Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
Sabendo
que a maioria das pessoas tem equivocada ideia sobre a caatinga, abro esta
postagem esclarecendo que este bioma, exclusivamente brasileiro, no período das chuvas, transforma-se numa
exuberante floresta!! Das clássicas tonalidades de verde à ousada palheta
laranja e vermelha, a vegetação exibe-se feérica. E como se não bastasse, matizes azulados e rosas nos arbustos floridos
reforçam a explosão de cores. Quando as chuvas escasseiam, passa a ser mata
branca denominada pelos tupis-guaranis caatinga. Uma lástima que este último cenário,
o da vegetação seca, franzina, com domínio de cores neutras, tenha sido a
preferência estética adotada pelo cinema novo e ainda insistentemente
perpetuada em certas produções brasileiras da atualidade. Eu tive – aleluia - a
benção de tê-la conhecido justo em sua feição colorida! Bueno, desfeito o
preconceito sobre a caatinga, na sexta-feira, deitamos o cabelo (expressão
nordestina que significa pé na estrada) pra Caracol, porta de entrada do pouco
badalado Parque Nacional da Serra das Confusões, o maior do Piauí. Um horror a
rodovia não porque tenha buracos ou outras deformidades e sim pelas malditas
lombadas que infernizam com raras tréguas os curtos 88 km entre São Raimundo
Nonato e Caracol. São muitos os povoados e cada um tem ½ dúzia desses calombos,
alguns ilegais. Eu e Alu ficamos irritadíssimas porque a viagem que poderia ter
durado nem 1 hora, levou 2!! E nem se fale em movimento porque se passavam
outros veículos nem os notamos. Em Caracol, residem em torno de 10 mil almas. Seguindo
a tradição nordestina, a pequena cidade se encontra toda engalanada pras festas
juninas. Dessa feita, as bandeirolas, em verde-amarelo, são em homenagem à Copa
do Mundo. Gosto de Caracol, ao contrário de São Raimundo, aqui me sinto aconchegada.
No dia anterior, enviara um whats prum guia, recomendado pelo querido
Curiólogo, acertando então a guiada. Marcamos encontro na praça. Só pelo jeito
dele se aproximar do carro, sinto sua boa energia. E Jadiel foi outro que não
me desapontou. Tranquilo, ficou encantado com a perícia de Alussandra no
volante quando ela enfrentou certos trechos marca diabo da estradinha de chão
batido. Ele nos leva até a pousada e restaurante da Edineia, onde vamos
pernoitar. Neide, proprietária do estabelecimento, é bem falante. Conta que se
divorciou do marido - nas palavras dela “um safado mulherengo” - e se tocou da
Bahia pra cá onde montou seu negócio. Depois de deixar as bagagens no quarto,
pegamos a estrada de chão batido que leva ao parque, parando antes numa casa de
farinha onde ocorre o processamento da mandioca em seus principais derivados, farinha e goma. A mandioca juntamente com o caju é
base de subsistência dos habitantes da região. A casa de farinha nada mais é que um espaço aberto coberto por um telheiro com poucas máquinas, todas rudimentares, cumprindo bem suas funções. A transformação do tubérculo em
farinha e goma (os blocos de goma molhada parecem pedaços de argila) é
totalmente artesanal. A primeira etapa consiste nas
mulheres descascando as raízes uma por uma com a rapidez adquirida ao longo de décadas de
prática. A última fase, a da obtenção da farinha, é cansativa e dura mais de 1 dia.
Para tanto, pessoas se revezam enquanto mexem sem parar com uma comprida pá a
goma espalhada sobre larga superfície ladrilhada aquecida na parte inferior por uma fornalha de modo que a goma perca toda umidade e se torne ultra fina.
Iguaria apreciadíssima na mesa de qualquer nordestino pobre ou rico, notadamente,
no café da manhã, os deliciosos beijus e tapiocas são o resultado final do
processamento da mandioca. O Parna das Confusões, cujo bioma dominante é a
caatinga, intercala ainda matas e cerrado. Visto de cima seu relevo arredondado formado pela
Chapada dos Gerais assemelha-se a gigantescas e pétreas ocas. Circundam-no serras e vales cortados por desfiladeiros e
canyons cujas paredes não alcançam alturas expressivas à semelhança do Parque
da Serra da Capivara. Nas planícies, chamadas fundões, a vegetação abunda ao
contrário da existente no topo das chapadas, como igualmente acontece na
Serra da Capivara. Abriga também sítios arqueológicos com pinturas e gravuras
rupestres, além de outros vestígios do cotidiano pré-histórico. Inicialmente, percorremos
a trilha Cores da Caatinga, um bate-volta de 3 km, em meio a um bosque
arbóreo-arbustivo cuja folhagem vermelha e amarela compete em colorido com
dourado capinzal. O forte vento faz as
folhas farfalharem de forma agradável enquanto caminhamos até o mirante Janela
dos Sertões, extensa plataforma rochosa no topo duma chapada donde se avista extensa
linha de serranias de coloração esbranquiçada separadas por capões ainda
verdejantes. Jadiel explica que o nome Confusões se deve à desorientação
provocada pela tonalidade uniforme das pedras. Isso fazia com que os tropeiros,
confusos, se perdessem porque se tornava difícil identificar pontos de
referência na paisagem. Vamos então visitar alguns sítios arqueológico, abrigados
em baixões. No primeiro, as pinturas são “novinhas”, sua idade não passa dos 6
mil anos. O mais impactante de todos os sítios, pra mim, incluídos os da Serra
da Capivara, vem a ser o cemitério na Toca Alto do Capim. Trata-se de pequena gruta,
interior arredondado, distante 3 metros do solo, cujo acesso se dá por uma
escada. No interior, em 4 ou 5 concavidades escavadas no solo, os
pré-históricos depositavam seus mortos. Nas paredes ao redor das urnas
funerárias, há desenhos de coloração avermelhada em formatos geométricos cujo
significado ainda não foi desvendado pelos arqueólogos. Pra terminar a
visitação com fecho de ouro, visitamos a deslumbrante Gruta do Riacho do Boi. Só
a trilha que leva ao lugar já é um desbunde: começa no topo de ondulada e árida
formação rochosa que mais parece um oceano de pedras! Como um passe de mágica,
se desce por uma escada até um sítio super arborizado onde se localiza a
impressionante abertura que na verdade é uma pequena caverna. Larga, com 100
metros de comprimento, a areia do solo é branquinha e fina que nem a de praia;
de frestas no teto, escapam résteas de luz solar. Eu parecia criança pequena soltando ahs e ohs a cada passo que dava pelo
encantador túnel. E me ponho a sonhar com essa gruta vazando luz
em noite de lua cheia. Uma merda termos reservado apenas um dia pra conhecer a
Serra das Confusões. Este parque merece mais tempo de visitação. Com certeza, voltarei, podicre!! Assim, no sábado, me despeço de Caracol porque é tempo de trocar Piauí por Ceará. Simbora, deitar
cabelo de novo, Lulu!!
