quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sendero de las Nubes

Saída da estação rodoviária às 08:00 com o guia Fernando, um mendocino, sessentão como eu, que se estabeleceu em Salta após ter sido guia de montanha na região do Aconcágua quando acumulou a marca de 10 cumes na mais alta montanha das Américas. Inicialmente, iria fazer o trek com uma família porteña mas sei lá o motivo de eles terem adiado pra julho o programa. Entramos no busão e percorremos 70 km ao longo da Ruta 51 até o ponto donde iremos começar a caminhada. Esta ruta, super transitada, em especial por caminhões, termina no Paso Sico fronteira com Chile, daí continuando com outro nome até o porto de Antofagasta, motivo de sua importância pros argentinos. Excitada com a aventura, dormira pouco a noite, daí porque cochilo quase todo o trajeto perdendo a bela paisagem oferecida pela Quebrada del Toro, garganta com aproximados 90 km de extensão. Tanto que lá pela tantas escuto Fernando chamando minha atenção para ver os trilhos suspensos do famoso Tren de las Nubes. O busão nos larga na frente da Finca Incamayo às 10:15 onde o arriero Jose já ali se encontra. Irá transportando a bagagem uma mula (o bicho suporta em seu lombo até 60 kg), ao passo que ele irá a cavalo. Enquanto os homens finalizam os preparativos de prender as sacolas no animal, curto o impressionante barranco ocidental, uma das paredes que forma a Quebrada del Toro, e a coloração avermelhada de sua rocha permeada de canaletas como se fossem minigargantinhas.  O Trek de las Nubes por mim rebatizado Sendero de las Nubes (soa mais simpático, não é mesmo? afinal, estou num país onde o idioma é espanhol), erroneamente apontado como um recorrido na pré-cordilheira andina, em realidade, percorre serras subandinas. Fernando, como não me conhecia, tomou a decisão de não iniciar a caminhada a partir do posto da gendarmeria Ingeniero Maury, como é costume, desistindo de entrar pela Quebrada del Toro, e, sim pela paragem da Finca Incamayo, 18 km antes, penetrando via Quebrada Incamayo. Por quê? Quis com isso me poupar 200 metros a menos de desnível. Andamos pouco tempo dentro da Quebrada de Incamayo porque logo se torna impraticável caminhar ali dentro: estreita, tem saltos que não se pode contornar. Assim, começamos a subir seu flanco oeste, bem íngreme e com muita pedra solta. Alcançamos sua crista percorrendo-a por bom tempo enquanto à esquerda avistamos a sinuosa Ruta 51, a Quebrada del Toro e vários cerros de 4 mil metros que se situam além como Bayo, Redondo, Camara e Manzana. À direita, o Cerro Pacuy domina a parede oposta da Quebrada Incamayo. A paisagem é árida, predominando cactus (coirones), alguns com quase 5 metros de altura. Em toda esta zona há muitas ruínas incas como corrales e uma antiga mina explorada pelos incas e posteriormente pelos espanhóis. Contudo, remonta a 600 anos e, portanto, pré-incaica, a bem conservada pukara, localizada estrategicamente entre as Quebradas del Toro e Incamayo, para o exato propósito de servir como torre de vigilância. Embora friozinho, o dia está lindo, céu azul cujas nuvens baixas emolduram as encostas dos cerros.  São mais de 2 horas de intensa subida até que pelas 14 horas paramos para almoçar. O menu é um baita sandu com tomate, alface, queijo e frios mais bolachinhas doces e salgadas. Após mais 2 horas ganhando altura, enveredamos a leste, iniciando a descida e retomando a caminhada pelo interior da Quebrada de Incamayo. Cruza-se diversas vezes o leito mirrado e estreito do córrego Incahuasi e, como num passe de mágica, a paisagem muda, passando a se exibir mais verdejante. Abundam arbustos de pequeno porte e chama a atenção a interessante yareta, planta que chega a ter até 3 mil anos de existência. Ignorante em Botânica quando olho penso que se trata duma pedra recoberta de musgo, hehe. Logo a vegetação mais "abundante" cede novamente lugar à aridez. E sobre uma colina, outras ruínas, estas declaradas monumentos históricos, o chamado sítio arqueológico Incahuasi. Destaca-se pela boa conservação a Silla del Inca. Trata-se duma casa de banhos onde os incas construíram um sistema de encanamento, puxando água dum córrego, de modo a que pudessem se banhar sob um cano que lhes servia de ducha. Pensa que eles, os incas, tomavam banho de pé? Hahaha, só não!! Sentadinhos confortavelmente num banco de pedra, daí a origem do nome silla del inca. Também dura 4 horas a segunda metade da pernada, a da baixada, porém sinto um cansaço incomum. E me queixo pra Fernando que estou realmente começando a sentir o peso dos anos. Ele põe os pingos nos "is", esclarecendo a razão: ascenso de quase 1000 metros já que da Finca Incamayo, situada 2.400 metros estamos agora a 3.370, aqui, no posto de Berta.....ufa, que alívio, nem me tocara dos efeitos da altitude!! Foram 8 horas de atividade com poucas e breves paradas: saída às 10:45 e chegada às 17:45, percorrendo bem uns 14 km!! O local de nosso acampamento tem até algumas árvores, desfolhadas, todavia, nesta época do ano. Mais adiante, 3 edificações de pedra com tetos e portas feitas de cardones secos, técnica de construção herdada dos antepassados incas. A falante e simpaticíssima Berta, nascida Bernabia, vive mais solita neste ermo que acompanhada porque o sobrinho sempre que pode se manda pro vilarejo mais próximo. O falante Jose, além de arriero atua também como cozinheiro. Prepara uma galinha deliciosa, super bem temperada, na grelha ao passo que Fernando se encarrega da salada e Berta cozinha papas andinas, pequenas e saborosas. De bebida,  o guia apresenta uma garrafa de vinho salteño...que requinte...uau!! A única coisa que estraga um pouco a ceia é a fumaça desprendida pela yareta, usada como combustível pra alimentar a fogueira acesa no chão batido da pequena cozinha. Arde pra caramba os olhos. A única que não se abala é a sorridente Berta. A noite, iluminada por uma quase lua cheia, está super estrelada, tanto que nem preciso usar lanterna pra me locomover.  Cansada, janto e me mando pra barraca, nem vontade de ler tenho. A temperatura está fria mas não o suficiente pra que eu precise dormir de gorro ou de luvas...ebaa!!

2 comentários:

Miriam Chaudon disse...

Região árida mais bem linda, Bea! Que lindas férias!

Anônimo disse...

Queridona, mais um lugar espetacular para a sua galeria de vida! Adorei o primeiro relato! Considere, seriamente, a possibilidade de reunir seus escritos em um livro, viu! Estarei na fila para autógrafo! Bjsss! Alu