domingo, 25 de dezembro de 2011

Travessia no Mocotó

Coalhado de gordas e esparsas nuvens brancas, assim se mostra o céu na Chapada Diamantina quase todos os dias nesta época do ano. Vez por outra nubla geral, o que é uma benção porque o calor não é de brincadeira durante o verão. O tempo hoje não se mostra diferente e lá vou euzinha conhecer um tal de rio Mocotó, situado adiante da comunidade de Mato Grosso. Pra tanto circulamos pela terceira vez ao longo da já manjada estradinha poeirenta que leva à pacata vila. Encontro seus moradores assando galinhas à beira da calçada já que passa em muito das 10 da matina. Um cheiro bom de comida paira no ar. Mais 7 km sacolejando na boa e velha Rural quando então iniciamos a pernada. Vão conosco, de carona, uma família de paulistas. O casal e dois filhos, uma guria de 9 anos e um guri duns 16. Uma caminhada tranqüila, coisa de 40 minutos, em terreno, praticamente, plano nos leva até o leito do rio Mocotó. Revestido por belas lajes avermelhadas apresenta duas belas quedas d’água. Enquanto a primeira consiste numa espalhada corredeira, a segunda é uma cascata onde a água despenca 7 m abaixo formando um bonito poço redondo cujas águas, apesar da coloração escura, são límpidas de dar gosto. Encho o cantil e tomo um bom gole. A caminhada me deixou sedenta. Embora convidada, a família recusa o convite pra conhecer a cachu da Lavra Velha, situada a 1 hora de caminhada. Até então fácil, a pernada começa a complicar, exigindo escalaminhadas e desescalaminhadas em vários matacões que obstruem as margens e o leito do rio. Adoro tudo isso. Segue-se então aquele pula pedras pra evitar molhar o pé, o que me faz lembrar a amarelinha, jogo que entreteve tanto minha infância. Diversas pequenas corredeiras e muito poço legal pra tomar banho. Torço pra que o sol inclemente seja toldado por alguma nuvem que navega sem rumo no céu. Entretanto, meu apelo não é atendido. A travessia prossegue leito abaixo e chego à conclusão que estou fazendo um canionismo sem rapéis, visto que as cachus não exigem corda pra serem descidas devido às suas modestas alturas. Quando faltam uns 30 minutos pra atingirmos a Lavra Velha falo pro Ed que quero voltar. Com uma dor já há alguns dias incomodando meu quadril direito, quero me poupar. Afinal, ainda tenho pela frente mais 8 dias de caminhada! Não será menos uma cachoeira em meu currículo que tornará ele menos rico, hehe. Alcançada a segunda cachu, estamos nós tomando aquele banhão, quando escutamos gritos. É a tal família que se perdera ao tentar voltar pro carro deles. Encontram-se no mesmo lugar onde o deixáramos os patetas. Ansiosíssimos, temiam que nós voltássemos por outro caminho, fantasiando toda sorte de desventuras, como dormir ao relento e serem atacados por índios...pode? Quem mencionou tal asneira foi a tal guriazinha que se revelou uma boa duma pentelha, dona duma voz irritantíssima. Um povo muito estressado e sem noção alguma de vida ao ar livre. Pra culminar, não se coçaram pra dar sequer uma gorjeta pro bom do Ed e, tampouco – pasmem! -, sequer um singelo agradecimento ao meu guia que os conduziu de graça! Na passada por Mato Grosso, paramos no restaurante cujos proprietários vêm a ser o genro e a filha de Dª Gerolinda. Além das coxinhas, provo, ainda, uma farofa com carne seca. Delícia de quitutes, ainda mais quando vêm acompanhados com suco de açaí! Com as pancinhas ocupadas em digerir tamanho rega-bofe, retornamos felizes da vida, eu e Ed pra Rio de Contas. Depois do meu tradicional alongamento, duma relaxante ducha mais um dedo de prosa com Josenilda, vou, é claro, bater ponto na cafeteria de Moi. Encomendado, de véspera, lá me aguarda a kenga, um prato típico da região. Assim, quando chego pra jantar, encontro, posta na calçada, a mesa, lindamente coberta com uma toalha branca rendada. E numa cumbuquinha jazem delicados pedaços de galinha caipira acompanhados com creme de milho verde! Devoro tudinho, estalando os beiços alegremente. Ai de mim, se minha avozinha ainda fosse viva. Admoestar-me-ia severamente pela falta de modos, hehe. Mas não tem como manter a pose diante dessa comidinha tão cheia de sustança. Fecho minha conta (sim, até caderninho abri com Moi!) e despeço-me dela já que hoje é meu último dia na cidade. Esperta sem ser malandra, a querida soube me cativar de tal modo que acabei jantando todas as noites em seu pequeno estabelecimento! Tudo de bom esta cidade!
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Um comentário:

Adalberto disse...

Boa noite!!!

Lugar lindo e abençoado.
Pela imagens, gostaria que fossem mais adentro no caminho do rio, pois o mais lindo ainda está à frente, nessa travessia.