A partir de agora não viajo mais só. Alussandra, vindo de Fortaleza participará desta etapa do Abraçasso. Depois de me regalar com um lauto café da manhã, vou buscá-la na rodoviária em Teresina, longe paca do hotel, com direito a me perder graças ao maldito GPS do carro. Sinos de alegria bimbalham festivamente em minha cabeça quando vejo a amiga!! Sorrindo não só com a boca quanto com os olhos, Alu está radiante não só por me rever quanto pela aventura que nos aguarda! Nos abraçamos longamente, após o que vamos visitar Iolanda, mãe de Polly, amiga comum, piauiense, residindo atualmente em Porto Alegre. Viúva recentíssima, Iolanda merece uma visita, um abraço de aconchego. Embora eu não a conheça - chame a isso curiosidade - quero visitá-la. E não me desaponto, sua calorosa acolhida confirma as boas vibrações que eu intuía dela. Nos espera com um café que mais parece almoço, tantos os quitutes oferecidos: carne seca, queijo coalho, bolos, pães e frutas. E não contente em querer nos bem alimentar, ainda faz marmita pra comermos durante a viagem. Lastimo não ter podido ficar mais tempo usufruindo da companhia de Iolanda, mas a distância a São Raimundo Nonato, nosso destino, soma respeitáveis 580 km. A partir daqui, não mais pilotarei o carro, assim, cedo o volante à Alu, excelente motorista. Rodamos um bom tempo pela BR 343, vendo, vez por outra diante dos pórticos de algumas cidades, gigantescas e cafonas estátuas em homenagem às santas padroeiras das localidades. Seja em animadas conversas ou em confortável silêncio, sempre tá rolando uma boa trilha musical dentro do carro. Próximo a São Raimundo
Nonato, já na PI 140, destacam-se, dourados ainda mais pelo sol poente, tufos de capim amarelo adornando ambos os lados da rodovia. São Raimundo Nonato situa-se
no sudeste do Piauí e sua população não passa de 35 mil habitantes. A cidade, pequena, destituída de charme, não mereceu de nós especial atenção, tanto que nos limitamos apenas em cruzá-la a caminho dos passeios. Procuramos
a casa da guia que se revelou não só de burocrático comportamento quanto despida
de qualquer pingo de senso de humor. Foi o único senão dos 3 dias de visitação no Parque Nacional da Serra da Capivara. Acertados os passeios, enfrentamos
mais 33 km até o Sítio do Mocó onde eu tivera ciência, lendo num site da internete, a
existência duma pousada e camping administradas por uma tal de Conceição, cuja
descrição muito me agradara. Mais uma vez não me decepciono. Conceição ou Ceiça
é desembaraçada, animada, safa demais em seus 70 e poucos anos. Remanescente do movimento hippie, Conceição é uma genuína dinossaura da era de Aquarius. Saiu cedo de São Raimundo e passou a maior parte de sua vida entre São Paulo, Rio e Bahia. Sobre um cara que conheceu avalia que "ele era fluídico sem ser dogmático." Conta estórias hilariantes sobre seu agitado passado, tendo conhecido vários famosos
dentre os quais Raul Seixas e Novos Baianos, pra quem costurou trajes com que
se apresentavam nos shows. E Conceição comenta que por serem todos aparentados
no Sítio do Mocó, alguns moradores ou são deficientes físicos ou mentais, como
o rapaz que volta e meia se põe a uivar. Quando à noite, vamos eu e Alu em
busca dum restaurante aberto, encontramos o comércio fechado e grande aglomeração
diante duma casa. Alu menciona que alguém deve ter morrido. Dito e feito. O
povoado parou pra homenagear um de seus moradores. Embora velando o defunto,
Talita, uma loura magrinha e agitada, na faixa dos 30, aparentando 20,
abre sua pequena pizzaria e prepara 2 pizzas pra nós. Sabemos então por ela que
o finado, seu parente, com 88 anos, morreu de tristeza porque a esposa
falecera há coisa dum ano. Segundo tradição nordestina, própria de famílias
fervorosamente católicas, erguem-se ao lado das casas capelinhas com imagens de
santos e santas. A da casa do falecido foi construída porque sua esposa, quando viva,
tinha dificuldade em se deslocar à igreja devido a problemas cardíacos. Como a
sala onde o morto está sendo velado é pequena, as pessoas sentam em cadeiras
na calçada em frente à casa. Sobre uma mesa coberta com toalha, térmica de
café, garrafa d’água e copos. Dos homens, muito comedidos, não se escuta quase falação.
As mulheres, quando não conversam em sussurros, rezam. Presentes
no velório, além de toda a vila, parentes de outras cidades, incluindo Teresina. Velórios não deixam
de ser acontecimentos sociais, porque ao reunir pessoas que não se encontram amiúde,
oportuniza-se a renovação de laços parentais e de amizade. Após o enterro do sr.
Valdemar, todas as noites a partir das 18, parentes, maioria mulheres, se
reúnem pra rezar o terço durante 9 dias pra que sua passagem (pra outra vida, é claro) seja tranquila. Na segunda noite, quando
passo diante da casa onde cadeiras mais uma vez foram colocadas na calçada, sou
convidada a participar das orações. Gentilmente, uma mulher cede seu assento,
sentando-se no banco à frente. E não é
que ainda me lembro do Pai Nosso e da Ave Maria?! Aliando-me ao coro feminino, recito
um tantinho emocionada as orações.
