da capital. E após pedalarmos 41 km em 4 horas e 45 minutos, chegamos à pousada Villa Mango, onde celebraremos com um baita almoço o memorável pedal. Sorridentes, faceiras, inesperadamente, uma cachoeira de água geladésima cai sobre nós na forma de nova reprimenda aplicada por Comandante Alencar! Tudo por causa de nossa breve parada no Estrela do Mar. Além de nos penalizar com frio tratamento, decreta nosso banimento sumário de futuros pedais a serem organizados por ela. Valha-me deus, Comandante Alencar, dessa feita não lhe dou razão alguma, não! E acredite se quiser, a meiga cearense foi emburrada até Fortaleza!!

sábado, 29 de agosto de 2015

Arribação em Mundaú

Embora, hoje, sábado, não tenha pedal,  Nara dá toque de alvorada às 7 da matina. Só falta a corneta pra gente se sentir num quartel. A guria cearense é linha dura, oxente, motivo por que começo a chamá-la de Comandante Alencar. E lá vamos nós, após o desjejum, caminhar ao longo da praia. Nuvens encobrem vez por outra o astro-rei, motivo por que nem me preocupo em cobrir minha alva barriga. É um desastre a coloração deste meu corpitcho: somente rosto, braços e pernas – estas um pouco acima dos joelhos - bronzeados. O resto, duma brancura europeia, graças aos antepassados maternos, oriundos do norte da Itália. Quando estamos voltando pra casa, Nara, com sua fala mansa, em tom sempre baixo, começa a me dar um pito por causa do que rolou ontem. Afe maria, e eu até então crente que não resultaria maiores consequências da nossa irrefletida decisão. Triste engano, o meu! Deixem estar que vou revelar tudinho o que se passou. E deus que nem me perdoe se não é a pura verdade o que passo então a contar. Pois tudo iniciou quando, ontem, ao pararmos em Flecheiras, Nara, cuja bici não é das mais adequada às areias praianas, comunicou que iria pedalar na rodovia. Deixou, contudo, nós três livres pra continuarmos o pedal pela praia. Parceria é parceria, disse eu, e assim ficou decidido que iríamos juntas as quatro asfalto afora. A Comandante e Menina Brandão largaram na frente, ficando eu e Cristina pra trás, tudo tudo porque a paisagem pedia pra ser filmada. Nesse ínterim, Nara e Alu já se haviam se distanciado de modo que as perdemos de vista. Bueno, percorridos cerca duns 5 km, Cris se queixou de que tava foda pedalar na estrada pois o calor emanado do asfalto era demais pra bola dela. Convidou-me então pra voltarmos a pedalar à beira mar. Sem muito pensar, aceitei a proposta, e embicamos em direção à praia. Quando chegamos a Mundaú, Comandante e Menina não estavam em casa. Iva, que ali já se encontrava há horas porque fora de auto, diz que Nara, preocupada, pegara o carro pra averiguar o que nos acontecera. Baaah, pensei na hora: fudeu!! No retorno, Nara indaga por onde viéramos. Cris e eu damos uma enrolada, não abrindo totalmente o jogo. Explico que, um pouco antes de chegarmos a Mundaú, decidimos abandonar a estrada e vir pela praia pra curtir o visual. Porém a perspicaz Nara, como boa psicanalista que é, sacou a real mas deixou quieta nossa ½ verdade. E guardou a ralhação pro dia seguinte, nos fazendo crer que estaríamos livres de qualquer questionamento. Nem cogito em me defender. Aceito a reprimenda e, como boa cristão cheia de culpa, peço perdão pra ganhar a absolvição e, assim, me sentir aliviada. Feitas as pazes, voltamos novamente a ser amiguinhas. Ainda pela manhã, vamos, Menina Brandão, Comandante Alencar e eu, a Amotinada Azevedo (como passei a me autointitular após o imbroglio), até as dunas que circundam o rio Mundaú, onde está plantado outro parque eólico. De dentro d’água, curto, fascinada, o girar incessante das gigantescas pás metálicas desses modernos moinhos de vento. No almoço, encanto Iva, exibindo minhas habilidades de barwoman, ao preparar caipirinhas de limão com uísque ao invés de cachaça. Jamais passou pela loira cabeça de Iva, minha irmã de tragoleu, ser possível o uso de tal destilado neste famoso coquetel brasileiro. Como a beberagem foi forte, o corpo pede um descanso. Assim, sesteamos até as 16 e 30 quando então saímos prum passeio de barco. A pequena embarcação a motor, pilotada pelo jovem e simpático Johny, percorre um trecho do rio Mundaú cujas margens exibem cerrado manguezal. Um labirinto só esses mangues formados por tramas de retorcidas e intrincadas raízes expostas ao ar livre. Na vazante, os pescadores pegam, com as mãos despidas, os caranguejos que se escondem em tocas, cavadas rentes às lamacentas margens. Quando retornamos ao cais, o fenômeno da super lua cheia, que a torna maior e mais brilhante que o normal, arranca exclamações de admiração da Amotinada Tavares. Por ter se aventurado num belo tragoleu antes, durante e pós almoço, a sempre contida Cristina, que mede cada palavra dita, tá sem trava na língua. E como toda bebum, seu conversê limita-se àquela cantilena efusiva e repetitiva tipo “olhem, coisa mais linda, bota lindo nisso, olhem!!”, pontuando tudo com alegres risadinhas. E atrás das dunas, a lua, à medida que vai subindo, perde sua coloração alaranjada para assumir de vez sua usual brancura.