sexta-feira, 8 de julho de 2011

Condoriri, a jóia da Cordilheira Real

No retorno do Sajama, uma breve estadia em La Paz, na quinta-feira, em razão da necessidade de ultimar os preparativos de minha incursão ao Condoriri. Assim vou com Mario, meu guia, ao depósito da agência experimentar botas plásticas e crampons, a serem usados durante o ascenço ao Pequeno Alpamayo. Combino com Paola, que não foi pro Huayna junto com André e cia, um rolê pela cidade. Bem baixadas num táxi, dirigido pelo gentil Joaquin, avistamos de relance o Choqueapo, um minguado rio atulhado de porcarias em seu leito quase seco. Ano passado quando visitei o vale de La Luna, não atentara pruma agulha arenítica que se destaca na paisagem. Conhecida como Muela Del Diablo ou Molar do Diabo é um point de trekking e escalada muito procurado por turistas e nativos. Das 4 vias ali abertas, a mais forte deve ser um 6º, devido à exposição e às pedras soltas. Porém pros iniciantes, segundo meu amigo Gera, há 2 vias bem facinhas, que não vão além dum 3º. Ano que vem vou encarar essa pedreira, hehe!! Continuando nosso city tour pela zona sul, Joaquin nos apresenta os domínios onde está instalada a burguesia endinheirada da capital boliviana, o Jardim Paulista deles. Como no Brasil, muito condomínio guardado a sete chaves por guardas particulares. Quem tem teme! Os tios Patinhas saltaram das páginas dos gibis e agora vivem enclausurados em seus cofre-fortes luxuosos, zelosos de sua segurança. O agradável passeio termina no Mirador, tradicional ponto turístico situado no alto duma colina de onde se desfruta uma bela panorâmica da cidade e do Illimani com seus quatro cumes nevados. Quando estamos regressando ao hotel, me deparo com essa preciosidade escrita num anúncio posto na vitrine dum salão de beleza: “Si necesita diseñadora de uñas”. No Brasil, seria apenas “necessita-se manicure”. Como boa parte da população feminina compõe-se de indígenas aimarás e quechuas cujo gosto pela tradição faz com que ainda enverguem trajes típicos, abundam lojas de tecidos e saias. O lucro por essa indumentária é garantido já que as chollas não vestem apenas uma e sim cinco daquelas saias rodadas cujo comprimento bate na canela! Paola e eu vamos jantar num restaurante recomendado por Daniska, mulher de Hugo, localizado no bairro Sopocache. O pequeno estabelecimento, Swiss Fondue, deve muito de seu aconchego ao tratamento gentil de seu dono, Jean Claude. Suíço, o jovem homem mora há seis anos no país onde se casou com uma boliviana. Indagado se a esposa é uma chollita, o simpático proprietário faz questão de esclarecer que “ella es del barrio sur”. Ou seja, pertence a boa e velha classe dominante branca. Como ele. Bueno, escolhemos um prato típico de batatas raladas e salteadas acompanhadas por um refogado de carne com champignon. Troco a carne de rês pela de lhama, livre de colesterol, cujo sabor é muito parecido com aquela. Porém o que mata a pau é o tal postre chamado Sexy Swiss....hahaha!! Nem vou perder meu tempo falando sobre, vejam a foto e descubram porque estou rindo até agora! Ah, detalhe: eu comi tudinho, hahahaha!!

