sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Canionismo no Índios Coroados

Uma segunda-feira esplêndida: desanuviada, ensolarada, quente! Telefono pra Kaloca e combinamos rapelar outra vez as cachoeiras do CTG. Gabriel e Camile despedem-se. Retornam pra Porto, o trabalho os espera. Iara e Rocha já haviam partido domingo. De novo, só eu na pousada. Kaloca e eu subimos a serra do Faxinal. Já na primeira cachoeira noto a diferença no volume de água. O chuvaral de três dias deixou suas marcas! Uma coisa é rapelar cachoeira com pouca água. O que fora tão fácil no início de dezembro, hoje não está aquela moleza. Na maior delas, a de 47 m, Kaloca põe a ancoragem numa árvore e eu desço pelo lado direito de modo a evitar a tromba d'água. As duas últimas estão, como as anteriores, igualmente volumosas. Desço-as cautelosamente. De volta à pousada, combino com Kaloca fazer, finalmente, o Índios Coroados. Há horas ouço falar sobre esses rapeis e minha curiosidade é imensa. Enquanto Maria esquenta a sopa de verduras que sobrara da véspera (a meu pedido), mastigo duas bananas. De banho tomado, bem relaxada na cama, assistindo tv, escuto Mariazinha buzinar. Quando entro no carro, percebo que usa óculos escuros, coloco, então, os meus e brinco, dizendo que estamos disfarçadas de celebridades. Ela dá risada, deliciada, com a minha bobageira. Vamos às compras, eu buscar um produto da Natura que encomendara à Neva, sua irmã. Já Maria precisa comprar algumas mercadorias na Cooperja. Encontro, na cooperativa, Eni, mulher de Toninho, fazendo lá suas compras que serão entregues à domicílio. Pensam que só cidade grande tem desses confortos? Praia Grande também os têm! Findas nossas tarefas, vamos buscar Mariana que está na residência da cidade onde no pátio traseiro da casa há um roseiral com graúdas e vermelhas rosas. De volta à pousada, novos hóspedes já lá se encontram: um casal de Itapema. Ela artista plástica, mulher viajada, sensível, dona de um conversê interessante. Ele trabalha numa multinacional. A ceia transcorre em meio a reflexões sobre a diferença entre as obra dos artistas e suas personalidades. Como dizia Proust, "quão aborrecidos são os artistas ao vivo e a cores!" Eles fizeram a trilha até o poço do Malacara e se mostram encantados com o que viram. Gosto de quem gosta de Praia Grande. Como tenho de acordar cedo amanhã, 4:30, não me prolongo muito tagarelando com Maria e vou pra cabana. Há que dormir! O despertador do celular trina, pontualmente, no horário marcado. É noite ainda. Estrelado, o céu exibe uma lua crescente. Eita planeta gostoso este onde vivo. Maria, quando chego no refeitório, já está com meu desjejum pronto. Como 2 bananas, torrada de queijo e presunto, mais um copo de leite. Kaloca, atrasado, chega às 5:45. Embarco no táxi e nos tocamos serra do Faxinal acima. Um pouco além do posto do ICMS, descemos e enveredamos pela trilha, uma curta caminhada, até a borda do cânion dos Índios Coroados. Vamos rapelar o vértice sul deste perau. Logo alcançamos a primeira cachoeira. Kaloca, já ciente de que não gosto muito de cachoeira bombada, ancora a corda de modo a dar um balão na água. Assim, eu desço, no seco, pelo paredão de basalto de 25 m, coberto de arbustos. Nem me atucano quando minha perna direita se enreda nuns galhos. Me desvencilho com um safanão das ramagens e completo o rapel num átimo. Surpreendida pelo espetacular cenário do vértice norte, já visível do ponto onde me encontro, fico boquiaberta. Coisa mais linda esse cenário!! A queda d'água despenca 30 metros até uma big e larga plataforma, jorrando, a seguir, por um paredão vertical de 80m, quando então se bifurca em duas vertentes brancas e espumosas. O rapel, Kaloca explica, é feito no meio delas. Impactante a visão daquelas torres líquidas paralelamente dispostas! A agressiva pirambeira, por onde estamos descendo, suaviza-se um pouco e cede lugar a uma rampa menos íngreme, se comparada ao paredão que lhe antecede. Algumas dezenas de metros adiante, retoma, novamente, sua vocação vertical, escoando, em turbilhões nervosos, nas águas do rio Molho Côco, noutra queda, esta com 60m. Uma bruma úmida paira no ar tal qual fumaça....fumaça líquida, bem entendido! Impactante este cânion e seu vértice norte. Não o imaginava tão bonito assim; estou adorando estar aqui! O próximo rapel também é feito no seco, pela lateral da cascata cuja altura é de apenas 10 m. Dá pra sentir que estou ainda no início do cânion devido à profundidade de suas paredes. Caminhamos ao longo da margem direita do rio e atravessamos um pequeno túnel cavado nas rochas, trimimoso, até o rapel seguinte, cuja