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Luminosidade litorânea

Há coisa dum mês recebo um telefonema com prefixo 85 e logo me questiono “donde do Brasil, oxente?” Era Nara Alencar, direto de Fortaleza, a quem conhecera faz 3 anos durante um baita pedal em Urubici. Claro está que não ficamos todo esse tempo sem nos ver, porque coisa dum ano depois, ela me convidou pra pedalar na capital cearense e adjacências. Aceitei no ato e me toquei de mala, mas sem cuia! Dessa feita, a guria me convida pra passar um fim de semana de modo a participar do pedal 4 Mulheres e um Destino. E agora, eis euzinha, esta senhorinha de ½ idade que vos escreve, uma vez mais, retornando à terra de José de Alencar. Serão por acaso tais sobrenomes? O de minha amiga e do grande escritor? Preciso indagar Nara sobre. Do aeroporto, após os festejos de praxe, sou levada pelas cearenses Narita e Alu Brandão  prum restaurante de massas. Intimamente, troco uma ideia com meus botões e faço aquela cara de desgosto que expressa “comer massa? aqui, no Ceará?” Pois não é que tive de dar o braço a torcer?! O restaurante Pasta e Pizzas tem em seu menu não só as tradicionais massas, apelidadas de forno e especiais de fogão, como ainda as assim denominadas massas de fogão, que vêm a ser aquelas com frutos do frutos do mar, abundantes no litoral cearense. De lamber os beiços a comilança. Difícil resistir e não pedir bis, tris e sair rolando tão boas as pastas são. Um arraso o fettucini Maria Izabel, com carne de sol refogada com cebola, molho de tomate e creme de leite. Além do ponto de cozimento perfeito, bem al dente, os temperos e os ingredientes fazem a delícia de meu paladar. Além de mim, Nara (a idealizadora espiritual do pedal) e Alu (embora debochada, é amiga leal, ciclista de ocasião e entusiasta das aventuras na natureza), também se encontra à mesa Cristina Tavares (única conhecedora de rudimentos básicos de mecânica de bici, a maranhense, dona dum humor peculiar, trata todo mundo de colega). E pra coroar tão lauto jantar, aquele toquezinho sulista na refeição: espumante gaúcho, bem geladinho pra brindar o tão aguardado pedal. De pancinha cheia, adormeço tal qual um anjo. Acordo na sexta- feira, passado um pouco das 5 da manhã, e vislumbro através da janela uma baita claridade! Devido ao dia amanhecer cedo nesta parte do país, e também por causa do calor, às 6 e 30, quando saímos de Fortaleza – não de bici ainda e sim de carro - bastante gente já está correndo no calçadão à beira mar. Ivanara, irmão de Nara cujo nome de batismo é Ianara, nos deixa em Lagoinha, distante 100 km da capital, donde o pedal iniciará. Esta praia, pouco explorada pela turistada, exibe um visual lindo formado por dunas, coqueiros e falésias avermelhadas, que se situam a 100 metros do mar, se tanto. Pequenos percalços com as bicis de Nara e Cristina nos obrigam a parar. A da primeira, um freio reticente enquanto a da segunda, o guidão foi montado ao contrário. E não é que a criatura ainda pedalou uns 500 metros com a bici assim? Na primeira praia após Lagoinha, a sossegado Guajiru, fazemos um bem vindo pit stop. Peço uma água de côco de modo a hidratar o organismo pro que vem depois: a deliciosa cachacinha cearense. Nem bem pedalados 7 km, nova parada em Flecheiras, no bar duma bela pousada, em frente à imensidão verde do mar. Amiúde, despontam, na faixa de areia, piscinas naturais resultantes da ação da maré alta. Peço uma dose de Ypioca ao passo que as gurias vão de cerveja. Como sei que o povo de outros estados adora quando os gaúchos falam à moda gaudéria, solto o famoso “baaah tche, barbaridade de boa essa Ypioca!” Elas adoram escutar eu falando "bah".... hahaha!! Embora não seja de rajadas, o vento é constante. Sorte nossa que sopra numa direção predominantemente SE-NO. Não à-toa, Narita, espertamente, bolou o percurso rumo ao norte. Em diversos momentos não