quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A Dourada Mantiqueira

Há horas tinha vontade de fazer a Serra Fina, uma travessia clássica da Mantiqueira. Babava de inveja lendo no AltaMontanha as aventuras de um e outro guri mas cadê tempo? Quem é galo cinza faz em dois dias, eu, uma modesta carijó de meia-idade, necessito um mínimo de 3 dias. Subitamente sem nenhum planejamento surge a tão sonhada oportunidade de, junto com Lili Docinho, assaltarmos a tão decantada serrania mineira. Assim na quarta-feira, pego um avião, graças ao milharedo acumulado, e voo as tranças até Sampa. Em lá chegando, em vez de ir pra casa de Lili, onde pernoitarei, me mando pra Higienópolis, aceitando convite pra jantar feito por Summi, outra companheira de pernada no Roraima. Lilóca e Barbara também se fazem presentes na requintada janta, preparada enquanto conversávamos e bebericávamos um refrescante chardonay. A entrada, servida em pequenas cumbucas de porcelana branca, contém delicioso creme de abóbora salpicado com sementes tostadas e levemente salgadas deste vegetal. A atenciosa anfitriã oferece, após, delicadas trouxinhas assadas feitas de farinha de trigo e recheadas com galinha desfiada. Sucedem-se aos dumplings um prato de hortaliças. Caprichosamente empilhadas umas sobre as outras, as folhas verdes e vermelhas exibem em seu entorno fatias de pêra e nozes pecãs agradavelmente torradas. Supondo que a janta terminara, gulosa que sou, tecia eu vagas considerações sobre a sobremesa (sei lá por quê, a menopausa me transformou numa baita formigona), quando sou surpreendida com o prato principal. Repousando, branquíssima, jaz, no centro do recipiente, uma posta grelhada de filé de linguado, ladeada por um punhado de lentilhas. E Summi, sem dó nem piedade, ostentando, contudo, suave sorriso, peculiar aos orientais, desfere o golpe de misericórdia quando serve a sobremesa. Usa, para tanto, o mesmo ingrediente que utilizou no primeiro prato. Provo, assim, pela primeira vez em minha vida, um aerado e inesquecível suflê de abóbora regado com calda de gergelim. Sem fazer muita questão de me controlar, deixo escapar, vez por outra, gemidinhos de prazer a cada garfada, certa de que minha anfitriã não me entenderá mal. Há momentos em que as palavras não significam nada, nothing, niente, rien, amugudoanihá