cachoeira, de 25 m, forma uma rampa de baixa declividade. Suas águas, por isso, escorrem mansas pelas rochas. Mais adiante, paramos e mastigamos algo. Kaloca pergunta se eu quero dar novamente um balão em duas cachoeiras de modo a evitar seus dois profundos e gelados poços. Não me faço de rogada, é claro. Aceito, sem piscar a oferta porque o ar ainda se faz fresco, afinal, são apenas 9 horas (oito pelo horário de verão). O paredão, apesar de seco, está cheio de espessos e abundantes galhos. Enredo-me diversas vezes enquanto desço.....arre!!Os rapeis nas cachoeiras seguintes, de 25, 10 e 30 m, são feitos dentro d’água. A última, mais técnica, devido à concavidade de suas paredes, forma um escuro brete, quase em seu final, uma enorme rocha exige mais habilidade. Um pouco atrapalhada, com receio de pendular, bato com o cotovelo e esfolo levemente o dorso das mãos apesar das luvas. Putz, que barberagem! Quando chego ao poço, tomo um caldão e não dá outra: água dentro do ouvido....droga! Agora, sim, me dou conta de que estou a centenas de metros abaixo da borda do canion. Já ao nível do poço da cachoeira de 60m, uma das que despenca pelo vértice norte. Vértice esse que me embasbacara há duas horas atrás. Passo ao largo de seu escuro poço. Faz bastante frio ali embora seja verão. Restam, ainda, três cachoeiras. Preparo-me pra descer a maior cuja altura não passa de 40 m. Muito cheia, arrepio-me ao ver o que hei de enfrentar. Contudo, meus receios diminuem à medida que a rapelo. O maior perrengue ocorre quando alcanço seu poço, apelidado de Mesa dos Inocentes, onde uma enorme rocha represa a água, criando assim uma espécie de redemoinho. Com certa dificuldade, saio daquele sorvedouro após enérgicas braçadas. Contorno a colossal pedra, abrigando-me atrás dela do forte vento que sopra. Kaloca conta que aqui, neste poço, há um mês, Pimpa escapou da morte por milagre. O rapaz, ao descer de outra cachoeira, situada ao lado e, igualmente alta, largou a corda quando alcançou o poço, mega cheio porque chovera três dias sem parar. Tragado pela correnteza, despencou, como se estivesse num tobogã, de duas cachoeiras com, respectivamente, 6 e 12 m!! O rabudo só teve uma costela trincada, dá pra acreditar?!! Fico apavorada imaginando a cena.  Rapelo as duas restantes dentro d'água. A última, embora nada alta, exige certa técnica. Tiramos as roupas de neoprene e sentamos pra almoçar. Preguiçosos, lagarteamos ao sol enquanto conversamos. Um dia perfeito! Os rapeis terminaram, agora apenas caminhada pelo leito do rio. E que caminhada! Conforme cálculo de Kaloca, serão 4 horas......aiaiaiai. Olho o relógio: os ponteiros marcam exatas 14 horas. Este cânion é bem mais difícil de caminhar do que o Malacara. Mais agressivo, apresenta pequenas cascatas que têm de ser transpostas sem corda. As rochas, bastante altas, exigem que se as escale e desescale continuamente. Passo um perrengue numa delas. Kaloca faz questão que eu treine meu equilíbrio, por isso não consente que eu me arraste de bunda, meu modo habitual de enfrentá-las. Que sufoco! Assevera a inflexível criatura que eu me judio bem mais "andando" desse jeito, porém eu prefiro à minha moda. Ele me dá uma dura e lasca: “é pro teu bem, Biazinha.” Este guri está me fazendo passar um sufoco......aiaiaiai, putz grila!! Já quase na saída do cânion, Kaloca indica uma garganta menor que desemboca à margem esquerda do Índios. É o Molho Côco, canion de menor expressão na região. Quando estamos pra deixar o canion, prestes a pegar uma trilha lateral, escutamos uma voz nos chamando do outro lado do rio. É seu Osvaldir, morador de Vila Rosa. Usa umas botas brancas de plástico, cano alto. As pernas, lanhadas dos arbustos espinhentos que dão as mancheias na mata atlântica, exibem grossos riscos de sangue. Roçava uma plantação de banana, comenta ele durante o restante do trajeto que seguimos juntos. Conversamos os dois, enquanto Kaloca, à frente, manuseia o facão, cortando um pouco do mato que se encontra bastante cerrado. Seu Osvaldir, ao encontrar uma pequena muda de palmiteiro, arranca-a do solo e me presenteia com ela. Quando digo que moro em apartamento, não se aperta. "Use como decoração”, sugere o bom homem. Recuso, entretanto, o gentil presente. Alcançamos a moto às 18:30 e nos despedimos do simpático homem. O termo mais adequado pra definir meu estado físico, não é cansada, mas apaziguada! Bom início de ano, no frigir dos ovos, estou tendo, hein?! Sinto-me energizada e pronta a enfrentar a rotina de trabalho que me aguarda, amanhã, no retorno a Porto. Que venga 2009!

domingo, 4 de janeiro de 2009

2009 de ressaca!

