terça-feira, 12 de julho de 2011

Deu Tarija!!

O sabadão amanhece imaculado como é freqüente acontecer no Condoriri. Daqui de dentro da barraca, escuto o farfalhar do plástico movido pelo vento que hoje está um tantinho assanhado demais pros padrões climáticos da Cordilheira Real. Após o desjejum, Sebastien e Feliciano partem rumo ao Austria, ao passo que eu e Mario vamos até o Jallayco ou Mirador (5.220 m), situado a leste do acampamento. Não estou nem um pouco a fim de repetir a pernada do ano passado àquela montanha. Quero variar. O imponente cerro Jallayco com sua coloração ocre faz um contraponto claro às rochas escuras do Condoriri, situado à sua frente. O início da caminhada, facinha demais, complica à medida que contornamos o gigantesco paredão e subimos por seu flanco leste. O terreno ganha acentuada inclinação e a trilha, até então, de chão batido entremeado com vegetação rasteira, mostra-se atulhada por lascas de pedra de origem metasedimentar, assaz escorregadias....eita pedrocas traiçoeiras!! Nos largos trechos cobertos de neve fofa, sigo as fundas pisadas feitas por Mario. Na finalera, a empenada atinge a considerável graduação de 40º, o que me deixa igual a cachorro sedento: arfante e de língua de fora. Entretanto, as dificuldades do Mirador não terminaram ainda. Há que se fazer uma miniescalada de 2 grau num amontoado de blocos de granito que antecede o cume. Um frio de renguear cusco meio que trava minhas mandíbulas enquanto comento com Mario quão mais puxado é o Mirador se comparado ao Austria. Pero o cenário avistado daqui de cima compensa o esforço de tão árdua subida. O soberbo panorama abarca a laguna Tuni e os nevados Sajama e Parinacota à oeste, ao sul as águas cintilantes do lago Titicaca, ao norte as duas torres da cumbre norte do Huayna Potosí, e, a leste, a colossal estátua que representa o condor de pedra, condenado, eternamente, a nunca alçar voo. Durante a descida, vejo dois pontinhos pretos descendo o glaciar Tarija. Quando vou à tardinha, ao acampamento de Marski, tomar chimarrão com Ramiro, fico sabendo que eram Fred e Cissa as formiguinhas que eu vira enquanto descia o cerro Mirador. A domingueira não podia ser mais emocionante: treinamento no glaciar Tarija. Iniciou de manhã estendendo-se até início da tarde pois o trajeto ida e volta ao pé da geleira demora em torno de 2 horas. Embora a distância perfaça apenas 3 km, com um desnível de 100 m, caminhar calçando as tais botas duplas de plástico é dureza. Delícia de dia: sem vestígio de nuvens, o tom anilado do céu em contraste com o branco do glaciar é um colírio pros olhos. O treino deste ano é mais dureza que o do Huayna, ano passado, porque, segundo informações obtidas com Marski, vou precisar escalar a crista que antecede o cume do Alpa. Mario faz um top rope 20 m acima da base do glaciar por onde devo escalar. Na parede, recoberta de gelo, uso o piolet, dessa feita, não apenas como bastão e sim cravando-o na superfície endurecida de modo a impulsionar meu corpo enquanto subo. Já os pés calçados com os grampões furam o gelo com gana e ali buscam sustento também. Muito tri, massa esta escalada. Diferente da escalada em rocha, em que o instrumento são os dedos das mãos, no gelo, o piolet transforma-se numa longa manu, ou seja, é a extensão dos dedos do escalador. No início, desconfiada do tal martelo, escalei insegura a primeira enfiada. Já na segunda, larguei de mão o medo e comecei a curtir a via embora as pontas de meus dedos estejam comidas pela psoríase. Em carne viva, abriram-se verdadeiras gretas na epiderme, revelando a tessitura super sensível da derme. Dói pra caramba manusear qualquer coisa, desde as mais simples como escovar dentes e lavar rosto, sem falar nas mais “complexas” como calçar botas, colocar grampão ou segurar piolet. Tanto que Mario teve de me equipar, apertando cadeirinha e calçando nos meus pés botas e grampões. No retorno ao meu acampamento, dou uma fugidinha pra me despedir de Marski e galera. Voltam a La Paz onde ficarão um par de dias, rumando após pro Huayna onde tentarão cume. Gente fina todos eles!! Inauguro a semana, caminhando, pela segunda vez, rumo ao glaciar do Tarija onde chego às 4 e 45. A temperatura “amena” de -6º C, um céu estrelado e a ausência de vento tornam a caminhada tranqüila. Embora seja ainda noite, a luz da lanterna de testa mostra uma trilha bem demarcada na neve endurecida. E as gretas ao longo do trajeto são tão insignificantes que basta transpô-las com uma curta passada! Agasalhada com minha quentésima jaqueta de plumas North Face 1000, (comprada em uma lojinha da Thamel, em Kathmandu, Marski quando bate o olho nela, fala que é fake, acrescentando que a empresa americana só as fabrica com até 800 penas de ganso, hehe), alcanço os 5.320 m do Tarija às 6 e 45 dum 11 de julho, tendo como pano de fundo os primeiros albores da colorida aurora que, ainda tímida, irrompe no horizonte. Na gélida madrugada, enquanto curto o Pequeno Alpamayo, extraio uma rápida conclusão: embora bem mais alta, a face leste do Huayna Potosí, em sua rota normal, exige apenas preparo físico e emocional, enquanto o Pequeno Alpamayo exige um terceiro requisito: habilidade