domingo, 29 de junho de 2008

Concórdia: um lixão a céu nem tão aberto

Após uma noite mal dormida, desperto às 6 da manhã. Nem a quantidade de roupas vestidas, tampouco o saco de dormir, foram suficientes pra me aquecer satisfatoriamente. Neste tipo de clima, tem de ser um de –10º C e o meu é de -5º C. Parou de chover e o sol deu as caras, embora seja preocupante a quantidade de espessas nuvens, especialmente, pros lados de Concórdia. Hoje, sim, consigo avistar, nitidamente – ontem, fora impossível -, os espalhados e irregulares flancos nevados da linda montanha Masherbrum. Os nativos deram-lhe este nome - masher significando arma, e brum, montanha - devido à semelhança de sua forma à de uma arma de fogo. Olha gente, tive de fazer um certo esforço de imaginação para visualizá-la desse jeito, e mesmo assim....sei não. Saímos de Goro I às 7:50. Gostei demais do lugar, um mundo encantado em preto e branco. Damos uma parada para almoço às 11:45 e às 12:30, retomamos a caminhada. Ainda que o percurso apresente as indefectíveis subidas e descidas sobre o cascalho preto, não é dos mais extenuantes. Encantada, atravesso corredores formados por gigantescos blocos de gelo. A paisagem, na falta de melhor palavra, é sen-sa-cio-nal. O tempo que, durante quase toda a manhã, não se houvera revelado camarada – deveras nublado até então –, após o almoço, começa a melhorar: as nuvens espairecem, permitindo que o sol - oxalá assim continue - desponte com certa energia, realçando com seu brilho o contorno das montanhas e dos altos picos, cujas abruptas escarpas, ora se apresentam desnudas, revelando sua tonalidade cinza chumbo, ora vestidas pudicamente com o branco manto de gelo e neve que os recobre. Destaca-se na paisagem o Mitre Peak (6.025m). O caminho continua sendo um sobe e desce constante. As nuvens não permitem que se aviste, com nitidez, o Broad Peak e o K2, considerada a segunda montanha mais alta do planeta com seus espetaculares 8.611 m. Fico pensando que se a face sul do K2 é considerada mais difícil do que as duas do Everest, pior ainda deve ser sua face norte, localizada na China. Só o trekking de aproximação ao campo-base dura "rapidinhos" 30 dias! Visíveis, contudo, os lindos picos Marble (6.256 m) e Cristal (6.252 m), situados um pouco antes daquelas duas montanhas. As águas de degelo continuam a escorrer através do cascalho que assoalha o glaciar. Afinal estamos no verão e os efeitos desta estação já se fazem sentir na região. Um pouco antes de chegarmos a Concórdia, outro posto do exército, construído à semelhança de um iglu, justifica tais cuidados com a segurança: a região é zona de fronteira com a China, conquanto seja um país com quem o Paquistão mantém cordiais e profícuas relações comerciais. O ar frio e a baixa pressão atmosférica produzem precipitação de água-neve que se dissolve rapidamente ao cair. Chegamos em Concórdia às 3 da tarde e já se encontram instalados dois dos espanhóis que estavam com Carlos Soria em Paiyu. São trekkers e seguem amanhã pra Broad Peak onde vão se reunir à expedição liderada por seu conterrâneo, permanecendo no acampamento-base por três dias. Convidam-me a participar dum jogo, segundo eles muito popular na Espanha, que consiste no lançamento de pedras – três tentativas - numa estaca fincada na terra, de modo a derrubá-la. Não acerto uma. Agora, consigo avistar o K2 e o Broad Peak, ainda que espessas nuvens os encubram parcialmente. Já percorri 87 km desde Askole. Sinto-me ótima embora vente e faça muito frio. Não é pra menos, afinal a altitude é de 4.600 metros. Desde que iniciei o trekking, uma indignação vem crescendo dentro de mim à medida que constato a falta de consciência e o descaso, tanto dos porters quanto dos turistas, largando sujeira ao longo das trilhas. Aqui em Concórdia, entretanto, o lixo atinge seu apogeu. Este belo cenário, de onde se pode contemplar algumas das mais magníficas montanhas do planeta, encontra-se, lastimavelmente, cheio de entulho: pilhas e mais pilhas de latas enferrujadas de comida das mais diversas procedências, papel higiênico usado e carteiras de cigarro vazias, além de diversos outros resíduos, jogados com displicência no chão. Além de ferir profundamente meu senso estético, chocante a falta de consciência e desrespeito dessa gentalha com a natureza (gentalha, gentalha, sim!! como diz, com propriedade, um dos meus ídolos, o Chavez; não confundam, por favor, o excelente ator mexicano com o seu bufão homônimo da Venezuela!!). Poucos são os que tratam de carregar seu lixo pessoal, porque, claro, dá trabalho, sei por mim. O resultado é o descarte do lixaredo nos acampamentos, aqui elevado à enésima potência. Olhando pros morretes de entulho, lembro da breve palestra do funcionário do Ministério do Turismo, quando fui fazer o briefing em Islamabad, discorrendo entre outras coisas sobre as dezenas de containers retiradas pelos porters no final da temporada de verão quando, em mutirão, percorrem os mais de 120 km da trilha toda, cujo início é em Askole e final na vila de Hushe. Isso poderia ser evitado se todos agissem com um pouquinho mais de cuidado. Para o sul, o tempo está fechando, ainda que vez por outra o sol surja dentre frinchas de robustas nuvens. Da minha tenda, avisto o Broad Peak e o Gasherbrum 4 (gasher significa bela, e brum, montanha). Conversando com Ali sobre montanhismo, surpreendo-me com a revelação dos riscos envolvidos na escalada deste segundo pico. Explica ele que, embora o G4 seja um 7 mil, é bem mais perigoso devido aos constantes deslizamentos de gelo e neve que guarnecem suas encostas, se comparado ao Broad Peak com seus 8.047 m. Vejo os tais pássaros pretos voando em várias direções. Ainda há pouco, um deles pousou no teto da barraca e se pôs a assoviar. Coisa mais querida! Olha só o que são os mal entendidos quando não se sabe falar direito um idioma estrangeiro. Ontem quando perguntei ao Ali a idade de sua esposa, entendi, quando respondeu, que sua mulher seria Niaz. Bueno, aceitei na boa, considerando a tolerância ao homossexualismo existente no país. Hoje, resolvo, novamente, questioná-lo - por descargo de consciência - até porque não gosto de fornecer informações incorretas. Ali sorri e, deliciado, exclama, divertido "oh, no, no, Biá". Pede, sussurrando, que eu não comente nada com Niaz, enquanto faz engraçadas caretas pelas costas do outro, soltando risadinhas de satisfação pelo nosso segredinho. Aceito a conspiração, é claro, com muito gosto. Este Ali é um baita gozador, isso, sim! Mais do que não saber falar bem inglês, lamento mesmo é não entender patavina de urdu. Como não aproveitaria mais a viagem se pudesse me comunicar fluentemente com os paquistaneses. Ia extrair tantas informações interessantes deles, ora se ia!! À tardinha, visito os três porters em sua “casinha”. Abrigados no interior duma construção circular feita com pedras e coberta com plástico transparente, ficam muito contentes com minha presença. Sou convidada pra tomar uma sopa que está sendo preparada pelo mais velho dos três. Engulo, sem vontade, a insossa mistura de água e farinha, e, levantando o dedão enquanto balanço a cabeça pra frente e pra trás, sinalizo que gostei. Fico sabendo depois que justo o mais velho deles não tem saco de dormir. E sua indumentária consiste numa calça, camiseta e jaqueta, cujos tecidos são de algodão....pode? Pode sim!! E calça um tênis de plástico branco, sem meias! E é meio surdo. E mesmo assim, sorridente e prestativo demais!

