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sexta-feira, 4 de julho de 2008

Que peninha: o trek acabou!!

Nos toaletes os vasos sanitários estão sujíssimos de cocô....um nojo......arrrghhh! Tão fedorentos esses acampamentos que prefiro descolar um recanto atrás de uma pedra. É mais limpo e sem moscas zumbindo ao redor da bunda. O dia, belíssimo, céu praticamente sem nuvens, a não ser alguns fiapos esbranquiçados ao redor dos picos. Saímos de Jhola às 6:30. O trajeto é fácil, poucas subidas e descidas. Numa travessia de rio, Youssuf me livra dum tombo dentro d'água. Estou eu pulando as pedras para atingir a outra margem quando me descuido e me desequilibro. Ele, sempre, atento, rapidamente, me pega pela alça da mochila, impedindo que eu me estabaque de cara nas pedras. Estou bem cansada, dá pra sentir a ressaca da jornada. Também, pudera, estou caminhando há 12 dias, num total de 174 km! Caminho sem pressa. Quero curtir, serenamente, meu último dia de trek. Os demais passeios daqui pra frente serão todos de carro. Como havíamos combinado, não paramos pro almoço, de modo a chegar cedo em Askole, evitando, assim, a exposição demasiada à canícula do meio dia. Faço, entretanto, uma pausa e tiro da mochila meu lanchinho. Youssuf, meu fiel escudeiro, rente que nem um pão quente, descansa ao meu lado. Ali e Niaz seguiram à frente. Terminada a refeição - barrinha de proteína e água - ponho a mochila nas costas; Youssuf pega a sua, e reiniciamos a caminhada. Cadê os dois...Ali e Niaz? Nem rastro deles. Um tanto de caminhada feita, eu, já intrigada, pergunto aos meus botões, onde se tinham socado eles. Eis que, escuto às minhas costas, uns relinchos de cavalo. Viro e não dá outra: é Ali, brincando comigo! Lá pelas tantas, emparelha conosco um homem de porte empertigado, bigodinho fino, bem aparado, vestindo o shalwar qameez, com uma mochila nas costas. Ali e o homem se põem a conversar, caminhando um pouco à frente de mim e Youssuf. De vez em quando, o homem vira pra trás e lança um olhar carrancudo em minha direção. Pergunto pra Ali quem é. Fico sabendo que cria cavalos, já foi do exército e está indo visitar sua namorada numa vila perto de Askole, sente saudades da moça. Detalhe: é casado. No Paquistão os homens podem ter até quatro esposas desde que tenham condições de sustentá-las. Embora morem juntas, cada uma ocupa dentro da casa um espaço próprio. Provavelmente, por uma questão de privacidade na hora da transa e também pra evitar brigas por ciúmes. Um pouco antes de Askole, avisto, na margem oposta do rio Braldu, duas vilas. Plantações de batata e feijão colorem de verde os terraços situados nos sopés das montanhas. Ali me mostra uma linda e imponente elevação com o cume coberto de neve: é Skoro Pass cuja travessia conduz a Shigar Bazaar, vila onde demos uma paradinha quando vimos pra cá. É possível fazer um trek até lá, dura 3 dias. Imagino que deva ser muito lindo. Todos os porters e guias usam echarpe. Esta peça do vestuário tem várias utilidades: serve de turbante para proteger do sol, cachecol e balaclava contra o frio e, mais, usam-na como lenço pra assoar o nariz. Mil e uma utilidade, hehehe. Já perto de Askole, à esquerda, surgem fileiras de árvores sombreando o caminho e muros de pedra protegem as plantações, enquanto à direita sobressai o colorido levemente ferruginoso dos empinados paredões de rochas gnaiss. Vejo Ali pulando uma cerca e, curiosa, imito-o. Ele senta-se à sombra duma árvore e ficamos, escarrapachados, na boa, fumando um cigarrinho. Tão bom o “silêncio” do lugar: o rumorejar distante do rio, os fracos balidos de ovelhas e cabritos e o trinado dum belo pássaro preto e branco soam agradavelmente aos meus ouvidos. Chegamos às 12:15 em Askole e nos instalamos no mesmo lugar onde acampáramos na vinda. Um bando de aldeães, curiosos, aproxima-se. É muito engraçado porque eu também nutro idêntica curiosidade por eles. Acocorados no chão, limitam-se apenas a observar a nossa movimentação. Pra eles, a chegada das excursões deve constituir uma das raras fontes de diversão a quebrar a existência monótona de suas rotinas diárias. Enquanto almoço no interior da barraca-refeitório, escuto o canto do moazin, ecoando pelos quatro cantos da vila. Chama os fiéis pra oração na mesquita. Porque hoje é sexta-feira! O calor dentro da barraca está insuportável, saio e sento, encostada ao muro da construção inacabada. Chegou ainda há pouco o grupo dos tchecos que se encontrava em Paiyu, de modo que estamos todos à sombra, conversando. Dois deles já estiveram na América do Sul. Mustafa, um jovem