Pouco sabia do Parque Nacional
da Serra da Capivara a não ser por seu conjunto de belíssimas formações
rochosas e por se localizar no Piauí, estado que vem atiçando minha curiosidade
exatamente porque pouco badalado no circuito turístico. Motivo de orgulho descobrir
que o parque é área de maior concentração de sítios arqueológicos
pré-históricos do continente americano e Patrimônio Cultural da Humanidade.
Contém a maior quantidade de arte rupestre do mundo! Estudos científicos
confirmam que a Serra da Capivara foi densamente povoada em períodos
pré–históricos. Os artefatos encontrados apresentam vestígios do homem de
50.000 anos atrás: os mais antigos registros na América! O relevo do parque compõe-se
de serras e planícies interrompidas por pequenas gargantas (boqueirões) e
desfiladeiros. O clima semiárido é o par perfeito da vegetação dominante na
região: a caatinga, bioma exclusivamente brasileiro. Incrível pensar que há 10
mil anos atrás o clima nesta região era tropical úmido com vegetação abundante
e a existência de espécies da megafauna há muito desaparecidas como mastodonte,
preguiça-gigante e tigre dente de sabre circulando daqui pra lá e dali pra
acolá!! Atualmente, há onças pintadas, pretas, vermelhas e jaguatiricas,
porém o que vejo são apenas dezenas e dezenas de mocós - roedor típico da caatinga -
circulando no parque e seu entorno. Vem daí a origem do nome do
sítio onde estamos hospedadas: do Mocó. O parque compreende 4 serras: Capivara,
Vermelha, Branca e Talhada. Nesta última, onde fica o Sítio do Mocó, salta aos
olhos, o motivo de assim ter sido denominada. As enormes rochas ao redor da
vila, tais quais gigantescos e arredondados gomos de frutas, parecem ter sido
esculpidas a cinzel! Rodeada de pedras, impossível existir melhores guarda-costas!
Bueno, na terça-feira, iniciamos então a visitação ao PN da Serra da Capivara,
começando no setor da serra Talhada. Visitamos durante a manhã o desfiladeiro
da Capivara onde dezenas de sítios de pinturas rupestres representam cenas do
cotidiano do homem pré-histórico, como a cena do parto em que - detalhe
interessante - o parteiro é homem, além de cenas de sexo e de caçadas. Destaca-se entre as tocas a impressiva Toca do
Inferno, um brete lindo e escuro formado por altos paredões rochosos que se
fecham de modo a formar um elevado teto, restando pequenas aberturas no alto por
onde vazam feixes de luz solar. Damos um rolê na Toca da Entrada do Baixão da
Vaca onde na parte inferior há pequena garganta cujas paredes são de dimensões
modestas, não ultrapassando 150 metros de altura. Na Entrada da Toca do Pajaú,
somos surpreendidas com a presença duma cascavel com mais de 1 metro de
comprimento cruzando languidamente a trilha! Chama atenção a coloração fortemente
avermelhada das rochas, causada pela densa concentração de óxido de ferro. Esta
a razão de as crianças do sertão quando anêmica raspar as paredes de adobe de suas
casas no intuito de ingerir o ferro ali contido. Planta típica da caatinga, os
cactus dão o ar de sua espinhuda graça: elegantes xique-xiques cujos galhos lembram
castiçais, altos mandacarus e gorduchas coroas de frade são figurinhas fáceis por
onde se vá. A bromélia macambira é o ninho preferido das pombas que, para proteger seus ovos de predadores, os colocam entre as folhas farpadas da planta. Já a bromélia caroá é fashion porque sua fibra é usada na fabricação de bolsas. Como estamos saindo do
inverno, o verde predomina na caatinga e arbustros como camaratubas, jitiranas e
juremas estão em plena florescência dando um toque azulado à paisagem. Depois do almoço
no albergue, visita à fábrica de cerâmica Serra da Capivara onde são
feitos belíssimos artefatos em cerâmica com pinturas reproduzindo a arte
rupestre. À tardinha, nos tocamos até a serra Vermelha pra assistir do alto do
Baixão das Andorinhas ao voo de regresso destas aves até o fundo do desfiladeiro
onde pernoitam. A garganta é ladeada por formações rochosas cuja ovalada e
craquelada superfície lembra àquelas vistas no PN das 7 Cidades. Das andorinhas, contudo, não vimos qualquer risco no céu!
Na primeira metade do século
XX, o Piauí viveu o auge da produção do látex, extraído da maniçoba,
árvore característica da caatinga. A sua exploração estava relacionada ao
desenvolvimento das indústrias automobilística e elétrica.A importância dessa borracha só ficava atrás
da produção das seringueiras no norte do país. Em sendo assim, na quarta-
feira,
rumamos pra Serra Branca onde lá iremos conhecer o Caminho da Maniçoba. Um
exemplo, na região, da existência de maniçobeiros ou seus descendentes, são os habitantes
do Sítio do Mocó. E lá vamos nós mergulhar nessa peculiar comunidade de extratores
de látex que viveram durante décadas em tocas antes ocupadas pelos
pré-históricos, usando matérias primas encontradas na própria natureza. Embora
os maniçobeiros não soubessem o valor desses sítios arqueológicos, deixaram-nos
intactos. Deveriam, acho eu, curtir as figuras desenhadas nas paredes como se fossem
quadros a enfeitar suas toscas residências. Dentro das tocas, eram erguidas paredes, feitas
duma mistura de pedra, barro e madeira, à semelhança de casas, algumas com
portas entre os cômodos a conferir certa privacidade aos moradores. Comum os
móveis e utensílios serem de pedras, como estantes, balcões, bancos, camas,
potes e panelas. Um mundo na pedra feito de pedra. Os maniçobeiros de certa
forma foram os Flintstones do século XX! Cada toca não deixava de ser uma
pequena vila: na do Mulungu viveram 9 famílias. Visitamos a toca do Vento onde os maniçobeiros, aproveitando sua excelente ventilação, punham o latéx pra secar devido ao seu maior valor de venda. Na Toca do João Sabino, situada em zona elevada, os cactus abundam e o visual panorâmico
permite avistar ao longe as demais chapadas cuja coloração clara dá nome à
serra. Nos baixões, subsistem ainda resquícios de mata atlântica como as costelas
de adão e as copadas gameleiras que se desenvolvem junto às paredes de arenito
ou próximas a olhos d’água como aquele existente nas proximidades da Toca do
Juazeiro. Pra encerrar com fecho de ouro o dia, visitamos a Fundação Museu do
Homem Americano cujo objetivo principal é a preservação e pesquisa dos mais de
700 sítios arqueológicos existentes no PN da Serra da Capivara.
