Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
Dessa vez,
não farei trek solita, como de costume, mas acompanhada por 8 europeus: 5
belgas, 2 franceses e um espanhol. Contrariando a regra de seres frios e mal
humorados, (por acharem que a civilização européia é superior?!! Será?!), os
membros da expedição, exceto a francesa (infelizmente, a moça faz por merecer o estereótipo), são prestativos e bem humorados. Os belgas e franceses são amigos e
costumam viajar juntos, alguns inclusive pedalando mundo afora. Sobraram de
avulsos, eu e o espanhol. Feliz estou porque há alguém falando idioma que
entendo bem. Quando se apresentou fez questão de frisar “yo soy
catalán”......hummmm, já vi esse filme com os bascos quando fiz o trek na
cordilheira Huayhuash no Peru. Bueno, afora nós, os clientes, há 3 guias e 18 porteadores pemones que
transportam bagagens e equipamentos, acondicionados em cestas de vime e palha,
chamadas guayares (para os ianomâmis brasileiros é jamachi). O guia-chefe é o
infatigável Fred Espinoza, cujos dotes culinários foram muito elogiados por
Henry. Vamos ver se ele faz jus ao elogio. Os outros dois guias,
Mario Osorio e Ricardo Navas, ficam na maior parte do tempo contemplando Fred cozinhar,
limitando-se a picar algum alimento ou ralar queijo. Ao contrário do grupo, contratei
um personal porter, Antonio, porque não tenho condições de carregar mochila
cargueira nos costados. Quando saímos da aldeia Uruyen, às 9:20, neste 1º dia de trek, o tempo permanece nublado embora a névoa que escondia o Auyantepui tenha se dissipado. Ainda bem que o leve chuvisco, quando levantei às 7, não se manteve. Trilhamos
um sendero bem demarcado na savana cujo destaque em matéria de vegetação é a
Bulbostyle Paradoxa, com florescência similar à da sempre-viva. Resistente ao fogo lembra
em muito nosso candombá. Ao cruzarmos o rio Ocoiñe, paramos para um mergulho
refrescante pois o sol conseguiu se livrar da tela de nuvens, elevando exageradamente a sensação térmica. Uma pena que o rio, devido a pouca chuva na região, esteja
tão raso. Aproveito e encho a garrafa de 600 ml e a água se mostra cristalinatal qual água mineral. Deixamos para trás a planura das pastagens verde-amareladas
da savana, iniciando então a ascensão. Circundando a face
sul do Auyan há 3 extensos platôs rochosos, formando como que gigantescos
degraus que antecedem o topo do tepui. Hoje subiremos, contudo, somente até a
1ª plataforma. Percorremos uma mata relativamente cerrada pra desembocar no espaço
aberto do cobiçado platô, após a árdua subida de 3 km que durou 2 horas, penando no calor escaldante do verão venezuelano!! A recompensa é a
encantadora visão dum mundo de pedras cobertas por musgos e líquenes, arbustos
e flores, sombra e água fresca. Almoçamos no alto da plataforma tendo aos
nossos pés o vale de Kamarata delimitado pelo cada vez mais onipresente
Auyantepui. Fred prepara sandus com kani kama, queijo e abobrinha regados a suco.
Descansamos brevemente.Terminada a refeição, assim que reiniciamos a caminhar, São
Pedro nos presenteia com um céu nublado....coisa boa!! Muitas flores ao longo
do caminho: begônias, brincos de princesa, callhandras, entre outras cujos nomes
desconheço. Grande extensão da parede do tepui exibe-se esbranquiçada
devido à ação dos líquenes. O caminho agora se torna moleza: uma suave descida sucedida por um trecho plano até o acampamento. Na trilha, a areia branquinha e as
dezenas de arbustos queimados por combustão natural, faz-me recordar demais do
cerrado da Chapada dos Veadeiros. Considerando que Uruyen está a 497 msnm e o
acampamento Guayaraca a 1.011 até que o desnível não foi dos maiores já enfrentados.
O Garmin registra 10 km vencidos em 5 horas e 30 minutos quando, por volta das 15:30,
chegamos ao acampamento. Mais uma vez, o céu volta a desanuviar. No local do acampamento há
um singelo galpão aberto, onde alguns índios amarram suas coloridas redes nas
pilastras que sustentam o teto de palha. Já outros preferem o recato da mata, pendurando suas hamacas aos troncos de árvores. Cumprida
a tarefa da montagem das barracas, os porteadores deitam-se nas redes e só se
levantam no dia seguinte quando então lavam a louça da janta e do café da
manhã. São totalmente relax! Feitos os necessários exercícios de alongamento, vou ao rio, que corre a 100 metros donde estamos acampados, e tomo um
banho na água agradavelmente fresca. Pronto, eis restaurada a energia perdida. Beleza
pura este recanto do planeta! Às 17:30 com a escuridão já quase instalada, tem
início o show das luzinhas emitidas pelos pirilampos. No céu, novamente
encoberto, vez por outra as nuvens se dissipam e permitem que se admirem trechos crivados de estrelas. A janta gourmet está dos deuses: sopa de legumes (cenoura
e mandioca), costeletas de porco ao molho shoyu com mostarda, purê e
bananas fritas. De fato, Fredé um cozinheiro de mão cheia! Às 19 horas, graças a deus, o silêncio se instala no
acampamento, já que belgas e franceses, recolhidos às suas barracas, param, enfim, de conversar. Eu nunca vi gente tão tagarela, por deus!! Detalhe: dos 8, 7 são homens! Causa espécie que queiram ver animais na trilha já que não sabem manter silêncio. Tá na cara que
nunca os verão, porque os bichos, apavorados com o incessante falatório, devem estar cuidando de se proteger de
tal escarcéu, se escondendo mata adentro, hehehe. Entretanto,
as risadinhas e o conversê, em tom baixo,
dos porteadores naquela algaravia estranha, que é seu idioma, me delicia.Portanto, só me resta dizer por hoje au revoir!
