sexta-feira, 8 de abril de 2005

Hostal Real San Felipe

Hoje, dia em que estaria partindo rumo a San Pedro de Atacama, via Tacna e Arica, encontro-me ainda deitada nesse quarto de hotel no centro histórico de Arequipa, em repouso quase total, a não ser imprescindíveis idas ao banheiro. No sábado passado, quando fui fazer o rafting, no Urubamba, senti umas pontadas no quadril, nada assim tão alarmante, apenas um tanto quanto desconfortáveis. Durante a longa viagem até Arequipa, a dorzinha persistiu. Imaginei que seriam gases causados pela alimentação. E, agora, eis-me aqui, nesse estranho quarto. Embora haja três paredes normais de tijolos, a quarta, que se volta para o corredor, foi construída com vidro....e transparente! Vedando-a, há cortinas que, se cerradas, protegem nossa intimidade. Em resumo, estou hospedada num quarto-aquário (não é à toa que meu ascendente é Peixes....hehehe). Na cama, desde segunda- feira, excetuando a terça, quando visitei o belíssimo monastério Santa Catalina de Siena, mantenho permanentemente a tevê ligada (pelo menos estou a aprender bastante vocabulário em espanhol). Trato de estabelecer uma certa rotina, ótima, pra afugentar o tédio. Seja por causas das dores, seja pela minha imaginação - esta boa companheira -, acreditem-me! as horas nem custam, assim, tanto a passar. Desde 4ª feira, Marlene, mulher de Dom Carlos, tem feito a comida pra mim. Como diz Ronald – de dieta. Sempre pollito com arroz mais salada de alface e tomate. De sobremesa, gelatina, a não ser ontem que foi maiz morada, típica sobremesa peruana que lembra nosso sagu. Hoje resolvo pedir delivery vindo arroz chaufa com frutos do mar (é uma espécie de risoto, variando tão-somente o tipo de carne, que pode tanto ser de gado, de porco ou galinha) mais salada de brócolis, cenoura, vagem e ervilha torta, cozidos ao dente. Tudo muito bom. Aproveitando que estou a falar em comida, abro aqui um parentêsis pra falar da culinária peruana. Provei tudo que foi possível em termos de comida típica, desde a palta rellena (abacate recheado com cenouras, salsa, ervilha e vagem), à palta jardineira (abacate recheado com legumes mais galinha desfiada). Outra comidinha legal é o ají de gallina (galinha desfiada com molho de pimentão, leite, pão e alho). Dos bichos do mar, adorei o ceviche, feito de peixe, camarão ou frutos do mar marinados durante 30 minutos em suco de limão. Come-se com uma batata doce de coloração alaranjada (há mais ou menos 1.400 espécies de batata no Peru). Rocoto relleno é um pimentão recheado com carne, cebola e ovo. Há também o chupe de camarones, uma sopa ancestral, oriunda, vejam vocês, dos tempos dos incas. Considerada um prato típico da cozinha arequipenha é feita com camarão, peixe, ají, alho, pão ralado, leite evaporado, milho, batata, tomate, aipo, acelga, arroz, ovo e cebola. Das bebidas menciono a chicha, um refresco obtido a partir da fervura do milho, acrescido de suco de limão, maçã, casca de abacaxi e canela, enquanto a chicha morada é o mesmo refresco usando-se no entanto uma espécie de milho de cor roxa. São popularíssimas por aqui, servidas em jarras, e substituem os refrigerantes durante as refeições. Das frutas, provei a tuna, oriunda da família dos cactáceos, vendida nas ruas (duas por 50 centavos de sol), cor amarela ou verde, formato oval, cheia de sementes pequenas e escuras, sabor suave, insípido. Dos doces, cito a leche assada, outra sobremesa típica arequipenha: trata-se de um flan. Feito com leite é levado a cozer no forno em pequenas tigelas. Apresenta um leve sabor cítrico. Não posso esquecer de mencionar os sorvetes, outra especialidade arequipenha. Como estava curiosa de prová-los, Ronald, que sempre sai ao meio dia e retorna às 16 horas, foi encarregado de trazer a meu pedido 3 pedaços de torta helada: uma pra mim, e as outras duas pra ele e Rufo. Fecho, então, os parentêsis e volto ao mundo real: as dores, controladas pela medicação, tornam-se, portanto, mais suportáveis. O pessoal do hotel tem sido tão, tão legal, que talvez por isso nem me revolte com minha mala suerte. Em especial, Ronald, gerente do estabelecimento, sempre tranqüilo; como muitos peruanos, expõe, quando sorri, um fino friso de ouro emoldurando os dois incisivos superiores. Alto e levemente encorpado, usa óculos que lhe dão um ar sério embora tenha apenas 23 anos. Formado em Turismo e Hotelaria, em suas horas livres, dedica-se a servir de voluntário no Corpo de Bombeiros pois este serviço público não é remunerado, vivendo de doações e verbas governamentais (por isso ele conseguiu a ambulância desta instituição pra me remover pra lá e pra cá......pensando bem, nem tanta má sorte eu tive, não é mesmo?). Os donos do hotel, Dom Carlos e Marlene, preocupadíssimos com meu bem estar, têm sido incansáveis e gentis durante minha permanência de 10 dias no hotel, e olha que eu tive momentos bastante impertinentes, exigindo bolsa de água quente diversas vezes ao dia pra colocar na perna dolorida (seguindo orientação médica). Os demais funcionários são Rufo, misto de camareiro e faxineiro, sempre de bom humor, prestativo, atende aos meus chamados quase instantaneamente, e o Alex, recepcionista do turno da noite, conversa comigo nas madrugadas, me chamando carinhosamente de mamacita. Só fico sozinha quando quero! Escrevendo agora sobre esse episódio de minha vida, sinto uma saudade pungente de todo esse calor humano, dessa bondade e generosidade, daí por que nem me lastimei, tampouco me revolteicom o fato de as minhas férias terem sido interrompidas assim tão abruptamente. Fazer o quê, né?!