sábado, 28 de junho de 2008

Goro I, uma surpresa em preto e branco

Observo que o tempo se mantém nublado quando ponho o nariz pra fora da barraca. Muhammad, sorridente, me entrega uma caneca de chá quentinho. Faz frio. Levantamos acampamento e começamos a caminhada às 8. Ando devagar pois sinto fisgadas na coxa. De fato, contraí algum músculo perto da virilha. Sacoooooo......Do lado esquerdo do Baltoro Glaciar, após as Trango Towers, impossível passar despercebidas as Catedrais, duas soberbas torres de granito com mais de cinco mil metros de altura, separadas pelo glaciar de mesmo nome. À minha retaguarda, a linguona cinzenta do glaciar Khoburse distancia-se cada vez mais. Como afluentes de rios, os glaciares - situados entre as montanhas perfiladas em ambos os lados do Baltoro Glaciar - convergem em sua direção. À direita, já visualizo o glaciar Urdukas. Somente num pequeno trecho, o trajeto se faz diretamente sobre o gelo, necessitando um certo cuidado pra não se escorregar no terreno liso. No restante, cascalho preto e areia encobrem a colossal massa de gelo. O caminho não é difícil. Alcançamos Urdukas às 11 onde está instalada uma base do exército no sopé da íngreme colina que conduz ao acampamento. Ali, todo contente, avisa que descolou um cavalo para eu ir a Goro II e um abatimento de 1.000 rúpias no aluguel, já que o proprietário do animal exigira 5.000. Tento me abrigar, enquanto almoço, sob uma saliência de rocha, pois uma garoa marota se faz presente. Saímos de Urdukas às 12:00 e necas do cavalo. Assim, Ali e eu retomamos a caminhada. Niaz, desta feita, não nos acompanha. Foi à frente avisar aos porters que nos aguardem no acampamento de Goro I. O chuvisco, intermitente, não dá muita trégua: pára, reinicia, pára e reinicia. Às 13:15, eis o cavalo puxado por seu dono, apontando colina abaixo. Monto, meio receosa, sei lá se é manso. Como o tempo está nublado e nuvens encobrem as montanhas, mal as posso divisar. O cavalinho revela-se dócil demais. Porta um sininho no pescoço e, enquanto trota, um tilintar de blim blem quebra o silêncio daquelas paragens. Vez por outra, Ali e o proprietário do cavalo o incitam com palavras ou sons. Certos trechos íngremes, rentes a precipícios, me deixam tensa. Os dois homens, percebendo meu medo, me tranqüilizam sorridentes. Começam a surgir, entre as escuras rochas, grandes blocos de gelo, brancos, muito brancos. Não é uma paisagem acolhedora, muito pelo contrário, há de se reconhecê-la inóspita. Mesmo assim, ou talvez por isso, eu gosto demais do que vejo. O cavalo só negaceia uma vez, ao atravessar um dos inúmeros córregos que se formam do degelo dos glaciares. O dono puxa-o, ele empaca. Então, o homem larga a corda e deixa-o à vontade pra procurar o melhor lugar para cruzar a correnteza. E eu lá em cima me borrando de medo enquanto o bicho, conhecedor dos caminhos, atravessa tranqüilo até a outra margem. Durante o trajeto, diversos riachos de espumosas e cristalinas águas verdes escorrem céleres por entre as pedras e blocos de gelo. Uma loucura esta paisagem. Agora não se vê quase nada de vegetação, excepto uma porção na encosta dum pico que avisto do interior da barraca onde descanso após a jornada. Algumas montanhas são rodeadas por camadas de nuvens como se vestissem saiotes de tule branco, à semelhança daqueles usados pelas bailarinas, os tais de frufrus, tá ligado? Um claro aqui e lá deixa entrever o azul do céu pros lados de Concórdia; no mais, densas nuvens tingem-no de cinza. Vamos ficar em Goro I pois o dono do cavalo se recusa, sei lá por quê, a pernoitar em Goro II, acampamento adiante do de Goro I, onde passaríamos a noite. Diante disso, o aluguel, inicialmente, acertado em 4.000 rúpias, diminui para 3.000, graças a um novo desconto, conseguido por meu mago das finanças, o grande Ali. No final, como dei 1.000 rúpias de gorjeta, o cavalo custou mesmo 4.000. Ali, orgulhoso de sua capacidade de negociar e regatear, afirma que o aluguel de um cavalo não sai por menos de 10.000 rúpias. Como ele é um homem muito esperto talvez tenha dito isso pra se fazer de “bonzinho”. Recordo, contudo, a seu favor, que, quando eu quisera dar 1.000 rúpias de gorjeta a cada um dos dois porters que só levaram carga até Paiyu, ele, incisivo, não deixara. Falou que bastavam 500. Concluo que sua natureza prestativa colabore pra que ele cuide de economizar grana pros seus clientes. Minha perna já apresenta melhora considerável, resultado da combinação de medicamentos e de minha relativa imobilidade, ao trocar a árdua caminhada de Urdukas a Goro I pela cavalgada. Amanhã, conseguirei, com certeza, ir a pé a Concórdia. A chuva continua. Por todo o lado, há enormes e compactos blocos de gelo. Alguns lembram os iglus dos esquimós, assentados solidamente no terreno pedregoso. Outros se equilibram precários sobre estreitas superfícies de rochas. Peço pra Muhammad um pouco de gelo. Ele cavouca o terreno e logo me entrega um pedaço que aplico no lugar onde a coxa está dolorida. As tonalidades das pedras são lindas: rosas, vermelhas, verdes, amarelas. Estou bem louca, se pudesse levava todas as que estão espalhadas pelo chão. Pela primeira vez, como, com gosto, a deliciosa massa, bem fininha, refogada com cebola, couve e alho, preparada por Niaz. A chuva cessou porque já não escuto mais o tamborilar das gotas no teto da barraca. Está frio pra caramba, prenunciando uma noite daquelas. Visto, por via dúvidas, três blusões e duas calças de fleece, mais três meias de lã antes de me enfiar no saco de dormir, recomendado pra temperaturas de até –5º C. Sei lá se irá me proteger adequadamente. Minha experiência neste tipo de clima e situação é zero à esquerda. Um porter passa cantarolando pela minha barraca. São 21:30 e os grandes blocos de gelo resplandecem na escuridão da noite.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Khaburse