magrinho, assistente de Anwar, guia dos tchecos, exibe, faceiro, seus bíceps. Quer que eu os toque pra sentir como são duros. Não satisfeito, levanta-se e faz acrobacias numa evidente demonstração de exibicionismo infantil. Pois não é que o guri está arrastando asa pra mim....hahahaha! Muito gozado ele! No pórtico de entrada, noto quatro mulheres, paradas, olhando pra cá. Vou até elas. Fazem sinal pro meu relógio. Querem trocá-lo por seus brincos. Essa é boa!! Escaldada que estou com a insistência dessa gente, me despeço delas e sigo até uma plantação onde me agacho pra urinar. Uma das mulheres, que lá estão colhendo ervas, a cada vez que solto exclamações e gemidos de satisfação por estar esvaziando a bexiga, me imita, dum jeito debochado. Hahahahaha!! Essa é boa! São deveras divertidos os baltis. Embora sejam 18:00 o calor, ainda forte, se faz sentir. Somente quando o sol baixar e desaparecer atrás das montanhas, irá refrescar. Por enquanto, visto apenas short e blusa de manga curta. Pombas e gralhas passam voando. Quando eu conto a Ali que algumas mulheres me pediram dinheiro, ele faz um muxoxo de desagrado. Coisas do Paquistão? Nãnãnãnã....de todos os países pobres, incluído, aí o meu querido Brasil.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Askole

Partimos de Skardu às 09:00 e trafegamos uns 40 km por uma estrada pavimentada até Shigar Bazaar. Daqui pra frente torna-se uma rota de chão batido e começa o enrosco. A pequena vila, o maior lugarejo de Shigar Valley, é um lugar lindo, um oásis em meio à paisagem árida. Além de árvores frutíferas, nas propriedades plantam-se trigo e arroz. As casas são de adobe. O povo é muito simpático. Duas mulheres sorriem quando me vêem. Após Shigar, atravessamos Churka e Hashupi e mais uma enfiada de tantos outros vilarejos, uns perto dos outros, durante uma boa parte do trajeto, até escassearem, por completo. Só verei novas povoações perto de Askole e, assim mesmo, do outro lado do rio Braldu. As propriedades são protegidas por muros de pedras, à semelhança dos nossos de taipa, cobertos por arbustos espinhentos, de modo a evitar a fuga de cabritos, ovelhas e mulas. O Paquistão é um país agro-pastoril. Se achei a estrada Chillas-Skardu ruim, a de Skardu-Askole é de gemer de medo: escavada, precariamente, nas encostas das montanhas, é de terra, sinuosíssima e tão estreita que pra outro carro, vindo em sentido contrário, poder trafegar, um é obrigado a parar a fim de permitir a passagem do outro. O rio Braldu, apertado entre os contrafortes das montanhas, apresenta-se agressivo com inúmeras corredeiras, turbilhonando céleres mais abaixo. O veículo agora é um Toyota 4x4. Vamos, Ali, eu e o motorista na frente. Atrás, na carroceria descoberta, vão alguns dos porters, contratados em Skardu, mais todo o equipamento necessário para os 12 dias de trekking. Lá pelas tantas, o motorista dá carona a uma jovem com uma criança de colo. Acompanha-os um homem que toma a criança dos braços da mulher e sobe na carroceria, enquanto ela vai conosco. Por isso, todos nos apertamos bastante, afinal estamos em quatro na frente. Depois de um tempo rodando, os três caroneiros descem diante duma vilazinha. Reecentamos a viagem até que o carro pára diante duma barreira onde há um posto do exército. E aí tem início o meu drama. Meu primo achou por bem (realmente, provo na carne o famoso ditado “o inferno está cheio de boas intenções”) que eu não trouxesse meu passaporte, e, sim, uma cópia autenticada. Como a zona do Baltoro Glaciar é considerada área restrita, o policial-chefe, cumprindo seu dever, exige o documento original. Fazer o que se não o tenho comigo? Sou convidada a descer do carro e me levam a uma espécie de escritório. Bate, então, o desespero e começo a chorar....de raiva e tristeza. Mal consigo falar que – porque aos soluços - “since february I am planning this travel....buááááá". Telefonemas são disparados pra Islamabad, e Tahir, o dono da Panoramic Pakistan, acionado por Ali, trata de resolver a situação. Falo também com meu primo (ele, aliás, não se mostra nem um pouquinho condoído com minha situação, pode?!!....arrrgh) e peço-lhe que entregue o passaporte a Tahir que providenciará a remessa do documento a Skardu, aonde devo retornar quando o trekking terminar. Me acalmo um pouco quando Ali dá a entender que Tahir, deus queira, conseguirá ajeitar o imbroglio. O solidário Ali, percebo, está com muita pena de mim. Sinto-me terrivelmente constrangida: eu, ali, chorando, tal qual um bebezinho indefeso....de 55 anos!! Não consigo acreditar no que está acontecendo. Puro pesadelo. O