segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sob um ceu gris

Meu humor não está dos mais animados quando embarco no avião que me conduzirá a La Paz. Motivos pessoais impedem que eu sinta a boa e leve despreocupação de viagens anteriores. Providencio uma escala de modo a dormir de sexta pra sábado em Santa Cruz de La Sierra, onde mora um amigo que lá se encontra estudando Medicina. Apesar de breve, o encontro teve direito, no café da manhã, a fartas fatias dum daqueles artísticos e saborosos bolos que adornam as vitrines das confeitarias da cidade. Sábado, aterrisso em El Alto durante o dia, ao contrário do ano passado, o que me permite curtir o bulício de suas ruas apinhadas de carros e de ambulantes vendendo pães, ervas e suculentas laranjas e vermelhas maçãs. Embora paire acima de La Paz o cenário espalhado e luxuoso do Illimani, o estilo inacabado e pobre da cidade, crivada de feias construções de tijolo à vista mais uma vez não me cativa. A desorganização estética que a pobreza constrói tem beleza alguma. São milhares de casas sem retoque da massa corrida, de alvenaria e pintura. Semelhante a um gigantesco cubo mágico, feito de caixas de sapato, a cidade se amontoa de qualquer jeito sobre as encostas dos cerros. É de dar dó o desmazelo de La Paz. Meu lado politicamente incorreto rejeita chamar de pitoresca tal feiúra urbana! Bueno, o humor piora quando, após jantar num restaurante chinês, com Hugo, dono da agência que contratara, e Alexandre, um fotógrafo carioca, desperto na madrugada de domingo com o estômago embrulhado e uma puta dor de cabeça que me faz lembrar dos inúmeros tragoléus entornados no passado. Pra piorar descubro, na segunda, depois de tê-la esperado durante todo o fim de semana, que a tal Paulinha me deu o camba. Não mais compartilhará comigo o quarto do hotel Estrella Andina. Trocou-me por uns cuecas paranaenses. Fico puta da cara com a atitude da guria. Não por ela ter trocado alho por bugalhos e sim por sua atitude displicente, negando-se a dar um toque. Tão simples enviar email comunicando a deserção, uai! Foi melhor assim, graças a esse contratempo, desisto do roteiro inicial de ir ao Titicaca e me reúno ao grupo formado por André Dib, Cassandra Cury, Rubão, Paola, Luiz, Leandro, Gera e Rosa que estão indo pro Sajama. Ao contrário de mim, que abandonei meus planos sem pesar algum, meus amigos foram obrigados a alterar os seus e desistir do salar de Yuni. Tudo por conta de fortes nevascas que, atipicamente, vêm castigando o solo boliviano há uma semana. Prova disso o cenário pintalgado de branco dos flancos das montanhas avistado enquanto eu sobrevoava La Paz no sábado. Durante três dias, os termômetros marcaram 7º C e o céu, via de regra, azul de brigadeiro, manteve-se pesadamente nublado com intermitentes chuviscos. Apesar de levemente nauseada e com a cabeça ainda ardendo de dor, no domingo, reúno forças e saio pra almoçar em meio a uma tarde que se desenrola desenxabidamente cinzenta. Tagarelando com a garçonete (pra isso tive ânimo, haha) indago da famosa rivalidade entre os naturais de La Paz (collas) e os de Sta Cruz (cambas). Sou então inteirada de que, na verdade, tal rivalidade abrange não duas cidades pero duas regiões: a ocidental, onde se localizam La Paz, Oruro e Potosi, e a oriental, onde se encontram Santa Cruz de La Sierra, Beni e Pando, lugares de clima quente, motivo pelo qual a agricultura se desenvolve com facilidade. A bem informada moça alerta que Sucre, capital administrativa do país, e Tarija mantêm posição de relativa neutralidade em meio à acirrada disputa. E de lambuja, ensina que justo em Tarija são produzidos excelentes vinhos. Enquanto estive em La Paz, não me furtei a prová-los sempre que pintava oportunidade. Se bons? Demais! À noite, Artur e Renata vêm me buscar no hotel e vamos jantar no Luna’s. Os dois, que fazem parte do grupo organizado por Davi Marski, partem amanhã pro Condoriri. Ela pra fazer trekking, ele pra escalar o Pequeno Alpamayo. A conversa flui com facilidade, sem constrangimentos. O tema, como não podia deixar de ser, é montanha, montanha e montanha!! Tanto Paulinha quanto Artur conheci através do facebook. Ele, do grupo Fotógrafos de Montanha ao qual pertenço. Pois é....a internete é uma poderosa ferramenta de aproximação. Permite que se entre em contato com pessoas que normalmente nem se sonharia em conhecer. E sabe duma coisa? No frigir dos ovos, pessoas como as equivocadas paulinhas, vade retro, são exceção!! Graças a deus, os brasileiros caem de maduro em La Paz. Assim como pra quem esquia a meca é Bariloche, pros montanhistas brazucas a meca é a região do Condoriri. Melhor que encontrar, ao longo das calles Illampu, Sagarnaga ou de Las Brujas, alguém que até então só me relacionara pela internete, é, ao dobrar uma esquina, dar de cara com velhos conhecidos da vida real. Super legal entrar na Tatoo e escutar o familiar sotaque carioca, paulista - não interessa qual, sendo brasileiro é o que importa – indagando do vendedor as qualidades de equipos e roupas. Além do turismo barato, as condições climáticas são muiiitoooo boas. Em especial, a ausência de fortes ventos na Cordilheira Real cujos sedutores cumes de 5 e 6 mil metros funcionam como imãs, atraindo montanhistas e escaladores de vários cantos do planeta. E na segunda-feira, eis-me, agora, almoçando com a galera de Ribeirão Preto no charmoso Restaurante Banais, ao lado do não menos charmoso Hostal Naira, localizados ambos na calle Sagarnaga, onde estão hospedados meus amigos. O edifício, um antigo casario espanhol de dois pisos, se organiza seguindo os ditames arquitetônicos da época colonial: habitações que se debruçam sobre um grande poço central, responsável pela iluminação das alcovas. Floreiras com gerânios vermelhos enfeitam as balaustradas de ferro que cercam o espaço vazado. Com duas folhas, as portas dos quartos, revestidas de vidro, em suas metades superiores, são veladas por cortininhas brancas. O cardápio honesto do Banais não ostenta a pretensiosa sofisticação do restaurante La Casona, onde jantamos à noite e cujos pratos encantam mais pelo apelo visual do que pelo sabor. Ciboulettes e arabescos traçados caprichosamente com xaropes coloridos e azeite balsâmico são o arremate final circundando a iguaria encomendada. Mesmo assim vale uma ida a este restaurante, nem que seja pra curtir o lindo e histórico prédio situado no início da avenida Mariscal Santa Cruz. E brindar, com um dos excelentes varietais tintos bolivianos, o reencontro com amigos e a excitante expectativa da conquista de algum cume!!
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