O novo ano inicia chuvoso, e põe chuva nisso! Generosos milímetros dum caudal ininterrupto desabam ao longo de toda a sexta, sem dó nem piedade: madrugada, manhã, tarde e noite. Uma desolação! No sábado, idem, exceto uma breve estiagem, ao final da tarde. Aproveito e vou ao mercado Magagnin comprar cigarros e esticar as pernas. Na finalera da serra do Faxinal, escuto marteladas: é Kaloca trabalhando na sua já quase pronta cabana de madeira, futura sede de sua operadora de turismo de aventura. Construiu-a praticamente sozinho. Passo batida, deixando pra levar um dedo de prosa com ele quando retornar. A dona do supermercado, minha xará, lamenta as chuvas que castigam a região sul, em especial o norte do estado catarinense. Despeço-me e uma garoa inicia a cair enquanto me dirijo à casa de Kaloca. Compenetrado, o rapaz prega tábuas para forrar o assoalho. Está de poucas falas, porém. Diante disso, não alongo muito a visita e me mando. Deve estar contrariado com o clima que o impede de trabalhar com os turistas. A chuva, que saco! engrossou enquanto subo a serra em direção à pousada. Embora molhada que nem pinto chego na Colina da Serra bem contente com a oportunidade de ter me exercitado um pouco. Não agüentava mais aqueles dois dias de inatividade total. Não me restaram senão alternativas sedentárias: ler, ver tv, jogar um game que adoro no celular e bate-papos com os outros hóspedes. Sem falar na tagarelice à-toa com Mariazinha. E dê-lhe comida! E põe fartura nisso! Domingo amanhece chovendo e assim a maioria dos hóspedes se manda, exceto Iara, Rocha, Gabriel e Camile. No meio da manhã, a chuva pára, e decidimos caminhar até o bar Malacara. E lá vamos nós, Camile, Gabriel e eu. Pegamos a estrada geral da Vila Rosa, e vou mostrando a eles dois canions que se avistam à esquerda da estrada: o Índios Coroados e o Molha Côco. Mais adiante o imponente Malacara mostra, em seu paredão norte, várias cachoeiras, resultado das chuvas que castigaram a região durante os últimos quatro dias. Paramos no bar, e cumprimento efusivamente meu amigo Toninho e Eni, sua mulher. Como sempre, a jogatina na mesa de sinuca corre solta. Toninho, pra minha surpresa, está sóbrio, sua boa disposição mantém-se, contudo, inalterada, apenas um pouco menos exuberante. Gabriel e Camile deitam-se no gramado após comer os sandubas que haviam trazido. Eu fico jogando conversa fora com meus amigos. Descendo o rio Malacara, passam, navegando em bóias, o dono do Pedra Afiada, Jean Pierre, mais 4 guias da pousada. Feitas as despedidas de praxe, partimos. Decido retornar por um caminho diferente, e enveredamos por uma estradinha perpendicular à da Vila Rosa. Após ultrapassar uma ponte de arame tinindo de nova sobre o rio Malacara, dobro à direita, e eis-me na estrada geral de Alvorada, paralela à da Vila Rosa. Seguimos sempre reto. A estrada é muito linda, tranqüila, sem o movimento de carros e de motoqueiros exibidos, acelerando suas motos. A visão dos cânions é muito mais legal daqui. O rio Malacara continua seu trajeto em direção ao Mampituba. Vez por outra, o céu deixa entrever uma nesga de azul. Se o tempo melhorar, não partirei amanhã com meus amiguinhos pra Porto. Torço por isso! Ao chegar à cidade, me perco um pouco, nunca percorrera aquela estrada antes. As cabana azuis da Colina da Serra, apontando no cocuruto da serra do Faxinal, são meu ponto de referência, bem como as duas torres da igreja matriz. Quando estamos chegando na pracinha, em frente ao supermercado Magagnin, escuto uma buzina: são Mariazinha e Mariana vindas da pousada. Convidam-nos pra subir no carro e ir com elas até a sua casa. Gabriel e Camile preferem continuar caminhando; já eu aceito e me junto às duas. Maria traz o lixaredo acumulado durante o feriadão porque o caminhão de lixo não vai até a pousada recolhê-lo. Terminada as tarefas na cidade, regressamos. A noite desce suave e já dá pra perceber róseas nuvens dispersas aqui e acolá no céu. Uma promessa de bom tempo. Coisa boa, assim posso permanecer aqui até quarta-feira....oba!!!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Repeteco do Revéillon em Praia Grande

Troco a badalação de um revéillon em Angra pelo de Praia Grande. No meu repertório atual de prazeres, só quero sossego, como diz o Tim Maia naquela canção. Assim sendo, comunico ao meu filho e nora que não festejarei o Ano Novo com eles. Graças a deus, não me parecem muito abalados, o que me deixa sinceramente aliviada. Embora tenha sido aprovada no exame de direção (sim, sim, só agora com 56 aninhos, tomei coragem e resolvi aprender a dirigir), ainda não recebi a carteira de habilitação, motivo por que tenho de encarar o busão. Pego o das 17 horas pra Torres e quando chego à Vila São João, seu Deonir já está lá me esperando. Conversamos animadamente durante o trajeto de 40 km. Dessa vez a pousada não se encontra deserta. Há outros hóspedes, Iara e Rocha. Ela é mãe do Gabriel, casado com Camile, com quem fiz o rapel da Pedra Branca em maio. Os meus jovens amigos chegam amanhã, explica Iara, dona de belos olhos castanho-esverdeados, natural de Carazinho. Rocha, ao contrário da maioria dos médicos, não se nega a dar consultas informais. Pessoas agradáveis, sem frescuras, gosto deles de cara. À janta, Mariazinha preparara uma carne que se desfia na boca. Está