Às 5 a lua reflete, pela metade, seu brilho branco no azul esmaecido do céu. Como não está frio, visto apenas um moleton de fleece pra ir ao banheiro. Agora, 6:30, finas nuvens cobrem o céu toldando-o de longe em longe. O acampamento está quase vazio. Os espanhóis há coisa de meia hora se mandaram em passo acelerado. Só nosso grupo e alguns porters, remanescentes da expedição espanhola, ainda se quedam cá. São 6:50 quando partimos em direção a Urdukas. No início da jornada, vai ao meu lado um colombiano, o José. Falante e simpático (aliás, até agora não encontrei, graças a deus, ninguém antipático), o rapaz revela que é proprietário duma agência de turismo em Bogotá. É sua primeira viagem ao Paquistão e acompanha Fernando Gonzáles, seu compatriota, conquistador de 7 das 14 montanhas com mais de 8.000 m. Vão tentar o GI. Depois de um agradável bate papo, despede-se, e vai ao encalço de seu amigo, já bem à frente. O caminho, agora, sim, se faz íngreme, cheio de altos e baixos, em especial quando entramos no Baltoro Glaciar. Fico desapontada porque imaginava esta superfície de gelo, com aproximadamente 60 km de extensão, toda branca. Qual o quê! Coberta por pedras e terra, só consigo acreditar mesmo que estou andando num dos maiores glaciares do planeta, quando empurro com o pé o cascalho que o encobre. Daí, sim, certifico-me de que caminho sobre um gigantesco bloco de gelo. O céu adquire uma coloração fortemente azulada, e a temperatura começa a esquentar pra valer. As pequenas moscas não dão tréguas, incomodam à beça. Incrível, porque estamos a mais de 3.500 metros! Não à toa, alguns porters carregam na mão um galho de flores arroxeadas: com elas espantam esses infames insetos! Paro várias vezes, não só pra descansar – está sendo bem puxada essa trilha, confesso! - quanto pra apreciar a linda paisagem onde se destaca, nitidamente, o Paiyu Peak (6.610 m), uma larga formação rochosa coberta de neve no topo. Quando estava no acampamento de Paiyu, não o enxergava bem - apenas uma pontinha de seu cume - já que escondido por outras montanhas. Agora, mais à distância, sobressai, na paisagem, toda sua imponência. Encontro, no caminho, um grupo de trekkers retornando a Askole; esqueço, porém, de indagar de onde são. Ali aponta uma gigantesca estrutura rochosa a nossa frente: são as famosas Trango Towers, preferidíssimas dos escaladores, especialistas em big walls. Algumas encostas de montanhas apresentam-se, ainda, atapetadas de grama. Começam a surgir arbustos rasteiros, alguns apenas com folhas, outros há em que brotam flores de diversas colorações: roxas, magentas, fúcsias, amarelas, vermelhas e brancas. Alguns lagos de águas verdes quebram a tonalidade ora bege, ora cinzenta da paisagem. Escuto um barulho imaginando ser uma cascata...qual o quê! é de água, não, e, sim areia escorrendo de uma ribanceira. Atravesso um rio pulando de pedra em pedra, tal qual uma cabrita. Estou cansadíssima. Paro seguidamente. Quando menos espero, Ali e Niaz, sentados (os porters há muito seguiram em frente), fumam, enquanto me aguardam, com um ar, displicentemente, divertido. E eu botando os bofes pela boca...putz grila!! Fico sabendo por um espanhol - vindo de Concórdia - que Urdukas está fedendo muito, moscas demais e pouca água. Diante disso, afora meu evidente cansaço, Ali decide acampar em Khaburse (pronuncia-se cobursê, e significa o nome duma planta muito cheirosa, comestível apenas por animais) onde chegamos às 13:15. Este acampamento não tem a mesma estrutura do de Paiyu, justo uma casinha de pedra, residência do proprietário das terras. De um córrego estreito, onde escorre um minguado filete d’água, é retirada a água, após devidamente fervida, para fazer comida e também beber. A paisagem é muito legal. Cercada por várias montanhas e torres de granito, destacam-se as Trango Towers, formidável maciço rochoso com quatro cumes identificáveis, sendo os mais badalados a Trango Tower ou Nameless Tower (6.239 m) e a Great Trango, a maior agulha das quatro com seus 6.286m. Disputam a atenção, ainda, Cathedral Peak (5.866 m), Liligo Peak (5.600 m) e Uli Biaho (6.109 m), todas lindas, lindas, lindas. Já acomodada na barraca, escuto o barulho da chuva tamborilando no teto. Um vento forte começa a soprar. Entra um bocado de areia nos meus domínios e meus pertences cobrem-se de uma fina camada de pó. Curto, daqui de dentro, dois cavalinhos recém chegados de Bardumal, tentando retirar alfafa dum saco caído ao chão. Um deles leva um cincerro ao pescoço. Tão gostoso o tilintar do sininho! Alguns porters montam, ao lado da minha, duas outras barracas, pertencentes a uma expedição cujos membros ainda não chegaram. No dia seguinte, conversando com eles, um casal, descubro que são trekkers e trabalham na embaixada do Canadá, em Islamabad. O vento se foi, a chuva, entretanto, permanece. Sinto, de repente, meu rosto molhado. Pois não é que a barraca tá vazando água? Grito por Ali, energicamente. Logo aparece ele, seguido de Muhammad e Mussa. Trazem um plástico para vedar as goteiras. Como minha barraca está justo ao lado do córrego, peço-lhe que a transfira de lugar. Sei lá, vá que continue a chover, e o tal córrego se transforme num riachão. Transportam-na para um local mais elevado. Aproveito, então, e peço que virem a abertura de entrada para Liligo Peak: assim, poderei ver, daqui de dentro, a espetacular paisagem desta montanha! Terminada toda essa faina, não é que a chuva estanca?!! Mesmo assim, veio a calhar a chuvarada, o ar tornou-se mais fresco e as malditas moscas sumiram do mapa. As montanhas ao redor estão encobertas por denso nevoeiro, cenário um tanto quanto espectral. Adoro tudo isso!! Se, inclusive, o conde Drácula fizesse uma aparição, eu, com certeza, podem crer, soltaria gritinhos, de tão deslumbrada estou. Pra completar o climão, estamos a 3.800 metros. Estou desconfiada de que sofri uma bela contratura na coxa direita. Era só o que me faltava! E foi coisa à toa: quando abaixei pra entrar na barraca, ao chegar