técnica para escalar as cristas. Mas não é isso que faz com que eu amarele!! O que rola, nessa hora, é uma porra de medo que resolve dar pinta quando bato os olhos no sobe-desce-sobe das duas cristas que antecedem o cume do Pequeno Alpamayo. Vence a velha fobia de altura, domada a caro custo ao longo dos anos. As duas estreitas cristas, chamadas pelos bolivianos de “palas”, onde mal e mal pisam dois pés, descortinam em ambos os lados fundos precipícios. É necessário galgar a primeira crista, uma íngreme ladeira, com aproximados 50º de inclinação, descer o seu lado oposto, e então ascender a segunda crista, cuja inclinação, atinge 60º um pouco antes do topo. E quando vejo tudo isso, bate o medão. E amarelo mais ainda quando penso que terei de retornar fazendo o mesmo trajeto! Meu moral meio abalado pelas psoríases que vêm maltratando deveras minhas mãos desde que cheguei à Bolívia reforçam o desânimo provocado pelo medo. Penso no sacrifício que será manejar o piolet com os dedos em chaga enquanto estiver escalando as cristas. Ganha a parada a decisão de encerrar a escalada no Tarija. Tecnicamente um platô, o "cume" do Tarija, não deixa de ser um anticlímax ao grand finale que é o cume do Alpa. Com certeza, voltarei e tentarei novamente....ah, podem aguardar, pedrocas, voltarei!! Faltou-me nessa empreitada uma melhor aclimatação psicológica já que a física tirei de letra. A mental foi foda, levei uma vaca dela, porra! Por hora, basta como prêmio de consolação o cume do Tarija e a espetacular coloração alaranjada das rochas despidas de neve do Valhume nesta bela e fria manhã de segunda-feira. O sol, que já se ergue bem atrevido a leste, ilumina a paisagem, conferindo tons rosa e amarelo às rochas adjacentes. Quando estamos baixando, encontramos um homem arriado no chão gelado. Como seu estado não inspira muito cuidado, o gorducho, um jovem mexicano, acometido pelo mal de atitude, foi deixado pra trás por seu grupo que seguiu em direção ao cume do Alpa. Mario, prestativo, encordoa-se a ele e à medida que baixamos em direção ao vale, o rapaz vai recuperando as forças. Agora com a claridade do dia, visíveis marcas de vômito e de sangue na neve....poxa!! Às 11 horas já no acampamento, eis também retornando Sebastien que exibe não à-toa largo sorriso. Também pudera! Ontem fez cume no Pequeno Alpamayo e hoje acaba de alcançar a cabeça do Condoriri. Que monstro esse francês! Confesso, além da admiração, um tantinho de inveja por suas duas façanhas! Enquanto os guias desmontam o acampamento na manhã seguinte, meu último dia na Bolívia, reflito quão bacana é o povo boliviano com sua fala mansa e generosa hospitalidade, recebendo com muita paciência a turistada que invade nesta época do ano seu país. Trazida por Feliciano, sorvo com vagar, pois ferve de quente, a bebida feita da fermentação duma espécie de milho cujo grão é cor de vinho, conhecida aqui como api, ao passo que, no Peru, recebe o nome de chicha morada. Já na trilha, de volta a Tuni, sem a pressa que me movia há 4 dias atrás, percebo o belo efeito prateado do sol incidindo em certos trechos congelados do Condoriri, rio de minguadas águas na temporada invernal. Arrieras, vestidas com suas saias compridas de veludo bordô, caminham atrás das mulas que carregam nos lombos os pertences de nossa pequena expedição. A manhã ensolarada mais brilhante se torna quando encontro Carlos Eduardo Santalena, o jovem brasileiro que, aos 24 anos, alcançou em maio deste ano o cume do Everest. Simpático e simples demais esse guri! Se antes, durante a juventude, meus ídolos foram cantores de rock e astros de Hollywood, agora, na meia-idade, minha atenção se volta pros  escaladores e montanhistas. Eita povo audaz. Maluco de pedra são eles!! Percorrendo o vale do Condoriri, vou me despedindo do cerro Áustria, do Mirador e de todos os nevados e cerros que se abrigam sob as asas do Condoriri. Durante um bom pedaço, este belo recanto da Cordilheira Real interfere na paisagem até desaparecer por completo numa curva de estrada. Quando alcanço, todavia, a represa Tuni, meus olhos mais uma vez são regalados com a visão de outros dois monumentos: Huayna Potosí e Maria Lloca, a mamacita corazón. Já no pueblo de Tuni, enquanto aguardo o almoço, pentelho tanto umas índias pra que me expliquem como são feitas as tuntas e chuños (batatas desidratadas após um demorado processo artesanal), que acabo (não era essa minha atenção) ganhando uma prova deste último petisco, mais um pedaço de charque de lhama. Quando noto uns pelinhos grudados na carne, fico meio enojada. Assim que começo a mastigá-la, o gosto salgadinho da iguaria me seduz e como tudo até o último fiapinho, hehe. Já a batata, desisto de comê-la. Insossa demais. Algumas adolescentes índias, sentadas um pouco mais adiante, olham pra mim e riem. Desconfiada que sou, pergunto aos meus botões qual é a dessas gurias bobocas, já meio irritadinha. Graças a deus, baixa um santo, e me dou conta de que não zombam de mim. Muito pelo contrário, sorriem porque gostam de meu jeito de ser. Até que enfim!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Condoriri, a jóia da Cordilheira Real