divinamente boa! Depois que eles se retiram, eu vôo até a cozinha: não durmo sem trocar um dedo de prosa com Mariazinha. Se não faço isso, a loira é bem capaz de pôr vidro moído no meu café da manhã. Quarta-feira, véspera do novo ano, Kaloca me pega na pousada lá pelas 10 horas e nos tocamos na sua “possante” pela estrada que conduz à Roça da Estância. O plano é rapelar uma pequena ravina e suas cinco cascatas, arrematando o passeio com um salto no rio Mampituba. Tão bom sair voando as tranças na garupa da moto, adoro isso! Transcorridos 45 minutos, chegamos no local de onde iniciaremos a aventura. Sem caminhada de aproximação já que a ravina se situa à beira da estrada, rapelamos um barranquinho e, 10 metros adiante, já se vê a primeira cachoeira. A pequena queda d’água mede apenas 8 metros. Mais fácil impossível. A caminhada até a próxima cascata, uma rampa suave, é curtinha também. A rigor, prescindiria de corda, mas Kaloca, deveras cuidadoso com a segurança de seus clientes, inicia os procedimentos de rapel. Qualquer criança a venceria sem maiores dificuldades. Mais uma breve caminhada pelo leito do rio, quase sem água, até a terceira cascata. Esta, com 12 metros, é uma canaleta com uma grutinha em sua base. Nuvens toldam o céu vez por outra. Caminhamos um pouco mais, e eis a piéce de resistance: a quarta cachoeira com 35 metros. Contudo, é moleza descê-la. Filmo a mata ao redor da pequena e estreita ravina enquanto espero que Kaloca termine de puxar a corda que amarrara no tronco duma árvore. Esses murmúrios da floresta são deliciosos. Sinto-me tão radiante no meio dessa exuberante natureza! Por fim, alcançamos a quinta queda d’água, um paredãozinho de 10 metros, que não proporciona adrenalina alguma ao rapelá-lo. Kaloca esclarece que esta via é perfeita pra iniciantes devido ao seu grau de baixa dificuldade. Pra minha alegria, já vislumbro a Pedra Branca; ao seu lado, a montanha com formato de chapéu de bispo. Adoro esse visual! Embaixo o rio Mampituba revela um leito raso. Pulamos de uma pedra cuja altura beira 5 metros. A água está geladinha, arrepios percorrem minha pele...que gostosura! Nado até a margem. Lá, sentados em uma pedra, comemos nossos lanches: sanduíches feitos com carne assada bem desfiadinha: sobras do jantar de ontem. O tempo, infelizmente, está mudando, nuvens densas prenunciam chuva, o que de fato acontece durante o nosso retorno. Os pingos machucam meu rosto, mas eu tou nem aí, feliz demais com a pequena aventura, agarrada à cintura de Kaloca. Já na pousada, alongo, tomo banho e coloco um vestido verde com sandálias prateadas - afinal, é véspera de ano novo - e vou pro refeitório. Camile e Gabriel já se encontram lá. Vieram de Ibiraquera onde passaram o Natal. Há mais dois casais, o Álvaro e a Stela, donos do bar Insano, e a Isabel e o Marcio, ela jornalista, ele publicitário. Quase na hora da ceia, servida às 22 horas, chega uma família, igualmente gaúcha: pai, mãe e filha. Sem contar com Emerson e Elenice, curitibanos, proprietários dum sítio ao lado da pousada. Nossa janta transcorre num alegre conversê. A tradição exige que, quando badale a meia-noite, nos desloquemos até a colina pra ver os fogos que espocam pela redondeza. Espumantes são servidos, abraços, beijos e desejos de “tudo de bom em 2009” são repetidos entre nós. Se foi rapidinho o ano, e o novo mal aponta o nariz! Pra festejarmos o primeiro dia de 2009, combinamos, eu, Camile e Gabriel, fazer o rapel do Café. O encontro é na casa de Kaloca onde um grupo de cariocas também irá participar do programa. São marinheiros de primeira viagem, nunca praticaram esse esporte. O tempo nublado ameaça chuva, nós, contudo, despreocupados, nos tocamos estrada afora. Dessa feita, vamos rapelar apenas as últimas cinco cachoeiras porque é muita gente pra fazer as 12. Alcançada a primeira cachoeira, todos vestem suas roupas de neoprene e colocam as cadeirinhas enquanto Flavio, o outro guia, dá instruções aos novatos. Sou escolhida pra ser a primeira a descer devido a minha “experiência”, essa é boa......hahahaha. Um pouco nervosa pela responsabilidade, rapelo, porém, sem maiores dificuldades enquanto lá embaixo Flavio faz a segurança. Quase uma hora se passa até que a última pessoa chegue ao poço (meio sacal essa espera!). A queda d’água é muito tri, linda demais! A segunda cachoeira, um rampão, não apresenta dificuldade alguma e todos descem rapidamente por ela. Já a terceira, a malsinada Sinistra, é meu tormento. Foi aqui que pendulei e dei com os costados no lajedo há quase dois anos atrás. Tá bem cheia e desço bem devagarinho até o poço onde Flavio nos aguarda pra prender a corda no oito e, assim, iniciarmos a rapelagem da quarta queda. Lá embaixo, já se encontra Camile que desceu primeiro. Logo, Gabriel junta-se a nós. Uma chuva miúda começa a cair. Pra nossa sorte, a reentrância duma enorme rocha serve de abrigo, e lá nos protegemos enquanto aguardamos a descida do restante do grupo. E a chuva de fininha começa a engrossar. As águas do rio, até então límpidas, tornam-se turvas e volumosas rapidamente. Eu fico apreensiva com os cariocas. Dureza, encarar a Sinistra, com 37 metros, e a seguinte, com 15, nesse caudal! Um batismo e tanto o deles! A chuva, impiedosa, não dá tréguas. E, ainda, falta uma! Os dois guias decidem, então, fazer a ancoragem da última cachoeira em uma árvore, evitando rapelar por dentro d' água. Assim, nos tiram pelo lado, um paredão seco cheio de raízes e arbustos. Sãos e salvos, caminhamos uns 50 minutos até o café do Valmor onde os cariocas se deixam ficar. Irão provar os deliciosos quitutes feitos pela dona. Já nós optamos por voltar à pousada. E lá vamos os três comentando sobre o “ perigo” recém enfrentado.....eita vida boa!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Trilha dos Porcos e Cachoeiras do CTG

