terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Mar de lagunas

Juan, nosso hospedeiro, abre uma exceção e serve, a meu pedido, desaiuno às 6:30. O crocante minipão francês está tudo de bom. Trato de comer 3 porque hoje o pedal vai ser o mais puxado de todos, em torno de 100 km. Despedidas feitas, pegamos a estrada. O céu meio enevoado e o frescor da manhã dão tanta energia que os 14 km ao longo da Ruta 10 até o entroncamento com a Ruta 15 se fazem num piscar de olhos.  A partir daqui, a 10 torna-se de chão batido até a casa de Olga, barqueira responsável pela travessia da barra. Decorridos 4 km, já se avista a imensidão da laguna de Rocha, considerada reserva da biosfera pela UNESCO. Na piscosa lagoa, diversas espécies de aves fazem dela ponto de arribada em sua rota migratória. Previdentemente, ontem, eu havia feito contato telefônico com Olga e acertado pras 8 horas nosso embarque. Com essa manobra, se evita contornar a lagoa pela Ruta 9, o que aumentaria o pedal em mais 30 km. O motivo da brusca interrupção sofrida na Ruta 10 tem como causa a invasão periódica da maré alta no estreito cordão de areia que separa a laguna do mar. Daí já viu, né, o risco  de atravessá-lo com bicicletas, mesmo não sendo muito profunda a passagem. Quem ocupa o leme do barco a motor não é a solícita Olga, e sim seu irmão, o igualmente simpático Pepe. Com o acréscimo de Neivid e Claudia (abro um parênteses pra falar nele porque o fofo, embora tenha nascido na Irlanda, faz questão de frisar que é brasileiro pois está em terras brasileiras há quase 30 anos) que encontramos perdidões perto da casa de Olga, um barco menor é atrelado ao maior onde vamos nós 6 e o tralharedo. Jô, Ange e suas bicis vão assim rebocadas durante os 20 minutos de travessia. O céu, graças a deus, se encontra nublado! Ao término da navegação, retomamos o pedal ao longo da Ruta 10 que se mantém de chão batido até a laguna de Garzon, limite entre os departamentos de Rocha e Maldonado cujo balneário mais emblemático é Punta del Este. A estrada plana, de areia clara, estende-se a perder de vista exibindo tímidos aclives que nem exigem troca de marcha. A pesada e baixa nuvem negra ao sul não passa, decorrido um tempo, de falso rebate de chuva. Pena, teria sido bem vinda uma manta d’água pra refrescar porque o calor tá começando a pegar. Encontramos Jo e Ange nos esperando para o costumeiro descanso coletivo. Como elas pedalam muito forte, galos cinzas que são, facinho se distanciam de nós em torno duns 3 km. Embora neguem energicamente, tenho cá com meus botões que ambas estão competindo uma com a outra, na fina. Por causa disso, tenho um baita insight e tomo então a sábia decisão de comunicar a elas que "por favor, gurias não se constranjam, tomem a dianteira, nada de ficar esperando por mim e Fatima a cada 20 km como a gente tinha combinado, ok?". Como elas têm o roteiro com os endereços das pousadas nada mais adequado que ir na frente e lá nos aguardar. "De preferência com uma garrafa de vinhote, viram?", acrescento eu, com ar maroto. Tal arranjo revela-se salutar. Se nossa convivência era até então ouro sobre prata, passa a ser ouro sobre ouro incrustado com diamantes, hehehe! Por causa duma informação errada dada por um sujeito a quem ataco pra perguntar os horários da balsa de Garzon, começa aquela correria pra alcançar a embarcação cujo último horário matutino é às 12, reiniciando a travessia somente a partir das 14! Revela-se inútil, entretanto, a desenfreada pedalada porque no verão tem balsa a cada 10 minutos, hahaha!! Fatima devido a uma distensão na panturrilha, veste, hoje, ao invés de calça comprida, bermuda curta e meias elásticas até o joelho. Assim fardada, a Monster lembra aqueles estudantes de colégio inglês. Atravessada a laguna de Garzón onde são figurinhas fáceis as velas coloridas das pranchas dos praticantes de kitesurf, paramos numa bodega bem xinfrim pra descansar e beber algo porque de comida já temos as empanadas que compramos ontem em La Pedrera. Merecido descanso, afinal foram 53 km sendo que 39 de puro chão batido! Aproveito pra carregar o garmim porque esta bosta de relógio tem autonomia muito curta. Não dura mais que 8 horas. E hoje o dia será longo, considerando que só fizemos metade do caminho até agora. O dono do lugar avisa que sua mãe está pondo no forno empanadas de marisco. Não dá outra, desisto de comer as empanadas que trouxera e trato de esperar as que estão sendo assadas. E, olha, vale a pena a espera! Quentinha, suculenta, de massa folhada, peço bis! Os 2 sucos de pêssego, feitos na hora, são grossinhos na medida certa. E a tartelete de morango ainda morninha está dos deuses. Embora não tenha sido nada barato foi o melhor lanche do pedal. Imbatível! A Ruta 10 nesta região encontra-se tão próxima do oceano que dá pra avistar a 200 metros o azulado de suas águas. Cômoros de areia são o divisor natural entre a praia e a estrada. Uma belezura tudo isso. E o sol volta a aparecer com força total. A falta de acostamento segue somente até Jose Ignácio onde tem início as bem vindas banquinas, aleluia! Passamos pela movimentada Manantiales e após a fervida Barra, percorremos a Brava povoada por luxuosos prédios brancos, onde a certa altura o Atlântico se despede cedendo espaço às águas marrons e calmas do rio de La Plata. Novos momentos tensos quando deixamos a Ruta 10 e começamos a pedalar na Ruta Interbalneária. O tráfego pesado e o sol abrasador já estão me irritando um pouco. Desavisada que sou botei apenas protetor no rosto e esqueci de braços e pernas. O resultado foi tomar aquele torrão....merrda! Quando chegamos em Punta Ballena, começo a procurar o tal km 120, em frente ao mirador das baleias, onde se localiza nosso hotel. E nada de achar a tal bosta de hotel! Procura daqui, fuça dali, atravessa a perigosa IB umas 3 vezes, incursão num posto de polícia cuja antipática tira, com ar de sabidona, nos passa uma info falsa, sem deixar de mencionar o mala dum argentino, irritantemente solícito, tentando nos ajudar. Cansada e mal humorada, covardemente, desconto a irritação na pobre Fatima que, justiça seja feita, se mostra bem pacienciosa comigo. Já tô quase dando piti na beira da estrada quando escuto a voz fininha de Jo chamando “gurias, é aqui”. Finalmente, após rodarmos 110 km, chegamos no Hostal Punta Ballena Ocean View. Apesar do nome pomposo e da esplêndida visão que se tem de Punta del Este a Punta Negra, o hotel é meio, como posso dizer, bagunçado. Mais parece uma casa, daquelas desleixadas, que uma pousada. Seus donos, o apolíneo uruguaio Arcangel e a sensual holandesa Juliet revelam-se, contudo, anfitriões encantadores. Nos deixam absolutamente à vontade, como se estivéssemos na casa de amigos. Como o hotel não tem serviço de restaurante, Juliet pede delivery pra nós, compartilhando uma garrafa de vinho tinto comigo. Essa sabe das coisas boas da vida, toost!!

Um comentário:

Claudia disse...

Oi Cuca! Adorei seu blog, as fotos, os relatos e os vídeos... Nossa viagem terminou bem e foi muito boa! Coloquei um link para o seu blog no meu (Superziper), quando escrevi sobre como fazer o meu alforje.