terça-feira, 12 de julho de 2011

Deu Tarija!!

O sabadão amanhece imaculado como é freqüente acontecer no Condoriri. Daqui de dentro da barraca, escuto o farfalhar do plástico movido pelo vento que hoje está um tantinho assanhado demais pros padrões climáticos da Cordilheira Real. Após o desjejum, Sebastien e Feliciano partem rumo ao Austria, ao passo que eu e Mario vamos até o Jallayco ou Mirador (5.220 m), situado a leste do acampamento. Não estou nem um pouco a fim de repetir a pernada do ano passado àquela montanha. Quero variar. O imponente cerro Jallayco com sua coloração ocre faz um contraponto claro às rochas escuras do Condoriri, situado à sua frente. O início da caminhada, facinha demais, complica à medida que contornamos o gigantesco paredão e subimos por seu flanco leste. O terreno ganha acentuada inclinação e a trilha, até então, de chão batido entremeado com vegetação rasteira, mostra-se atulhada por lascas de pedra de origem metasedimentar, assaz escorregadias....eita pedrocas traiçoeiras!! Nos largos trechos cobertos de neve fofa, sigo as fundas pisadas feitas por Mario. Na finalera, a empenada atinge a considerável graduação de 40º, o que me deixa igual a cachorro sedento: arfante e de língua de fora. Entretanto, as dificuldades do Mirador não terminaram ainda. Há que se fazer uma miniescalada de 2 grau num amontoado de blocos de granito que antecede o cume. Um frio de renguear cusco meio que trava minhas mandíbulas enquanto comento com Mario quão mais puxado é o Mirador se comparado ao Austria. Pero o cenário avistado daqui de cima compensa o esforço de tão árdua subida. O soberbo panorama abarca a laguna Tuni e os nevados Sajama e Parinacota à oeste, ao sul as águas cintilantes do lago Titicaca, ao norte as duas torres da cumbre norte do Huayna Potosí, e, a leste, a colossal estátua que representa o condor de pedra, condenado, eternamente, a nunca alçar voo. Durante a descida, vejo dois pontinhos pretos descendo o glaciar Tarija. Quando vou à tardinha, ao acampamento de Marski, tomar chimarrão com Ramiro, fico sabendo que eram Fred e Cissa as formiguinhas que eu vira enquanto descia o cerro Mirador. A domingueira não podia ser mais emocionante: treinamento no glaciar Tarija. Iniciou de manhã estendendo-se até início da tarde pois o trajeto ida e volta ao pé da geleira demora em torno de 2 horas. Embora a distância perfaça apenas 3 km, com um desnível de 100 m, caminhar calçando as tais botas duplas de plástico é dureza. Delícia de dia: sem vestígio de nuvens, o tom anilado do céu em contraste com o branco do glaciar é um colírio pros olhos. O treino deste ano é mais dureza que o do Huayna, ano passado, porque, segundo informações obtidas com Marski, vou precisar escalar a crista que antecede o cume do Alpa. Mario faz um top rope 20 m acima da base do glaciar por onde devo escalar. Na parede, recoberta de gelo, uso o piolet, dessa feita, não apenas como bastão e sim cravando-o na superfície endurecida de modo a impulsionar meu corpo enquanto subo. Já os pés calçados com os grampões furam o gelo com gana e ali buscam sustento também. Muito tri, massa esta escalada. Diferente da escalada em rocha, em que o instrumento são os dedos das mãos, no gelo, o piolet transforma-se numa longa manu, ou seja, é a extensão dos dedos do escalador. No início, desconfiada do tal martelo, escalei insegura a primeira enfiada. Já na segunda, larguei de mão o medo e comecei a curtir a via embora as pontas de meus dedos estejam comidas pela psoríase. Em carne viva, abriram-se verdadeiras gretas na epiderme, revelando a tessitura super sensível da derme. Dói pra caramba manusear qualquer coisa, desde as mais simples como escovar dentes e lavar rosto, sem falar nas mais “complexas” como calçar botas, colocar grampão ou segurar piolet. Tanto que Mario teve de me equipar, apertando cadeirinha e calçando nos meus pés botas e grampões. No retorno ao meu acampamento, dou uma fugidinha pra me despedir de Marski e galera. Voltam a La Paz onde ficarão um par de dias, rumando após pro Huayna onde tentarão cume. Gente fina todos eles!! Inauguro a semana, caminhando, pela segunda vez, rumo ao glaciar do Tarija onde chego às 4 e 45. A temperatura “amena” de -6º C, um céu estrelado e a ausência de vento tornam a caminhada tranqüila. Embora seja ainda noite, a luz da lanterna de testa mostra uma trilha bem demarcada na neve endurecida. E as gretas ao longo do trajeto são tão insignificantes que basta transpô-las com uma curta passada! Agasalhada com minha quentésima jaqueta de plumas North Face 1000, (comprada em uma lojinha da Thamel, em Kathmandu, Marski quando bate o olho nela, fala que é fake, acrescentando que a empresa americana só as fabrica com até 800 penas de ganso, hehe), alcanço os 5.320 m do Tarija às 6 e 45 dum 11 de julho, tendo como pano de fundo os primeiros albores da colorida aurora que, ainda tímida, irrompe no horizonte. Na gélida madrugada, enquanto curto o Pequeno Alpamayo, extraio uma rápida conclusão: embora bem mais alta, a face leste do Huayna Potosí, em sua rota normal, exige apenas preparo físico e emocional, enquanto o Pequeno Alpamayo exige um terceiro requisito: habilidade técnica para escalar as cristas. Mas não é isso que faz com que eu amarele!! O que rola, nessa hora, é uma porra de medo que resolve dar pinta quando bato os olhos no sobe-desce-sobe das duas cristas que antecedem o cume do Pequeno Alpamayo. Vence a velha fobia de