aqui, senti um estirão no músculo. Muhammad chega à porta de minha tenda, avisando que a janta está pronta. Niaz preparou um delicioso sopão. Apenas Ali e eu jantamos. Niaz e os porters, Muhmmad e Mussa, preparam chapatis num canto da barraca-refeitório. Só irão comer após o término de minha refeição. Aos outros três porters não é permitido freqüentar a barraca-refeitório, daí que acampam em local mais afastado, lá preparando sua comida. Como sempre, Ali e eu conversamos enquanto bebemos um escaldante chá verde. Magro e ativo, ele é simpaticíssimo. Adora sua profissão. Seu sotaque é tão ruim que demorou um eito até eu entender que “sonou” era “snow”. Apesar das dificuldades no idioma, conseguimos nos entender razoavelmente. Como todo guia de alta montanha, já trabalhou em várias expedições de escalada, fixando cordas entre um acampamento e outro. No K2 (8.611 m), subiu até 7.400 m, além da participação em um resgate; no Gasherbrum 2 (8.035 m), atingiu o campo 2; já no K7 (6.934 m), fez o cume. Dou-lhe trela, e ele não se faz de rogado. Prossegue em sua biografia, contando orgulhoso que iniciou a trabalhar, no turismo, aos 16 anos, como porter, durante as férias escolares. Depois, foi sirdar, assistente de cozinheiro, cozinheiro e assistente de guia, até a atual função, que vem exercendo há 12 anos. Para tanto, fez um curso técnico de 1 ano. Exausta do longo dia, desejo "good night" a todos e vou embora. Minha perna está incomodando, portanto, ingiro, antes de dormir, um relaxante muscular e um antiinflamatório pra prevenir maiores complicações. Oxalá não seja nada grave! E a chuva reinicia, pois, pois...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Descansando num oásis

Tiramos o dia pra descansar em Paiyu, daí acordo às 06:00 sem pressa alguma. Tiro algumas fotos e filmo, inclusive, o vôo das inúmeras gralhas que passam pra lá e pra cá no céu azul, despido de nuvens. John me procura pra se despedir. Sua expedição está de partida pra Concórdia. Peço a ele pra tirarmos uma fotografia. O simpático guia escolhe como pano de fundo uma das árvores que viceja florida ao redor. Posamos, então, faceiros. No desjejum, é servida uma iguaria paquistanesa, um bolinho achatado, o pinke cake. Oito da manhã e a temperatura, já alta a essa hora, prenuncia o calorão que nos aguarda o restante do dia. Lembro, sorrindo, de um episódio da festa de ontem à noite. Um jovem e magro porter, dançarino dos melhores, exibia, faceiro, seus dotes, quando John puxou pra entrar na roda outro porter. Este homem, um baixinho de pernas tortas e feições lombrosianas, iniciou sua dança. Com gestos grotescos se espalhava pra tudo quanto é lado. O outro não gostou e deu-lhe um leve empurrão. O baixinho nem se abalou, continuou a ocupar todo o espaço da roda. Lá pelas tantas, o magro dá uma bundada no baixote e lá ficam os dois se empurrando bunda com bunda, querendo um expulsar o outro do círculo. Apesar do evidente desgosto do jovem bailarino, a cena era cômica, e todos riam muito do embate entre os dois. Sacanagem pura do John que usou a vaidade dos porters pra divertir os espectadores. Resolvo questionar Ali sobre os homens andarem de mãos dadas. Ele admite sem maiores constrangimentos que não rola só amizade, não. Alguns são namorados mesmo. Concluo que o homossexualismo masculino é tolerado, portanto, no país. Ali observa, irônico, que se aos homens é permitido andarem de mãos dadas na rua, o mesmo não ocorre entre um homem e uma mulher. É escândalo na certa! Coisas do Paquistão! O camping é dividido em terraços, assim, em cada um, acomodam-se as diversas expedições que chegam a Paiyu. Vejo, no terraço abaixo de onde estamos instalados, um jovem e desço até lá pra conversar um pouco. Esclarece que é tcheco e prefere escalar em lugares não muito badalados, manifestando certo desprezo pelos oito mil. Conta que já escalou o Fitz Roy e também alguns picos nas Torres Del Paine. Dou bye bye e subo até onde está minha barraca. Sento, do lado de fora, numa cadeirinha, observando o tcheco e seu companheiro, que chegara um pouco depois, armarem juntos suas barracas, enquanto, animadamente, conversam naquele áspero idioma deles, dando muitas risadas. Escuto uma gritaria e, curiosa, vou até o lugar de onde provém o zum zum zum. Uma aglomeração de porters gesticula ao redor de uma lona azul onde estão dispostos pedaços de carne, ainda, sanguinolentos enquanto dois homens, ao centro, colocam os nacos em sacos plásticos. Fico sabendo que é costume as expedições comprarem uma cabra (os donos dos acampamentos possuem criação desses bichos), matá-la e dividir os despojos entre si. Tal partilha, entretanto, não se dá tão igualitariamente assim, daí o motivo de os porters dessa ou daquela expedição reclamarem pra si este ou aquele pedaço com grande alarido. Tudo se acalma, por fim, e os porters saem carregando satisfeitos seus quinhões, garantia de que irão comer algo mais substancial, além da insossa ração diária de chapati e sopa a que se submetem durante o trek. Nós também ganhamos a nossa porção, o que se evidencia quando um de nossos porters passa por mim e aponta, alegre, um saquinho com alguns pedaços da carne. Ali vem até onde estou - permaneço ainda sentada do lado de fora da barraca pois o calor não arrefeceu - conversar sobre o nosso itinerário do dia seguinte. Concordo com tudo o que propõe, aliás, uma das raras ocasiões em que deixo decidirem por mim, até porque nem conheço nada mesmo das trilhas, hehehe. E sabe duma coisa? Às vezes, muito de vez em quando, é bom ter alguém que decida em meu lugar! Um porter, alto e magro, sempre sorridente, dono de dois grandes e espaçados incisivos centrais superiores, um tanto quanto projetados pra frente, vem me trazer nimko, uma espécie de pastelina, levemente condimentada com pimenta preta, tempero muito usado na comida paquistanesa. Pergunto seu nome e percebendo a sua evidente dificuldade em entender inglês, novamente