De manhã cedinho, na
quinta-feira, com Alu debutando numa estrada marca diabo, crivada
de fundos buracos e coberta por espesso areal, vamos ao Caldeirão dos Rodrigues
onde se espalham outros sítios rupestres. Até 9 horas o ar é bem fresco, depois, pura antecâmara do inferno. Em ambos os lados da estrada, forrada com brita
ou piçarra, árvores formam densa alameda que roçam as laterais do carro. Caldeirões
são profundas depressões onde em priscas eras se acumulavam águas das chuvas que
posteriormente originaram rios. Atualmente, raríssimos vestígios de umidade são
vistos nesses sítios. Do Caldeirão dos Rodrigues II conhecemos apenas o entorno
de seu topo, descortinando ampla paisagem pontuada por zonas rochosas e áreas
verdes. Já no Caldeirão dos Rodrigues I, descemos até seu fundão, desescalando estreitos
e íngremes corredores de pedra onde foram instalados, para facilitar a descida,
degraus de ferro, à semelhança das vias ferratas. Ali embaixo, encontram-se belíssimas
pinturas gravadas nas paredes de tocas com nomes singulares como Xique-Xique de
Cima do Fundo. Destaca-se pela plasticidade a cena da dança em que os troncos dos
dançarinos arqueados para trás transmitem com tosca fidelidade fluidez à dança.
Já em alguns desenhos de animais, observa-se a tendência de fugir da unidimensionalidade
infantil do traço com o preenchimento das figuras, sugerindo assim certa bidimensionalidade
às imagens retratadas. Após o almoço no restaurante da Paula no sítio do Mocó,
visitamos o boqueirão da Pedra Furada. Neste sítio, há a famosa cena do beijo
entre um casal pré-histórico e desenhos pintados em branco, amarelo e cinza
demonstrando a evolução dos pré-históricos que passaram a utilizar outros
pigmentos que não apenas o vermelho. Quem sabe nossos longínquos antepassados
não retiraram tais pigmentos do paredão de conglomerado, existente diante da
Pedra Furada, cujas camadas superpostas exibem colorações bege, amarela,
vermelha, cinza e preta, não é mesmo? Não muito distante do boqueirão, eis-nos diante da Pedra
Furada, que sofreu milenar processo de erosão resultando
na monumental abertura na extensa parede rochosa. Na frente dessa magnífica escultura, foi construído um anfiteatro
onde uma vez por ano, em julho, acontecem eventos artísticos. Conhecer os sítios
arqueológicos deste parque, cuja presença humana remonta a 10 mil anos, foi algo
impactante. Emocionei-me profundamente ao ver estampado nas paredes de arenito o
cotidiano de seres humanos cujas vidas giravam em torno de 2 eixos primordiais:
a caça visando à sobrevivência e o sexo para perpetuar a espécie, que registravam sem qualquer pudor. Que inveja desses antepassados tão autenticamente
sem-vergonhas!
Saio de Barra Grande cedinho na sexta-feira e quando chego ao trevo cuja placa indica Parnaíba à direita e Jericoacoara à esquerda, estaciono no posto de gasolina ali localizado. Como não tomei café ainda, entro no restaurante ao lado do posto e peço tapioca com chá. Entabulando conversa com um senhor, descubro ser ele caminhoneiro. Pergunto se não sabe duma rodovia que vai até Piracuruca sem ser a BR 402 (já soubera da existência desse atalho em Luís Correia). Ele me ensina como devo proceder e depois de terminar a comida, sigo na direção indicada. Vou sem pressa porque a distância é curta, são apenas 190 km. Super linda a região perto de Cocal, pequena cidade à beira da rodovia, com uma linha de serras de encher os olhos. Depois dum tanto dirigindo nessa via entro então na BR 343 só parando em Piracuruca, uma das portas de entrada do Parque Nacional das 7 Cidades, atrativo turístico recomendado por minha prima Sonia. Ela teceu tantos elogios ao lugar que decidi dar uma conferida. Pequena, Piracuruca tem em torno de 27 mil almas. Dou uma banda pela cidade e perto da feira, na frente duma loja, uma banda de forró toca animadas canções deste estilo musical tão típico do nordeste. Visito 2 igrejas antigas, a matriz de Nossa Senhora do Carmo e a de Santo Antonio. A cidade enfeitada de bandeirolas se prepara para as festas juninas, consideradas no Nordeste mais significativas que a de Natal. Depois de me informar com os nativos qual rumo seguir pra chegar ao parque, pego a estrada Piracuruçá-Sete Cidade. Após dirigir 14 km num bom chão batido, vejo uma placa anunciando uma pousada. O portão está cerrado mas não dá nem 30 segundos aparece uma magrinha de nome Marci me comunicando que o lugar se encontra fechado. Faço uma cara de desconsolo e ela diz pra eu esperar que vai falar com a gerente. Resumo da estória, a gerente, Marcilene, permite que eu me hospede no Oca Tacarijus Eco Resort, antiga residência familiar transformada em hospedaria. Sou instalada num quarto espaçoso com ar condicionado. Pergunto se não há nada pra comer porque estou com preguiça de retornar à cidade, donde acabei de chegar! Prontamente, improvisam um almoço com pratos típicos - o caseiro deles, diga-se de passagem - que provo com muito gosto. As duas são umas fofas, gentis pra caramba. Como o calor é intenso, aproveito uma parte da tarde pra descarregar fotos e vídeos no notebook, após o que pedalo até o portão norte do parque – são apenas 4 km - mas não entro porque o horário de visitação termina às 17 horas, faltando apenas 5 minutos pra inteirá-lo. Tento achar a casa dum guia que me fora recomendado não lembro bem se por Nonato ou pela Fran, recepcionista da pousada nas Canárias. Como já anoiteceu e a estrada tá um breu, desisto e envio um whats quando chego na Oca pedindo pra que ele me guie durante os 2 dias em que