Mucha moneda, poca plata, assim é a moeda
venezuelana, o bolívar. Ao câmbio oficial 1 dólar vale em torno de 230 bsf.
Porém no câmbio paralelo pagam 550 bsf por una doleta. É um horror transacionar
com esta moeda. Só são emitidas cédulas de 50 e 100 bsf. Tanto que o
papel-moeda vale mais que seu próprio valor nominal. Não há cédulas velhas, são
todas bem novinhas, porque o governo está sempre emitindo mais e mais grana.
Dessa forma, um bolo de dinheiro com uma altura de 5 cm compra apenas uma dose
de rum! Tem de se andar com uma sacola grande pra acomodar a dinheirama que
pouco vale diante da odiosa inflação. A política cambial venezuelana (leia-se
chavista) é absolutamente perversa, tanto que sou advertida para evitar compras
com cartão de crédito. Isso porque, aqui, ocorre a proeza bíblica da
multiplicação dos pães: por exemplo, uma compra de 1.600 bolivares (equivalente
a 3 dólares) feita no cartão de crédito, resulta num valor próximo aos 130 dólares
a ser debitado na tua fatura mensal! E, nas duties free da área internacional
do aeroporto de Caracas, dólares não são aceitos, apenas bolivares, alcunhados
pelo falecido Chaves de "fuertes"....seria cômico se não fosse
trágico! Bueno, essas recomendações são feitas por Henry, no sábado, durante o
almoço num restaurante especializado em arepa, tradicional prato regional. A
comida consiste num pão de milho, recheado com vários tipos de carnes, legumes
e queijos. Escolho uma arepa com carne mechada (carne desfiada com molho
picante), abacate e queijo branco. Às 15 já estamos na ala nacional do
aeroporto embora o voo saia somente às 19 horas. A cautelosa antecipação é pra
evitar a prática do overbooking, feita na cara dura pelas companhias aéreas.
Aguardam-se 4 horas num aeroporto bem xinfrim (se fosse bacana até compensaria
a longa espera) para voar 1 hora até Puerto Ordaz onde pernoitamos. Cedinho,
7:30, já estamos no busão em direção a Ciudad Bolivar onde pegamos 3 avionetas
do tempo de Saint Exupery. Aqui já começa a aventura! Na nossa, há 6 assentos.
O piloto, Carlos, maneja com perícia o balouçante veículo. As turbulências,
quando as há, são leves. O céu alterna corredores nublados com espaços abertos
donde vejo enquanto nos afastamos de Bolívar as casas diminuindo de tamanho e o
rio Orinoco passando ao largo desfilando suas águas amarronzadas. Voando a uns
1.000 metro de altura, dá pra distinguir bem a paisagem. Relevo, inicialmente,
plano, monótono, com vegetação predominantemente arbustiva. Impactante a
desfiguração provocada pela construção da gigantesca usina hidroelétrica de
Guri, no limiar da floresta amazônica. Após 50 minutos de voo, a espessa
vegetação da floresta amazônica começa a dar pinta. Aqui e ali, pontos amarelos
e rosados quebram o predomínio do verde. Ao passar pelo rio Carrao, a
devastação causada pela mineração é desoladora. De repente, na paisagem plana,
os tepuis começam a aflorar, espocando tal pipoca no solo. Majestoso é pouco
pra descrever a belezura desse tipo de elevação, em forma de meseta, com
paredes verticais, cuja altura varia de 2 mil a 2.900 metros. Paramos na aldeia
Kamarata para deixar 2 caixas de papelão com comida (o cheiro é muiiitoooo
bommm). O piloto desce e as entrega a um índio que, juntamente, com sua mulher,
estão esperando a encomenda sentados em sua motocicleta. Quando aterrissamos,
em Uruyen, até eu bato palmas!! Que deu um pouco de medo de voar na tal
avioneta, ah, isso deu! Uruyen é uma das tantas aldeias indígenas pemones,
localizadas no setor ocidental do Parque Nacional Canaima. O lugar conta com 8
ou 9 casas de adobe em formato de oca, feitas pela comunidade cujos tetos de
palha exibem elaborados trançados. A paisagem que se desfruta de qualquer lugar
onde se esteja é a da magnífica face sudeste do Auyantepui e de suas encostas
revestidas de vegetação. Com altas muralhas formando recortes variados, sua
superfície alcança 700 km², motivo por que é de longe o maior de todos tepuis
existente no globo terrestre. Daqui da aldeia, já dá pra perceber a maravilha
que vai ser essa pernada. Atrás de nossa casinha, corre o rio Yurwan de águas
cristalinas. Esta região onde estamos chama-se vale Kamarata, rodeado por
dezenas de outros tepuis além do Auyan. A Venezuela detém a maioria dos tepuis
do planeta: 115! A maioria localiza-se aqui no Parque Nacional
Canaima. O restante – 140 - estão distribuídos pela Colombia, Brasil, Africa e
Australia. O mais alto tepui do planeta é o Roraima onde já estive há um par de
anos. No almoço, preparado pela pemone Dulce, é servido arroz, peixe e salada.