No retorno do Sajama, uma breve estadia em La Paz, na quinta-feira, em razão da necessidade de ultimar os preparativos de minha incursão ao Condoriri. Assim vou com Mario, meu guia, ao depósito da agência experimentar botas plásticas e crampons, a serem usados durante o ascenço ao Pequeno Alpamayo. Combino com Paola, que não foi pro Huayna junto com André e cia, um rolê pela cidade. Bem baixadas num táxi, dirigido pelo gentil Joaquin, avistamos de relance o Choqueapo, um minguado rio atulhado de porcarias em seu leito quase seco. Ano passado quando visitei o vale de La Luna, não atentara pruma agulha arenítica que se destaca na paisagem. Conhecida como Muela Del Diablo ou Molar do Diabo é um point de trek e escalada muito procurado por turistas e nativos. Das 4 vias ali abertas, a mais forte deve ser um 6º, devido à exposição e às pedras soltas. Porém pros iniciantes, segundo meu amigo Gera, há 2 vias bem facinhas, que não vão além dum 3º. Ano que vem vou encarar essa pedreira, hehe!! Continuando nosso city tour pela zona sul, Joaquin nos apresenta os domínios onde está instalada a burguesia endinheirada da capital boliviana, o Jardim Paulista deles. Como no Brasil, muito condomínio guardado a sete chaves por guardas particulares. Quem tem teme! Os tios Patinhas saltaram das páginas dos gibis e agora vivem enclausurados em seus cofre-fortes luxuosos, zelosos de sua segurança. O agradável passeio termina no Mirador, tradicional ponto turístico situado no alto duma colina de onde se desfruta uma bela panorâmica da cidade e do Illimani com seus quatro cumes nevados. Quando estamos regressando ao hotel, me deparo com essa preciosidade escrita num anúncio posto na vitrine dum salão de beleza: “Si necesita diseñadora de uñas”. No Brasil, seria apenas “necessita-se manicure”. Como boa parte da população feminina compõe-se de indígenas aimarás e quechuas cujo gosto pela tradição faz com que ainda enverguem trajes típicos, abundam lojas de tecidos e saias. O lucro por essa indumentária é garantido já que as chollas não vestem apenas uma e sim cinco daquelas saias rodadas cujo comprimento bate na canela! Paola e eu vamos jantar num restaurante recomendado por Daniska, mulher de Hugo, localizado no bairro Sopocache. O pequeno estabelecimento, Swiss Fondue, deve muito de seu aconchego ao tratamento gentil de seu dono, Jean Claude. Suíço, o jovem homem mora há seis anos no país onde se casou com uma boliviana. Indagado se a esposa é uma chollita, o simpático proprietário faz questão de esclarecer que “ella es del barrio sur”. Ou seja, pertence a boa e velha classe dominante branca. Como ele. Bueno, escolhemos um prato típico de batatas raladas e salteadas acompanhadas por um refogado de carne com champignon. Troco a carne de rês pela de lhama, livre de colesterol, cujo sabor é muito parecido com aquela. Porém o que mata a pau é o tal postre chamado Sexy Swiss....hahaha!! Nem vou perder meu tempo falando sobre, vejam a foto e descubram porque estou rindo até agora! Ah, detalhe: eu comi tudinho, hahahaha!!

Na sexta, encontro-me mais uma vez a caminho do Condoriri. Ano passado fiz o cume do Huayna. Desta vez será o cume do Pequeno Alpamayo. Será? Viaja comigo um francês, Sebastien, professor de Matemática em Marseille. Agradável companhia a do europeu. Embora meu inglês seja vacilante, eu diria bem precário até, consigo trocar algumas idéias durante os desjejuns e ceias que compartilhamos na barraca-refeitório. Assim fico sabendo que ele tentará além do Pequeno Alpamayo, o Cabeza de Condor. Prefere a escalada em gelo à em rocha e revela que freqüenta com assiduidade o Mont Blanc. Descubro que adora esquiar, esporte que pratica desde guri. Enquanto percorríamos El Alto a caminho de Tuni, Sebastien fica louco com a movimentação de pessoas nas ruas, clicando-as avidamente com uma poderosa Canon. É sua primeira vez na Bolívia e ele está deslumbrado com o que vê. Por certo, inexiste em seu país nada comparável a este mundo colorido e pobre que tanto encantam os olhares estrangeiros. Seu guia, Feliciano, não se contentou, como muitos de seus conterrâneos, em colocar ao redor dos dentes um filete de ouro. Na face frontal do incisivo direito, incrustou uma estrela dourada!! Muito tri o adorno, tanto que estou louca pra fazer algo semelhante quando retornar a La Paz. Ele me garante que em duas horinhas, o dentista faz o trabalho. Depois duma hora de viagem, a cordilheira Real já pode ser visualizada da estrada. Suas montanhas, no trecho compreendido entre o Illampu e o Agulha Negra, são contíguas umas as outras, formando um verdadeiro cordão de nevados. A coloração escura das rochas revela sua origem metasedimentar. Já o Huayna Potosi, uma ilha de granito claro, emerge independente uma dezena de quilômetros ao norte. Embora a quantidade de nuvens que pairam no céu seja significativa, o sol consegue dar um desdobre no nuvaredo e irradiar seu brilho com certa constância durante a tarde. No pueblo de Tuni, almoçamos enquanto as chollas colocam nossas mochilas e outras cargas sobre o lombo das mulas. Eu e Mario, terminada a refeição, tratamos de pôr o pé na estrada. Bordejando a represa, após vinte minutos de pernada, já se avista o Condoriri, esta