pretendo permanecer na região. De janta, Marci prepara tambaqui grelhado com pirão....eba!! Estou eu passando a limpo algumas anotações do caderninho ao notebook quando um rapaz fardado de guarda se apresenta e declara, solene “sou Cristiano e vim fazer sua segurança”. Não atino com o motivo de tanta precaução porque o lugar mais calmo impossível. Dia seguinte, descubro o porquê: faz 1 mês assaltaram 2 bancos na cidade, explodindo com os caixas eletrônicos. Deve ser por isso, só pode! Putz, nem aqui nos confins do Brasil, a gente se livra dessa onda de violência, ala putcha! Conforme combinado via whats, apareço sábado na casa do Curiólogo às 9 horas. O tour será de bici no PN das 7 Cidades. Curiólogo, como ele se autointitula, tem como nome de batismo Osiel. O apelido Curiólogo, explica ele, resulta da mistura de dois traços de sua personalidade: curiosidade aliada à prudência. Muito engenhoso, o rapaz tá na faixa dos 30 e poucos anos. Conhece todos os cantos do 7 Cidades pois sua família vive no entorno do parque há 4 gerações. Com orgulho, salienta que qualquer trilha por onde se ande tem o suor de seu pai e de seu avô. Acrescenta que o parque é a sua grande casa geológica. O 7 Cidades, cuja idade varia entre 400 a 450 milhões de anos, discorre ele, tem origem na bacia sedimentar do rio Parnaíba. A flora predominante é a do cerrado, coexistindo manchas de caatinga e matas ciliares. O solo, por vezes, branquinho, exibe laivos brilhosos que denunciam a existência de quartzito. Uma pequena extensão do parque foi reservada à visitação, sendo dividida em 7 zonas ou cidades. Em cada uma delas, há interessantes formações rochosas. Algumas fazem jus, indubitavelmente, às suas denominações como a águia alimentando o filhote, os mapas do Brasil e do Ceará, elefantes, tartarugas e cobras. Outras, de tão abstratas, podem ser admiradas por ser aquilo que são, apenas belas pedras, ou o que mais os olhos desejarem ou imaginarem ser. A maior das cidades é a 2ª, apelidada por Curiólogo de a Capital porque há muito o que conhecer, como o Portal dos Desejos, um lindo arco de arenito, que também toma a forma da cabeça e tromba dum mamute, os sítio rupestres da Mão dos 6 Dedos e do Camaleão e o Paço da Biblioteca coroado por extensa pedra semelhante a uma gigantesca cobra, entre tantas outras esculturas rochosas. Na 4ª Cidade, conheço a gruta do Catirina onde o ermitão e curandeiro José viveu décadas com seu filho epilético. Dono de prosa fluída, Curiólogo conta diversas estórias sobre as pétreas figuras. Algumas fazem parte das lendas da região, outras, ele retira de sua fértil imaginação. Uma delas é a do moah. A lisérgica narrativa trata de seu telebate-volta à ilha de Páscoa pra trazer a gigantesca pedra.....a cavalo!! Encontro durante a visitação dois animados grupos formados por jovens estudantes. Um é de Teresina, o outro de Tianguá, cidade cearense distante 90 km. Entre as várias pessoas que passeiam no parque, destaca-se a neta do casal de cangaceiros, Lampião e Maria Bonita, Vera Ferreira. Ela como eu curte cicloturismo já tendo também pedalado Chuí- Montevideo. Convidada por Curiólogo, à tardinha, vou até sua casa. Ele e seu irmão, Edmar, construíram casas tanto no alto de árvores quanto sobre enormes rochas que abundam na propriedade. Do alto da engenhosa construção, encarapitada entre os galhos de frondoso jacarandá, curto incendiário pôr do sol. Tenho a satisfação de conhecer os ciclistas Galeno, este cego, e Marcos que vieram pedalando de Parnaíba a fim de participar da 1ª Pedalada no PN das 7 Cidades. À noite vou de carro dar um rolê em Piracuruca e aproveito pra comer um xis na lancheria Velho Oeste. Quando o atendente traz o sanduíche, me entrega um par de luvas de plástico pra que eu não suje as mãos....hahahaha. No domingão, participo da 1ª Pedalada no PN das 7 Cidades. Curiólogo juntamente com os demais guias e o diretor do parque abriram no mato do cerrado uma trilha de 12 km exclusiva para o evento. Embora plana, a trilha é bem ruinzinha, tipo single track pra nenhum galo cinza fodástico do pedal botar defeito. Após 1 hora e 4 km duramente pedalados, desisto e pego a estrada principal, um belo chão batido retornando ao local da largada onde se encontra a administração do parque. O lugar está cheio de ciclistas vindos de cidades vizinhas, de mais distantes e ainda do Ceará. Agradável surpresa constatar o excelente estado de conservação e manutenção deste parque nacional. Oxalá, todos fossem tão bem cuidados assim! Retorno à Oca e vou almoçar na área de lazer que conta com restaurante e piscina. Enquanto espero meu almoço, mergulho na refrescante piscina onde alguns nativos de Piracuruca também usufruem do espaço, aberto não só aos hóspedes como ao público em geral. Refrescada e alimentada, despeço-me das queridas Marci e Marcilene e dou uma passada no Curiólogo pra me despedir. Marcos e Galeno ainda estão lá esperando o sol baixar um pouco pra começar a pedalada de retorno a Parnaíba. Pego então o estradão que atravessa o PN das 7 Cidades, saindo pela portaria sul que conduz a Piripiri, limitando-me a contornar a cidade. O percurso à capital piauiense não passa de 170 km, assim consigo chegar a Teresina ainda com luz do sol. Escolho um bom hotel onde passo o restante do dia escarrapachada na cama vendo TV. O cansaço venceu o desejo de dar uma banda na cidade, porém o que vi de relance me agradou: largas avenidas, pouco tráfego e muita área verde. Amanhã, nova etapa da viagem inicia, dessa feita não mais só e sim em fina companhia!!