E um tempero muito apreciado pelos pemones, o kumate. O molho é obtido mediante
um complexo processo em que se misturam aji e yuka. Dependendo da tribo, são
acrescentados, cupins, formigas ou peixes. Pura proteína, tá ligado? Eu adorei
o ardido tempero. Os pemones que habitam o vale Kamarata pertencem à tribo
Kamarakoto. Na dinâmica política dos pemones, o líder máximo é chamado
capitão-general (?!!), já nas comunidades, o manda-chuva tem a patente de
capitão (por tupã, não entendi e também não conseguiram me explicar o
motivo de os índios terem adotado a hierarquia militar dos brancos).
Conversando com um dos pemones, comento sobre os efeitos deletérios causados
pela mineração. Ele conta que tal atividade econômica foi estatizada, porquanto
eles próprios se indignaram com o impactante sistema de extração do ouro usando
máquinas e mercúrio. Exigiram do governo a proibição desse tipo de garimpagem.
Atualmente, os indígenas continuam a exploração aurífera mas no sistema antigo
de bateia que não polui o ambiente. Um breve descanso após almoço (meu
descanso foi arrumar e desarrumar minhas tralhas num frenesi compulsivo que nem
20 anos de terapia têm conseguido resolver) e tocamos rumo ao canyon do rio
Yurwan. Calor na medida certa, céu pintalgado de nuvens fofas, tipo flocos de
algodão, usufruo da visão desbundante do poderoso Auyantepui durante toda a
pernada. O paredão cheio de pontas irregulares em seu topo lembra uma muralha,
sobressaindo entre a compacidade rochosa algo semelhante a um gigantesco
portão, como aqueles dos castelos medievais. À esquerda, outra escultura nas
rochas remete às torres de vigia. Resguardado está o pétreo feudo! Depois de
atravessar um trecho de savana, penetra-se numa mata que tem como limite a
superfície lindamente amarelada do rio Yurwan. Não há como resistir a um
tchibum nas águas frescas onde, infelizmente, a pulseira de prata que enfeita
meu pulso direito é reivindicada por alguma entidade.....será? Se for Yara, que
faça bom proveito....arghhh!! Atravessamos o rio e continuamos a caminhar ao
longo do verdejante bosque até um brete de tirar o fôlega cujas paredes bem
próximas uma da outra tornam o local escuro como aquelas antigas igrejas
católicas (lembrei demais da garganta Kaigangue, localizada em Praia Grande/SC).
O brete desemboca num lago circundado por paredes rochosas de 20 metros de
altura donde despenca uma cachu cujo jorro d’água retumba no anfiteatro de
pedra. Fico desbundada, nunca tinha visto algo igual. A pernada de retorno se
dá quase ao entardecer, motivo por que apuro o passo já que não trago lanterna
na mochila. Vou pro meu quarto assim que termina a janta, dessa feita,
preparada pelos guias. Não demora muito chegam os dois belgas com quem divido o
quarto. São tranqüilos e custo um pouco a dormir porque minha cama sem
mosquiteiro não me protege das baratas que insistem em dar rasantes sobre meu
rosto. Não resta outra alternativa, a não ser sair a cata dum filó pra me proteger das
cucarachas.....hehe.
Às
vezes me dá uma baita preguiça de organizar as viagens, talvez por isso ano
passado não tenha feito nenhum trek. Claro está que também influiu a alta do
dólar inflando o real de tal modo que nada mais restou de realeza na moeda
pátria. Bueno, há um par de anos, Orlei Junior, profe de escalada, numa
daquelas conversas que se tem ao pé duma parede enquanto estamos nos equipando, na ponta dos cascos, prontos pra trepar nas pedras,
acenou com tentadora proposta de rapelarmos o Salto Angel, maior queda d’água
do planeta. Contudo, a ideia não vingou. No final do ano passado, Dib,
fotógrafo especializado em trips de aventura, enviou um convite via FaceBook
pra eu participar duma expedição fotográfica. Sabe pra onde? Pro Auyantepui
donde a cachu se lança numa verticalidade de 979 m parede abaixo!!! Não
hesitei, aceitei o convite no ato. Depois que me pus a pensar na magnitude de
tal indiada. Infelizmente, a trip não decolou por falta de quórum mas a essa
altura eu já estava tão super mega pilhada - até vídeos sobre o assunto já
curtira no youtube – que contatei uma agência venezuelana especializada nesse
tipo de turismo de aventura. Ficou então acertado que eu me juntaria a um grupo
de belgas que partiria de Caracas em 6 de fevereiro e de lá rumaríamos até o Parque
Nacional Canaima onde a aventura teria início. Embarco, assim, na quinta, por volta das
13 horas, num avião da Copa, com conexão no Panamá, chegando em Caracas
passados 15 minutos da ½ noite. Quando da aterrissagem já dá pra perceber,
embora noite, que a cidade, situada a 900 msnm, é rodeada por montanhas. Um
alívio sair da cabine refrigeradésima do avião pro calorzinho gostoso da
capital venezuelana. Henry Gonzales, dono da Explora Treks (http://exploratreks.com/), aguarda diante do
portão de desembarque segurando plaquinha com meu nome. Afinal, não nos
conhecemos ainda. Deixa-me no hotel, localizado no bairro Palos Grandes onde fico,
bem baixada, na cama, durante a manhã, assistindo ao canal estatal Telesur que,
disciplinadamente, alimenta o culto à personalidade do falecido presidente
Chaves. Somente na China, à época de Mao, e agora na Coreia do Norte, se
encontra algo comparável. Almoçamos eu e Henry, num restaurante popular, um
combo com direito a prato principal, água ou suco, mais sopa ou sobremesa.