bela formação rochosa! A jóia da Cordilheira Real está mais linda ainda. Isso porque há coisa duma semana, uma nevasca assolou a região durante quatro dias e reforçou a cobertura de neve sobre flancos e cumes de picos. Até o Áustria, que ano passado era apenas um cerro sem neve, neste está branquinho. Apresso o passo, e Mario adverte, com sua voz habitualmente baixa e mansa, que eu caminhe mais devagar porque posso passar mal. Acrescenta que devo guardar forças pro Pequeno Alpamayo. Finjo que concordo e caminho mais lentamente, voltando a estugar o passo nem bem decorridos cinco minutos. Quando chegamos na laguna Chiartkhota, onde será montado nosso acampamento, vou procurar onde se arranchou o grupo de Davi Marski. Encontro o pessoal no refeitório, uma barraca super bem iluminada que, de tão grande, mais parece um picadeiro de circo! Davi lidera, entre alunos e aderentes, uma galera de 14 homens e uma mulher. Pra vocês verem como engatinha ainda o montanhismo feminino. O ambiente pipoca de alegre e ansiosa expectativa já que nesta madrugada o povo parte pro ataque ao cume do Alpa. Reencontro Ramiro, um escalador gaúcho. Com seu kit chimarrão a tiracolo, conta que a bebida fez sucesso entre as chollitas! Chupando a boa erva cultivada em meus pagos, jogo conversa fora com a animada rapaziada. Tudo de bom a juventude! Declino o convite para jantar e retorno ao meu acampamento. Durante a caminhada, curto a fuga espavorida dos assustados coelhos que correm pro abrigo seguro de suas tocas. Lançando seus derradeiros raios de luz sobre o Condoriri, o sol se despede e cede espaço à noite. Que avança impecavelmente estrelada, exibindo a cada noite o brilho ousadamente crescente da lua no escuro do firmamento.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Dando um rolê na Cordilheira Ocidental

E lá vamos nós espremidos numa van. Da galera de Ribeirão são 8! Mais os guias Ramiro Ramirez e Sixto. Como gosto de sentar na frente, ao lado do motorista, defenestro os dois guias pros bancos de trás de foma a obter uma boa visão da paisagem. Ponho então o modo vídeo da nova digital comprada em Santa Cruz pra funcionar e começo a registrar meus filmecos on the road como os chamo. Embora a distância seja de apenas 280 km até o Departamento de Oruro onde se situa o pueblito de Sajama, nosso destino final, o trânsito caótico e congestionado de La Paz e El Alto impedem qualquer arroubo de velocidade. Demora-se mais ou menos uma hora e meia nesse chove não molha até que, finalmente, saímos do perímetro urbano e entramos na rodovia. Com uma pista em bom estado de conservação, a estrada, um retão a perder de vista, segue até o Chile. Nosso motorista, Alejandro, faz uma providencial parada em Patacamaya onde conheço então os mingitórios, banheiros públicos onde além de desafogar certas necessidades primordiais também é possível tomar banho. Em estilo turco, com buracos cavados no solo, os mingitórios deixam Cassandra atônita. Até então a guria desconhecia tal tipo de WC. E, olha, que bem limpinho este banheiro está! Ca não viu nada ainda, hahaha!! A viagem prossegue por mais duas horas percorrendo a monótona e árida paisagem altiplânica. Na vegetação, vamos dizer assim, minimalista, abunda um tipo de gramínea, (paja brava ou stipa ichu) que serve de forragem aos lhamas e vicunhas. Segundo informa Sixto, os animais comem apenas a raiz dessa forragem já que a parte superior espeta pra dedéu. Salvo por um curto trecho onde os campos e as montanhas se apresentam fartamente cobertos por espessa vegetação, o resto da paisagem mantém-se parcamente revestido de cobertura vegetal. O terreno ondulado expõe a tonalidade ocre peculiar de solos sedimentares. À beira da estrada, algumas chullpas (cemitérios) de barro avermelhado dão abrigo àqueles que já deixaram este “vale de lágrimas”. O céu um tanto nublado deixa entrever modestos rasgos de azul. Ao longe, o sol lança mancheias claras e escuras nas encostas das montanhas. Escuto sem prestar atenção o zum zum reconfortante da voz de meus amigos jogando conversa fora. Formações rochosas semelhantes a muros de castelos medievais coroam os topos dos cerros. Mais adiante, isoladas e pontiagudas agulhas rochosas destacam-se no cenário que corre veloz diante meus olhos. Situado a 4.200 m, nas bordas da cordilheira ocidental, o pueblito de Sajama, com sua meia dúzia de calles e algumas dezenas de construções em adobe, aninha-se aos pés da face oeste do Sajama, a maior montanha boliviana com seus impressionantes 6.500 m. Após o almoço no Hostal Paraíso, vamos conhecer os gêiseres distantes 7 km do vilarejo. Zona de intensa atividade vulcânica, cortada por rios de águas calientes como o Surupata, há, além do Sajama, diversos outros vulcões inativos, verdadeiras belas adormecidas há milhares de anos, como o Parinacota e Pomerape. Conhecidos como Paiachatas ou Duas Irmãs, porque se localizam justo um ao lado do outro, todos esses nevados se situam dentro dos limites do Parque Nacional Sajama, fronteiríssimo ao Chile. Tanto que muitos desses cerros possuem uma face na Bolívia e outra no país vizinho. Logo estamos saindo do pueblito e percorrendo uma estradinha em meio