quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pedal do Gritiriu

Pois não é que se apresenta uma nova oportunidade de pedalar no Uruguay? Aparentemente carcando o tênis (recuso-me a usar sapatilha, basta de comprar terrenos!) nos mesmos lugares por onde pedalei no carnaval. Não será isso, contudo, que vai embaçar meu entusiasmo e fazer eu desistir de pôr o pé, ou melhor, a bici na estrada. Muito pelo contrário! Além de adorar o país vizinho (nem tanto tempo assim a primeira visita, apenasmente, 46 aninhos atrás), aprecio o estilo gerencial de Fabiano e Cristiane Pellenz. Proprietários da Ekonova, agência de turismo de aventura, com sede em Nova Petrópolis, o jovem casal sabe administrar com sensibilidade e pulso firme as indiadas pedalísticas. Na sexta, nos tocamos, eu e Denílson, velho conhecido de pedais passados, direto e reto pro aeroporto, ponto de encontro dos portoalegrenses que estão aderindo à caravana ciclística. Pontualmente, o confortável busão sai de POA às 23 horas rumo ao departamento de Treinta y Tres onde, no sábado, rolará o primeiro pedal duma série de 4. Ultrapassada a fronteira após os chatos trâmites burocráticos - putaqueospariu, esses procedimentos já não deveriam ter sido ou abolidos ou então simplificados em prol do tal de Mercosul (e esse organismo ainda existe?) -, chegamos no encruzo da Ruta 8 com a estrada de chão batido que conduz ao nosso destino, a Quebrada de los Cuervos. Encaixadas nas magrelas as rodas dianteiras, iniciamos o pedal lá pelas 10 horas. Acompanha-nos um cão muito do ordinário que, se aproveitando dum descuido da boa Josmara, come o sandu (o descarado ainda teve o cuidado de tirar o papel filme com a pata, pode?) que a única paulista do grupo deixara no chão de bobeira. O interesseiro animal “pedala” junto conosco durante os 25 km do trajeto, sei lá se na esperança de filar outro petisco ou se por genuíno espírito vira-lata. O pedal é tranquilíssimo. Subidas que se sucedem naquela topografia sutil de ser das serranias uruguaias onde nada é muito dolorosamente íngreme. Proibidas bicis no interior do parque, percorremos a pé os 8 km de trilhas que circundam a pequena garganta. Situado na Serra do Yerbal, o minicanyon alcança em alguns pontos mais de 100 m de profundidade, em cujo interior serpenteia o arroio Yerbal Chico, curso d’água com bons poços prum mergulho no verão. Devido ao adiantado da hora, não é possível pedalar de volta até a Ruta 8, já que teremos de viajar mais duas horas até Minas, onde pernoitaremos e pedalaremos amanhã. Situada no departamento de Lavalleja, a pequena e simpática cidade exibe essas árvores tão caras em plagas uruguaias: os plátanos! Infelizmente, ainda, desfolhados. Ao redor da praça, bares, restaurantes e a centenária confeitaria Irisarri, cujos doces e salgados tiram a gente do sério. Impossível comer só um! Quando começo um pedal, trato de não me atucanar caso venha a esquecer um que outro nome. Olha só, neste, os participantes são em número de 14! Daí haja memória pra guardar tantos nomes, assim, de supetão, né? Chamo-os, então, no início, indistintamente, de meu querido, minha querida, até saber na ponta da língua quem é fulana, sicrano ou beltrano. Tampouco fico me refestelando logo de cara, pois, como decana do bando, tenho de manter a pose. À medida que passam os dias, alivio a mão no freio emocional e vou me apaixonando, pedindo amizade no Facebook e tratando os queridinhos como se os houvesse conhecido desde o ventre materno. Alguns relacionamentos perduram. Outros vão se esfumando com o passar do tempo. O que importa se restam boas lembranças, né?! Bueno, o domingão em Minas amanhece sob cerrado nevoeiro. Nem esquento porque nada mais certeiro que o ditado gaudério “cerração baixa, sol que racha”. Dito e feito, 10 da manhã, a névoa se dissipa e revela o belíssimo contorno do cerro Arequita. O sol, emitindo seus trilhões de megawatts, ilumina e aquece o dia. Vai ser um baita pedal, tô sentindo, uhuuu!! Juntam-se a nós 30 animados muchachos e muchachas uruguaios, alguns amigos do casal Pellenz, outros amigos dos amigos. E, alegremente, iniciamos a pedalera rodando ao longo dum curto trecho de asfalto (graças a deus), logo enveredando por estradas de chão batido. Embora tenha sido um humilde giro de 38 km, o pedal não é facinho, não!! Às estradas de chão batido sucedem-se trilhas cobertas de grama, tornando pesado rodar as bicis. E dessa vez não falta uma boa e forte subida. Na finalera do passeio, pegamos um vento contra que bota quase todo mundo de língua de fora, embora já estejamos em terreno plano. Pra repor as calorias consumidas, os hermanos nos oferecem uma farta parrillada regada a uísque (sim!!), cerva e refris. Ao som de cumbias e merengues, tem início o fandango. Somos convocados (não há