Choveu a noite inteira e, hoje, sábado, o dia continua nublado com muita cerração, encobrindo o interior do cânion e a paisagem ao redor. Embora tenhamos acordado cedo, só saímos lá pelas dez e meia da manhã. O plano é descer a trilha dos Porcos acompanhando a parede norte do cânion Churriado cuja parede sul vem a ser a parede norte do Malacara. A mochila está deveras pesada! Também pudera - são 8 kg - porque, além das roupas de neoprene molhadas, levo outras cositas mas. Nunca na minha vida carregara tanto peso nas paletas. O tempo continua fechado. À medida que nos aproximamos do cânion Churriado, percebe-se o espesso nevoeiro saindo de seu interior. O céu, totalmente, nublado e a temperatura, em torno de 17º C, torna gostosa a caminhada, evitando que se sue muito. Paramos algumas vezes pra descansar e comer nozes, amendoins, pistaches e amêndoas. Estas frutas oleaginosas por conterem muitas calorias são boas pra reporem as energias perdidas num trek pesado como o de hoje. Serão aproximadamente 8 horas batendo pernas. Ainda não fiz rapel no Cânion Churriado que, segundo Kaloca, não é lá dos mais legais. Diz ele que as cachoeiras são quase secas e sua extensão é menor que a do Malacara. Eu gosto de saber disso, afinal, muita água nas cachoeiras me assusta um pouco. Gosto mesmo é de descer no seco. Combino com ele um canionismo nesse cânion numa próxima aventura. A conformação do Churriado é bem diferente da do Malacara porque, de sua parede norte, saem, perpendicularmente, várias gargantas menores. O caminho ondulado no campo turfado requer certa habilidade de modo a evitar que os pés afundem no terreno mais encharcado que o habitual, pois chove na região faz dois meses. Distinguem-se nitidamente vários tipos de flores amarelas, brancas e roxas despontando entre as gramíneas, nesta época do ano. Atingimos o platô do Churriado quando o ponteiro do meu relógio atinge exatas 13:00. Decidimos então fazer outra parada, dessa feita, pra almoçar. Entretanto, preguiçosos, desistimos de acender o fogareiro e nos limitamos a comer a sobra dos fiambres. Vou até a borda do Churriado, porém mal posso enxergar algo de seu interior, a cerração continua senhora do perau. Retomamos a caminhada e, um pouco mais adiante, enveredamos pela trilha dos Porcos. Sei lá por quê, pensei que o tal carreiro seria moleza. Qual o quê! É uma descida íngreme, estreita, escorregadia. Receio que a mochila pesada me faça rolar tal qual uma bola desgovernada ribanceira abaixo. Bah, nem pensar, comento preocupada com meus botões! Redobro, assim, os cuidados na descida, entretanto a paisagem trata de dar um chega pra lá em meus temores de mulher urbana. Não há como não se envolver com a rica e variada flora que se sucede diante de meus olhos: matas de araucária, pequenos trechos de floresta atlântica onde brotam grandes quantidades de xaxim, orquídeas e bromélias, sem faltar, inclusive, vegetação rupestre, destacando-se no terreno enormes urtigões, cujos caules espinhosos aninham em seu interior estupendas cachopas vermelhas. E tudo isso existe, aqui, nos campos de cima da serra! Após sete horas e meia de caminhada, enxergamos o capô vermelho do táxi do seu Denoir. Aleluia! não agüento mais caminhar. Domingo, tiro pra descansar, minhas pernas e panturilhas estão deveras doloridas. Limito-me a uma breve caminhada até a casa de Kaloca pra devolver sua mochila, pouca coisa, 4 km entre ida e volta da pousada. O restante do dia fico só na conversa fiada com Maria, Paulo e João Paulo na cozinha. Na segunda-feira, embora bem doída, não resisto e telefono pra Kaloca. Combinamos, então, fazer uma seqüência de seis rapéis. E lá vamos nós até o armazém do Louro, estabelecimento situado na beira da estrada da Serra do Faxinal. A primeira cachoeira, com 7 metros, à esquerda de quem sobe a serra, fica na frente do bolicho. Rapelamos sem grandes emoções a cascatinha, coisa pra criança. Cruzamos a estrada e descemos o leito do rio para então rapelarmos duas outras quedas, com 25 e 30 metros, fáceis demais ambas. A quarta, a única com nome, chama-se cachoeira do CTG, assim chamada devido a um centro de tradições gaúchas, o Porteira do Faxinal, aquerenciado aos pés da colina onde a queda d'água se localiza. Apresenta de tudo um pouco: negativo, positivo, trechos na água, trechos no seco e um amplo platô quase em seu final. É tudo de bom essa cachoeira embora sua altura seja de 47 metros. Absolutamente deliciosa, sua descida é tranqüila. Adoro rapelá-la. Sucedem-lhe outras duas quedas, igualmente, gostosíssimas, medindo 25 e 15 metros. A única dificuldade é a subida até lá porque pra alcançá-las temos de subir uma encosta coberta de bananais bastante íngreme e tortuosa, tipo escalaminhada. Ainda bem que de vez em quando dá pra se agarrar nos