a campos de bofedales e paja brava onde pastam rebanhos de lhamas, alpacas e vicunhas. Montanhas como o maciço Condorini e ao norte os pontudos cumes nevados de Anallakche também são um destaque na vastidão dos campos tingidos pelo amarelo-pálido das gramíneas que o revestem. Uma dezena de pequenos gêiseres soltam fumarolas discretas e seus peidinhos sulfurentos não se comparam às explosões magníficas daqueles existentes em Tatio, no Chile. Inobstante o tempo nublado, e assim permaneceu durante todo o dia, deu pra se ter uma idéia dos magníficos nevados que circundam a região. Mas pra fotos foi péssimo. Tanto assim que o coitado do André suplicava a São Pedro que levasse pra longe o espesso nuvaredo que teimava em rodear a cumbre do Sajama. Os paulistas, desacostumados com o o frio, embestam, em especial André e Gera, que está fazendo -10ºC. Leandro e eu, gaúchos, rebatemos na hora tal previsão. Saco minha bússola-termômetro e ela aponta 2ºC. Ainda assim, os teimosos não acreditam. Eita povinho de pouca fé!! As acomodações do hostal não são ruins, não, embora o colchão da cama seja farto em calombos. Como só vamos dormir uma noite aqui, dá pra relevar. Um céu estrelado onde o fino crescente da lua dá pinta anuncia bom tempo pra amanhã!! Ebaaa!!! Mas não é isso o que se vê na fria manhã de quarta. Por breves dez minutos o sol escapuliu entre as nuvens e iluminou a paisagem. André e eu enlouquecidos pegamos as máquinas e saímos céleres aproveitando a boa iluminação matinal pra fotografar. Fixei-me no largo onde, cercada por um muro baixo, se ergue a branca igrejinha feita de pedras e coberta com telhado de paja brava. Seu campanário, uma torre duns 10 m, não faz parte da estrutura do edifício. De lá desfrutei um panorama privilegiado das cercanias. Quando terminamos o café e estamos nos preparando pra caminhada até o rio de águas calientes, começa a cair uma aquanieve que altera nossos planos. Assim, somos obrigados a ir de van até lá em vez de caminharmos. Merrrdaaa!! No entorno das águas termais, organizou-se a pequena comunidade de Llaucas, que explora o lugar cobrando ingresso. Resolvo encarar o rio de águas calientes e pago os 30 bolivianos que dá direito ao uso duma felpuda e branca toalha. O pessoal acovardado pelo frio permanece ao redor da piscina natural formada pelo rio, enquanto eu e os dois guias nos regalamos, mergulhados nas tépidas águas escuras. E que cenário, gente!! Luxuoso demais. De dentro d’água avisto os flancos e brancos cumes do Sajama e do Anallakche. Ao sair da piscina, avisto uma cholla esquartejando uma lhama pra fazer charque. Chego de mansinho e obtenho a cara custo permissão pra fotografá-la. O tempo mantém-se indeciso entre o nublado e o solarengo embora a temperatura seja super agradável. E, graças a deus, não há vento, o que é uma benção porque a região é varrida por inclementes ventanias. Abundantes bosques de queñuas crescem nas encostas do Sajama, o que motiva comentários orgulhos da parte de Sixto. Uma breve parada no lago Huaña Cota onde se avista mais de perto o Anallakche refletido em seu espelho d’água. Outra paradinha no pueblito de Tumarapi com igreja de estilo semelhante à do pueblo de Sajama. A mesma meia dúzia de calles e idênticas casinhas de adobe. Dou-me conta de que o passeio deu uma volta ao redor do Sajama, de modo a avistar suas faces leste, oeste e norte. Uma pena que o extingo vulcão, num dia de extremo recato, se furtou aos olhares vorazes de nossas lentes fotográficas. E o tempo mais uma vez mostra suas garras caprichosas enquanto almoçamos ao ar livre às margens do rio Tumarapi: uma chuva de granizo obriga-nos a buscar refúgio no interior da van onde terminamos de almoçar devidamente espremidos porém contentes com nossa incursão ao mundo vulcânico do Sajama!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sob um ceu gris

Meu humor não está dos mais animados quando embarco no avião que me conduzirá a La Paz. Motivos pessoais impedem que eu sinta a boa e leve despreocupação de viagens anteriores. Providencio uma escala de modo a dormir de sexta pra sábado em Santa Cruz de La Sierra, onde mora um amigo que lá se encontra estudando Medicina. Apesar de breve, o encontro teve direito, no café da manhã, a fartas fatias dum daqueles artísticos e saborosos bolos que adornam as vitrines das confeitarias da cidade. Sábado, aterrisso em El Alto durante o dia, ao contrário do ano passado, o que me permite curtir o bulício de suas ruas apinhadas de carros e de ambulantes vendendo pães, ervas e suculentas laranjas e vermelhas maçãs. Embora paire acima de La Paz o cenário espalhado e luxuoso do Illimani, o estilo inacabado e pobre da cidade, crivada de feias construções de tijolo à vista mais uma vez não me cativa. A desorganização estética que a pobreza constrói tem beleza alguma. São milhares de casas sem retoque da massa corrida, de alvenaria e pintura. Semelhante a um gigantesco cubo mágico, feito de caixas de sapato, a cidade se amontoa de qualquer jeito sobre as encostas dos cerros. É de dar dó o desmazelo de La Paz. Meu lado politicamente incorreto rejeita chamar de pitoresca tal feiúra urbana! Bueno, o humor piora quando, após