Choveu
durante a noite. Quando acordo, as gotas de chuva cristalizaram em cima da barraca.
Faz um frio como há muito não sentia. Os homens encilham os cavalos,
animadíssimos, preparando-se para a iminente cavalgada. Juan alvoroçado já está
num alegre tragoléu. Mistura numa garrafa de 1,5 litro de refri vinho e coca
cola guardando-a num dos alforjes que Fernando lhe trouxe. Ontem quando o guia
lhe entregou o par de
bolsas, ele se mostrou tão encantado como criança em dia
de aniversário. Agora 10 horas as nuvens que encobrem o cerro Verde
dispersaram-se um pouco embora o céu
continue nubladíssimo e o frio não dê trégua tanto que os dedos das mãos ardem
de dor embora eu use luvas. Terminados os preparativos, os rapazes despedem-se
cerimoniosamente estendendo as mãos ao passo que João me pespega uma beijoca na
bochecha. E lá vão eles descendo o cerro rumo ao rio Calderilla numa animação
juvenil. Pergunto a Pascoala se não se sentirá só sem o marido. De pronto,
responde "me hace falta en las tareas domesticas", e trata de entrar
no curral onde se encontram as ovelhas, ordenhando-as para com o leite fazer
queijos. No desaiuno, ela coloca à mesa um belo naco de seu queijo de coloração
branca e sabor suave. Enquanto bebo meu chá com leite, lembro do que Berta
contou hoje pela manhã quando me convidou pra ver as ovelhinhas recém paridas.
De que há ovelhas-mães que se recusam a alimentar suas crias, o que obriga o
dono a apartá-las do
rebanho, encerrando-as juntamente com os recém-nascidos
num espaço à parte de modo a forçá-las a alimentá-los. Neste posto também o
rádio fica dia e noite ligado porque pode algum parente de Juan ou Pascoala
enviar alguma mensagem. Entretanto, a notícia que o locutor transmite é um
pedido prum tal de Calixto levar 2 cordeiros pro velório duma senhora de nome
Modesta. Vai ter festão pelo visto no bota-fora da defunta! Deixamos o posto
Reinaga às 10:45 percorrendo por 2 horas uma baixada. Durante a descida, dá pra
ver perfeitamente o rio Vuelta Grande serpenteando pela quebrada homônima
formada pelos cerros Verde e Loma Grande. A paisagem perdeu bastante sua
aridez, e a vegetação toma conta dos campos donde brotam gramíneas e coirones.
Cruzamos um pequeno bosque de alisos, árvore de médio porte e tronco fino,
cujos galhos a esta época do ano se encontram desfolhados. Abre-se no céu uma
pequena janela de azul que nos dá esperança de que o tempo irá melhorar. Pouca
demora, o olho
azulado cede espaço novamente ao insosso acinzentado. Maldade
das grossas esse falso alarme de bom tempo, ala putcha! Paramos na outra casa
que Juan tem à margem do rio Calderilla onde se encontra uma de suas filhas. A
moça mais os 3 filhos está se preparando pra subir o morro e visitar a mãe
durante o fim de semana. Aproveito e retiro minha calça impermeável porque
desconfio que se não choveu até agora não choverá mais. Como este tipo de calça
esquenta muito o corpo, fazendo com que eu transpire em abundância, é melhor me
precaver da perda de fluído corporal. O nevoeiro se dissipou de vez, o que
restam são flocos esparsos de nuvens apesar de o céu permanecer com aquele
aspecto pesado, como se tivesse com gana de encostar na terra. Caminhamos,
então, por uma estrada onde é possível veículos transitarem. Segundo Fernando é
a parte menos atrativa da jornada. Encravado no alto duma colina, o guia
aponta o que parece ser um cemitério. Explica que os nativos da região
constroem cemitérios em lugares altos de modo a perpetuar costume
herdado dos
incas em deixar os espíritos dos mortos mais perto do rei sol. Ao chegarmos a
uma encruzilhada, Fernando indica o lugar não só como ponto de resgate se
necessário como o término da versão de 3 dias do Trek de las Nubes. Saímos da
estrada e passamos a caminhar no irregular terreno da margem coberta de
pedregulhos do rio Calderilla. Como temos de passar pra sua outra margem,
cruzamos a correnteza se equilibrando numa improvisada ponte feita de tronco de
árvore. A partir daqui a paisagem muda radicalmente: não há mais vestígio algum
daquele descampado árido que percorri durante 2 dias consecutivos, a vegetação
é onipresente, forrando de verde os cerros do cume ao sopé. E surgem arbustos
com delicadas e pequenas flores amarelas e vermelhas. Nem bem ultrapassamos o
Calderilla, temos de cruzar outro rio, o Cuesta Grande, sem sinal de tronco ou
pedras improvisados de ponte. Fernando procura no rio uma passagem que seja
rasa
>porém não encontra nenhum trecho onde possamos cruzar sem molhar os pés. O
jeito foi arrastar um pedaço de tronco e jogá-lo sobre o leito empedrado do
rio. Paramos pra almoçar e assim que terminamos de comer recomeçamos a andar.
Com este tempo úmido, o frio se faz sentir assim que se fica muito tempo
parado. Mais uma hora e 30 minutos de caminhada em terreno plano seguida duma
subida leve duns 40 minutos ao longo do rio Cuesta Grande, quando então
passamos a enfrentar um íngreme ascenso de curta duração morro acima. O que
compensa é parar vez por outra e apreciar o rio lá embaixo confinado na
quebrada Cuesta Grande. Após 5 horas e 20 minutos de pernada, calcorreando em
torno de 12 km, estamos finalmente no posto Sarapura pertencente à Feliciana,
ostentando recente viuvez. Há duas versões sobre a causa mortis do marido. A
oficial declara infarte. Já as más ou boas línguas (depende do ponto de vista)
apontam asfixia por ingestão de folhas de coca, morte nada incomum nestes
ermos. Isso ocorre porque os homens, que passam o dia mascando coca, lá pelas
tantas se embriagam e deitam esquecidos do que levam na boca, se engasgando com
a maçaroca de erva durante o sono. Mora
com Feliciana uma vizinha, menina duns 13 anos. Tímida em nossa presença, a
guria só fala quando algo lhe é perguntado e mesmo assim por monossílabos. A
anciã é magrinha, de pequena estatura, e seus pequenos olhos escuros miram
profundamente o interlocutor. Fala sozinha enquanto faz as tarefas domésticas.
Irrequieta, nem bem senta já levanta pra fazer sei lá o quê. Sua risada,
contudo, é surpreendente: forte, alegre, contagiante. Na
igualmente enfumaçada cozinha de Feliciana, enquanto Jose prepara uma janta
supimpa - massa com chuletas de porco ao molho barbecue - degustamos uma picada
do queijo de ovelha que Fernando comprara da querida velhinha, regado com o
delicioso tinto saltenho. Que happy hour!!






2 comentários:
Bea, que imagens, que lugar!!! Adorando acompanhar como foi sua mais recente aventura! Bjs! Alu
Mesmo com chuva pode-se ver a beleza do lugar! Que bacana!
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