putamerdas, raízes de árvores que servem de agarras. Desço as duas últimas cachoeiras, cantarolando, feliz da vida. Terminados os rapéis, subimos uma colina bem inclinada que nos leva direto à pousada Colina da Serra. Despeço-me de Kaloca e vou pra cabana me alongar e tomar banho. Depois do almoço, vou com Maria dar uma banda em Praia Grande. Ela quer que eu conheça sua casa na cidade. Aproveito pra visitar um casal de amigos, seu Pedro e Emília. Conversamos um pouco e depois Maria me leva pra conhecer dois de seus irmãos. Vamos também ao super onde ela compra mantimentos pra reabastecer a pousada. Terminado nosso périplo pela cidade, ardo pelo sossego de minha cabana. Chega de civilização ainda que esta nem ultrapasse 3.000 almas. Ando de um jeito tal que até essa quantidade de gente me soa demasiado. É, tou ficando meio misantropa, tenho de admitir.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Outras cachoeiras do Malacara

Graças a um feriadão prolongado que se estende da sexta à segunda-feira, retorno a Praia Grande. Saio na quinta, no ônibus das 17 horas pra Torres. Viagenzinha bem chata essa! Como o ônibus não é direto, pára em várias rodoviárias: Osório, Morro Alto, Maquiné, Terra de Areia, Três Cachoeiras e Vila São João, sem contar as paradas pra pegar e largar passageiros BR 101 afora. O taxista, seu Denoir, se aproxima de mim quando desembarco em Torres. Veio de Praia Grande para me buscar já que é mais barato descolar um motora desta cidade do que contratar um táxi no balneário gaúcho. Em quarenta minutos, estou na pousada Colina da Serra. Maria, a meu pedido, fizera um bifezinho acebolado, uma salada (alface, colhida da horta, mais tomate) e aipim derretendo na boca de tão novinho. Botamos a conversa em dia, e vou dormir cedo porque, no dia seguinte, muitas atividades me aguardam. Às oito horas, o táxi de seu Denoir, trazendo Kaloca, passa na pousada pra me pegar. Vamos acampar na borda do cânion Malacara. E lá vamos nós pela estrada do Faxinal, já em terras gaúchas, desembarcando um pouco antes da entrada do Parque Nacional do Itaimbezinho. Enveredamos pela trilha que nos levará até o Malaca. A caminhada se faz sobre um terreno ondulado, os chamados campos limpos, cobertos de turfas. Num pequeno capão, por onde atravessamos, vi as delicadas sophonitis, orquídeas típicas da região dos campos de cima da serra, pintalgando de vermelho o verde escuro da mata. Deixamos nossas mochilas escondidas num capão e iniciamos a descida até o interior do cânion. Vamos fazer quatro rapéis em cachoeiras ainda inexploradas por mim. Em quarenta minutos, alcançamos o poço da Cachoeira das Abelhas Zangadas, assim batizada por mim, devido ao ataque sofrido, ano passado, por um bando ensandecido destes insetos, atraídos que foram pelo repelente que eu besuntara em mim e em Kaloca. Em vez de afugentá-las, ao contrário, atraíra as loucas. Repelente só funciona contra mosquitos, mutucas e moscas. Com abelhas não só é uma proteção inócua, como o cheiro as deixam irritadíssimas. Talvez porque um dos componentes do remédio seja essência de laranjeira. Foi uma situação difícil porque os bichos escolheram como alvo preferencial nossos rostos. Por sorte, já estávamos perto da oitava cachoeira do Malaca onde, dentro de seu poço, nos refugiamos do ataque feroz das irritadas zumbidoras. E a colméia permanece no mesmo velho tronco de árvore. Passamos pelo local, mudos, de cantinho. Quando atingimos o leito do rio, embarafustamos por um carreiro lateral ao seu curso quando então retornamos ao rio no ponto onde se localiza a nona cachoeira. O cânion Malacara se diferencia dos outros não só por sua beleza como por um bom volume de água em seu rio. Kaloca me alerta prum degrauzinho na metade da descida. Rapelo com cuidado até lá e depois só vai. O dia está nublado, sem que as nuvens toldem o céu por completo. Caminhamos mais um pouco, agora sempre pelo leito do rio até a Cachoeira dos Degraus, assim chamada porque apresenta dois grandes desníveis. Sua descida se faz em duas cordadas: a inicial, com 15 metros, vai até o primeiro poço, onde se ancora novamente a corda em uma proteção fixa pra se descer o restante da queda d’água, esta já um pouco maior, com 25 metros. O cânion apresenta uma vazão razoável de água. Eu não gosto de cachoeira bombada porque a espuma formada pela pressão d'água ofusca a visão, dificultando perceber com clareza as reentrâncias da rocha onde se deve pisar. Mais uma pernada sobre o leito do rio até a décima primeira cachoeira, uma rampa suave que não necessita rapel, motivo pelo qual seguimos, andando, por sua lateral. Eu, claro, agarrando-me às pedras, cautelosamente (morro de medo de levar um tombão no basalto pra lá de liso), enquanto Kaloca, bem à vontade, calca sem dificuldade alguma as rochas escorregadias pra caramba. Em vez de saltar até a água já que a altura, nesse ponto, é coisa de 1,5 m, prefiro escorregar dentro do poço. O lugar é amedrontador. Não à-toa, é chamado Poço Negro. Os paredões do cânion, até então distantes, estão bem próximos um do outro, impedindo quase, totalmente, a entrada da luz. O poço deve ter uns 7 m de largura por uns 15 m de comprimento. O lugar lembra um pouco a caverna da caveira, residência do Fantasma, o primeiro herói mascarado das estórias em quadrinho, criado em 