jantar num restaurante chinês, com Hugo, dono da agência que contratara, e Alexandre, um fotógrafo carioca, desperto na madrugada de domingo com o estômago embrulhado e uma puta dor de cabeça que me faz lembrar dos inúmeros tragoléus entornados no passado. Pra piorar descubro, na segunda, depois de tê-la esperado durante todo o fim de semana, que a tal Paulinha me deu o camba. Não mais compartilhará comigo o quarto do hotel Estrella Andina. Trocou-me por uns cuecas paranaenses. Fico puta da cara com a atitude da guria. Não por ela ter trocado alho por bugalhos e sim por sua atitude displicente, negando-se a dar um toque. Tão simples enviar email comunicando a deserção, uai! Foi melhor assim, graças a esse contratempo, desisto do roteiro inicial de ir ao Titicaca e me reúno ao grupo formado por André Dib, Cassandra Cury, Rubão, Paola, Luiz, Leandro, Gera e Rosa que estão indo pro Sajama. Ao contrário de mim, que abandonei meus planos sem pesar algum, meus amigos foram obrigados a alterar os seus e desistir do salar de Yuni. Tudo por conta de fortes nevascas que, atipicamente, vêm castigando o solo boliviano há uma semana. Prova disso o cenário pintalgado de branco dos flancos das montanhas avistado enquanto eu sobrevoava La Paz no sábado. Durante três dias, os termômetros marcaram 7º C e o céu, via de regra, azul de brigadeiro, manteve-se pesadamente nublado com intermitentes chuviscos. Apesar de levemente nauseada e com a cabeça ainda ardendo de dor, no domingo, reúno forças e saio pra almoçar em meio a uma tarde que se desenrola desenxabidamente cinzenta. Tagarelando com a garçonete (pra isso tive ânimo, haha) indago da famosa rivalidade entre os naturais de La Paz (collas) e os de Sta Cruz (cambas). Sou então inteirada de que, na verdade, tal rivalidade abrange não duas cidades pero duas regiões: a ocidental, onde se localizam La Paz, Oruro e Potosi, e a oriental, onde se encontram Santa Cruz de La Sierra, Beni e Pando, lugares de clima quente, motivo pelo qual a agricultura se desenvolve com facilidade. A bem informada moça alerta que Sucre, capital administrativa do país, e Tarija mantêm posição de relativa neutralidade em meio à acirrada disputa. E de lambuja, ensina que justo em Tarija são produzidos excelentes vinhos. Enquanto estive em La Paz, não me furtei a prová-los sempre que pintava oportunidade. Se bons? Demais! À noite, Artur e Renata vêm me buscar no hotel e vamos jantar no Luna’s. Os dois, que fazem parte do grupo organizado por Davi Marski, partem amanhã pro Condoriri. Ela pra fazer trekking, ele pra escalar o Pequeno Alpamayo. A conversa flui com facilidade, sem constrangimentos. O tema, como não podia deixar de ser, é montanha, montanha e montanha!! Tanto Paulinha quanto Artur conheci através do facebook. Ele, do grupo Fotógrafos de Montanha ao qual pertenço. Pois é....a internete é uma poderosa ferramenta de aproximação. Permite que se entre em contato com pessoas que normalmente nem se sonharia em conhecer. E sabe duma coisa? No frigir dos ovos, pessoas como as equivocadas paulinhas, vade retro, são exceção!! Graças a deus, os brasileiros caem de maduro em La Paz. Assim como pra quem esquia a meca é Bariloche, pros montanhistas brazucas a meca é a região do Condoriri. Melhor que encontrar, ao longo das calles Illampu, Sagarnaga ou de Las Brujas, alguém que até então só me relacionara pela internete, é, ao dobrar uma esquina, dar de cara com velhos conhecidos da vida real. Super legal entrar na Tatoo e escutar o familiar sotaque carioca, paulista - não interessa qual, sendo brasileiro é o que importa – indagando do vendedor as qualidades de equipos e roupas. Além do turismo barato, as condições climáticas são muiiitoooo boas. Em especial, a ausência de fortes ventos na Cordilheira Real cujos sedutores cumes de 5 e 6 mil metros funcionam como imãs, atraindo montanhistas e escaladores de vários cantos do planeta. E na segunda-feira, eis-me, agora, almoçando com a galera de Ribeirão Preto no charmoso Restaurante Banais, ao lado do não menos charmoso Hostal Naira, localizados ambos na calle Sagarnaga, onde estão hospedados meus amigos. O edifício, um antigo casario espanhol de dois pisos, se organiza seguindo os ditames arquitetônicos da época colonial: habitações que se debruçam sobre um grande poço central, responsável pela iluminação das alcovas. Floreiras com gerânios vermelhos enfeitam as balaustradas de ferro que cercam o espaço vazado. Com duas folhas, as portas dos quartos, revestidas de vidro, em suas metades superiores, são veladas por cortininhas brancas. O cardápio honesto do Banais não ostenta a pretensiosa sofisticação do restaurante La Casona, onde jantamos à noite e cujos pratos encantam mais pelo apelo visual do que pelo sabor. Ciboulettes e arabescos traçados caprichosamente com xaropes coloridos e azeite balsâmico são o arremate final circundando a iguaria encomendada. Mesmo assim vale uma ida a este restaurante, nem que seja pra curtir o lindo e histórico prédio situado no início da avenida Mariscal Santa Cruz. E brindar, com um dos excelentes varietais tintos bolivianos, o reencontro com amigos e a excitante expectativa da conquista de algum cume!!