Escolho suco e iogurte. Tudo muito gostoso, bem caseiro; a acidez do iogurte na
medida certa. Palos Grandes é bairro de classe média alta, bem movimentado,
com trâfego de carros intenso. Os caraquenhos usam e abusam da buzina já que não
há punição, como no Brasil, para tal espécie de infração. À tarde, Mario, um dos guias que
participará da expedição, vem me buscar para eu conhecer o cerro Avila que
havia entrevisto do avião quando da aterrissagem. O Avila é um dos cerros que compõeo
Parque Nacional Waraira Repano ou Parque Nacional El Ávila,minicordilheira com 80 km de extensão e 16 km de largura cujo ponto mais alto é o Pico Naiguatá com 2.765 msnm. Há várias
entradas para se acessar o parque. Em sendo assim, o guia escolhe subir pela Sabas
Nieve, onde dois militares (um homem e uma mulher) da Guarda Nacional vigiam o
lugar de fuzil em punho. A acintosa vigilância tem como causa o aumento crescente
de roubos que flagelam os venezuelanos nesta tormentosa crise por que
passa o país. Tão tormentosa a situação econômica que itens básicos de alimentação se tornam escassos nas prateleiras dos supermercados. Daí por que os assaltos
às cozinhas das residências são cada vez frequentes!! E quem sai dos mercados com suas sacolas frequentemente se vê espoliado de suas compras. A
trilha é freqüentada por dezenas de pessoas que se exercitam pelas íngremes
encostas. Paramos no mirador onde conheço a simpática e falante Edith,
colombiana que veio pra Venezuela quando o país usufruía de boas condições
econômicas. Nos dias atuais, ironicamente, quem goza de prosperidade é a Colombia. Ela inicia
o papo convidando-me a provar dum picolé de tamarindo, guloseima super
apreciada na cidade. Conta que vive no bairro Califórnia e revela, sempre
sorridente, que gosta muito de bailar. Maliciosa, esclarece que sambar “es como
matar cucarachas” e dá risada quando evoca a imagem da popular dança brasileira.
Tenho de rir, porque os passos miúdos do samba são um contraponto ao bailado
esparramado dos ritmos caribenhos. A pele lisa de Edith é invejável,
considerando que se encontra na faixa do 50 e tantos anos. Também, pudera, com
toda essa ascendência indígena! Podicre, quero ser índia noutra encarnação!
Todas as pessoas com quem converso se queixam espontaneamente da violência sem
que eu precise puxar assunto. Sinto que estão transbordando de indignação.
Mario explica que o pífio salário mínimo – em torno de 20 dólares – “menor que lo
de Cuba”, faz com que muitos caraquenhos prefiram assaltar a trabalhar. Isso
porque - pra comprar um calçado -é necessário economizar durante 10 meses!Caminhamos um
pouco pelo elegante bairro de Altamira cujas casas e edifícios luxuosos denotam
o alto poder aquisitivo de seus moradores. Não vejo mendigos nas ruas tampouco
gente caminhando neste agradável bairro sombreado por alamedas de árvores. Entocados, os
venezuelanos, da classe baixa à alta, todos estão com medo! Diante de
tantos relatos assustadores de violência urbana, mais assustadores que os existentes
no Brasil, opto por permanecer na segurança de meu hotel onde janto um
fettucine al sugo, muito bem feitinho. De bebida, escolho rum a las rocas, que
significa com gelo, hehe (on the rock, tá ligado?). Em Roma como os romanos, já
que nesta zona do Caribe são produzidos os melhores runs do planeta. O difícil
é ficar numa dose só porque essa bebida é assanhada de boa! E pega rápido que
nem dengue em país tropical.
Domingo
de céu nem tão aberto assim quando saímos de Mundaú às 7 da manhã rumo a Icaraí
de Amontada, Johny, o mesmo barqueiro da navegação que fizéramos ontem à tardinha
no rio Mundaú, nos atravessa pro outro lado da península. Se assim não fosse, teríamos
que adentrar o continente, pegar 2 rodovias, a 163 e a 168, pra voltar a
pedalar na praia. Colocadas as bicis no barco, não dá 15 minutos e já estamos
no outro lado da península, poupando precioso tempo. Próximo a Mundaú, ainda se
vê vegetação de mangue, devido à presença do rio. Tô começando a apreciar esse
vento, a um porque ele é favorável, e a dois porque evita que eu sue como uma
condenada. A primeira praia pela qual passamos é Baleia seguida de Apiques. Contudo,
a ordem de Comandante Alencar é seguir em frente, sem paradinhas e assim aproveitarmos
a larga faixa de areia deixada pela maré baixa. Caso sejamos pegas pela preamar, teremos de pedalar,
ou melhor, empurrar as bicis ao longo de 3 km de arrecifes, próximos às dunas. Conforme ensinamento de Nara, o bom é sair quando a maré
cheia está nos seus últimos suspiros, num movimento de recuo, iniciando a expor, assim, maior extensão de terra. Ao
contrário do dia anterior, algumas nuvens de coloração acinzentada fogem da
usual brancura que costumam exibir. Será que choverá, pergunto aos meus botões?