1936. O barulho da água, escorrendo pela cachoeira de 23 metros, dá um frio na barriga. A via do rapel é uma canaleta estreita e já estou sentindo bastante frio. Kaloca, zombeteiro, fala que o frio é psicológico. Esse guri, tá me tirando! O ruído da água, ensurdecedor, torna o local mais assustador ainda. Quando termino o rapel, verifico que não foi, contudo, uma descida difícil. Nado até a saída do Poço Negro e dou uma espiada na cachoeira. A água escorre pelas rochas formando duas vertentes. É muito lindo o lugar embora seja pra lá de soturno. Aguardo Kaloca e então iniciamos a descida da décima terceira cachoeira, 10 metros adiante daquele impressionante brete em forma de caverna. Desço, rapidamente, os 12 metros que me levam até o poço porque, agora, sim, tô enregelada. Iniciamos então a subida da parede norte do cânion, uma pirambeira que, antes da enchente de março de 2007, não apresentava maiores percalços. Agora já não é tão simples trilhá-la. A forte enxurrada tornou a senda mais estreita e perigosa. Num determinado trecho, Kaloca põe cordas pra ajudar na subida. É difícil. Faltam-me forças nos braços pra ganhar impulso e ascender. Enfim, incentivada pelo meu guia, chego ao topo da pedra....uuufaaa!! O resto do carreiro não apresenta maiores dificuldades. Cruzamos o rio e subimos pela pirambeira da parede sul até sairmos do interior do canyon, alcançando os campos de cima da serra. Pegamos as mochilas e vamos procurar um local pra montarmos a barraca. Uma garoa cai enquanto eu alongo, e uma espessa viração surge do interior do cânion, tornando a paisagem meio espectral. Barraca montada, já lá dentro, Kaloca acende o fogareiro pra fazer um chá. Estou com muito frio. A temperatura desce rapidamente enquanto a noite, de mansinho, se anuncia. Como não leváramos papel higiênico, Kaloca me ensina a usar barba de bode, excelente substitutivo, diga-se, a bem da verdade. O truque é pegar as mais verdes, gotejantes de umidade. Após a janta - sopa de pacotinho, acompanhada de queijo, salame, nozes, amêndoas e pistache - bebemos um pouco de vinho e conversamos até tarde quando, então, cada um se acomoda em seu saco de dormir prontos pra dormir. Dessa vez sem lua ou estrelas pra admirar devido ao mau tempo. Mesmo assim, que baita indiada!

domingo, 16 de novembro de 2008

Canionismo na Garganta do Orbal

Decido, ao invés de festejar meu niver dando uma festa em Porto, ir pra Praia Grande. Faz três meses e meio que lá não vou desde quando retornei do Paquistão. Estou louca pra fazer um canionismo. Assim sendo, pego o ônibus das cinco da tarde até Torres e em lá chegando freto um táxi que, em 40 minutos, me deixa na Pousada Colina da Serra, meu destino final. Mariazinha me abraça demoradamente. Uma jantinha bem simples me aguarda: bife, salada de couve, arroz, feijão e um aipim cozido que, de tão macio, derrete na boca. Tudo de bom! Como de hábito, tomo dois copinhos de cachaça de abacaxi, e ficamos tagarelando até quase meia-noite quando me despeço e vou pro berço. Deitada na ampla cama de casal, escuto uns ruídos no forro da cabana. Fico grilada: serão ratos? Mas desencano logo, estou cansada demais pra me assustar com os roedores, isso se são eles mesmos, fazendo tal zoeira no telhado. No dia seguinte, no café da manhã, comento com Maria. Ela esclarece que ou são passarinhos ou corujas, fregueses habituais nesta época do ano, que se aproveitam das frestas no forro pra entrar e construir seus ninhos. Durante os meus três dias de permanência, quando à noite eu me recolhia, foi uma algaravia só de aves sobre a minha cabeça. Provavelmente os pais ensinando seus filhotes a voar. O fuzuê, segundo Mariazinha, reina durante o período em que os filhotinhos levam pra aprender a alçar vôo sozinhos. Sexta-feira, conforme combinara com Kaloca, nos tocamos pra Garganta do Tupy. Na vez anterior em que lá estivéramos, um tiozinho, dono de uns bananais na região, nos informara da existência de outra cachoeira, localizada mais além da primeira que costumamos rapelar. Saímos, então, no mato à procura. Foi fácil encontrá-la: pequena, deve ter, talvez, uns 20 metros de altura. Quando estávamos nos distanciando, vislumbramos, uns 10 metros mais acima, outra queda d’água. Acertamos que na próxima vez iremos grampeá-las e assim aumentar o número de rapéis que se faz nesta garganta. De três passarão a ser cinco, significando mais emoção. Os rapéis são fáceis e rápidos porque a distância entre as três cachoeiras é curta, no máximo 50 metros entre uma e outra. Contudo, ao contrário das outras vezes em que aqui estive, hoje há uma boa quantidade de água devido às chuvas incessantes que vêm castigando a região há dois meses. Satisfeita com a pequena aventura, aproveito a aragem fresca do meio da tarde e, na garupa da mota, aspiro o cheirinho gostoso de mato. Convido meu guia, pra depois da janta, tomar champanha comigo na pousada. Afinal, venho, já, há 56 aninhos desfrutando a vida neste planeta. Trouxera pra bebemorar com os amigos um vinho branco e uma champanha na bagagem. Depois de alongar e tomar banho, vou pro refeitório, Pauleca, de volta do serviço, conversa com Maria na cozinha. Beijocas e abraços. Ocupo meu lugar habitual junto à churrasqueira. Ele traz pra eu provar um copinho de marisqueira, uma cachaça, feita em Torres, contendo, entre