sábado, 2 de julho de 2011

Ao desânimo dou albergue, à desistência, rua!!

Orley, meu profe de escalada, pediu que escrevesse algo de minha viagem à Bolívia. A que fiz neste mês de julho de 2011. Entretanto, a deste ano conduz à do ano passado. Inevitável. Mas que dá um branco contar minha aventura, ah, isso dá! Difícil, assim, de encomenda! Por isso, há 2 dias venho pensando, remoendo, arriscando até algumas reflexões. Tão xinfrins que dou um chega pra lá nelas. Melhor, pensando bem, ser simples, direta. Portanto, mãos a obra! Bueno, viajar à Bolívia em busca de montanhismo significa ir ao encontro de montanhas cujos cumes penduram-se entre os 3.000 e os 6.600 metros acima do nível do mar. O mais frequentado dos gigantescos afloramentos rochosos vem a ser a Cordillera Real. Esse formidável playground de picos gelados é um prato cheio pra quem deseja se iniciar no montanhismo. Soma-se ao apelo vertiginoso das altas cumbres uma condição climática super favorável, em especial aos neófitos nesse esporte. Pra nós brasileiros, tais platitudes constituem um atrativo irresistível, um objeto de desejo que derrubou, não poucas vezes, namoros e casamentos. Porque em solo brasileiro não existe nada semelhante  Vejamos: a maior elevação tupiniquim, Pico da Neblina, não atinge os 3 mil metros (alguns estudiosos, contrariando tal estimativa, afiançam que ele ultrapassa em 80 m os 3 mil). Bueno, sem querer desprezar os cumes pátrios, deixemos de lado as mesquinhas cifras e nos concentremos apenas nas dificuldades da ascensão, na tal exposição, ou, seja lá, o que isso signifique. Até porque altura não é documento, assim como tamanho de pênis não é garantia duma boa trepada. Corroborando tal máxima, muitas de nossas “montanhas” não são nada fáceis de ascender. Pico Paraná, por exemplo, é bem marrento. E como! Em nossas serras, como exemplo, cito as do Mar e da Mantiqueira, os matagais espinhentos, as irritantes florestinhas de bambu e os tortuosos campos crivados de capim-elefante complicam deveras as travessias e chegadas aos cumes. Pero, alta montanha é foda, gente! Não me entendam mal, montanhistas brasileiros! Por favor....sim? Não quero com tal observação desprezar nossas modestas cumbres. Muito pelo contrário. Adoro palmilhar nossas serranias exuberantemente verdes ou não (vide os cerrados). Pero, a altitude, o frio e a ignorância em matéria de equipos adequados complicam bastante a aclimatação da galera brasileira que respira clima úmido em 80% de seu território. Foi bem isso o que se passou comigo nesta segunda estadia em solo boliviano. E olha que moro no sul onde reina um certo friozinho no inverno. Ano passado, tirei de letra a aclimatação na Bolívia. Pode-se até dizer que foi suave, já que senti apenas leves dores de cabeça, abafadas rapidamente com comprimidos analgésicos. Desta feita, não levei a sério o sábio conselho de ingerir, nos primeiros dias de permanência em La Paz, que se encontra a 3.700 m de altitude, comidas leves. Me achando “a tal”, a nega véia do montanhismo, acostumadésima aos altos píncaros (que viagem, meu deus!!), mandei ver num restaurante chinês da calle 20 de Octubre. E com avidez, sem nem mastigar direito, como se estivesse ao nível do mar, devorei rolinhos primavera, salteñas, arroz shop suey e camarão com pimentão. No meio da madrugada, acordei com uma puta dor de cabeça. Doía como se soqueada por uma manada de búfalos, daquelas dores excruciantes que se sentem somente após um tragoléu a la cowboy....ai que horror!! E somente água foi o que bebi durante a janta. O estômago, embrulhado, implorava uma ida ao banheiro. Sacrifício extremo levantar da cama e arrastar meu corpo fragilizado até o vaso sanitário. E nada saía garganta afora! Sem outra alternativa, fui obrigada a “chamar o hugo”. Durante dois intermináveis dias, permaneci sitiada no hotel, obrigada a assistir a horrível programação da net boliviana, numa tevê de tela pequena, com imagens distorcidas por interferências sem qualquer intenção semiótica. Sei lá se por masoquismo – deixo que Freud trate disso – congelei o controle remoto num canal de novelas mexicanas. "Deliciosa e instrutiva" convalescença a minha! No terceiro dia – aleluia!! – já restabelecida, reúno-me a amigos brasileiros e com eles faço um tour na região da cordilheira ocidental onde se espalham sobre o altiplano boliviano, entre outros, três grandes vulcões inativos: