O
projeto inicial das curtas férias que programo para junho é pedalar no vale
de Calchaquies, situado na província argentina de Salta. Contudo, por falta de
quórum (tem de ter no mínimo 2 pessoas) não rolou. Ainda assim, minha
curiosidade sobre essa região da Argentina se manteve e consegui me encaixar
num grupo pra fazer o Trek de las Nubes. Contatos estabelecidos com a MTB Salta (http://mtbsalta.com/),
deixo Porto numa segunda ao ½ dia rumo àquela cidade
com conexão em Buenos Aires. Por
causa da alta do dólar, a brasilerada trocou Miami e Nova York por Montevideo e
Buenos Aires. Embora saia mais em conta viajar a estas capitais, ainda assim a
vantagem não é lá muito grande por conta da carestia que inflaciona o preço dos
bens e serviços em ambos países platinos. Em frente ao posto do Banco Nacional, no
Aeroparque, forma-se uma longa fila de compatriotas ansiosos por trocar seus
desvalorizados reais pelos igualmente depreciados pesos. Espero quase uma hora
até que chegue minha vez porque, apesar de haver dois caixas, um deles raramente
dá o ar da graça. Aliás, os ditos funcionários exibem certo desprezo enquanto
contam as cédulas a serem cambiadas. Será que se eu entregasse millones, eles perderiam essa pose? Nem esquento pela
demora porque me sobra tempo até embarcar no avião que me levará a Salta. Portanto,
trato de me distrair puxando conversa com um casal de paulistas enfileirados atrás
de mim. Não dá nem 10 minutos e outros brasileiros
se juntam
a nós em animado conversê. Via de regra, se passa mais tempo esperando conexão
do que voando. No meu caso, o tempo total de voo entre Salta e Poa deveria
durar 4 horas se fosse direto. Como há a tal troca de aeronaves (tecnicamente,
chamada conexão) em Buenos Aires, ali demoro igual tempo à soma dos 2 voos, ou
seja, chego em Salta 8 horas após ter partido de Porto Alegre!! Bueno, a bem
da verdade, meu conhecimento sobre Salta foi superficial porque passei mais tempo
explorando suas serranias distantes 70 km. O dia de minha chegada nem conta porque aterrisso em Salta às 20 horas da segunda-feira. Sobram então dos 8 dias de férias pra curtir a
city, o dia seguinte, mais domingo e segunda posteriores ao trek. Na terça,
então, vou à sede da MTB Salta e acerto com Nacho o Circuito Yungas, pedal
de meio dia que inicia às 10 horas. Embarcamos numa flamante 4x4 e passamos num
hostal pra pegar mais gente. São duas moças, gêmeas, e um rapaz, namorado de
uma delas, naturais da Irlanda. Simpáticos, pedalam bem embora não sejam
praticantes
assíduos do esporte. Pena que o pesado sotaque irlandês me impeça
de socializar mais com o trio. Rodamos de carro uns 15 km até Finca de Las
Costas, situada em San Lorenzo, município limítrofe à Salta. O pedal de 12 km é
super light. Dura com intervalo pra lanche 2 horas. Percorrem-se estradinhas de
chão batido com subidas e descidas suaves, algumas delas ladeadas de plátanos exibindo
bela coloração avermelhada, típica do outono. Nesta região chamada Yungas, a vegetação existente
é formada por compactos bosques que crescem nas encostas das serranias que
circundam o vale de Lerma. Terminada a atividade, almoço num restaurante em
frente à Plaza 9 de Julio que tá valendo como janta porque já são 16 horas! A
fome é tanta que devoro 2 suculentos medalhões de filé au poivre. Aprovo o
vinho tinto produzido na região de Calchaquies que pedi pra provar. Afinal, não
são só nos parreirais de Mendoza que frutificam boas videiras. Nos 2 dias
posteriores ao trek, fico praticamente todo o domingo no hotel, deitada,
assistindo aos incrivelmente cafonas programas da televisão
argentina. A uma
porque quadríceps e panturrilhas estão bem doídos dos vários descensos durante
o trek. E a dois pela justificada preguiça resultante da exaustiva atividade
física. Pra não dizer que não saio, vou almoçar num restaurante em frente à Plaza
9 de Julio, ponto central da cidade onde destacam-se o Cabildo, a catedral e o museu
de Alta Montanha. Neste, o único prédio por mim visitado, são expostos, um por vez, os 3 meninos incas encontrados
mumificados no vulcão Llullaillaco. Impactante se deparar com aquele pequeno ser,
curvado sobre si, com a cabeça pendente entre os joelhos, como se estivesse escondendo
o medo diante da iminência de seu sacrifício. Na segunda, reservo a
manhã pra ficar na cama, lendo e curtindo os programas televisivos discutirem
ad nauseam a notícia que mesmeriza os
argentinos: a prisão de Jose Lopez, ex-secretário de Obras Públicas do governo de los K – como os argentinos se referem aos Kircherner -, pego com a boca na botija
tentando enterrar mais de 8 milhões de dólares no jardim dum convento abandonado.
Mas as notícias sensacionalistas não param por aí: a também espetacular
detenção do procuradíssimo narcotraficante Perez Corradi, no Paraguai, merece igual atenção porque dizem as "más línguas oposicionistas" que sua
atividade ilegal
bem pode ter recebido uma forcinha do antigo governo dos K. Como tenho
de almoçar, sou obrigada a sair e escolho o tradicional Criollita, famoso por
suas empanadas. Mais que as empanadas, me delicio mesmo com os tamales. Caprichosamente
enrolados em palha de milho, lembram no formato pequenos bombons. Pra não dizer que
sou nojenta, decido à tarde passear num daqueles busões de 2 andares mas quando
chego no quiosque o raio do veículo já havia saído. Faço então um city tour numa
van cuja única estrangeira sou eu, o restante, argentinos de diversas
províncias do país. Santo deus, o apelo comercial prepondera sobre o cultural, de
tal modo que, em quatro paradas, 3 exibem as infalíveis tendas de artesanato
regional. Mesmo assim, a narrativa do guia durante as 3 horas e o giro pela cidade
e seus arredores, como a bela quebrada de San Lorenzo, valem o preço quando não se tem
muito tempo pra conhecer um lugar. Apesar da breve permanência em Salta, percebo
que em dias ensolarados os cerros ao redor da cidade revelam a plenitude de seus
verdejantes perfis.
Que em algumas de suas praças e ruas foram plantadas
laranjeiras, nesta época do ano, carregadinhas de frutas!! Que
Salta la Linda, como seus habitantes orgulhosamente a chamam, se situa no
noroeste da Argentina, aos pés da pré-cordilheira dos Andes, a 1.187 metros acima do
nível do mar, espalhando-se pelo vale de Lerma. Que vivem em seu perímetro
aproximadamente 500.000 habitantes. Que do alto do cerro São Bernardo se tem uma visão panorâmica de seu entorno. Que em La Linda foram construídas diversas igrejas, algumas
pintadas em vibrantes tonalidades rosa e ocre, destacando-se a Nuestra Señora de
la Candelaria de la Viña e sua magnífica e arredondada cúpula ladrilhada de
azul. Que a cidade é movimentada com tráfego intenso de carros cujos motoristas desrespeitam, à semelhança do Brasil, as faixas de pedestres! Que há garçons
simpáticos e outros mal humorados. Que há mais restaurantes servindo menu
turístico do que ranguinho regional. Porém o mais importante: dá pra andar nas
calles sem medo de ser assaltada. A bandidagem, aleluia, ainda não descobriu
Salta!!






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