terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Vale da Tromba

Saímos da Lapa das Taquaras às 8 e 45 com leve cerração cobrindo os morros adjacentes. Uma pernada tranqüila, com suaves subidas e descidas, contornando o flanco direito da serra da Mesa. Um pouco mais abaixo, o rio das Taquaras cujas águas de lindíssima coloração amarelada faz com que eu lamente não ter uma máquina fotográfica mais sofisticada. Obteria cada foto! Começamos então a galgar a encosta sul da serra do Corvoão. Ed avisa que a subida é interminável. Qual o quê! Dura tão somente 25 minutos. Dou um desconto pro seu exagero, pois o bom baiano carrega nos costados mochila cujo peso alcança bem uns 20 kg! Já eu, levando uma pequena mochila, subo que nem uma gazela até o topo da serra, hehe. Sempre que obtém sinal em seu celular, Ed se comunica com a mulher, Adriana, que ficou tomando conta da agência de turismo em Rio de Contas. É o que dá ser homem de negócio, hehe!! Putz grila....tou pegando o tique de Ed que finaliza suas falas com he he....hehe!! Já nos altos do Corvoão, esparramados na paisagem do vale do Guarda Mó, eis a serra da Tromba, onde jaz a nascente do rio de Contas, a vila de Catolés de Baixo e o Pico do Cuscuz. Uns risquinhos brancos, em meio ao verde da paisagem, sinalizam as estradas de chão batido existentes na região. A névoa cedeu lugar a uma ensolarada manhã, embalada por uma leve aragem. Enquanto a subida foi só alegria, a descida do Corvoão só dá trabalho. Cascuda pra caramba, principalmente, na parte final, quando já se está quase chegando no vale do Guarda Mó. Não à-toa, levamos 45 minutos descendo o - bota íngreme nisso - declive. Uma parada prum lanchinho é o que basta pra restaurar as energias gastas. Mas o tempo urge e toca a descer a perrenguenta ladeira crivada de pedras e sulcos profundos. Enfim, uma senhora piramba como há muito não via! Minha ociosa cabeça se põe a imaginar como será o ascenso deste trecho, hehe. A descida termina numa vara-mato até finalmente desembocarmos na estrada que leva a Catolés de Cima. Ed explica que catolé vem a ser um tipo de palmeira bem comum na região, daí o motivo por que as duas vilas receberam tal denominação. Quando passamos por uma casinha de adobe, um senhor à janela nos cumprimenta. É seu Zé do Beraldo, garimpeiro que nos convida insistentemente a entrar em sua casa. Quando pergunto seu nome todo, ele, escarrapachado sobre o couro de zebu que estendeu no chão de terra batida de seu rancho, declara: “José Antonio de Souza (pausa), como no documento”. Generosamente hospitaleiro, oferece de tudo que há em sua despensa. Aceito e não me arrependo porque o almoço, um arrozinho misturado com batata doce, mais feijão e carne assada, é tudo de bom de delicioso. Até sobremesa tem! Uma rapadura supimpa. Pra arrematar a comilança, um café coadinho na hora, moído por sua esposa, Dª Bebé. Seu Zé frisa com orgulho que a bebida é produto do cafezal plantado nas traseiras da humilde casinhola de 2 peças. A plantação "é só pra beber", explica ele quando indagado se a comercializa. Ed tira uma soneca enquanto eu e o simpático catolense conversamos bem animados, ou melhor, ele contando seus causos e eu escutando. Adora rememorar seu tempo no garimpo. Salta aos olhos como está genuinamente contente por ter uma platéia pra escutá-lo. Desapressado, proseia com gosto, pausando as frases, como todo bom contador de estórias que se preza. As 3 horas que ficamos em sua casa passaram voando! Já sentindo saudades, despeço-me do bom homem. Afetuoso, Seu Zé faz questão de nos acompanhar um pedaço, deitando uma falação gostosa, até que cada um segue seu rumo. Ele retornando a sua casa, e nós visitando uma tal de cachoeira do Guarda Mó. A queda d’água, super sem graça, faz com que nem esquentemos assento nas pedras. Tratamos de sair dali rapidinho, continuando nossa caminhada. Arrodeando o Morro do Cuscuz, chegamos a Catolés de Cima, vilarejo com uma comprida rua principal, situado aos pés dos morros do Elefante e do Barbado. O primeiro, graças à rala vegetação que cobre suas encostas, deixa exposta a bela coloração avermelhada da rocha. Já o segundo, assim é chamado por causa dos bugios que habitam suas matas. Chegamos finalmente à casa de seu Melquíades. Construída em frente ao imponente pico das Brenhas, situa-se pertinho da trilha que dá acesso ao pico do Barbado. Seu Merquido como é conhecido, é tio de Adriana, mulher de Ed. Ele e Dª Maria, sua esposa, não permitem que acampemos no terreiro de sua casa caiada de branco, cujas janelas, sem vidro, são protegidas por duas folhas de madeira pintadas de verniz escuro. A afável anfitriã põe a minha disposição um quarto, de modo que troco o saco de dormir pelo conforto duma cama forrada com cheirosos lençóis estampados. Enquanto alongo na sala de visitas, a tevê repete interminavelmente um CD com fotos de jovens amigas dum dos filhos que mora em São Paulo. De férias, o rapaz não sabe bem o que fazer de seu tempo livre, já que o lugarejo é desprovido de grandes atrativos. Depois do sopão de pacote que Ed fez pra nós ontem à noite, um ranguinho de verdade, cozido em fogão a lenha, é muito bem-vindo! O céu estrelado, onde brilha o tímido crescente duma lua que ficará cheia daqui a um par de dias, prenuncia bom tempo amanhã. E já deitada em minha caminha, escuto zumbido algum de mosquito....ebaaa!!

Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

É impressionante a beleza das flores que aparecem em cada viagem que você faz! Que variedade!