Dia seguinte, bem cedinho, deixamos a capital paulista às 6 da matina porque o veículo de Lili está proibido de trafegar, nas quintas, das 7 às 17. E enfrentamos, já a essa hora da manhã, um trânsito pesadinho na Dutra, enquanto atravessamos Guarulhos. Nosso destino, Passa4, um município mineiro, limítrofe dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, dista 260 km de Sampa. A cidadezinha abriga - coisa boa! – 15 mil almas. Em razão da forte vocação religiosa do povo mineiro, sinto vibrando no ar uma certa carolice. Tal suposição comprova-se acertada porque, ao passar ao lado duma cafeteria, na rua principal, escuto, com esses ainda bem atilados ouvidos, um animado bate-papo entre dois senhores, acomodados em uma das mesas postas na calçada. Não versava a conversa sobre futebol, política, tampouco mulher. Discutiam, isso sim, sobre a probabilidade dum conhecido deles ser nomeado secretário de bispo, uai. A cidade com suas ruas planas e empinadas ladeiras emana uma energia tranqüila, mineiramente sossegada. Ipês e paineiras enfeitam de amarelo e rosa as esquinas e praças da cidade. Encontramos Rodolfo, nosso guia e um dos proprietários da Operadora Harpia, com sede no casarão, como é carinhosamente chamado o Hostal Harpia. Naturalmente simpático e cordial, o aquariano nos deixa bem à vontade. Tanto que logo me sinto super em casa na centenária construção que remonta ao século retrasado! Por indicação sua, almoçamos no restaurante de Dª Filhinha, situado na rua principal, a Ângelo D’Alessandro. Comida caseira, os PF’s podem ser servidos tanto em prato raso quanto em prato fundo (!) ao preço de 8 e 9 reais respectivamente. No início da tarde, uma Kombi carregada de mochilas cargueiras nos deixa na garganta do Embaú, mais precisamente, num ponto conhecido como Toca do Lobo onde tem início a travessia ao longo da Serra Fina. Esta parte das serranias da Mantiqueira deve seu nome às estreitas cristas que partem dos diversos picos existentes na região. O término da pernada será na garganta do Registro, já em Itamonte, município também mineiro, distante uns 30 e poucos km de Passa4. Iniciamos a caminhada às 15 e 30, percorrendo, inicialmente, uma trilha limpa e plana aberta dentro dum bosquete onde abundam arbustos e árvores de pequeno porte. Provavelmente uma floresta do gênero ombrófila, alta montana (que tal eu, hein, usando esse linguajar?). Cruzamos o rio Capim Amarelo, por cujo estreito leito, coberto de pedras, escorre uma água limpinha, limpinha. Aproveitamos pra encher garrafas e cantis antes de iniciarmos uma subidinha safada de íngreme que conduz à base do morro do Quartzito onde, por decisão de Rodolfo, acamparemos. A estratégia dele é impecável. Pernoitando aqui, poupa-se o lombo da gurizada, evitando, assim, carregar garrafas cheias de água, caso continuássemos até o colo do Capim Amarelo, próximo point de acampamento. Pousando aqui, a água a ser utilizada hoje na janta e, amanhã, no desjejum, pode ser facilmente obtida. Basta apenas descer um barranquinho. Nem bem 20 metros abaixo, verte uma fonte fazendo de bica uma bela duma folha bem verdinha! Quando largamos as mochilas no chão, o sol já está praticamente “entrando terra adentro”. O horizonte, tingido de vermelho, atiça nosso fotógrafo Fabiano que se põe a clicar enlouquecidamente a banda ocidental do planeta. A leste, no fundo do vale, cintilantes luzinhas apontam na paulistana Cruzeiro. Nossa pequena expedição tem mais carregador do que cliente, hehe, já que turistas apenas eu e Lili. Willian, Marcelo e Fabiano, sem contar Rodolfo, compõem o staff. Se bem que Marcelo e Fabiano "estão" carregadores. E de primeira categoria! Marcelo, um antropólogo mineiro, dono duma prosa fluente pra caramba, é dotado dum espírito gozador que arranca amiúde risadas de todos nós. Fabiano, cinegrafista, é, nada mais nada menos, “de Bagé!!” Hahahaha!! Oigatê, tche vivente! Vivendo em Brasília desde piá, mais parece baiano que gaúcho, dada a lerdeza com que se move e fala, hehe. Caladão, seu humor nada óbvio se manifesta sem pressa...tudo pra fazer jus ao seu espírito abaianado. Willian é o único do grupo que ainda permanece na casa dos 20. Por envergar tão nobre nome, o mesmo do herdeiro da coroa britânica, foi por mim apelidado de Príncipe ou Sir. Convém esclarecer, contudo, a sutil diferença entre as duas grafias. Graças à ousadia lingüística de seus genitores, que faria muito filólogo inglês babar de inveja, o nome do nosso guri finda, prestem atenção, com ‘n’. Por fim, Rodolfo, conhecido como Zangão Dourado da Mantiqueira, deve seu apelido, a um, ao seu gênio forte, um tanto quanto bravio que, vez por  por outra, segundo Fabiano, escapole. E não sem justa causa, oxente! E, a dois, à gula das zanguetes, moçoilas passaquatrenses que avoam até o Casarão em busca do mel com que o generoso rapaz as alimenta. No sul do país, conhecemos tal entrevero por "chamar na chincha" mas aqui em Minas a coisa é mais requintada, portanto, há que se respeitar e falar um bonito palavrório! Já o Dourado é por conta das arruivadas melenas, das sobrancelhas e dos cílios claríssimos. Estabelece-se, naturalmente, uma relação das mais descontraídas entre nós. Todos estão na mesma sintonia: curtir a natureza e viver a vida com alegria. Pra culminar a vibe perfeita que vem rolando desde que saímos de Passa4, uma janta tudo de bom nos é oferecida: penne mais lombo de porco Naia com molho de laranja e castanha do Pará. Tudo isso regado com um honesto Malbec argentino. E a noite não poderia estar mais charmosa! Uma lua brilha quase cheia num céu imaculadamente azul. Oxente, coisa boa esse trem que é a vida, sô!
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2 comentários:

Carol Emboava disse...

Bea, já disse usso, mas repito, hehe, adoooro te ler!!! Aguardando a continuação da pernada!!! :)

Miriam Chaudon disse...

Que delíiiiicia de viagem Bea! Deliciosa em todos os sentidos pois me encheu de água na boca as iguarias que você andou saboreando nessa aventura mineira!