Ao longo da costa, as folhas dos coqueiros farfalham ao vento. Paro duas vezes pra
fotografar dois pequenos cemitérios pousados sobre dunas. Com seus túmulos
branquinhos, caiados de cal, singelas cruzes de madeira escura assinalam sua origem
cristã. Desde Lagoinha, as indefectíveis estações eólicas têm dado o ar da
graça, exibindo a bizarrice moderna de seus moinhos de vento. Urubus repartem
entre si o enorme corpo morto duma tartaruga. É o ciclo natural da cadeia
alimentar: atiram ao mar os pescadores suas redes em busca do peixe-sustento,
ao passo que os urubus se atiram às carniças. Uma extensão grande de recifes,
cujos afloramentos estão bem visíveis em razão de a maré ainda estar vazando,
forma piscinas naturais cheias de água
transparente tão clarinha é. Muita gente pesca nos atóis, aproveitando a maré
baixa. Ultrapassado enfim o tal pedrario, Comandante Alencar permite que
paremos em Caetanos de Cima. Eu louca que estou pra bebericar tanto água de
côco quanto ypioca, fico desapontada quando a encarregada do Bar e Restaurante
das Mulheres avisa que está sem água de côco, tampouco vende cachaça. A explicação de
não vender o destilado tem origem no tanto que botam boneco (tradução do
cearês: badernaço de bebum) os homens ao beberem a danada. Pra minha alegria,
mal pedalados 2 km, eis Caetanos de Baixo, com mais opções de barzinhos que o de
Cima, e, graças a deus, sem as rígidas regras do estabelecimento anterior. Capitaneado
pela falante Claudia, entramos no Estrela do Mar, fresca tenda coberta por
folhas de coqueiro, que serve não só água de côco como ypioca. Tento avisar
Comandante Alencar e Menina Brandão mas fico em dúvida se entenderam meu
gestual sinalizando nossa paradinha porque as duas queridas estão 200 metros
além. Felizes da vida que nem pinto no lixo, eu e Cris nos lavamos na água de
côco, além de cerveja – ela -, e esta senhorinha de ½ idade, na branquinha. Claudia
gentilmente nos dá pra provar 2 espetinhos camarão ao alho e óleo. Oxente, boa demais essa vida! Percebemos eu e
Amotinada Tavares que Comandante Alencar se equivocou em relação à localização
da temida faixa de pedras, porque é aqui, próxima a Icaraizinho, que a dita
cuja se aninha. Na beira d’água, os primitivos currais de peixes feitos com
escuras varetas fincadas no mar, à semelhança dum labirinto, atraem os peixes pelas
sombras que lançam à água. E dale a atravessar pequenas barras formadas por
riachinhos. Delícia tudo isso! Já em
Icaraí de Amontada, praia, atualmente, eleita a queridinha dos
fortalenses, apelidada carinhosamente de Icaraizinho, tem um ar de paraíso
perdido, segundo os nativos, semelhante à Jericoacoara de 20 anos atrás.
Pousadas charmosas com boa infra atraem os turistas de maior poder aquisitivo. Porque açoitada essa parte do litoral durante alguns meses do ano pelos
fortes ventos alísios, a prática do kite surf vem cada vez mais se difundido, o que seduz a galera jovem e descolada da capital. E após
pedalarmos 41 km em 4 horas e 45 minutos, chegamos à pousada Villa Mango, onde celebraremos
com um baita almoço o memorável pedal. Sorridentes, faceiras, inesperadamente, uma cachoeira de
água geladésima cai sobre nós na forma de nova reprimenda aplicada por Comandante
Alencar! Tudo por causa de nossa breve parada no Estrela do Mar. Além de nos
penalizar com frio tratamento, decreta nosso banimento sumário de
futuros pedais a serem organizados por ela. Valha-me deus, Comandante
Alencar, dessa feita não lhe dou razão alguma, não! E acredite se quiser, a meiga cearense foi emburrada até Fortaleza!!
Embora, hoje,sábado, não tenha pedal, Nara dá
toque de alvorada às 7 da matina. Só falta a corneta pra gente se sentir num
quartel. A guria cearense é linha dura, oxente, motivo por que começo a chamá-la
de Comandante Alencar. E lá vamos nós, após o desjejum, caminhar ao longo da
praia. Nuvens encobrem vez por outra o astro-rei, motivo por que nem me
preocupo em cobrir minha alva barriga. É um desastre a coloração deste meu corpitcho: somente rosto, braços e pernas – estas um pouco acima dos joelhos - bronzeados. O resto, duma brancura europeia, graças
aos antepassados maternos, oriundos do norte da Itália. Quando estamos voltando pra casa, Nara, com sua fala mansa, em tom sempre baixo, começa a me dar um pito por causa do que rolou ontem. Afe maria, e eu até então crente que não resultaria maiores consequências da nossa irrefletida decisão. Triste engano, o meu! Deixem estar que vou revelar tudinho o que se passou. E deus que nem me perdoe se não é a pura verdade o que passo então a contar. Pois tudo iniciou quando, ontem, ao pararmos em Flecheiras, Nara,
cuja bici não é das mais adequada às areias praianas, comunicou que iria pedalar na
rodovia. Deixou, contudo, nós três livres pra continuarmos o pedal pela praia. Parceria
é parceria, disse eu, e assim ficou decidido que iríamos juntas as quatro asfalto
afora. A Comandante e Menina Brandão largaram na frente, ficando eu e Cristina pra
trás, tudo tudo porque a paisagem pedia pra ser filmada. Nesse ínterim, Nara e Alu já
se haviam se distanciado de modo que as perdemos de vista. Bueno, percorridos cerca duns 5
km, Cris se queixou de que tava foda pedalar na estrada pois o calor emanado do
asfalto era demais pra bola dela. Convidou-me então pra voltarmos a pedalar à
beira mar. Sem muito pensar, aceitei a proposta, e embicamos em direção à praia.