arrisco “what is your name?” Ele pensa um pouco e dispara que nem uma metralhadora “Muhammad Ali”. Eu continuo a interrogá-lo, me “achando a repórter” “are you a porter or a guide?” Outra pausa, ar de confusão total, então, rapidamente, decide “Muhammad Ali”. Nem preciso acrescentar que desisti de qualquer tentativa de continuar batendo papinhos com Mr. Smiley, apelido dado a ele por seus companheiros. O céu continua claro e brilhante, apenas uma brisa agita vez por outra a folhagem das árvores. Muhammad me chama pro almoço. Niaz todo orgulhoso serve o tal carneiro ensopado. Desmancho-me em elogios, na verdade, não gostei muito desta carne, não! – às vezes, porém, é necessário um pouquinho de falsidade pra agradar, tipo noblesse oblige, sacou? Entretanto, os paquistaneses parecem apreciá-la muito porque comem-na com evidente prazer. De sobremesa, vermicillies, uma massa tipo cabelinho de anjo misturada com leite. O gosto lembra açúcar queimado. Os elogios, dessa feita, são sinceros. O calor está sufocante. Nem pensar em tomar banho de rio porque as águas são congelantes. Entro na barraca, leio algumas páginas das aventuras de Amundsen no Pólo Sul e não resisto à modorra, logo estou dormitando com o livro sobre a barriga. Fim de tarde, saio pra passear e desço até o rio. Alguns porters enxaguam peças de roupa. Um deles, penso, deve ser o da minha expedição, lavando as minhas. Como meus dedos estão dilacerados devido à psoríase (o clima muito seco super detona a minha pele, tanto que aconteceu, também, no Atacama), pedi a Ali se conseguiria algum porter pra fazer esse serviço pra mim. Depois da janta, enquanto fumamos um cigarro, indago de Ali qual seu signo. Ele não sabe qual dia e mês nasceu. Explica que é uma situação comum, nas aldeias do país, os pais não registrarem os filhos, devido às dificuldades de locomoção até as cidades onde se localizam os cartórios. Conta, sorrindo, que sua mãe o pariu enquanto dormia. Quando ela acordou, ele já estava, acomodado, entre as pernas maternas.........será que compreendi corretamente?! Sei lá, seu inglês estropiado e meu ouvido pouco afeito a este idioma, podem bem ter colaborado pra eu entender um tanto quanto errada a narrativa de seu nascimento...porém, tudo é possível neste mundão governado por deuses, alás, budas e orixás. Um certo frescor já se faz sentir. As nuvens exibem agora um leve tom rosa, resquícios de um sol em declinío. Dos refeitórios dos tchecos e dos espanhóis escuto alegres risadas. Porters, puxando pelos cabrestos seus cavalos, passam diante de mim, enquanto outros dois passeiam tranqüilamente de mãos dadas. Amanhã teremos de acordar cedo de modo a evitarmos, o máximo possível, a exposição sob o sol forte, em especial durante as primeiras horas da tarde. Hoje, ao contrário de ontem, todos deitam cedo, um tácito toque de recolher faz com que, já às 21 horas, estejamos acomodados nas barracas preparando-nos para dormir. Não existe melhor disciplina que o esporte!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O Festerê

O acampamento está sendo desmontado. Os porters atarefados arrumam suas cargas enquanto Ali, acocado, os observa pitando um cigarro. Uma mula também integra a expedição. Carrega querosene, fogões e sacos de 20 kg de farinha. Devemos partir, segundo meus cálculos, às 07:15, o que de fato ocorre. O dia está lindo, um céu azul, imaculado, quanta diferença de Islamabad com seu céu quase sempre nublado. Promete ser outro dia de muito calor já que durante a noite não fez frio. Ontem, comi uma sobremesa, o kheer. Trata-se de um mingau de arroz, leite, amêndoas e erva doce, deveras saboroso. Apesar de a lua não se mostrar após o escurecer, só dá as caras tarde da noite, já que em fase de crescente timidez, de manhã, quando acordo, está lá em cima, claramente, visível, acompanhando meu caminhar até o sol ofuscá-la por completo. O percurso, ainda, segue o curso do rio Braldu, filhote do degelo do Baltoro Glaciar; as margens, em alguns pontos, elevam-se bem acima do leito, atingindo uma altura em torno de 40 metros. Durante o trajeto, muitos daqueles arbustos espinhentos em que floresce a linda flor cor de rosa com 5 pétalas e miolo amarelo. Chegamos em Bardumal às 10:50 onde paramos pra almoçar. Há uma construção de pedra com três peças onde os porters acendem os fogareiros e preparam a comida. O tráfego destes homens indo a Concórdia e retornando a Askole continua intenso. Daqui ouço o marulhar forte do rio. De repente, chama minha atenção a algaravia, nervosa, em urdu, dum velho batendo boca com Ali. Divertido, meu guia mais escuta do que fala. Curiosa, não resisto e questiono-o. Ele, jocosamente, conta que o velho exige dinheiro pela nossa permanência no local. Pergunto por quê, intrigada. Ali explica que os acampamentos são propriedades particulares, assim a cada proprietário é permitida a cobrança de estadias pelo uso do terreno. Ali, entretanto, defendendo nossos interesses financeiros, nega-se a pagar: “Bitriz, we just stay here one hour...this owner doesn’t have any reason to demand money.” Esse guia é tudo de bom!! Saímos de Bardumal às 11:50. Durante o trajeto, Ali esclarece que o pico à minha esquerda é o Paiyu. Sempre costeando o rio, seguimos, agora, por um caminho onde se pisa sobre pedras rentes à água. Olho em torno e me vejo num vale cercado, nos seus 360º, por montanhas. Um desbunde! Apenas o branco da neve nos topos e encostas quebra a monocromática tonalidade marrom das rochas. Vejo à minha frente um enorme aglomerado de torres de granito, em que despontam cumes pontiagudos e irregulares, quase descobertos de neve: este paredão cor de chocolate são as Trango Towers. Atrás, um ponto branco, o K2. Decepcionantemente pequeno dessa distância. Avisto, longínguo, também, o Broad Peak. O céu mantém-se azulado, nuvem alguma perturba sua coloração uniforme. Estou cansada, também, pudera; além de a temperatura estar em torno de 36º C, já