altura, domada a caro custo ao longo dos anos. As duas estreitas cristas, chamadas pelos bolivianos de “palas”, onde mal e mal pisam dois pés, descortinam em ambos os lados fundos precipícios. É necessário galgar a primeira crista, uma íngreme ladeira, com aproximados 50º de inclinação, descer o seu lado oposto, e então ascender a segunda crista, cuja inclinação, atinge 60º um pouco antes do topo. E quando vejo tudo isso, bate o medão. E amarelo mais ainda quando penso que terei de retornar fazendo o mesmo trajeto! Meu moral meio abalado pelas psoríases que vêm maltratando deveras minhas mãos desde que cheguei à Bolívia reforçam o desânimo provocado pelo medo. Penso no sacrifício que será manejar o piolet com os dedos em chaga enquanto estiver escalando as cristas. Ganha a parada a decisão de encerrar a escalada no Tarija. Tecnicamente um platô, o "cume" do Tarija, não deixa de ser um anticlímax ao grand finale que é o cume do Alpa. Com certeza, voltarei e tentarei novamente....ah, podem aguardar, pedrocas, voltarei!! Faltou-me nessa empreitada uma melhor aclimatação psicológica já que a física tirei de letra. A mental foi foda, levei uma vaca dela, porra! Por hora, basta como prêmio de consolação o cume do Tarija e a espetacular coloração alaranjada das rochas despidas de neve do Valhume nesta bela e fria manhã de segunda-feira. O sol, que já se ergue bem atrevido a leste, ilumina a paisagem, conferindo tons rosa e amarelo às rochas adjacentes. Quando estamos baixando, encontramos um homem arriado no chão gelado. Como seu estado não inspira muito cuidado, o gorducho, um jovem mexicano, acometido pelo mal de atitude, foi deixado pra trás por seu grupo que seguiu em direção ao cume do Alpa. Mario, prestativo, encordoa-se a ele e à medida que baixamos em direção ao vale, o rapaz vai recuperando as forças. Agora com a claridade do dia, visíveis marcas de vômito e de sangue na neve....poxa!! Às 11 horas já no acampamento, eis também retornando Sebastien que exibe não à-toa largo sorriso. Também pudera! Ontem fez cume no Pequeno Alpamayo e hoje acaba de alcançar a cabeça do Condoriri. Que monstro esse francês! Confesso, além da admiração, um tantinho de inveja por suas duas façanhas! Enquanto os guias desmontam o acampamento na manhã seguinte, meu último dia na Bolívia, reflito quão bacana é o povo boliviano com sua fala mansa e generosa hospitalidade, recebendo com muita paciência a turistada que invade nesta época do ano seu país. Trazida por Feliciano, sorvo com vagar, pois ferve de quente, a bebida feita da fermentação duma espécie de milho cujo grão é cor de vinho, conhecida aqui como api, ao passo que, no Peru, recebe o nome de chicha morada. Já na trilha, de volta a Tuni, sem a pressa que me movia há 4 dias atrás, percebo o belo efeito prateado do sol incidindo em certos trechos congelados do Condoriri, rio de minguadas águas na temporada invernal. Arrieras, vestidas com suas saias compridas de veludo bordô, caminham atrás das mulas que carregam nos lombos os pertences de nossa pequena expedição. A manhã ensolarada mais brilhante se torna quando encontro Carlos Eduardo Santalena, o jovem brasileiro que, aos 24 anos, alcançou em maio deste ano o cume do Everest. Simpático e simples demais esse guri! Se antes, durante a juventude, meus ídolos foram cantores de rock e astros de Hollywood, agora, na meia-idade, minha atenção se volta pros  escaladores e montanhistas. Eita povo audaz. Maluco de pedra são eles!! Percorrendo o vale do Condoriri, vou me despedindo do cerro Áustria, do Mirador e de todos os nevados e cerros que se abrigam sob as asas do Condoriri. Durante um bom pedaço, este belo recanto da Cordilheira Real interfere na paisagem até desaparecer por completo numa curva de estrada. Quando alcanço, todavia, a represa Tuni, meus olhos mais uma vez são regalados com a visão de outros dois monumentos: Huayna Potosí e Maria Lloca, a mamacita corazón. Já no pueblo de Tuni, enquanto aguardo o almoço, pentelho tanto umas índias pra que me expliquem como são feitas as tuntas e chuños (batatas desidratadas após um demorado processo artesanal), que acabo (não era essa minha atenção) ganhando uma prova deste último petisco, mais um pedaço de charque de lhama. Quando noto uns pelinhos grudados na carne, fico meio enojada. Assim que começo a mastigá-la, o gosto salgadinho da iguaria me seduz e como tudo até o último fiapinho, hehe. Já a batata, desisto de comê-la. Insossa demais. Algumas adolescentes índias, sentadas um pouco mais adiante, olham pra mim e riem. Desconfiada que sou, pergunto aos meus botões qual é a dessas gurias bobocas, já meio irritadinha. Graças a deus, baixa um santo, e me dou conta de que não zombam de mim. Muito pelo contrário, sorriem porque gostam de meu jeito de ser. Até que enfim!
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Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Bea,essas viagens e aventuras são o que tem de melhor! Gosto de ler o jeito que você escreve seus relatos com riqueza de detalhes e comentários com pitadas cômicas! Pessoalmente você deve ser muito agradável e descontraída, assim como me sinto ao ler suas aventuras.
Essa coisa de chegar no cume é bacana mas não é o mais importante....eu penso....existem tantas coisas lindas pelo caminho antes do cume! Mas mesmo assim eu desejo que realizes seus desejos de cumes pois eles também nos trazem importantes superações! Beijos e abração minha amiga virtual!