domingo, 19 de abril de 2009

A assombrada cachoeira do Kalu

O domingo promete, o amanhecer violáceo, nos campos de cima da serra, está esplendoroso às 6 da manhã. Caminhamos até a borda do cânion e descemos a pirambeira do vértice sul do Malaca que conduz até o poço das Abelhas Zangadas. Hoje vou rapelar as cachoeiras que ainda me faltam desse cânion, cujo outro vértice, o norte, forma apenas uma cachoeira, cuja altura, calculo, seja em torno de 60 m. Ambos os vértices unem-se à altura da sexta cachoeira. Na parede norte, enormes reentrâncias na rocha formam grutas suspensas a uma altura de 700 metros. Lembram os grandes nichos que há nas igrejas para abrigar os santos. Rapelo pela segunda vez a cachoeira dos Degraus, a do Poço Negro e a que lhe segue, justo na saída deste poço. O céu, até então límpido, começa a nublar. Minha roupa de 3 mm não me protege o suficiente das gélidas águas. Começo a encarangar enquanto espero que Kaloca termine os procedimentos de puxar as cordas, ancoradas numa chapeleta, no topo desta cachoeira, a décima segunda do cânion. Neste ponto, o Malaca é muito frio, devido ao estreitamento de suas paredes, que não permitem a passagem duma réstea de sol. Seguem-se mais duas pequenas cachoeiras. Eu as rapelo; Kaloca, entretanto, pula de ambas, mergulhando em seus poços. É o homem-peixe em ação! Ciente de que há a famosa cachoeira do Kalu, conhecida como do Salão, antes do acidente fatal que vitimou um jovem, peço que ele não me diga quando lá chegarmos. Do que se ignora, não se sente medo. Quando chego à próxima cachoeira, meu instinto assopra que ela é a crux da via por causa da tragédia aqui ocorrida. E repasso, então a vocês como tudo aconteceu. Chovera muito forte, ininterruptamente, durante três dias. Depois dum chuvaral desse naipe, as cachoeiras apresentam, invariavelmente, um fluxo muito agressivo, cheio de pressão em suas águas. O tal rapaz, que praticava mais escalada que canionismo, decidiu mesmo assim descê-la, utilizando uma corda dinâmica, comumente empregada apenas em escalada, seu grande erro. Ora, o volume poderoso da água aliado ao uso da corda dinâmica, jogou o cara contra as rochas várias vezes. Ele não resistiu, por óbvio, aos ferimentos - fratura no crânio - e deu com a cola na cerca, como se referia meu pai quando alguém morria. Os seus outros dois acompanhantes presenciaram, do topo da cachoeira de 45 m, a trágica cena sem, contudo, poder acudi-lo. Prudentemente, trataram de dar meia volta e, buscando um carreiro lateral, saíram em busca de socorro. Desde então, a cachoeira passou a ser chamada do Kalu, em homenagem ao infeliz rapaz. Se Kalu houvesse agido com prudência e observado certas técnicas de cascade, poderia, ainda, estar vivo, experimentando aventuras mis. Uma pena, realmente. Invocando santos e orixás, procuro manter a calma enquanto a rapelo, embora sinta um aperto no fiofó. Na verdade, ela não é difícil. Como adverte Kaloca, só quando chove muito. Daí não dá pra meter, nem mesmo usando corda estática. Chego, enfim, sã e salva em seu poço, com um sentimento de alívio e de missão cumprida. Desde que comecei a praticar canionismo, questiono-me muito a respeito da prática deste esporte. Será só pra afrontar meu medo de altura, ou pra ultrapassar certos limites convencionais, de modo a me sentir especial? Talvez sejam as duas coisas juntas. De certo, é que, atualmente, prefiro mais a ação às atividades intelectuais. Fazem com que eu me sinta mais viva! Mais uma breve caminhada e eis a a cachoeira dos 5 Fios, com 38 m, a última do dia. Como tem chovido pouco nesse verão, o quinto fio secou. Uma descida sem grandes problemas. Depois disso, é só pernada, aliás, uma dura caminhada de 4 horas até a boca do cânion. E já a cerração começa a cobrir os seus paredões. Uma ameaça de chuva, graças a deus! limita-se apenas a uns poucos pingos esporádicos. Após a cachoeira dos 5 Fios, torna-se muito interessante a morfologia da parede norte: em seu topo, curiosas formações rochosas assemelham-se a ameias e torreões de castelos medievais. Esta parede, ao contrário da parede sul (com uma só garganta), apresenta sucessivamente 4 gargantas: das Gêmeas (dois rapéis, um de 100 m, o outro de 180 m), do Braço Solitário (9 rapéis), da Cascavel (9 rapéis) e, por fim, a via K (14 rapéis), primeira conquista de meu guia, feito esse realizado em 1998. Daí a sua denominação: K de Kaloca, o intrépido desbravador!
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