atingimos 3.400m. Um ponto verde se destaca na paisagem: eis Paiyu. Lá há muitas árvores e, portanto, sombra, aleluia (!), artigo raro durante o trekking. São 14:10. Calculo mais uma hora de caminhada até lá. Mesmo nesta altitude há moscas e das grandes. E a companhia constante dos rios e do fio do telefone satelital. Chegada em Paiyu às 15:50, um lugar super legal. Minha barraca é montada embaixo duma frondosa árvore. Coisa boa porque, ontem, em Jhola eu não sabia o que era mais refrescante, se ficar na barraca, uma autêntica sauna, ou se do lado de fora, num clima de antecâmara do inferno. Diante da barraca, há o lindo arbusto florido de rosas e uma montanha com o topo coberto de neve. Parece cartão postal! O camping está lotado: afora as duas expedições de escaladores e uma de trekkers, há a nossa. Sem falar nas centenas de porters que as acompanham. Uma muvucagem pra lá de excitante! John, o guia-chefe de uma delas, um paquistanês carismático, aproxima-se e começa a conversar. Conta que trabalha há 24 anos nessa profissão. Orgulha-se de já ter guiado vários escaladores de elite, entre eles Hans Kammerlander, famosíssimo no meio, por suas tentativas de descer esquiando do topo até o acampamento-base os montes Everest e K2. Convida-me a ficar em sua casa, com sua família, quando eu for a Hunza Valley. Algumas expedições de escalada são tão sofisticadas - a de John é uma delas - que, afora o cozinheiro, levam, ainda, o assistente de cozinheiro e um, pasmem (!), lavador de pratos! Fico sabendo, pra meu desconsolo, que não vai ser possível a travessia do Gondoghoro La. As crevasses no seu topo estão enormes, sendo complicada a passagem. Só pra profissionais, não amadores como eu....snifff. Isso vem acontecendo desde o ano passado....coisas do aquecimento global. Mas, bah, nem tudo está perdido, pois não é que hoje haverá uma festa?! Desço a trilha que leva aos toaletes e peço a Mussa, meu porter, que encha de água um enorme balde. Entro na pequena cabine. O banho é de canequinha e a água gelada, escorrendo sobre meu corpo, faz com que eu solte gritinhos estridentes. Tão bom tudo isso!! Quero estar reluzente e cheirosa pro festerê à noite! Lá pelas 21 horas, os porters fazem um círculo e, utilizando seus containers como tambores, iniciam a cantoria. Homens entram na roda e dançam; alguns aos pares, outros, desacompanhados. Manuseiam, em elaboradas e delicadas evoluções, as mãos. Percebo a nítida herança indiana nesses movimentos. Eles não se drogam, não enchem a cara, como nós ocidentais, e são bem mais espontâneos e descontraídos. Sabem se divertir, sem a necessidade de qualquer aditivo. Pra refletir. John não aceita minha recusa e me baixa da pedra, onde estou sentada, até o chão, pelos sovacos, como se eu fosse uma pluma. Sou, assim, obrigada a entrar na roda......e danço, tentando, canhestramente, imitar os bailarinos. Lá pelas tantas, meu querido guia exibe faceiro seus dotes artísticos, evoluindo com graça na rodinha. Observo que os movimentos suaves não excluem a evidente virilidade daqueles homens. Encantadores! A festança dura até 23 horas quando, então, o acampamento silencia. A noite, estreladíssima; um show atrás do outro.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Início do trek

Acordo justo às 4:30 com vontade de fazer xixi e saio da barraca. Nem preciso de lanterna. A lua, embora decrescente, ilumina bem ainda os campos ao redor. Volto pra tenda e durmo até as 6:00. Acordo em definitivo com o zunzum dos porters levantando o acampamento para seguirmos até Korophon. Muita discussão enquanto pesam as bagagens. Os carregadores olham atentamente a balança e fazem aquela algazarra quando os 25 kg permitidos são ultrapassados. Bem atrás de nosso acampamento, há um enorme paredão de granito cor de ferrugem clara com veios horizontais mais escuros. Uma beleza! O dia está lindo, sem nuvens, calor legal e a lua, visível, ainda no céu. Iniciamos a caminhada às 7:30. O caminho é quase plano acompanhando o curso do rio Braldu que, largo, agora, se espraia, calmo, entre dois contrafortes de montanhas. Dura pouco, porém, tal mansidão porque vem engrossá-lo o rio Biafo, voltando a ser novamente um indomável caudal. De um lado, os contrafortes são pura pedra desnuda, do outro a rocha está coberta por grama verde: parece veludo. Encontro no caminho um grupo de espanhóis que vão escalar o Gasherbrum I, também conhecido como Hidden Peak (8.068m). Entre eles, Carlos Soria, 69 anos!! Após sua aposentadoria, lançou-se de corpo e alma na escalada, alcançando o topo de vários 8 mil, entre eles o K2. Este ano, esteve com Niclevicz no Makalu e exibe, orgulhoso, um chaveiro, em formato de mosquetão, presente do escalador brasileiro. Há anos vem ao Paquistão. Conhece todos os lugares onde há montanhas desafiantes para escalar. Estou adorando conhecê-lo. Não demora muito, se despede de mim – que peninha! -, caminhando em passo apressado. Pretende alcançar Jhola antes de a temperatura se elevar em demasia. Alcança-me, um pouco depois, outro espanhol, amigo de Carlos, também coroa, Alfredo. Batemos papo, e ele conta que, no Equador, há ótimas montanhas e vulcões pra fazer trek, destacando, entre eles o Cotopaxi, com quase 6 mil metros, cuja cratera, no topo, apresenta-se rodeada de neve.....huuummmm. Um pouco depois de atravessarmos uma tremelicante ponte de madeira, nos despedimos alegremente. O passo dos espanhóis é rápido, estão noutro ritmo, bem diferente do meu. Vida boa essa!! A paisagem é linda, já dá para se perceber algumas montanhas situadas no Baltoro Glaciar. No meio da aridez do caminho, uma surpresa: arbustos floridos. Tão insólito esse colorido no meio do bege do terreno. Agora, 11:00, chegamos em Korophon, um lugar onde também é permitido acampar. Há duas casas de pedra e árvores fornecendo um sombreado aprazível. Niaz prepara o almoço e sou servida enquanto os porters comem mais adiante. Ali vem me fazer companhia e almoça