Quando chegamos a Mundaú, Comandante e Menina não estavam em casa. Iva, que ali já se encontrava há horas porque fora de auto, diz que Nara, preocupada, pegara o carro pra averiguar
o que nos acontecera. Baaah, pensei na hora: fudeu!! No retorno, Nara indaga por onde
viéramos. Cris e eu damos uma enrolada, não abrindo totalmente o jogo. Explico
que, um pouco antes de chegarmos a Mundaú, decidimos abandonar a estrada e vir
pela praia pra curtir o visual. Porém a perspicaz Nara, como boa psicanalista
que é, sacou a real mas deixou quieta nossa ½ verdade. E guardou a ralhação pro
dia seguinte, nos fazendo crer que estaríamos livres de qualquer
questionamento. Nem cogito em me
defender. Aceito a reprimenda e, como boa cristão cheia de culpa, peço perdão pra
ganhar a absolvição e, assim, me sentir aliviada. Feitas as pazes, voltamos novamente a ser amiguinhas. Ainda
pela manhã, vamos, Menina Brandão, Comandante Alencar e eu, a Amotinada Azevedo
(como passei a me autointitular após o imbroglio), até as dunas que circundam
o rio Mundaú, onde está plantado outro parque eólico. De dentro d’água, curto,
fascinada, o girar incessante das gigantescas pás metálicas desses modernos
moinhos de vento. No almoço, encanto Iva, exibindo minhas habilidades de
barwoman, ao preparar caipirinhas de limão com uísque ao invés de cachaça. Jamais
passou pela loira cabeça de Iva, minha irmã de tragoleu, ser possível o uso de
tal destilado neste famoso coquetel brasileiro. Como a beberagem foi forte, o corpo pede um descanso. Assim, sesteamos
até as 16 e 30 quando então saímos prum passeio de barco. A pequena embarcação a motor, pilotada pelo jovem e simpático Johny, percorre um trecho do rio Mundaú
cujas margens exibem cerrado manguezal. Um labirinto só esses
mangues formados por tramas de retorcidas e intrincadas raízes expostas ao ar
livre. Na vazante, os pescadores pegam, com as mãos despidas, os caranguejos que se escondem em tocas, cavadas rentes às lamacentas margens. Quando retornamos ao cais, o fenômeno
da super lua cheia, que a torna maior e mais brilhante que o normal,
arranca exclamações de admiração da Amotinada Tavares. Por ter se aventurado num belo tragoleu antes,
durante e pós almoço, a sempre contida Cristina, que mede cada palavra dita, tá
sem trava na língua. E como toda bebum, seu conversê limita-se àquela
cantilena efusiva e repetitiva tipo “olhem, coisa mais linda, bota lindo nisso,
olhem!!”, pontuando tudo com alegres risadinhas. E atrás das dunas, a lua, à
medida que vai subindo, perde sua coloração alaranjada para assumir de vez sua usual
brancura.
Há
coisa dum mês recebo um telefonema com prefixo 85 e logo me questiono “donde do
Brasil, oxente?” Era Nara Alencar, direto
de Fortaleza, a quem conhecera faz 3 anos
durante um baita pedal em Urubici. Claro está que não ficamos todo esse tempo
sem nos ver, porque coisa dum ano depois, ela me convidou pra pedalar na
capital cearense e adjacências. Aceitei no ato e me toquei de mala, mas sem cuia! Dessa feita, a guria me convida pra passar um fim de semana de modo a
participar do pedal 4 Mulheres e um Destino. E agora, eis euzinha, esta
senhorinha de ½ idade que vos escreve, uma vez mais, retornando à terra de José
de Alencar. Serão por acaso tais sobrenomes? O de minha amiga e do grande escritor? Preciso indagar Nara sobre. Do
aeroporto, após os festejos de praxe, sou levada pelas cearenses Narita e Alu Brandão prum restaurante de massas.
Intimamente, troco uma ideia com meus botões e faço aquela cara de desgosto que
expressa “comer massa? aqui, no Ceará?” Pois não é que tive de dar o braço a
torcer?! O restaurante Pasta e Pizzas tem em seu menu não só as tradicionais
massas, apelidadas de forno e especiais de fogão, como ainda as assim
denominadas massas de fogão, que vêm a ser aquelas com frutos do frutos do mar,
abundantes no litoral cearense. De lamber os beiços a comilança. Difícil resistir
e não pedir bis, tris e sair rolando tão boas as pastas são. Um arraso o
fettucini Maria Izabel, com carne de sol refogada com cebola, molho de tomate
e creme de leite. Além do ponto de cozimento perfeito, bem al dente, os
temperos e os ingredientes fazem a delícia de meu paladar. Além de mim, Nara (a idealizadora espiritual do pedal) e Alu (embora
debochada, é amiga leal, ciclista de ocasião e entusiasta das aventuras na
natureza), também se encontra à mesa Cristina Tavares (única conhecedora de