Sajama, Parinacota e Pomerape. E rios de águas calientes. E gêiseres!! Pequenos, por supuesto, emanando, todavia, discretas fumarolas que encantam nossos olhos virgens de tais fenômenos geológicos. E muitas lhamas e vicunhas que fogem ariscas quando se tenta fotografá-las de perto. Retorno a La Paz de modo a ultimar os preparativos de minha ida ao maciço Condoriri. Onde se elevam dezenas e dezenas de 5 mil. Meu objetivo da vez? O Pequeño Alpamayo com seu adorável formato piramidal. Ano passado, a meta foi o Huayna Potosí. Pra aclimatar, realizei antes uma caminhada de quatro dias cujo ponto de partida foi a laguna Tuni, seguido por um pernoite na laguna Chiartkhota tendo como pano de fundo a hipnotizante visão dos nevados do Condoriri. Tudo sob uma lua crescentemente gorda num céu fartamente estrelado. No segundo dia, subida ao cerro Áustria, um 5 mil pra treinar as pernuchas pro grande dia! Nos demais dias, contornei não só a famosa e temível face oeste do Huayna como ainda sua bem menos conhecida e inacessível face sudeste. Finalizei a pernada, no refúgio Huayna Potosi, ponto de partida de ascensão à famosa face leste do Huayna. No meu caso, fi-la pela via normal. Rota dos Franceses é pra galo cinza. Sou ainda uma humilde galinha garnizé, hehe. Equilibrando-me desajeitadamente em botas duplas de plástico, embutidas em crampons de metal, palmilhei, ao longo de 800 metros, durante 6 horas, “suaves” rampas cobertas de gelo e neve, cuja inclinação média de 20º, alcança em certos pontos 40º. Não foi nada fácil aquela pernada! Porém bom demais foi ver euzinha empoleirada na mais alta escada de minha vida: 6.088 m de degraus!!! Hahahaha!! Dizem que a altitude provoca euforia. Será? Hahahaha!! Falando sério, o Huayna Potosí é uma boa escolha pra quem deseja se aventurar no montanhismo de altitude. “Facinho”, esse seis mil, é feito geralmente debaixo de alto bom tempo, sem vento algum embaraçando a pernada. Este ano, entretanto, acredite se quiser, não consegui fazer o Pequeño Alpamayo. E, vejam, soma apenas 5.370 m! Tive de me contentar com o anticlímax dos 5.320 m do Tarija. E a verdade deve ser dita, doa a quem doer!! O Tarija, tecnicamente, não deixa de ser um platô que antecede ao Pequeño Alpamayo. Um prêmio de consolação pra quem não alcança o verdadeiro cume. Embora a diferença em altitude seja de 50 metros, não confundamos alhos com bugalhos. Há que se considerar que a distância entre os dois cumes perfaz longos e extenuantes 150 m de sobe e desce. Cobertas de neve desde sua base, estas montanhas são separadas por duas estreitas cristas, chamadas pelos bolivianos de “palas”, onde mal e mal pisam dois pés. De ambos os lados, descortinam-se altos despenhadeiros. É necessário galgar a primeira crista, uma íngreme ladeira, com aproximados 50º de inclinação, descer outra lomba de graduação semelhante, pra então ascender a segunda empenada, cuja inclinação, bate, um pouco antes do topo, nos 60º. Quando olhei pra aquele sobe-desce-sobe entre uma crista e outra, percebi, num átimo, que teria de palmilhar duas vezes tal trajeto. Afinal, toda ida pressupõe uma volta, ora bolas! Senti frio, preguiça e medo. Não só minha velha fobia de altura, domada a caro custo, deu pinta, como pensei no sacrifício que seria manejar o piolet durante a ascensão às cristas com os dedos das mãos em chagas devido a um virulento ataque de psoríase. Ganhou a parada a decisão de encerrar a escalada por ali mesmo, justo no topo do Tarija. Conformada, murmurei pros meus botões um “tá bom, Bea, se conseguiste chegar até aqui, foi de bom tamanho, portanto, meia-volta volver”. Só faltou o tapinha nas costas. De volta a Porto nem tão Alegre assim, pois fustigada há cinco dias por teimosa garoa, vejo aquele cume e penso: por quê, por quê, hein, não o encaraste? Extraio uma rápida conclusão: embora mais alto, o Huayna Potosí, na sua rota normal, apresenta-se despido de desafios técnicos, exigindo apenas preparo físico, enquanto o Pequeno Alpamayo exige um plus: controle emocional e habilidade técnica na escalada. A mim faltaram os dois requisitos, infelizmente. Entre suspiros de desalento, dou de ombros, levanto a cabeça e decido: enquanto viva for, sempre haverá amanhã. Pra tentar novamente! Afinal, julho de 2012 nem tão longe assim está!! Por supuesto, ao Condoriri voltarei, rente que nem pão quente! De modo a derreter outras geleiras dessa feita!!