comigo. A refeição consiste em sardinha, queijo polenguinho, paratha, geléia de apricot, sopa de massa e chá verde. Partimos de Korophon às 12:10. O trajeto se faz praticamente costeando o rio Jhola. Às vezes a trilha se eleva a 200 metros acima do nível das águas. Destaca-se, na paisagem, a agulha fina de granito do pico Choricho (6.756m), tal qual um dedo indicador, apontado verticalmente em direção ao firmamento. Perto do acampamento de Jhola, vêem-se nuvens que, semelhantes a grandes chumaços de algodão, recheiam de branco o azul forte do céu. A areia perto do rio é fina e branquinha tal qual a do mar....pode?! Há lindos blocos de granito, listrados de branco e azul claro, polidíssimos pela ação milenar da água. O rio apresenta longos trechos de seu leito, seco, onde afloram claros e miúdos seixos. Segundo Niaz, devido à baixa precipitação pluvial durante o verão. Atravesso outra ponte de madeira e alcanço a outra margem do rio Jhola. Daqui se vê o pico Bakhor Das (5.809m), uma estrutura rochosa que lembra o Pão de Açúcar. O fio do telefone satelital vem nos acompanhando desde Askole e Ali confirma que se estende até Concórdia. O movimento dos porters na trilha é incessante: o vai e vem entre Askole e os campos-bases, situados no entorno de Concórdia, prova que a temporada de escalada está no seu auge. Bem diferente dos guias brasileiros, chilenos, argentinos e peruanos que disparam na frente como se fossem tirar a mãe da forca, sou escoltada por Ali e Niaz. Um vai à frente enquanto o outro segue atrás. Às vezes, Ali e eu batemos papo, e eu fico curtindo o gentil paquistanês. Quando fala comigo, seu tom de voz é baixo, faz inclusive olhinhos. Já quando se dirige aos porters, sua voz sobe dois tons e se torna enérgica, sem ser, porém, áspera. Muito hábil este guia. Se curti alguns temores, antes de iniciar esta jornada, por estar sozinha no meio de tanta testosterona - minha expedição compõe-se de 12 homens, entre carregadores, cozinheiro e guia – sinto-me, agora, absolutamente segura. Chegamos às 14:45 em Jhola onde acamparemos. Agradável surpresa me espera: o lugar possui uma infra de sanitários, banheiros, pias e até postes de luz, que só se repetirão, como fico sabendo, posteriormente, em mais dois acampamentos: o de Paiyu e o de Urdukas. Os demais acampamentos não terão tal “conforto”. Os espanhóis já lá se encontram. Conversam e riem muito, enquanto se abrigam da forte canícula, empunhando enormes guarda-chuvas pretos. Conversando com um jovem espanhol, pertencente à expedição de Soria, fico sabendo que, este ano, há pouca neve nos picos, motivo por que os escaladores estão esperançosos de fazer o cume em suas almejadas montanhas. Quando retorno ao Brasil, me inteiro de que a expedição de Soria não conseguiu ultrapassar o acampamento 2 do GI, devido às péssimas condições climáticas. Contrariando a otimista expectativa manifestada pelas expedições, a temporada de escalada em Concórdia, foi tragicamente coroada com a morte, no K2, de 18 alpinistas dizimados com a queda dum serac. Afora a expedição espanhola, acampa, também aqui a franco-iraniana. No GII, já está instalada uma expedição de portugueses e uma outra, italiana, vem a caminho. A quantidade de equipamento e comida que esta gente traz é algo. Também, pudera, a maioria fica até final de agosto quando encerra a temporada veranil de escalada. Estou na barraca lendo e apreciando uma montanha com o topo coberto de neve daqui de dentro. São quase 19 horas. Vai ter quiabo com cebola na janta. Adoro tanto um quanto o outro. Estou cansada. Sinto que vou me apagar cedo, provavelmente, após a janta. Amanhã teremos uma longa caminhada de mais de 20 km até Paiyu. Pois não é que a fitinha branca do Sr. do Bonfim, atada em meu pulso, caiu após 4 anos, ontem, em Askole? Meus desejos se realizarão? "Inshalla", como saúdam em urdu, ou numa versão brasileira, oxalá, se realizem!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Askole

Partimos de Skardu às 09:00 e trafegamos uns 40 km por uma estrada pavimentada até Shigar Bazaar. Daqui pra frente torna-se uma rota de chão batido e começa o enrosco. A pequena vila, o maior lugarejo de Shigar Valley, é um lugar lindo, um oásis em meio à paisagem árida. Além de árvores frutíferas, nas propriedades plantam-se trigo e arroz. As casas são de adobe. O povo é muito simpático. Duas mulheres sorriem quando me vêem. Após Shigar, atravessamos Churka e Hashupi e mais uma enfiada de tantos outros vilarejos, uns perto dos outros, durante uma boa parte do trajeto, até escassearem, por completo. Só verei novas povoações perto de Askole e, assim mesmo, do outro lado do rio Braldu. As propriedades são protegidas por muros de pedras, à semelhança dos nossos de taipa, cobertos por arbustos espinhentos, de modo a evitar a fuga de cabritos, ovelhas e mulas. O Paquistão é um país agro-pastoril. Se achei a estrada Chillas-Skardu ruim, a de Skardu-Askole é de gemer de medo: escavada, precariamente, nas encostas das montanhas, é de terra, sinuosíssima e tão estreita que pra outro carro, vindo em sentido contrário, poder trafegar, um é obrigado a parar a fim de permitir a passagem do outro. O rio Braldu, apertado entre os contrafortes das montanhas, apresenta-se agressivo com inúmeras corredeiras, turbilhonando céleres mais abaixo. O veículo agora é um Toyota 4x4. Vamos, Ali, eu e o motorista na frente. Atrás, na carroceria descoberta, vão alguns dos porters, contratados em Skardu, mais todo o equipamento necessário para os 12 dias de trekking. Lá pelas tantas, o motorista dá carona a uma jovem com uma criança de colo. Acompanha-os um homem que toma a criança dos braços da mulher e sobe na carroceria, enquanto ela vai conosco. Por isso, todos nos apertamos bastante, afinal estamos em quatro na frente. Depois de um tempo rodando, os três caroneiros descem diante duma vilazinha. Reecentamos a viagem até que o carro pára diante duma barreira onde há um