policial, muito educado, diz que me respeita e sei lá o que mais. Não consigo entender direito, estou muito nervosa, além do mais seu trôpego inglês - como ele próprio reconhece - não é dos melhores. Lá pelas tantas, depois dum esforço danado pra entender o que estão tentando me dizer, mal acredito no que ouço: permitirão que eu prossiga a viagem! E reinicio a choradeira! Dessa vez, porém.....de alívio! Finalmente, depois de uma hora e meia de tratativas entre Tahir com sei lá quem, sou liberada.....uuuufaaa!! Alá meu bom Alá, muito obrigadinha!!! Retomamos a viagem e, após uma meia hora, paramos num restaurante. A comida, simples, é bem saborosa. Embebo no molho da galinha o pão quentinho, um variante do chapati, o nan, uma delícia. Terminado o almoço, subimos no bravo toiotão e atravessamos uma ponte de madeira toda balouçante. Sinto um frio no estômago. Algumas mocinhas quando avistam o jipe viram os rostos escondendo-os. O motorista, um homem jovem e atraente, tem uma voz grave, linda. Quando passamos pelo lugarejo onde mora, ele pára perto dum grupo de menininhas, e uma delas aproxima-se do carro, com quem o rapaz entretém uma breve conversação, entregando-lhe uma nota de 10 rupias. A face da garotinha brilha de orgulho e contentamento com o presente. Ali, espontaneamente, confirma aquilo que eu intuíra: a menina é filha do motorista. Subitamente, o jipe estaca. Ali explica que houve um deslizamento de terra que despencou montanha abaixo, bloqueando a estrada. Descemos do carro, os porters descarregam o equipamento e mantimentos, acondicionados em barris de plástico azul, prendendo-os a uma armação de metal que levam às costas. Feito isso, iniciamos a subida da encosta da montanha pra alcançarmos o outro lado da estrada onde vários jipes vindo de Askole já nos aguardam. Tudo é muito organizado! E o rio Braldu brame lá embaixo, indômito, espargindo em torvelhinhos sua espuma bege. Há, além de nossa expedição, uma outra com dez escaladores franco-iranianos. Conversando com o guia deles, fico sabendo que tentarão escalar o Broad Peak, um oito mil. Ficamos uns bons 45 minutos parados na estrada, sei lá o que esperando. Os porters me espiam enquanto escrevo. Ali, apressado, me chama, e lá vamos nós noutro jipe, este de cor verde, cujo motorista, igualmente, jovem, também é bom de braço. Põe fitas e fitas cassetes de música indiana, um barato!! Após 1:30, chegamos a Askole, o último lugarejo de Shigar Valley, rodeado de verdes plantações. Acampamos ao lado duma construção inacabada, e enquanto eles terminam de montar as barracas, aviso a Ali que vou dar uma banda pelo lugar. As mulheres daqui, nada tímidas, se aproximam e apontam pros meus brincos. Fazem sinais de que querem trocá-lo pelos seus colares. Entretanto, não permitem fotografias "no picture, no picture", exclamam enquanto fazem gestos incisivos de negação com as mãos. Todas trabalham na lavoura. Usam trajes típicos e levam nas costas uns cestos de vime triangulares pra carregar os produtos. Embora já sejam quase 20 horas, o dia está claro ainda (aqui também tem horário de verão) e por isso elas ainda estão nas lides campeiras. Uma delas aponta o saco. Quer que eu o carregue. Pego-o e sinto seu peso: em torno duns 20 kg. Nem consigo levantá-lo do chão. Com sinais, recuso. Ela insiste, eu faço que não com a cabeça. Com gestos, digo que ela é mais forte, eu, fraca. A mulher aponta o vegetal, dando a entender que sua força provém dali. Oferece-me uns talos. Provo, o gosto, ligeiramente amargo, não é de todo ruim. Lá pelas tantas, elas se tornam tão chatas que dou um esporro e gesticulo, mandando-as embora. Não demora muito, vêm umas crianças. Querem que eu as fotografe (o paquistanês, de um modo geral, exceto as mulheres - por imposição religiosa, é óbvio -, adora ser fotografado). Falo que não, estou meio enjoada de todos eles. Muito assédio. Agora entendo como se sente um pop star perseguido por papparazzis! Um dos guris, aborrecidíssimo, com minha recusa, pega uma pedra e faz que vai atirar em mim. Faço cara de braba e dou-lhe as costas. Nada acontece. Poxa, gentinha enfezada essa. Durante o jantar, Niaz fica o tempo todo de pé, preocupado em saber se eu estou gostando de sua comida. Após a ceia, Ali e eu, sentamos em cadeiras, do lado de fora da barraca-refeitório - a temperatura amena convida -, enquanto pitamos um cigarrinho. A noite está linda, estreladíssima. Dentro já da barraca, acomodada pra dormir, escuto a conversa dos porters finalizando as arrumações no refeitório. Estou cansada embora não tenha caminhado nada. É que foram muitas as emoções!!