rudimentos básicos de mecânica de bici, a maranhense, dona dum humor peculiar, trata todo
mundo de colega). E pra coroar tão lauto jantar, aquele toquezinho sulista na refeição: espumante gaúcho, bem
geladinho pra brindar o tão aguardado pedal. De pancinha cheia, adormeço tal qual um anjo. Acordo na
sexta-feira, passado um pouco das 5 da manhã, e vislumbro através da janela uma
baita claridade! Devido ao dia amanhecer cedo nesta parte do país, e também por
causa do calor, às 6 e 30, quando saímos de Fortaleza – não de bici ainda e sim
de carro - bastante gente já está correndo no calçadão à beira mar. Ivanara, irmão
de Nara cujo nome de batismo é Ianara, nos deixa em Lagoinha, distante
100 km da capital, donde o pedal iniciará. Esta praia, pouco explorada pela
turistada, exibe um visual lindo formado por dunas, coqueiros e falésias
avermelhadas, que se situam a 100 metros do mar, se tanto. Pequenos percalços
com as bicis de Nara e Cristina nos obrigam a parar. A da primeira, um freio reticente enquanto a
da segunda, o guidão foi montado ao contrário. E não é que a criatura
ainda pedalou uns 500 metros com a bici assim? Na primeira praia após Lagoinha, a
sossegado Guajiru, fazemos um bem vindo pit stop. Peço uma água de côco de modo a
hidratar o organismo pro que vem depois: a deliciosa cachacinha cearense. Nem
bem pedalados 7 km, nova parada em Flecheiras, no bar duma bela pousada, em
frente à imensidão verde do mar. Amiúde, despontam, na faixa de areia, piscinas naturais resultantes da ação da maré alta. Peço uma dose de Ypioca
ao passo que as gurias vão de cerveja. Como sei que o povo de outros estados
adora quando os gaúchos falam à moda gaudéria, solto o famoso “baaah tche, barbaridade de boa essa Ypioca!” Elas adoram escutar eu falando "bah".... hahaha!! Embora não
seja de rajadas, o vento é constante. Sorte nossa que sopra numa direção
predominantemente SE-NO. Não à-toa, Narita, espertamente, bolou o percurso
rumo ao norte. Em diversos momentos não se faz necessário pedalar: o vento
se encarrega de empurrar a bici como se ela fosse um veleiro. Nas praias próximas às vilas de pescadores, coloridas velas de kite surf enfunadas
se erguem em rápidos vôos rentes ao mar. Céu de brigadeiro sem nuvem alguma embaçando o sol. A
lisura da praia só é interrompida por pequenas covas causadas pelo refluxo da maré. Várias barras formadas por riachos em cujas margens formam-se degraus.
Contudo não de molde a obstaculizar a travessia das bicis. Ao longo da
costa que conduz a Mundaú, perpendiculares ao mar, parques eólicos, formados
por esguias torres e hélices metálicas de coloração branca, exibem design
estilizado de moinhos de vento dantanho. O odômetro registra 38 km pedalados
ao longo de 5 horas e 15 minutos quando em Mundaú freamos em definitivo as bicis. Aqui pernoitaremos, até domingo, na residência
das irmãs Alencar cujo privilegiado quintal fica diante do rio Mundaú! Esta praia, nos dias
que correm, já é bem conhecida no circuito litorâneo do estado. Encantador, o
balneário, além das elevadas dunas e das lagoas, exibe piscinas naturais à
beira mar. O pequeno vilarejo conta com vários mercadinhos bem sortidos. Num
deles descubro o sorvete Pardal, famosa fábrica de sorvete cearense, que
prestigia os sabores regionais de graviola, cajá, castanha e milho. Me atraco num de graviola, uma delícia! Ao longo da rua da Praia, uma deliciosa sonoridade amadeirada de tac tac tac se faz ouvir. É o som produzido pelas rendeiras ao
manejar aos pares os bilros. O resultado do artesanato, herança portuguesa, zelosamente transmitida
de mães pras filhas, desde quando estas são meninas, é pendurado em
cabides, nas janelas das casas: vestidos, toalhas e blusas feitas de renda de
bilro ou birro. No almoço feito por Ivanara, macarronada com lagosta e porco a pururuca acompanhado por arroz. De bebida,
aceito a caipirinha de cajá preparada por Iva. As demais colegas mantêm-se firmes na cervejinha. Depois da
séstia, Iva faz deliciosas tapiocas recheadas com banana caramelada. Pouca
demora, saímos de casa pra aproveitar o que resta de pôr do sol. Na praça de
piso alajotado, construída justo no ponto de encontro das águas do Mundaú com as águas do Atlântico, ambas igualmente verdes, descortina-se do lado de lá do rio outra estação eólica,
plantada entre dunas. Já entardecendo, a paisagem adquire uma tonalidade
rosada, resultado dos últimos raios do sol poente. Tô no paraíso, oxente! Tenho ou não razão de estar prosa?