2 comentários:

Zé Lérias disse...

Foram umas férias com dores agridoces, digo eu que estou bem de saúde...

Gostei de por aqui ter passado.

Também eu gosto de recorre ao passado (mais longínquo, quantas vezes) para matar saudades.

Tenha um bom Domingo!

Daqui lhe mando um pouquinho do frio de Portugal, para enrijecer os ossos ;)

Zé Lérias disse...

Beatriz:

NA EVENTUALIDADE DE NÃO VOLTAR AO MEU POST "ELIS REGINA", DE 10 DESTE MÊS, AQUI FICA EXPRESSO O MEU AGRADECIMENTO PELO TEU "COMMENT" AÍ DEIXADO, BEM ASSIM COMO O ENVIO DA CÓPIA DO MEU COMENTÁRIO, AO TEU COMENTÁRIO:


"Bea:
Não sabes quanto foi gostoso te ter recebido nesta humilde casinha.
Primeiro, porque escreveste, correctamente, em português da Europa;
Segundo, porque da nossa culinária tens uma opinião muito acertada;
Terceiro, porque me fizeste meditar àcerca dos roubos do ouro -e não só - que os meus antepassados (e talvez os teus e os da maioria dos habitantes do Brasil- com excepção dos índios)perpetraram nas terras de Vera Cruz, no tempo dos descobrimentos e colonização.

Só lamento que os portugueses, nesse tempo,não tenham querido saber aplicar melhor esse ouro - parte do qual se desviou para o Vaticano, em forma de vassalagens -como fizeram outros países do Norte da Europa, ao afastarem-se das trevas a caminho da Reforma de Lutero e Calvino, criando as condições que levaram à revolução industrial.
Já agora, confidencio-te que sou descendente de "portugueses" nascidos no Brasil (Niteroi, então zona de salinas) e ainda tenho muitos familiares residindo no Rio e em Campo Grande. E por isso tenho àvontade para falar assim, pedindo-te, no entanto, desculpa pela minha (pobre) reflexão sobre o assunto, mas creio que ambos estamos no mesmo barco.
Abraço-te