Dou adeus à Tutoia e voo as tranças,
na segunda, direto e reto à Parnaíba. Afinal são apenas 120 km entre as 2
cidades. Paro rapidamente pra dar carona a 2 professoras, uma bem
falante, já a outra se mantém em silêncio. Sempre que cruzo as
fronteiras dos estados, me emociono. A oportunidade de experimentar outra
realidade, novo sotaque e costumes diferentes, embora seja tudo muito
brasileiro, me faz sentir animadíssima. Assim ocorre enquanto atravesso a ponte
sobre o rio Parnaíba, divisor natural entre Maranhão e Piauí. Largas
avenidas, tráfego aparentemente civilizado me agradam de cara quando entro em
Parnaíba, segunda maior cidade do Piauí com aproximadamente 200 mil habitantes.
Como tenho de repor a placa dianteira no carro (perdi sei lá onde talvez nas
ruas alagadas de Barreirinhas), perco desagradáveis horas no shopping Parnaíba
quando poderia estar dando uma banda de bici na cidade que conta com ciclovias.
Resolvo, por sugestão da maranhense Aline, dormir em Luís Correia, distante 15
km de Parnaíba. Depois de deixar minha bagagem na pousada, dou um rolê de bici
à beira mar. Já noitinha, eu, dentro d’água, sou abençoada com outro espetacular pôr
do sol, que incendeia o canto oeste da praia como se fogueira de São João fosse. Baiano,
uma espécie de factótum da pousada onde me hospedo, inaugura sua pastelaria esta
noite, único restaurante aberto à beira mar já que a temporada de verão ainda
nem começou. Com fome, peço dois que, pra meu azar, além de gordurosos, contêm
recheios secos e sem traço de tempero. Baiano, no afã de agradar à freguesia, responde
aos meus pedidos com obsequiosos “na hora, minha patroa”. Quando pergunta se
gostei dos pasteis, piedosamente, minto “que sim, estão bem
gostosos". Terça, retorno à Parnaíba, pois
quero conhecer o delta do rio, conhecido também como delta das Américas na
sua porção maranhense. O delta vem a ser a foz do rio Parnaíba que se abre em cinco braços, abarcando um arquipélago
formado por 73 ilhas fluviais. Atravesso os 300 metros da ponte Simplício Dias
que une o continente à Ilha Grande de Santa Isabel, a maior delas, linda, verdejante e
abundante em carnaúbas, palmeira predominante na região. Paro na vila de Morros de Mariana onde compro bolo de
goma com queijo da Raquel, quituteira que vende seus petiscos na praça. Entretanto,
não pretendo permanecer em Ilha Grande e sim na ilha das Canárias.
Como a lancha sai do Porto dos Tatus continuo a dirigir mais alguns kms até
chegar à beira do rio. Pergunto a um dos homens sentados na calçada onde posso pegar um
barco que me leve à ilha. Um deles mais que ligeiro diz “te levo por tanto”.
Assim, conheço Didi, dono de 2 lanchas novas e velozes. Bom de negócio fecha um
pacote comigo. Consigo a duras penas um descontinho além de estacionar, sem
custos, o carro na garagem de sua casa. O ex-pescador se apresenta como
aventureiro, nativo e batuqueiro. Quando indago se é namorador, ele não
contesta, muito pelo contrário, sorridente, confirma “estamos na disposição”. Esse
Didi é muito cavalheiro.....hahahaha!! Ao zarparmos do cais, vejo 2 mulheres
lavando roupas no rio. Didi elogia a mais velha pela excelência de seus
lavados. Ele deixa de navegar no rio e conduz a lancha pelo igarapé dos
Periquitos, em cuja margem direita elevam-se dunas de coloração mais amarelada
que as de Lençois. Revela-se assim outro paraíso aos meus olhos. Devo ter sido
muito boa na outra encarnação, porque continuo no céu e nem morta estou uhuuu!!
Trinta minutos depois atracamos nas Canárias, a segunda maior ilha do delta,
com 2 mil almas e 5 povoados: Canárias, Caiçara, Passarinho, Torto e Morro do
Meio. A ilha não pertence ao Piauí como erroneamente se pensa e sim ao Maranhão.
Aqui no delta nunca se sabe quando se está num estado ou noutro. Instalada na pousada
Casa de Caboclo, à beira rio, sou levada ao meu aposento. Depois das
modestas hospedagens anteriores, o quarto me parece luxuoso.
Naquele estilo enganadoramente rústico, tem uma cama de casal protegida por dossel
coberto por farto mosquiteiro. Sinto-me como se fosse uma princesa de contos de
fada deitada no espaçoso e confortável colchão entre macios travesseiros
e rodeada por aquela nuvem de filó branco. Hoje quero só descansar, curtir a
pousada, seus recantos e o amplo jardim. Mais uma vez me confundem com turista
estrangeira. O fofo do garçom, no bar, pergunta em inglês “what do you want miss?”
Eu em bom português, peço caipirinha de tamarindo feita com a cachaça
Lira. E os piauienses são tão amáveis quantos os maranhense, um pouco mais
sérios talvez. Em torno das 16
horas, quando o sol está menos ardido, saio pra dar uma banda no povoado de Canárias. É o maior dos cinco. Todas
as ruas são de areia fofa e, em ambos os lados da comprida rua principal,
predominam boas casas de alvenaria, salvo uma que outra de adobe. Há um pequeno
largo diante da igreja católica e no lado oposto o bar e pousada Delta. Tiro
fotografias de 3 velhotes que ficam encantados, rindo muito enquanto lhes mostro as
fotos. Escuto o conversê deles comentando entre si que sou bonita, hahaha...que
fofos eles! Quando peço água de côco no bar, o dono pega uma vara comprida,
vai até o coqueiro mais próximo, retira a fruta e me entrega. Volto pela praia e ao
avistar 2 gurias pergunto de que brincam. “De turistas”, respondem, sorridentes.