Interessante que se eu comparar o cicloturismo feito em março na Patagônia argentina com o pedalado recentemente nos campos de cima da serra, na região de Ausentes, guardo melhores recuerdos deste último. Refletindo sobre tal sentimento chego à conclusão de que o cicloturismo de 6 dias na chamada região dos 7 lagos, compreendida entre San Martin de los Andes e Bariloche, embora inegávelmente bela seja a paisagem, não faz muito meu estilo. Por quê? A principal razão foi que os deslocamentos entre as cidades praticamente se deram em asfalto, enfrentando a super movimentada Ruta 40, cujo tráfego intenso de caminhões e carros exigia bastante atenção. Em segundo lugar, tais points, de óbvio apelo turístico (à semelhança de nossa Gramado), não me atraem muito. Sou mais a fim dos menos civilizados. Claro está que curto lugares charmosos e confortáveis, pero se me é dado escolher, sempre aponto o dedo no globo terrestre para aqueles pouco freqüentados, tanto pelos locais quanto por viajantes. Como não poderia deixar de ser, as villas patagônicas por onde andei - San Martin, Traful e La Angostura - exibem aquele visual bonitinho, certinho, com os indefectíveis prédios e interiores estilosos – no caso, o falso rústico, usando e abusando de pedras e madeiras (mais uma vez Gramado me veio a cabeça). Nos dois primeiros dias, ficamos em San Martin, pequena e charmosa cidade,pertencente à província de Neuquén, aninhada à margem do lago Lácar onde pedalei, aí sim, em estradas de chão batido, até o mirador Bandurrias de onde se tem uma visão estupenda do lago Lácar e de alguns cerros adjacentes, dentre eles o Chapelco que mereceu uma visita no segundo dia de pedal. Nos outros 4 dias, conheci vários lagos, como o Villarino, Traful, onde às suas margens localiza-se a pacata vila de mesmo nome, Correntoso, Bailey Willis, Espejo e por fim o infindável Nahuel Huapi em cuja margem desponta a efervescente Bariloche, cidade a meus olhos super desinteressante, exceto pelas lojas especializadas no comércio de chocolate, diga-se de passagem, de excelente qualidade. Chamou atenção na ruta 63, estrada de chão batido que liga vila Traful à ruta 40, vestígios, no chão e nas árvores, das cinzas expelidas pela erupção do vulcão Puyehue, ocorrida em 2011. Se for para escolher do que mais gostei, fico com o bosque de los Arrayanes, de onde se tem uma admirável visão das águas azuladas do lago Nahuel Huapi e da laguna Verde, em Villa La Angostura. Graças a deus, uma semana após meu retorno, já tinha agendado um pedal com uma figuraça que atende pelo nome de Marcos Grandi, um caxiense sempre bem humorado e entusiasta da vida ao ar livre como eu. Assim foi que passei um fim de semana na serra, mais exatamente acampada no mirante Gelain, situado em Flores da Cunha, de onde se descortina uma das trocentas dobras do serpenteante rio das Antas. Pra celebrar o findi e nosso reencontro após um ano, Marcão bolou um pedal maneiro, bem light, de aproximadamente 50 km. Com início em Caxias do Sul, percorremos, inicialmente, a hoje asfaltadíssima Linha 30, conhecida como Caminhos da Colônia até Otávio Rocha, onde almoçamos umas gordices empapadas de gordura que rebatemos com uma jarra de vinho da colônia. Pra fazer a digestão, uma pegadinha de chão batido até o sítio dos Bernardi onde experimentamos suco de mirtilo e cachacinha de alambique, retornando a Caxias pela Linha 60, novamente socando a bota no asfalto. No domingão, caminhada de 9 km na mata atlântica, percorrendo uma antiga picada aberta por caçadores que parte do Belvedere Sonda até um ponto da margem esquerda do rio das Antas onde fluem as nervosas águas da corredeira Armagedon sucedida pelo despencar furioso do Cachoeirão. No feriado de Tiradentes, mês de abril, resolvi aceitar o convite de Fátima e me mandei pra Telêmaco Borba/PR, onde pedalei por 3 dias, percorrendo basicamente estradas de chão batido cascalhentas (odeio esse tipo de estrada porque quando comprei um terreno me ralei toda) na companhia dum grupo de curitibanos, chamado Klandestinos. Com algumas subidas e descidas pegadas, o pedal transcorreu em meio à sombra dos altos e delgados eucaliptos e pinus, fruto duma ação de reflorestamento de 11 mil hectares realizada pela empresa de celulose Klabin. Em maio, na metade do mês, retornei a Caxias onde acampei mais uma vez na companhia do simpaticíssimo Grandi no mirante Gelain pedalando dessa feita na região de Nova Pádua. Foram 50 km de estradas asfaltadas e de chão batido tendo como cenário vales e serras da região dos vinhedos, conhecendo alguns travessões (nome herdado da divisão administrativa da época imperial onde colônia se dividia em léguas e estas em linhas ou travessões) cujo destaque foi o do travessão Curuzu. Ao longo das estradas, bergamoteiras e laranjeiras, carregadinhas de frutas maduras, eram um convite irresistível a que parássemos e as desfrutássemos. No final de maio, nos mandamos eu, Kelly, Henrique Butina Weyne e Carlos Armando pro sul de Santa Catarina onde, no sábado, pedalamos num bate-e-volta de 40 km entre Praia Grande e Comunidade São Roque com direito a uma escalaminhada até o topo da Pedra Branca. Já no domingão, um pedalito e pernada leves no Parque Nacional Aparados da Serra. Encerrando o primeiro semestre de 2015, a cereja dos pedais, sem sombra de dúvida, foi aquele organizado pela Guenoa e Akatu (empresas de Caxias do Sul), na região dos campos de cima da serra entre Jaquirana e São José dos Ausentes. Foram 3 dias pedalando sobre chão nem tão batido assim, com muiiitas subidas e algumas descidas bem técnicas, crivadas de pedras soltas. No 1º dia, pedal perrenguento que saiu de Jaquirana e terminou em Ausentes, com direito a travessia nas águas geladíssimas do rio Camisas. Tanta dor senti nos pés por causa da baixíssima temperatura da água que, por pouco, não pedi a um dos guris que, por favor, me pegasse no colo e me levasse até a outra margem. Já no 2º dia, a aventura incluiu uma visita ao canyon Amola Faca, belíssima garganta situada a 15 km do distrito de Silveira. E no 3º e último dia, a indiada pedalícia terminou nas curvas deslumbrantes da serra da Rocinha. Sem sombra de dúvidas, os campos de cima da serra gaúcha além de serem bem mais preservados são muito mais belos do que os campos gerais paranaenses que eu conhecera no pedal de abril. Afora que lá não dão pinta os impressionantes canyons que aqui enriquecem sobremaneira o visual!