sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Passo Palomani

Muito chata mas muito chata mesmo essa função de guardar roupa nas sacolas, desinflar isolante térmico, enfiar saco de dormir dentro da capa e outras cositas mas. Sem esquecer o reverso quando a gente chega no acampamento e tem de tirar tudo de dentro da sacola, soprar o isolante, tirar o saco de dormir da capa e por aí afora!! Tudo realizado no interior do "big espaço" que são as barracas para uma pessoa. Essa rotina me mata. Adoro rotinas mas essa, por favorrr, ninguém merece!! Meu sonho de consumo é ter dinheiro suficiente pra poder pagar alguém que faça um dia isso por mim. E não estou brincando não, por isso não escrevo os he he he no final da frase, tá ligado? Bueno, sonhos ainda não custam nada, só rendem, às vezes, uma baita duma frustração porque nunca se realizam. O solo ao redor do acampamento está totalmente embranquecido pela queda de neve durante a noite. O nevado 3 Puntas mal dá pra se enxergar devido ao nevoeiro que toma conta daquela parte da cordilheira Vilcanota.Saímos do acampamento mais tarde, 9 e 30, porque estamos todos ainda cansados da pegada do ataque ao cume do Campa ontem. Deixamos a província de Quispicanchis, onde se deram os três primeiros dias de nossa pernada, e adentramos agora a província de Canchis. Caminhamos ao longo da belíssima quebrada ou vale Chillca que começa no passo de Campa e termina no distrito de Pitumarca. Ontem, do topo do Campa, a parte inicial deste vale já me chamara a atenção. Agora, percorrendo suas entranhas, mais encantada fico pelo colorido de suas pastagens e a cor avermelhada de algumas encostas de montanhas embora o céu mantenha-se nublado. Novos floquinhos de neve, se bem que minúsculos, tornam a cair durante um bom tempo. Pousados no chão, bandos de wallatas, pássaros que vivem aos pares, emitem ruídos similares ao cacarejar de galinhas. Um pouco antes da meia dúzia de casinhas de adobe com teto de palha, que vem a ser o pueblo de Huchuy Finaya, há um local para acampamento. O detalhe é que, por se localizar no flanco instável duma montanha, há risco de deslizamento, situação esta que aconteceu há um ano atrás, com queda de toneladas de areia e de enormes blocos de rocha. A sorte é que não havia ninguém acampado no lugar. Dobramos noutra quebrada à direita onde é possível avistar a cara sudeste do Ausangante e a face nevadíssima do Mariposa. Uma pena o tempo fechado porque deve ser um arraso curtir estes dois nevados brilhando ao sol. O vale, delimitado por altos platôs e montanhas, exibe, em algumas das encostas, uma vibrante coloração ferruginosa. Alpacas pastam próximas a um córrego que se origina das águas de degelo do glaciar do Mariposa. No lado oposto, a solitária casa do proprietário do rebanho marca presença na imensidão do pampa andino. Iniciamos a subida do passo Palomani cuja trilha infindável avisa que vai ser osso a caminhada até seu topo, não pela inclinação mas pela extensão. Na metade do caminho, parada pro almoço. O cozinheiro serve dum grande panelão massa com atum mais batatas camote fritas. Exceto as batatas, o resto está muito sem graça, tanto que nem repito. Definitivamente, o rapaz não é lá muito jeitoso na cozinha. Ju, cada vez mais depauperada pelos efeitos da altitude e da diarreia, tem de se valer do cavalo posto à disposição pra situações emergenciais. Assim, bem repoltreada, segue montada o restante do trajeto até o próximo acampamento. Com seus respeitáveis 5.100 m, o passo revela uma paisagem de respeito montanha abaixo: a face sul do Ausangate à direita, a laguna Ausangatecocha aos pés do nevado e, mais adiante, as barracas do acampamento Ausangate onde chegamos às 15 e 30, após percorrer modestos 11 km em 6 horas. Na verdade, o relógio Garmin acusou movimentação mesmo de apenas 4 horas, sendo que as outras 2 horas foram desfrutadas em pausas para fotografar, fazer pipi, regularizar o ritmo cardíaco e almoçar. Mal chegamos ao acampamento Ausangate, situado a 4.600 m, começa novamente a granizar. Tô me dando conta de que só no primeiro dia pintou neve. E o mais incrível: o frio não é de todo insuportável tanto que só usei a minha jaqueta de pluma duas vezes até agora. Pela segunda vez (a primeira foi em Pacchanta, onde há a "casinha" com o famoso buracon no chão), não se usa a barraquinha-banheiro. À disposição dos turistas, uma construção em alvenaria com 4 WC e uma pia, tudo sem água corrente. E o tempo continua feio, nublado, com modestíssimos rasgos de azul no céu, encobertos por espessa camada de nuvens. Servida a janta às 19 horas, conversamos um pouco mas o cansaço dos dias anteriores e do ataque ao cume se fazem sentir. Damos buenas noches aos nossos guias e vamos Juju e eu ao encontro de nossos “berços”.

Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

"sonhos ainda não custam nada, só rendem, às vezes, uma baita duma frustração porque nunca se realizam."
Ao ler suas palavras eu constato que tenho sonhado muito...