sábado, 29 de agosto de 2015

Arribação em Mundaú

Embora, hoje, sábado, não tenha pedal,  Nara dá toque de alvorada às 7 da matina. Só falta a corneta pra gente se sentir num quartel. A guria cearense é linha dura, oxente, motivo por que começo a chamá-la de Comandante Alencar. E lá vamos nós, após o desjejum, caminhar ao longo da praia. Nuvens encobrem vez por outra o astro-rei, motivo por que nem me preocupo em cobrir minha alva barriga. É um desastre a coloração deste meu corpitcho: somente rosto, braços e pernas – estas um pouco acima dos joelhos - bronzeados. O resto, duma brancura europeia, graças aos antepassados maternos, oriundo do norte da Itália. Quando estamos voltando pra casa, Nara, com sua fala mansa em tom sempre baixo, começa a me dar um pito por causa do que rolou ontem. Afe maria, e eu até então crente que não resultaria maiores consequências da nossa irrefletida decisão. Triste engano, o meu! Deixem estar que vou revelar tudinho o que se passou. E deus que nem me perdoe se não é a pura verdade o que passo então a contar. Pois tudo iniciou quando, ontem, ao pararmos em Flecheiras, Nara, cuja bici não é das mais adequada às areias praianas, comunicou que iria pedalar na rodovia. Deixou, contudo, nós três livres pra continuarmos o pedal pela praia. Parceria é parceria, disse eu, e assim ficou decidido que iríamos juntas as quatro asfalto afora. A Comandante e Menina Brandão largaram na frente, ficando eu e Cristina pra trás, tudo tudo porque a paisagem pedia pra ser filmada. Nesse ínterim, Nara e Alu já se haviam se distanciado de modo que as perdemos de vista. Bueno, percorridos cerca duns 5 km, Cris se queixou de que tava foda pedalar na estrada pois o calor emanado do asfalto era demais pra bola dela. Convidou-me então pra voltarmos a pedalar à beira mar. Sem muito pensar, aceitei a proposta, e embicamos em direção à praia. Quando chegamos a Mundaú, Comandante e Menina não estavam em casa. Iva, que ali já se encontrava há horas porque fora de auto, diz que Nara, preocupada, pegara o carro pra averiguar o que nos acontecera. Baaah, pensei na hora: fudeu!! No retorno, Nara indaga por onde viéramos. Cris e eu damos uma enrolada, não abrindo totalmente o jogo. Explico que, um pouco antes de chegarmos a Mundaú, decidimos abandonar a estrada e vir pela praia pra curtir o visual. Porém a perspicaz Nara, como boa psicanalista que é, sacou a real mas deixou quieta nossa ½ verdade. E guardou a ralhação pro dia seguinte, nos fazendo crer que estaríamos livres de qualquer questionamento. Nem cogito em me defender. Aceito a reprimenda e, como boa cristão cheia de culpa, peço perdão pra ganhar a absolvição e, assim, me sentir aliviada. Feitas as pazes, voltamos novamente a ser amiguinhas. Ainda pela manhã, vamos, Menina Brandão, Comandante Alencar e eu, a Amotinada Azevedo (como passei a me autointitular após o imbroglio), até as dunas, que circundam o rio Mundaú, onde está plantado outro parque eólico. De dentro d’água, curto, fascinada, o girar incessante das gigantescas pás metálicas desses modernos moinhos de vento. No almoço, encanto Iva, exibindo minhas habilidades de barwoman, ao preparar caipirinhas de limão com uísque ao invés de cachaça. Jamais passou pela loira cabeça de Iva, minha irmã de tragoleu, ser possível o uso de tal destilado neste famoso coquetel brasileiro. Como a beberagem foi forte, o corpo pede um descanso. Assim, sesteamos até as 16 e 30 quando então saímos prum passeio de barco. A pequena embarcação a motor, pilotada pelo jovem e simpático Johny, percorre um trecho do rio Mundaú cujas margens exibem cerrado manguezal. Um labirinto só esses mangues formados por tramas de retorcidas e intricadas raízes expostas ao ar livre. Na vazante, os pescadores pegam, com as mãos despidas, os caranguejos que se escondem em tocas, cavadas rentes às lamacentas margens. Quando retornamos ao cais, o fenômeno da super lua cheia, que a torna maior e mais brilhante que o normal, arranca exclamações de admiração da Amotinada Tavares. Por ter se aventurado num belo tragoleu antes, durante e pós almoço, a sempre contida Cristina, que mede cada palavra dita, tá sem trava na língua. E como toda bebum, seu conversê limita-se àquela cantilena efusiva e repetitiva tipo “olhem, coisa mais linda, bota lindo nisso, olhem!!”, pontuando tudo com alegres risadinhas. E atrás das dunas, a lua, à medida que vai subindo, perde sua coloração alaranjada para assumir de vez sua usual brancura.

2 comentários:

Cristina Tavares disse...

Belo relato da nossa pedalada pelo litoral cearense. Obrigada pela companhia alegre e descontraída Amontinada Bea.

BIKE TURISMO disse...

Vai fundo minha amiga,toda grande jornada, começa com a primeira pedalada, futuramente terás muitas histórias pra contar !