se faz necessário pedalar: o vento se encarrega de empurrar a bici como se ela fosse um veleiro. Nas praias próximas às vilas de pescadores, coloridas velas de kite surf enfunadas se erguem em rápidos vôos rentes ao mar. Céu de brigadeiro sem nuvem alguma embaçando o sol. A lisura da praia só é interrompida por pequenas covas causadas pelo refluxo da maré. Várias barras formadas por riachos em cujas margens formam-se degraus. Contudo não de molde a obstaculizar a travessia das bicis. Ao longo da costa que conduz a Mundaú, perpendiculares ao mar, parques eólicos, formados por esguias torres e hélices metálicas de coloração branca, exibem design estilizado de moinhos de vento dantanho. O odômetro registra 38 km pedalados ao longo de 5 horas e 15 minutos quando em Mundaú freamos em definitivo as bicis. Aqui pernoitaremos, até domingo, na residência das irmãs Alencar cujo privilegiado quintal fica diante do rio Mundaú! Esta praia, nos dias que correm, já é bem conhecida no circuito litorâneo do estado. Encantador, o balneário, além das elevadas dunas e das lagoas, exibe piscinas naturais à beira mar. O pequeno vilarejo conta com vários mercadinhos bem sortidos. Num deles descubro o sorvete Pardal, famosa fábrica de sorvete cearense, que prestigia os sabores regionais de graviola, cajá, castanha e milho. Me atraco num de graviola, uma delícia! Ao longo da rua da Praia, uma deliciosa sonoridade amadeirada de tac tac tac se faz ouvir. É o som produzido pelas rendeiras ao manejar aos pares os bilros. O resultado do artesanato, herança portuguesa, zelosamente transmitida de mães pras filhas, desde quando estas são meninas, é pendurado em cabides, nas janelas das casas: vestidos, toalhas e blusas feitas de renda de bilro ou birro. No almoço feito por Ivanara, macarronada com lagosta e porco a pururuca acompanhado por arroz. De bebida, aceito a caipirinha de cajá preparada por Iva. As demais colegas mantêm-se firmes na cervejinha. Depois da séstia, Iva faz deliciosas tapiocas recheadas com banana caramelada. Pouca demora, saímos de casa pra aproveitar o que resta de pôr do sol. Na praça de piso alajotado, construída justo no ponto de encontro das águas do Mundaú com as águas do Atlântico, ambas igualmente verdes, descortina-se do lado de lá do rio outra estação eólica, plantada entre dunas. Já entardecendo, a paisagem adquire uma tonalidade rosada, resultado dos últimos raios do sol poente. Tô no paraíso, oxente! Tenho ou não razão de estar prosa?

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sobre Todas as Coisas

Interessante que se eu comparar o cicloturismo feito em março na Patagônia argentina com o pedalado recentemente nos campos de cima da serra, na região de Ausentes, guardo melhores recuerdos deste último. Refletindo sobre tal sentimento chego à conclusão de que o cicloturismo de 6 dias na chamada região dos 7 lagos, compreendida entre San Martin de los Andes e Bariloche, embora inegávelmente bela seja a paisagem, não faz muito meu estilo. Por quê? A principal razão foi que os deslocamentos entre as cidades praticamente se deram em asfalto, enfrentando a super movimentada Ruta 40, cujo tráfego intenso de caminhões e carros exigia bastante atenção. Em segundo lugar, tais points, de óbvio apelo turístico (à semelhança de nossa Gramado), não me atraem muito. Sou mais a fim dos menos civilizados. Claro está que curto lugares charmosos e confortáveis, pero se me é dado escolher, sempre aponto o dedo no globo terrestre para aqueles pouco freqüentados, tanto pelos locais quanto por viajantes. Como não poderia deixar de ser, as villas patagônicas por onde andei - San Martin, Traful e La Angostura - exibem aquele visual bonitinho, certinho, com os indefectíveis prédios e interiores estilosos – no caso, o falso rústico, usando e abusando de pedras e madeiras (mais uma vez Gramado me veio a cabeça). Nos dois primeiros dias, ficamos em San Martin, pequena e charmosa cidade, pertencente à província de Neuquén, aninhada à margem do lago Lácar onde pedalei, aí sim, em estradas de chão batido, até o mirador Bandurrias de onde se tem uma visão estupenda do lago Lácar e de alguns cerros adjacentes, dentre eles o Chapelco que mereceu uma visita no segundo dia de pedal. Nos outros 4 dias, conheci vários lagos, como o Villarino, Traful, onde às suas margens localiza-se a pacata vila de mesmo nome, Correntoso, Bailey Willis, Espejo e por fim o infindável Nahuel Huapi em cuja margem desponta a efervescente Bariloche, cidade