“O que é brincar de turista?” “É entrar no barco e falar inglês”, explicam, rindo,
mais uma vez. “E vocês falam inglês?” É então que elas se torcem,
encabuladas, fugindo pra ponta do cais. O céu se mantém sem nuvens e o calor é intenso
embora a tarde já esteja bem avançada. Tentar se banhar no rio é tarefa impossível:
afundo na lama preta até quase o joelho, afinal aqui imperam os manguezais. Na
quarta, às 9 e 30, Francisco e não Didi vem me buscar para dar um bandaço no
delta do Parnaíba pilotando a confortável lancha em que ontem viajara. Navegamos nas
águas de coloração marrom avermelhada do rio e aprendo a diferença entre o
mangue vermelho (raízes aéreas de cima para baixo) e mangue branco (raízes de
baixo para cima). O dia, lindo, embora ventoso, céu azul, calor gostoso. Após
30 minutos, deixamos de navegar no Parnaíba e entramos no rio do Corte. Nas
margens deste rio há milhares de aningas, planta de água doce cujo caule tem 2 utilidades:
na feitura de balsas e como cicatrizante. Sua folha verde e a flor branca lembram a do copo de
leite e seu fruto quando maduro se esfacela, caindo no rio de modo a servir de alimento
aos peixes. Nas águas do delta há jacarés e sucuris, essas sim, perigosas, adverte
Francisco. Aliás, na variadíssima fauna destacam-se ainda tartarugas, macacos
de várias espécies, jacus, colhereiros, botos e peixes-marinhos. Só consigo ver
iguanas que, quando a gente se aproxima da margem onde elas se encontram, se
escondem assustadas entre o matagal. Entramos num igarapé estreito, sombreado em ambas as margens por
um emaranhado manguezal vermelho. Suas raízes em certos trechos
pendem dos troncos como se cortinas de contas fossem. Um mundo colorido de
marrom e verde. Francisco me conta que a esposa o abandonou há anos. Ficou tão
traumatizado que passou 5 anos sem olhar mulher “nem com o rabo do olho”. Agora
novamente casado, está contente com a atual companheira com quem tem 2 filhos. Paramos
numa prainha e Francisco faz uma demonstração de como se cata caranguejo. Enfia
o braço até o ombro e daí pega o bicho. Se for macho, usa-se um longo pau com
uma espécie de cunha de ferro porque cava tocas mais fundas que as fêmeas. A
pesca das fêmeas é proibida de dezembro a julho porque durante 8 meses elas têm
de cuidar dos 8 mil ovos que ficam enterrados nas tocas. Durante esse período,
são alimentadas pelos machos que lhes levam folhas frescas. Há outros
predadores além do homem como o bagre. Quando a maré alaga o mangue, este peixe
entra e suga das tocas os bebês caranguejos cuja casca ainda mole está boa pra
ser comida. Paramos pra almoçar no restaurante e pousada Aires, situado no
povoado Morro do Meio, na ponta noroeste da ilha, cuja população é de apenas 15
famílias. O proprietário, Raimundo, conta que se tornou caçador de caranguejos
aos 12 anos. Trabalhava das 9 às 13 horas. Nessas 4 horas, catava crustáceos
caminhando, ou melhor, se equilibrando nos troncos e galhos dos mangues enquanto
carregava dezenas de cordas (vem a ser uma enfiada de 4 caranguejos ligados
entre si por fios feitos da fibra da carnaúba). No almoço, Maria, sua mulher, serve uma excelente pescada
amarela assada na grelha. Sesteio de babar, na rede providencialmente pendurada no refeitório, um amplo
e aberto avarandado. Continuamos o passeio, navegando por 15 minutos até
chegar a uma praia lindíssima, repleta de dunas. Subo na mais alta delas donde
tenho uma visão linda do rio e das ilhas ao redor. Pena que as lagoas entre
elas estejam secas. Voltamos à lancha e navegamos nem 2 km até a pequena ilha
dos Guarás, onde as aves, como de costume, vêm pernoitar após passarem o dia
pescando seu alimento predileto: o caranguejo espera-maré de cor avermelhada, responsável
pela coloração de sua plumagem. Como o
guará tem um fino e comprido bico, encurvado na ponta, consegue assim cavar fundo
a lama dos baixios, pinçando lá de dentro o crustáceo, após o que o lava a fim
de retirar a lama preta que o cobre, comendo-o então bem limpinho. Um
espetáculo o pouso deles nos galhos das árvores. São milhares que vêm em bandos
manchando o verde matagal de vermelho como se flores fossem. Esta revoada dos
guarás deu de 10 a zero à que assisti em Atins. Ótima decisão a de ter vindo passear
no delta do Parnaíba que nem fazia parte dos meus planos. O bom de viajar de
carro é que vão surgindo oportunidades de conhecer lugares pouco divulgados ou
até então desconhecidos pra mim. Definitivamente,
o delta do Parnaíba é outro pedacinho de paraíso terrestre com sua paisagem
exuberante, cheia de dunas, mangues e ilhas fluviais! Didi quem me busca, quinta, na pousada retornando eu à Ilha Grande onde pego
o carro. Resolvo antes de sair da ilha, conferir uma de suas praias que vejo anunciada
numa placa porque acho sugestivo o nome: Pedra do Sal. Minha curiosidade é
recompensada: a praia é um mimo com farol branquinho rodeado de pedras,
barracas-restaurantes feitas de palha de carnaúba, uma praia brava e outra
mansa, torres eólicas ao longe. Completamente pé na areia, nenhuma pousada
chique, tudo muito rústico mesmo, vila de pescadores que não se descaracterizou
ainda. Lamento não poder ficar mais pero desejo explorar outras praias do
litoral piauiense. Ao longo da estrada paralela à costa, a paisagem alterna
dunas, vislumbre dum mar verde e matas. Em Cajueiro da Praia, onde entro para dar
um vistaço, homens dormem em redes penduradas entre árvores nas calçadas, em
cima dos bancos e das mesas de praças. Vou então até Barra Grande, antiga vila
de pescadores descoberta pela galera do kitesurf, cuja maioria dos
proprietários dos estabelecimentos são estrangeiros. Na rua principal, de chão
batido, iluminada com luminárias de conchas, há diversos restaurantes cujo
estilo predominante é o inevitável rústico chique. Em julho, mês da alta
temporada, deve ser uma muvucagem esta praia. Graças a deus vim antes, sem nem me
dar conta dessa coisa de alta e baixa temporada. Como sou sortuda, a
ignorância continua me protegendo. À beira mar, restaurantes feitos com folhas e
caules de carnaúba. O mar não é tão quente quanto o de Atins, Tutoia e Luís
Corrreia. Mesmo assim, acabo por mergulhar em suas águas repletas de algas
marrons. Adoro as cercas feitas de galhos de árvores muito semelhantes às que
encontrei na vila de Askole, Paquistão. O céu tem se mantido nublado desde a
primeira hora da tarde. O tal caranguejo que peço no restaurante pé na areia
exaure minha paciência, mal consigo extrair de suas carapaças um dedal de carne
e me sujo toda tentando. Exasperante comê-lo, não tenho a manha necessária pra extrair a polpa do crustáceo. Quem sabe na próxima
encarnação. Mal alimentada, dirijo-me até a praça e apelo para o PF do
restaurante Sabor de BG. Tão fácil comer peixe serra, baião de 2, farofa e
salada de cenoura!! À noite, a convite de Luiz, filho da dona da pousada onde
me hospedo, assisto ao seu show no restaurante Manga Rosa, encerrando minha
temporada no litoral piauiense com o excelente repertório de MPB
cantado por ele!!