Na sexta, encontro-me mais uma vez a caminho do Condoriri. Ano passado fiz o cume do Huayna. Desta vez será o cume do Pequeno Alpamayo. Será? Viaja comigo um francês, Sebastien, professor de Matemática em Marseille. Agradável companhia a do europeu. Embora meu inglês seja vacilante, eu diria bem precário até, consigo trocar algumas idéias durante os desjejuns e ceias que compartilhamos na barraca-refeitório. Assim fico sabendo que ele tentará além do Pequeno Alpamayo, o Cabeza de Condor. Prefere a escalada em gelo à em rocha e revela que freqüenta com assiduidade o Mont Blanc. Descubro que adora esquiar, esporte que pratica desde guri. Enquanto percorríamos El Alto a caminho de Tuni, Sebastien fica louco com a movimentação de pessoas nas ruas, clicando-as avidamente com uma poderosa Canon. É sua primeira vez na Bolívia e ele está deslumbrado com o que vê. Por certo, inexiste em seu país nada comparável a este mundo colorido e pobre que tanto encantam os olhares estrangeiros. Seu guia, Feliciano, não se contentou, como muitos de seus conterrâneos, em colocar ao redor dos dentes um filete de ouro. Na face frontal do incisivo direito, incrustou uma estrela dourada!! Muito tri o adorno, tanto que estou louca pra fazer algo semelhante quando retornar a La Paz. Ele me garante que em duas horinhas, o dentista faz o trabalho. Depois duma hora de viagem, a cordilheira Real já pode ser visualizada da estrada. Suas montanhas, no trecho compreendido entre o Illampu e o Agulha Negra, são contíguas umas as outras, formando um verdadeiro cordão de nevados. A coloração escura das rochas revela sua origem metasedimentar. Já o Huayna Potosi, uma ilha de granito claro, emerge independente uma dezena de quilômetros ao norte. Embora a quantidade de nuvens que pairem no céu seja significativa, o sol consegue dar um desdobre no nuvaredo e irradiar seu brilho com certa constância durante a tarde. No pueblo de Tuni, almoçamos enquanto as chollas colocam nossas mochilas e outras cargas sobre o lombo das mulas. Eu e Mario, terminada a refeição, tratamos de pôr o pé na estrada. Bordejando a represa, após vinte minutos de pernada, já se avista o Condoriri, esta bela formação rochosa! A jóia da Cordilheira Real está mais linda ainda. Isso porque há coisa duma semana, uma nevasca assolou a região durante quatro dias e reforçou a cobertura de neve sobre flancos e cumes de picos. Até o Áustria, que ano passado era apenas um cerro, neste está branquinho de neve. Apresso o passo, e Mario adverte, com sua voz habitualmente baixa e mansa, que eu caminhe mais devagar porque posso passar mal. Acrescenta que devo guardar forças pro Pequeno Alpamayo. Finjo que concordo e caminho mais lentamente, voltando a estugar o passo nem bem decorridos cinco minutos. Quando chegamos na laguna Chiartkhota, onde será montado nosso acampamento, vou procurar onde se arranchou o grupo de Davi Marski. Encontro o pessoal no refeitório, uma barraca super bem iluminada que, de tão grande, mais parece um picadeiro de circo! Davi lidera, entre alunos e aderentes, uma galera de 14 homens e uma mulher. Pra vocês verem como engatinha ainda o montanhismo feminino. O ambiente pipoca de alegre e ansiosa expectativa já que nesta madrugada o povo parte pro ataque ao cume do Alpa. Reencontro Ramiro, um escalador gaúcho. Com seu kit chimarrão a tiracolo, conta que a bebida fez sucesso entre as chollitas! Chupando a boa erva cultivada em meus pagos, jogo conversa fora com a animada rapaziada. Tudo de bom a juventude! Declino o convite para jantar e retorno ao meu acampamento. Durante a caminhada, curto a fuga espavorida dos assustados coelhos que correm pro abrigo seguro de suas tocas. Lançando seus derradeiros raios de luz sobre o Condoriri, o sol se despede e cede espaço à noite. Que avança impecavelmente estrelada, exibindo a cada noite o brilho ousadamente crescente da lua no escuro do firmamento.

Um comentário:

Anônimo disse...

E não é que dá mesmo...
Sou simplório e distraído.
Dá-lhe Beatriz, tuas histórias
estão ótimas e as fotos idem
abraço, Paulo