posto do exército. E aí tem início o meu drama. Meu primo achou por bem (realmente, provo na carne o famoso ditado “o inferno está cheio de boas intenções”) que eu não trouxesse meu passaporte, e, sim, uma cópia autenticada. Como a zona do Baltoro Glaciar é considerada área restrita, o policial-chefe, cumprindo seu dever, exige o documento original. Fazer o que se não o tenho comigo? Sou convidada a descer do carro e me levam a uma espécie de escritório. Bate, então, o desespero e começo a chorar....de raiva e tristeza. Mal consigo falar que – porque aos soluços - “since february I am planning this travel....buááááá". Telefonemas são disparados pra Islamabad, e Tahir, o dono da Panoramic Pakistan, acionado por Ali, trata de resolver a situação. Falo também com meu primo (ele, aliás, não se mostra nem um pouquinho condoído com minha situação, pode?!!....arrrgh) e peço-lhe que entregue o passaporte a Tahir que providenciará a remessa do documento a Skardu, aonde devo retornar quando o trekking terminar. Me acalmo um pouco quando Ali dá a entender que Tahir, deus queira, conseguirá ajeitar o imbroglio. O solidário Ali, percebo, está com muita pena de mim. Sinto-me terrivelmente constrangida: eu, ali, chorando, tal qual um bebezinho indefeso....de 55 anos!! Não consigo acreditar no que está acontecendo. Puro pesadelo. O policial, muito educado, diz que me respeita e sei lá o que mais. Não consigo entender direito, estou muito nervosa, além do mais seu trôpego inglês - como ele próprio reconhece - não é dos melhores. Lá pelas tantas, depois dum esforço danado pra entender o que estão tentando me dizer, mal acredito no que ouço: permitirão que eu prossiga a viagem! E reinicio a choradeira! Dessa vez, porém.....de alívio! Finalmente, depois de uma hora e meia de tratativas entre Tahir com sei lá quem, sou liberada.....uuuufaaa!! Alá meu bom Alá, muito obrigadinha!!! Retomamos a viagem e, após uma meia hora, paramos num restaurante. A comida, simples, é bem saborosa. Embebo no molho da galinha o pão quentinho, um variante do chapati, o nan, uma delícia. Terminado o almoço, subimos no bravo toiotão e atravessamos uma ponte de madeira toda balouçante. Sinto um frio no estômago. Algumas mocinhas quando avistam o jipe viram os rostos escondendo-os. O motorista, um homem jovem e atraente, tem uma voz grave, linda. Quando passamos pelo lugarejo onde mora, ele pára perto dum grupo de menininhas, e uma delas aproxima-se do carro, com quem o rapaz entretém uma breve conversação, entregando-lhe uma nota de 10 rupias. A face da garotinha brilha de orgulho e contentamento com o presente. Ali, espontaneamente, confirma aquilo que eu intuíra: a menina é filha do motorista. Subitamente, o jipe estaca. Ali explica que houve um deslizamento de terra que despencou montanha abaixo, bloqueando a estrada. Descemos do carro, os porters descarregam o equipamento e mantimentos, acondicionados em barris de plástico azul, prendendo-os a uma armação de metal que levam às costas. Feito isso, iniciamos a subida da encosta da montanha pra alcançarmos o outro lado da estrada onde vários jipes vindo de Askole já nos aguardam. Tudo é muito organizado! E o rio Braldu brame lá embaixo, indômito, espargindo em torvelhinhos sua espuma bege. Há, além de nossa expedição, uma outra com dez escaladores franco-iranianos. Conversando com o guia deles, fico sabendo que tentarão escalar o Broad Peak, um oito mil. Ficamos uns bons 45 minutos parados na estrada, sei lá o que esperando. Os porters me espiam enquanto escrevo. Ali, apressado, me chama, e lá vamos nós noutro jipe, este de cor verde, cujo motorista, igualmente, jovem, também é bom de braço. Põe fitas e fitas cassetes de música indiana, um barato!! Após 1:30, chegamos a Askole, o último lugarejo de Shigar Valley, rodeado de verdes plantações. Acampamos ao lado duma construção inacabada, e enquanto eles terminam de montar as barracas, aviso a Ali que vou dar uma banda pelo lugar. As mulheres daqui, nada tímidas, se aproximam e apontam pros meus brincos. Fazem sinais de que querem trocá-lo pelos seus colares. Entretanto, não permitem fotografias "no picture, no picture", exclamam enquanto fazem gestos incisivos de negação com as mãos. Todas trabalham na lavoura. Usam trajes típicos e levam nas costas uns cestos de vime triangulares pra carregar os produtos. Embora já sejam quase 20 horas, o dia está claro ainda (aqui também tem horário de verão) e por isso elas ainda estão nas lides campeiras. Uma delas aponta o saco. Quer que eu o carregue. Pego-o e sinto seu peso: em torno duns 20 kg. Nem consigo levantá-lo do chão. Com sinais, recuso. Ela insiste, eu faço que não com a cabeça. Com gestos, digo que ela é mais forte, eu, fraca. A mulher aponta o vegetal, dando a entender que sua força provém dali. Oferece-me uns talos. Provo, o gosto, ligeiramente amargo, não é de todo ruim. Lá pelas tantas, elas se tornam tão chatas que dou um esporro e gesticulo, mandando-as embora. Não demora muito, vêm umas crianças. Querem que eu as fotografe (o paquistanês, de um modo geral, exceto as mulheres - por imposição religiosa, é óbvio -, adora ser fotografado). Falo que não, estou meio enjoada de todos eles. Muito assédio. Agora entendo como se sente um pop star perseguido por papparazzis! Um dos guris, aborrecidíssimo, com minha recusa, pega uma pedra e faz que vai atirar em mim. Faço cara de braba e dou-lhe as costas. Nada acontece. Poxa, gentinha enfezada essa. Durante o jantar, Niaz fica o tempo todo de pé, preocupado em saber se eu estou gostando de sua comida. Após a ceia, Ali e eu, sentamos em cadeiras, do lado de fora da barraca-refeitório - a temperatura amena convida -, enquanto pitamos um cigarrinho. A noite está linda, estreladíssima. Dentro já da barraca, acomodada pra dormir, escuto a conversa dos porters finalizando as arrumações no refeitório. Estou cansada embora não tenha caminhado nada. É que foram muitas as emoções!!