Sou acordada por Nonato às
2:30. Ensonada indago dos meus botões “por que tu te metes nessas roubadas hein guria?” Pouca
demora, feliz por estar de novo com o pé na trilha, já nem lembro mais o fugaz momento
de revolta. Neste último dia de pernada, unimos os 2 grupos. Assim lá vamos nós,
Rafa, Nina, eu, Nonato e Biziquinho, caminhando entre as dunas cuja aclividade
e declividade é bem menos acentuada que a dos dias anteriores. As lagoas se
sucedem amiúde, uma ao lado da outra. Pode ser impressão minha, mas tô achando
que nesta parte do parque há maior concentração delas. Circundamos as lagoas
das Emendadas que como o próprio nome diz são intercomunicantes, fruto daquele
processo em que a água da lagoa escava a duna, terminando, nesse caso, por se unir
a outra situada nas proximidades. Nonato liga seu celular em alto e bom som pra
que a gente escute músicas e lá vamos nós dançando, alegres, sobre as dunas. Nem o
tempo nublado – permanece acinzentado quase toda a manhã salvo raros claros
quando o sol consegue furar o bloqueio espesso das nuvens – consegue empanar a
beleza estonteante da travessia. Impossível descrever com fidelidade o visual dessas
dunas que de tão brancas machucam os olhos se desprotegidos e das águas transparentes
e coloridas das lagoas, impossível!! Inexistem adjetivos que façam jus à
beleza desse espetacular cenário! Biziquinho leva Igor pra que ele aprenda o
caminho e possa quando mais velho fazer guiadas solo. A pernada de 17 km
tem seu fim na lagoa das Andorinhas. Conseguimos fretar um bandeirantes, evitando
assim uns bons 15 km de caminhada até o centro de Santo Amaro. Desde as
Andorinhas até a entrada da zona urbana, há dezenas de lindas lagoas. Às suas
margens, turistas sentados em cadeiras sob a proteção de guarda-sóis, ao
lado caixas de isopor contendo cervejas e refris, curtem o sabadão. Almoçamos
no restaurante do Gordo à beira do rio Alegria. O estilo é sem estilo pero a
comida farta, boa e barata. O arroz de cuxá com camarão é ótimo e a pescada
frita deliciosamente crocante. Nosso grupo se dissolve com as gurias retornando
a São Luís, Nonato com seu sogro, de quadriciclo, pro Canto do Atins; já Biziquinho
e Igor pernoitam na cidade. Consigo com as cariocas do outro grupo uma
carona até o trevo de Pedras donde pego outra até Barreirinhas porque lá deixei
carro e bici na pousada de Assis. Não há como deixar de notar o número de
igrejas evangélicas no Maranhão. Aliás, os evangélicos são os novos
bandeirantes da fé. Não desprezam lugar algum, seja uma vila como Atins,
pequenas cidades como Barreirinhas ou grandes centros urbanos. Termino a noite
jantando num dos restaurantes situados defronte ao rio Preguiças com Benélia,
uma fofa que conheci no trevo enquanto tentava pegar carona pra Barreirinhas. Lastimo
não conseguir alongar mais a noite na agradável companhia da baiana, radicada
em Sampa mas o cansaço da travessia tá cobrando seu preço. Guardo, todavia, a convicção de que nos encontraremos em outras quebradas, podicre!! Morta de sono só
quero ir pra pousada e dormir porque amanhã a viagem continua....uhuuu!!
Domingo, então, me mando pra Tutoia pela MA 315, estrada de chão batido que passa
ao lado das dunas e lagoas dos Pequenos Lençois. Embora tenham sido construídos
no parque torres de eletricidade, não conseguem esses trambolhos de ferro e
fios desmoralizar a beleza de cenário. Dou carona prum simpático professor que,
parado na estrada porque o carro estragou, precisa ir a uma reunião em Paulino
Neves. Chego ao final da manhã em Tutoia, situada à beira mar, bem em frente ao
delta das Americas, formado pelo rio Parnaíba e seus afluentes. A praia de
águas calientes tem dunas, mangues, rios e ilhas. Dou um rolê de bici à
tardinha e enquanto me banho no mar desfruto dum dos mais lindos pores do sol de
minha vida. Mais uma vez pedalando, vou jantar no restaurante Jhony onde há
mesas dispostas no calçadão. Escolho uma e lá me sento, pedindo moqueca de
peixe e caipirinha, bem preparadas ambas. O garçom, acredite se quiser, pergunta
se sou estrangeira (?!). Mas bah, seu garçom, bem capaz, sou brasileirissímamente brasileira! Embalada talvez pela caipirinha, faço uma superficial reflexão sobre os temperamentos do maranhense do sul e do norte. Enquanto o maranhense do litoral me pareceu mais expansivo, um tantinho abusado, o do sul deixou a impressão de ser mais sério, embora uma coisa seja certa: ambos são amabilíssimos. Bueno, mudando de saco pra mala, ou seja, dum estado pro outro, amanhã não mais
estarei no Maranhão, o que lamento porque adorei o estado. Contudo, devo continuar
o abraçasso em outras plagas. Piauí....já já tô chegando!