palavra melhor pra expressar o que se passou, hehe) a bailar, não admitindo, em especial, as hermanas qualquer recusa. No que iniciamos a dançar, os uruguaios riem, deliciados, de nosso jeito de rebolar. Melhor dominguera impossível de inventar. E chega então a sempre mal-vinda segunda-feira, amaldiçoada por 9 entre 10 terráqueos. Pra nós, entretanto, um prazer recebê-la, o que fazemos de braços bem abertos. Afinal, é por uma boa causa: continuamos a pedalar! O próximo passeio partirá de Nueva Helvetia, situada no departamento de Colonia, onde chegamos por volta das 11 horas. Terminada a função da montagem de las ruedas, pedalamos 7 km até as ruínas do Molino Quemado, monumento histórico uruguaio, situado num belíssimo e verdejante parque. Da outrora imponente propriedade, restam apenas as grossas paredes externas. Daqui a Rosario é um tapa onde, na praça em frente à bela igreja Nuestra Señora Del Rosario, paramos pra lanchar. E saímos da cidade pegando novas e agradável estradinhas de chão batido cujas pequenas ondulações ajudam a quebrar a monotonia dos 47 km de superfície plana até a Ruta 1. A partir desta carretera mais 25 km, dessa feita já rodando no asfalto. A movimentada rodovia tem bom  acostamento, exibindo, ao longo de 10 km, a famosa alameda adornada com palmeiras do tipo butiá. Chegamos a Colonia Del Sacramento às 17 horas, felizes que nem pinto no lixo. Afinal, saiu-se da zona de conforto, finalizando em 5 horas um pedal de 72 km. Apesar da quilometragem, à noite, pegamos o busão em frente à avenida beira-rio e vamos jantar num dos aconchegantes restaurantes do centro histórico dessa charmosa cidade, construída na margem esquerda do rio de La Plata. Provo dum Tannat Rosé de sabor inesquecível! A essa altura da cicloviagem, as parcerias estão pra lá de fortalecidas, as afinidades já estão escancaradas e.....tchan tchan tchan.....sempre alguém se destaca pro bem ou pro mal. No nosso grupo, graças a deus, é pro bem, na pessoa do impagável Jair. Alcunhado pela galera do paraglider, esporte que pratica, de prefeito do minimundo, devido a sua pequena estatura (agora se é obrigado a ser politicamente correto, evitando chamar alguém de nanico ou tampinha, porque senão te fodem com um processo), o cara é figuraça demais! Perguntada se o marido se mostra igualmente bem humorado também no recesso do lar, Simone, a cara metade, não só confirma como entrega "é sempre, assim, bobinho". Ahahaha.....nada boba a gringolinda! A velha tática de desqualificar pra defender o que é seu! Tanta a animação, tamanha a felicidade que uns e outros extrapolam nos decibéis permitidos ao bom convívio. O gritero é de estourar os tímpanos! Mas gra-ças a deus, nossa comandante em chefe, Dona Cristiane, com sua pegada de educadora, posto que mãe de adolescente, passa um pito daqueles, chamando a galera a ordem! Não dá outra, os gritões passam então a falar baixo, olhando com o rabo do olho pra Dona Crisálida! Por causa disso, o prefeito Jair, a cada vez que o tom das vozes ultrapassa o limite da decência, alerta, com aquele forte sotaque da gringalhada de Caxias, “olha o gritiriu!”. Porém outro personagem se impõe, além de Jair. É Giumar. Enorme de alto, forte no pedal que nem touro miura, é dono de enormes olhos azuis exoftálmicos, chamado por isso de zoiudo pelos amigos! Faço questão de esclarecer que são seus amigos que o tratam assim. Eu, deus me livre de usar termos politicamente incorretos. Pra mim sempre será exoftálmico seu azulado olhar! Com sotaque de alemão da colônia, mais carregado que o acento italianado de Jair, Giumar come pelas beiradas. Conta seus causos em petit comité, não competindo com o prefeito. Quando dá uma brecha, ele se sai com estórias rocambolescas, proibidas pra menores de 60 anos. No último dia do pedal, terça, a forte chuva e o vento de rajadas torna impraticável qualquer tentativa de pedalar durante a manhã. O pessoal não se acanha na pousada e toca pro centro histórico. Fabiano, em consulta aos búzios meteorológicos, verifica que a chuva terá cessado até o final da manhã. Fica combinado que o pedal acontecerá a partir das 13 e 30...será?! Mulher de pouca fé que sou, pago pelo mau pensamento. A chuva não só pára como abre aquele solzão exibindo um céu azul-anil de dar gosto de olhar pra cima. E o passeio rende deliciosos 45 km ao longo de estradas de chão batido livres de veículos. O único contratempo é o ventão castigando os 15 km finais de pedalera. À noite, pra celebrar os bons momentos e antecipar a despedida, compramos tira-gostos num armazém e pizzas de variados sabores são encomendadas. Tudo devidamente regado com muchas botellas de tannat uruguaio!!! Tintim macacada......ops, galera!!

Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Também sou fã do Uruguay! Lindas paisagens!