sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Luminosidade litorânea

Há coisa dum mês recebo um telefonema com prefixo 85 e logo me questiono “donde do Brasil, oxente?” Era Nara Alencar, direto de Fortaleza, a quem conhecera faz 3 anos durante um baita pedal em Urubici. Claro está que não ficamos todo esse tempo sem nos ver, porque coisa dum ano depois, ela me convidou pra pedalar na capital cearense e adjacências. Aceitei no ato e me toquei de mala, mas sem cuia! Dessa feita, a guria me convida pra passar um fim de semana de modo a participar do pedal 4 Mulheres e um Destino. E agora, eis euzinha, esta senhorinha de ½ idade que vos escreve, uma vez mais, retornando à terra de José de Alencar. Serão por acaso tais sobrenomes? O de minha amiga e do grande escritor? Preciso indagar Nara sobre. Do aeroporto, após os festejos de praxe, sou levada pelas cearenses Narita e Alu Brandão  prum restaurante de massas. Intimamente, troco uma ideia com meus botões e faço aquela cara de desgosto que expressa “comer massa? aqui, no Ceará?” Pois não é que tive de dar o braço a torcer?! O restaurante Pasta e Pizzas tem em seu menu não só as tradicionais massas, apelidadas de forno e especiais de fogão, como ainda as assim denominadas massas de fogão, que vêm a ser aquelas com frutos do frutos do mar, abundantes no litoral cearense. De lamber os beiços a comilança. Difícil resistir e não pedir bis, tris e sair rolando tão boas as pastas são. Um arraso o fettucini Maria Izabel, com carne de sol refogada com cebola, molho de tomate e creme de leite. Além do ponto de cozimento perfeito, bem al dente, os temperos e os ingredientes fazem a delícia de meu paladar. Além de mim, Nara (a idealizadora espiritual do pedal) e Alu (embora debochada, é amiga leal, ciclista de ocasião e entusiasta das aventuras na natureza), também se encontra à mesa Cristina Tavares (única conhecedora de rudimentos básicos de mecânica de bici, a maranhense, dona dum humor peculiar, trata todo mundo de colega)E pra coroar tão lauto jantar, aquele toquezinho sulista na refeição: espumante gaúcho, bem geladinho pra brindar o tão aguardado pedal. De pancinha cheia, adormeço tal qual um anjo. Acordo na sexta- feira, passado um pouco das 5 da manhã, e vislumbro através da janela uma baita claridade! Devido ao dia amanhecer cedo nesta parte do país, e também por causa do calor, às 6 e 30, quando saímos de Fortaleza – não de bici ainda e sim de carro - bastante gente já está correndo no calçadão à beira mar. Ivanara, irmão de Nara cujo nome de batismo é Ianara, nos deixa em Lagoinha, distante 100 km da capital, donde o pedal iniciará. Esta praia, pouco explorada pela turistada, exibe um visual lindo formado por dunas, coqueiros e falésias avermelhadas, que se situam a 100 metros do mar, se tanto. Pequenos percalços com as bicis de Nara e Cristina nos obrigam a parar. A da primeira, um freio reticente enquanto a da segunda, o guidão foi montado ao contrário. E não é que a criatura ainda pedalou uns 500 metros com a bici assim? Na primeira praia após Lagoinha, a sossegado Guajiru, fazemos um bem vindo pit stop. Peço uma água de côco de modo a hidratar o organismo pro que vem depois: a deliciosa cachacinha cearense. Nem bem pedalados 7 km, nova parada em Flecheiras, no bar duma bela pousada, em frente à imensidão verde do mar. Amiúde, despontam, na faixa de areia, piscinas naturais resultantes da ação da maré alta. Peço uma dose de Ypioca ao passo que as gurias vão de cerveja. Como sei que o povo de outros estados adora quando os gaúchos falam à moda gaudéria, solto o famoso “baaah tche, barbaridade de boa essa Ypioca!” Elas adoram escutar eu falando "bah".... hahaha!! Embora não seja de rajadas, o vento é constante. Sorte nossa que sopra numa direção predominantemente SE-NO. Não à-toa, Narita, espertamente, bolou o percurso rumo ao norte. Em diversos momentos não se faz necessário pedalar: o vento se encarrega de empurrar a bici como se ela fosse um veleiro. Nas praias próximas às vilas de pescadores, coloridas velas de kite surf enfunadas se erguem em rápidos vôos rentes ao mar. Céu de brigadeiro sem nuvem alguma embaçando o sol. A lisura da praia só é interrompida por pequenas covas causadas pelo refluxo da maré. Várias barras formadas por riachos em cujas margens formam-se degraus. Contudo não de molde a obstaculizar a travessia das bicis. Ao longo da costa que conduz a Mundaú, perpendiculares ao mar, parques eólicos, formados por esguias torres e hélices metálicas de coloração branca, exibem design estilizado de moinhos de vento dantanho. O odômetro registra 38 km pedalados ao longo de 5 horas e 15 minutos quando em Mundaú freamos em definitivo as bicis. Aqui pernoitaremos, até domingo, na residência das irmãs Alencar cujo privilegiado quintal fica diante do rio Mundaú! Esta praia, nos dias que correm, já é bem conhecida no circuito litorâneo do estado. Encantador, o balneário, além das elevadas dunas e das lagoas, exibe piscinas naturais à beira mar. O pequeno vilarejo conta com vários mercadinhos bem sortidos. Num deles descubro o sorvete Pardal, famosa fábrica de sorvete cearense, que prestigia os sabores regionais de graviola, cajá, castanha e milho. Me atraco num de graviola, uma delícia! Ao longo da rua da Praia, uma deliciosa sonoridade amadeirada de tac tac tac se faz ouvir. É o som produzido pelas rendeiras ao manejar aos pares os bilros. O resultado do artesanato, herança portuguesa, zelosamente transmitida de mães pras filhas, desde quando estas são meninas, é pendurado em cabides, nas janelas das casas: vestidos, toalhas e blusas feitas de renda de bilro ou birro. No almoço feito por Ivanara, macarronada com lagosta e porco a pururuca acompanhado por arroz. De bebida, aceito a caipirinha de cajá preparada por Iva. As demais colegas mantêm-se firmes na cervejinha. Depois da séstia, Iva faz deliciosas tapiocas recheadas com banana caramelada. Pouca demora, saímos de casa pra aproveitar o que resta de pôr do sol. Na praça de piso alajotado, construída justo no ponto de encontro das águas do Mundaú com as águas do Atlântico, ambas igualmente verdes, descortina-se do lado de lá do rio outra estação eólica, plantada entre dunas. Já entardecendo, a paisagem adquire uma tonalidade rosada, resultado dos últimos raios do sol poente. Tô no paraíso, oxente! Tenho ou não razão de estar prosa?

3 comentários:

Miriam Chaudon disse...

Se eu não me engano tem Lagoa de Mundaú também em Alagoas! E que lindas fotografias....você é prosa em qualquer paisagem, minha amiga querida!

BIKE TURISMO disse...

Parabéns a essas mulheres de garra e determinação. Pedalar é preciso , faz bem ao corpo e a alma !

Francesca disse...

Gostei do relato, Bea! Faltou apenas citar a minha pessoa nessa pedalada épica! hahaha...