a meus olhos super desinteressante, exceto pelas lojas especializadas no comércio de chocolate, diga-se de passagem, de excelente qualidade. Chamou atenção na ruta 63, estrada de chão batido que liga vila Traful à ruta 40, vestígios, no chão e nas árvores, das cinzas expelidas pela erupção do vulcão Puyehue, ocorrida em 2011. Se for para escolher do que mais gostei, fico com o bosque de los Arrayanes, de onde se tem uma admirável visão das águas azuladas do lago Nahuel Huapi e da laguna Verde, em Villa La Angostura. Graças a deus, uma semana após meu retorno, já tinha agendado um pedal com uma figuraça que atende pelo nome de Marcos Grandi, um caxiense sempre bem humorado e entusiasta da vida ao ar livre como eu. Assim foi que passei um fim de semana na serra, mais exatamente acampada no mirante Gelain, situado em Flores da Cunha, de onde se descortina uma das trocentas dobras do serpenteante rio das Antas. Pra celebrar o findi e nosso reencontro após um ano, Marcão bolou um pedal maneiro, bem light, de aproximadamente 50 km. Com início em Caxias do Sul, percorremos, inicialmente, a hoje asfaltadíssima Linha 30, conhecida como Caminhos da Colônia até Otávio Rocha, onde almoçamos umas gordices empapadas de gordura que rebatemos com uma jarra de vinho da colônia. Pra fazer a digestão, uma pegadinha de chão batido até o sítio dos Bernardi onde experimentamos suco de mirtilo e cachacinha de alambique, retornando a Caxias pela Linha 60, novamente socando a bota no asfalto. No domingão, caminhada de 9 km na mata atlântica, percorrendo uma antiga picada aberta por caçadores que parte do Belvedere Sonda até um ponto da margem esquerda do rio das Antas onde fluem as nervosas águas da corredeira Armagedon sucedida pelo despencar furioso do Cachoeirão. No feriado de Tiradentes, mês de abril, resolvi aceitar o convite de Fátima e me mandei pra Telêmaco Borba/PR, onde pedalei por 3 dias, percorrendo basicamente estradas de chão batido cascalhentas (odeio esse tipo de estrada porque quando comprei um terreno me ralei toda) na companhia dum grupo de curitibanos, chamado Klandestinos. Com algumas subidas e descidas pegadas, o pedal transcorreu em meio à sombra dos altos e delgados eucaliptos e pinus, fruto duma ação de reflorestamento de 11 mil hectares realizada pela empresa de celulose Klabin. Em maio, na metade do mês, retornei a Caxias onde acampei mais uma vez na companhia do simpaticíssimo Grandi no mirante Gelain pedalando dessa feita na região de Nova Pádua. Foram 50 km de estradas asfaltadas e de chão batido tendo como cenário vales e serras da região dos vinhedos, conhecendo alguns travessões (nome herdado da divisão administrativa da época imperial onde colônia se dividia em léguas e estas em linhas ou travessões) cujo destaque foi o do travessão Curuzu. Ao longo das estradas, bergamoteiras e laranjeiras, carregadinhas de frutas maduras, eram um convite irresistível a que parássemos e as desfrutássemos. No final de maio, nos mandamos eu, Kelly, Henrique Butina Weyne e Carlos Armando pro sul de Santa Catarina onde, no sábado, pedalamos num bate-e-volta de 40 km entre Praia Grande e Comunidade São Roque com direito a uma escalaminhada até o topo da Pedra Branca. Já no domingão, um pedalito e pernada leves no Parque Nacional Aparados da Serra. Encerrando o primeiro semestre de 2015, a cereja dos pedais, sem sombra de dúvida, foi aquele organizado pela Guenoa e Akatu (empresas de Caxias do Sul), na região dos campos de cima da serra entre Jaquirana e São José dos Ausentes. Foram 3 dias pedalando sobre chão nem tão batido assim, com muiiitas subidas e algumas descidas bem técnicas, crivadas de pedras soltas. No 1º dia, pedal perrenguento que saiu de Jaquirana e terminou em Ausentes, com direito a travessia nas águas geladíssimas do rio Camisas. Tanta dor senti nos pés por causa da baixíssima temperatura da água que, por pouco, não pedi a um dos guris que, por favor, me pegasse no colo e me levasse até a outra margem. Já no 2º dia, a aventura  incluiu uma visita ao canyon Amola Faca, belíssima garganta situada a 15 km do distrito de Silveira. E no 3º e último dia, a indiada pedalícia terminou nas curvas deslumbrantes da serra da Rocinha. Sem sombra de dúvidas, os campos de cima da serra gaúcha além de serem bem mais preservados são muito mais belos do que os campos gerais paranaenses que eu conhecera no pedal de abril. Afora que lá não dão pinta os impressionantes canyons que aqui enriquecem sobremaneira o visual!