sábado, 27 de dezembro de 2014

Pedal por Conta

Durante o pedal no litoral do Paraná, a amiga Fátima pediu que eu pensasse numa viagem de final de ano. Como sei que ela não é lá muito afeita às caminhadas, decidi que seria pedal nossa trip. E sem carro de apoio, por conta, como fora em junho, no assim chamado Pedal Tô Fora da Copa! Inicialmente, o plano era de pedalar na Mantiqueira, no badalado Caminho da Fé. Contudo tal idéia depois dum certo tempo foi posta de lado porque nos demos conta (graças a deus) de que o trajeto, a ser feito no forte do verão, quase sem pontos d'água pra se refrescar, com muitas subidas fortes, seria uma verdadeira via crucis, e nenhuma de nós têm vocação pra mártir. Lembrei então de meu amado Uruguay. De seu litoral cheio de boas praias e dos trajetos sem grandes esforços físicos proporcionados pelo relevo predominantemente plano. Sabedoras de nossas intenções, Maria Angélica e Josmara se convidaram, sendo de imediato agregadas à pequena comitiva. Na manhã do dia 25 de dezembro, partimos de Porto Alegre, eu, Fatima (Little Monster viera de Curitiba celebrar o natal na minha casa), mais o pimpolhão Raulim que, a convite de seu amigo de infância, Felipe, vulgo Dente, passará a virada do ano em Hermenegildo, balneário do Chui. Ange e Jô se juntarão a nós, dia 26, nessa cidade, ponto de partida do pedal, já que a função empezará dia 27, findando em Montevideo após sete dias de estrada. Escolho para chegar ao Chui, em vez da BR 116, com seus enlouquecidos psicopatas do volante, a tranqüila BR 101, antiga estrada do inferno, rebatizada atualmente de Rota MERCOSUL. Salvo um pequeno trecho que antecede Mostardas, a ex-temível rodovia apresenta boas condições de trafegabilidade. Um pouco antes de chegarmos em Mostardas, peço que Raul pare o carro de modo a que Fátima e eu possamos pedalar até a cidade. Eu que nunca pedalara com alforges tô com o fiofó apertado. Medo de me desequilibrar e me estatelar no asfalto. Logo percebo que não é pra tanto. A não ser certo cuidado ao subir e descer da bici, os alforges não atrapalham em nada minha marcha. Com vento a favor, cobrimos os 20 km até Mostardas em 1 hora. Entramos na cidade para visitar Fabiana e filhos, lastimando não poder curtir mais tempo a agradável companhia de amigos tão carinhosos. Porém temos urgência em chegar a São José do Norte porque, amanhã, sexta-feira, queremos pegar a primeira balsa que faz a travessia do canal até Rio Grande. Acordamos cedo e conseguimos embarcar na balsa das 9 horas cuja travessia não dura mais que 30 minutos. Atravessamos Rio Grande, minha terra natal, direto e reto até o Chuy onde Raul nos larga em frente ao hotel Internacional, situado na banda uruguaia. À tardinha, chegam as gurias e o animado trelelê sobre a viagem é inesgotável, com Ange perguntando se não está levando muita coisa. Marinheira de primeira viagem nesse tipo de aventura, é claro que a muchacha carrega tralha desnecessária, o que faz com que seja zoada pela debochada da Fátima. Bem humorada, a guria leva na boa, sempre sorridente. Sábado amanhece com sol, sem vento, o que me tranqüiliza, já que receio bastante o vento sul que sopra forte pra caramba aqui no Uruguay. Montamos nas bicis mais felizes que pintos no lixo e nos tocamos pra Punta Del Diablo, balneário localizado no departamento de Rocha, onde pernoitaremos. Uma breve passada pela aduana uruguaia onde um falante funcionário avisa que já bens uns 20 ciclistas passaram por ali rumo às praias. Após 33 km, avistamos Santa Teresa, encarapitada numa colina. Subimos pela estradinha que conduz ao interior da linda fortaleza, construída no século XVIII,  inicialmente, pelos portugueses e finalizada pelos espanhóis. Terminada a visita, percorremos o parque perfazendo 10 km ao longo de suas avenidas bem arborizadas. Contando com boa infra-estrutura de camping, cabanas, armazéns e até restaurante, esta área de lazer ainda oferece diversas trilhas além de 4 praias que fazem a delícia dos turistas, a maioria composta de jovens. Da fortaleza a Punta Del Diablo é um abraço, apenasmente 10 km. Nem um pouco difícil achar nossa pousada, maliciosamente apelidada Les Diablettes. Sua dona, a simpática Rossana, vendo como estamos esbaforidas do esforço físico, abre a geladeira onde há uma garrafa de água geladinha a nossa espera! Nossa habitação é um chalé de alvenaria pintado de branco, ao estilo mediterrâneo, com 2 camas de solteiro no piso inferior e uma de casal no superior. Um terraço com cadeiras preguiçosas oferece uma bela visão da praia. Devidamente recompostas após o banho, rumamos ao centrinho procurando restaurantes onde almoçar já que forráramos os estômagos apenas com empanadas compradas em Santa Teresa. Como a maioria dos restaurantes ainda estão cerrados (nossos relógios acusam apenas 19 e 30) já que a função noturna somente inicia a partir das 20:30, encontramos certa dificuldade em achar lugar pra comer. Acabamos sentando num tal Lo de Olga por insistência duma brasileira, já meio no tragoleu, que tece loas a respeito dum prato de frutos do mar. Segundo ela, embora não conste no cardápio, é dos deuses. Toda a comida se revela uma grande porcaria. Moluscos, camarões e pescados semi crus (e não se tratava de sushi, tá ligado?), mais um purê de batata mais farinha que outra coisa. Sorte da brasileira que se mandou antes que houvéssemos provada a comida. Caso contrário teria o azar de ouvir um discurso (meu, por supuesto) duro, enfático, bem mala sobre culinária. Ela nem sabe do que se salvou! Contudo, nem tudo está perdido em matéria de gastronomia neste balneário tão badalado. Entramos numa heladeria e mandamos ver pois o sorvete uruguaio é muiiito bom!! Contrariando meu arraigado hábito de contenção alimentar, peço um cucurucho com duas bolas de sorvete de modo a preencher meu estômago após a parca ingestão da repelente refeição. Mas nada consegue empanar a inebriante sensação de alegria e liberdade usufruídas no nosso primeiro dia de pedal. Tá bom demais isso tudo!

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