Saída
da estação rodoviária às 08:00 com o guia Fernando, um mendocino, sessentão
como eu, que se estabeleceu em Salta após ter sido guia de montanha na região
do Aconcágua, tendo acumulado a marca de 10 cumes na mais alta montanha das
Américas. Inicialmente, iria fazer o trek com uma família porteña mas sei lá o
motivo de eles terem adiado pra julho o programa. Entramos no busão e
percorremos 70 km ao longo da Ruta 51 até o ponto
donde iremos começar a
caminhada. Esta ruta, super transitada, em especial por caminhões, termina no
Paso Sico fronteira com Chile, daí continuando com outro nome até o porto de
Antofagasta, motivo de sua importância pros argentinos. Excitada com a
aventura, dormira pouco a noite, daí porque cochilo quase todo o trajeto
perdendo a bela paisagem oferecida pela Quebrada del Toro, garganta com
aproximados 90 km de extensão. Tanto que lá pela tantas escuto Fernando
chamando minha atenção para ver os trilhos suspensos do famoso Tren de las
Nubes. O busão nos larga na frente da Finca Incamayo às 10:15 onde o arriero
Jose já ali se encontra. Irá transportando a bagagem uma mula (o bicho suporta em
seu lombo até 60 kg), ao passo que ele irá a cavalo. Enquanto os homens finalizam os
preparativos de prender as sacolas no animal, curto o impressionante barranco ocidental, uma das paredes que forma
a Quebrada del Toro, e a coloração avermelhada de sua rocha permeada de
canaletas como se fossem minigargantinhas.
O Trek de las Nubes por mim rebatizado Sendero de las Nubes (soa mais simpático, não é mesmo? afinal, estou num país onde o idioma é espanhol), erroneamente
apontado como um recorrido na pré-cordilheira andina, em realidade, percorre
serras
subandinas. Fernando, como não me conhecia, tomou a decisão de não
iniciar a caminhada a partir do posto da gendarmeria Ingeniero Maury, como é costume, desistindo de entrar pela Quebrada del Toro, e, sim pela paragem da Finca
Incamayo, 18 km antes, penetrando via Quebrada Incamayo. Por quê? Quis
com isso me poupar 200 metros a menos de desnível. Andamos pouco tempo dentro
da Quebrada de Incamayo porque logo se torna impraticável caminhar ali dentro:
estreita, tem saltos que não se pode contornar. Assim, começamos a subir seu
flanco oeste, bem íngreme e com muita pedra solta. Alcançamos sua crista
percorrendo-a por bom tempo enquanto à esquerda avistamos a sinuosa Ruta 51, a
Quebrada del Toro e vários cerros de 4 mil metros que se situam além como Bayo,
Redondo, Camara e Manzana. À direita, o Cerro Pacuy domina a parede oposta da
Quebrada Incamayo. A paisagem é árida, predominando cactus (coirones), alguns
com quase 5 metros de altura. Em toda esta zona há muitas ruínas incas como corrales e
uma antiga mina explorada pelos incas e posteriormente
pelos espanhóis. Contudo, remonta a 600 anos e, portanto, pré-incaica, a bem
conservada pukara, localizada estrategicamente entre as Quebradas del Toro e
Incamayo, para o exato propósito de servir como torre de vigilância. Embora
friozinho, o dia está lindo, céu azul cujas nuvens baixas emolduram as encostas
dos cerros. São mais de 2 horas de
intensa subida até que pelas 14 horas paramos para almoçar. O menu é um baita sandu
com tomate, alface, queijo e frios mais bolachinhas doces e salgadas. Após mais
2 horas ganhando altura, enveredamos a leste, iniciando a descida e retomando a
caminhada pelo interior da Quebrada de Incamayo. Cruza-se diversas vezes o
leito mirrado e estreito do córrego Incahuasi e, como num passe de mágica, a
paisagem muda, passando a se exibir mais verdejante. Abundam arbustos de pequeno
porte e chama a atenção a interessante yareta, planta que chega a ter
até 3 mil
anos de existência. Ignorante em Botânica quando olho penso que se trata duma
pedra recoberta de musgo, hehe. Logo a vegetação mais "abundante"
cede novamente lugar à aridez. E sobre uma colina, outras ruínas, estas
declaradas monumentos históricos, o chamado sítio arqueológico Incahuasi.
Destaca-se pela boa conservação a Silla del Inca. Trata-se duma casa de banhos
onde os incas construíram um sistema de encanamento, puxando água dum córrego,
de modo a que pudessem se banhar sob um cano que lhes servia de ducha. Pensa
que eles, os incas, tomavam banho de pé? Hahaha, só não!! Sentadinhos
confortavelmente num banco de pedra, daí a origem do nome silla del inca.
Também dura 4 horas a segunda metade da pernada, a da baixada, porém sinto um
cansaço incomum. E me queixo pra Fernando que estou realmente começando a
sentir o peso dos anos. Ele põe os pingos nos "is", esclarecendo a
razão: ascenso de quase 1000 metros já que da Finca Incamayo, situada 2.400
metros estamos agora a 3.370, aqui, no posto de Berta.....ufa, que alívio, nem
me
tocara dos efeitos da altitude!! Foram 8 horas de atividade com poucas e
breves paradas: saída às 10:45 e chegada às 17:45, percorrendo bem uns 14 km!! O local de nosso
acampamento tem até algumas árvores, desfolhadas, todavia, nesta época do ano.
Mais adiante, 3 edificações de pedra com tetos e portas feitas de cardones
secos, técnica de construção herdada dos antepassados incas. A falante e
simpaticíssima Berta, nascida Bernabia, vive mais solita neste ermo que
acompanhada porque o sobrinho sempre que pode se manda pro vilarejo mais
próximo. O falante Jose, além de arriero atua também como cozinheiro. Prepara uma
galinha deliciosa, super bem temperada, na grelha ao passo que Fernando se
encarrega da salada e Berta cozinha papas andinas, pequenas e saborosas. De
bebida, o guia apresenta uma garrafa de
vinho salteño...que requinte...uau!! A única coisa que estraga um pouco a ceia
é a fumaça desprendida pela yareta, usada como combustível pra alimentar a fogueira acesa no chão batido da pequena cozinha. Arde pra caramba os olhos. A única que não
se abala é a sorridente Berta. A noite, iluminada por uma quase lua cheia, está
super estrelada, tanto que nem preciso usar lanterna pra me locomover. Cansada, janto e me mando pra barraca, nem
vontade de ler tenho. A temperatura está fria mas não o suficiente pra que eu
precise dormir de gorro ou de luvas...ebaa!!





2 comentários:
Região árida mais bem linda, Bea! Que lindas férias!
Queridona, mais um lugar espetacular para a sua galeria de vida! Adorei o primeiro relato! Considere, seriamente, a possibilidade de reunir seus escritos em um livro, viu! Estarei na fila para autógrafo! Bjsss! Alu
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