vários ingredientes, cravo e canela. Não dá pra recusar. Entorno três doses apenas, me guardando pro vinho branco. Durante a janta, o papo é a onipresente crise econômica provocada pelos desvarios do sistema hipotecário americano. Kaloca chega e eu abro a garrafa de champanha. Paulo recusa e vai se deitar, amanhã levanta cedo, quatro da manhã, pra trabalhar em seu posto de gasolina. Kaloca se limita apenas a uma taça porque se sente indisposto do estômago. Maria e eu, então, somos “obrigadas” a enxugar, praticamente, sozinhas a garrafa do espumante dinamarquês (bem legalzinho até). No dia seguinte, sábado, o programa é a Garganta do Orbal, lugar ainda desconhecido pra mim, situado ao lado do cânion Índios Coroados. A origem do nome varia de pessoa pra pessoa. Na versão de Toninho Schimit, Orbal vem do nome das casinhas construídas pelos mateiros em suas andança pelas matas. Já Alice conta uma estória diferente. Segundo ela, Orbal vem das cuecas Zorba usadas pelos guris quando tomavam banho nos poços das cachoeiras. Acordo com uma pontada na cabeça. Percebo, aborrecida, que a ressaca exclama “presente, Bia”. Merda, penso com meus botões. Embarco no táxi que nos levará até o ponto da estrada onde iremos embarafustar picada adentro até o início dos rapéis. O dia tá bem legal, sol, calorzinho, mas eu estou desanimada, naquele cansaço típico de pós-tragoléu. Ciente de que enfrentarei dez cachoeiras com pouca altura, a maior em torno de uns 25 metros, no início, até sinto um certo entusiasmo. Depois, o cansaço provocado pela ressaca começa a pegar forte. As cachoeiras bombam de água. Por isso, nós evitamos descer por entre aquela volumosa massa de água, orientando os rapéis mais pras bordas das cachoeiras. Pra piorar, algumas delas apresentam certas dificuldades técnicas, porém o que colabora pra eu não curtir muito a aventura é meu estado físico. Pela primeira vez, está sendo torturante fazer um de meus esportes favoritos. Desidratada e cansada devido à ressaca, torna-se um sacrifício, confesso, vencer esta garganta. Mea culpa, minha máxima culpa!! Pra piorar, a distância entre as cachoeiras não é pouca coisa, não! O percurso entre a oitava e a nona quedas, já quase no fim da garganta, parece nunca ter fim. Eu me arrasto nas pedras, a maior parte do tempo de bunda, escorregando entre as pedras molhadas usando os braços como alavança. A vontade que me dá, várias e diversas vezes, é sentar numa pedra e chorar tal qual uma criancinha, e dizer ao Kaloca "me deixa aqui, véio, amanhã eu continuo, tá bem?" Sei lá como, reúno minhas parcas forças e lá vou eu num ritmo lento demais que me deixa mais esgotada e emputecida. Amaldiçôo, intimamente, Kaloca (que não tem culpa de nada), até que me rendo, deixo o orgulho de lado e peço arrego. Ele estende sua forte mão e assim, me auxiliando, consigo andar mais rápido sobre as pedras escorregadias do leito do rio. Embora eu esteja de saco cheio, porque fatigadíssima, curto mesmo assim a beleza do lugar pontilhado por várias pequenas quedas d'água, afora aquelas maiores por onde rapelamos. A mata densa forma um túnel verde sobre o rio. Por entre a cerrada vegetação, escapam raios de sol avivando o colorido das folhagens. Espessos tapetes de musgo forram as enormes rochas basálticas. Primeira e última vez que faço um canionismo de ressaca....never more!! Tão mas tão esgotada me sinto que, após a janta, vou me deitar e, olha, que são apenas 21 horas! No domingo, resolvo tirar o dia pra visitar meu querido Toninho Schimit, dono do bar Malacara, situado às margens do rio de mesmo nome. Fico por lá um tempinho observando ele e Alice jogarem bilhar enquanto converso com Eni. Volto, sem pressa, até a pousada, aproveitando pra filmar o pequeno cemiterio que se debruça sobre a Estrada Geral da Vila Rosa. Faz tempo queria fazer isso. Adoro cemitérios. Este tem uns túmulos que o pessoal apelidou de CoHab porque lembram as tais habitações populares. Ao chegar à pousada, largo minha mochila na cabana e vou até o refeitório. O dia nublado e friozinho pede uma bebida quente. Maria prepara um chazinho de hortelã pra mim e um café pra ela. Deito numa ponta do sofá, Maria se acomoda na outra. E ficamos naquele papo mole de fim de tarde enquanto uma chuvinha de molhar bobo cai lá fora. E de janta, a minha querida, faz um picadinho de carne cortado a mão com moranga!! E um arroz branco, bem soltinho. E uma farofinha com cenoura ralada, mais feijão com um caldo bem grossinho. E de salada, alface, colhida há pouquinho da horta, com cebola e tomate. A sobremesa é compota de maçã boiando numa espessa calda cor de caramelo. Pra rebater tanta doçura, um café bem forte, sem açúcar. E bem alimentada, vou me deitar, embalada pelo som da passarinhada fazendo aquele bulício sobre a minha cabeça. Amo este lugar!!

sábado, 6 de setembro de 2008

Garganta do Tupy

Embora nublado, não chove. Conforme o combinado na véspera, Caloca vem me buscar e lá vamos nós em sua moto, uma 150 cc, rumo à garganta do Tupy, situada na comunidade de Rio do Meio, município de Mampituba, no RGS. A paisagem que se descortina é muito mais reveladora andando de moto do que do interior de um carro. Nada embaraça minha visão. Avisto durante boa parte do trajeto, a minha esquerda, os belos morros do Cocuruto, da Pedra Branca e do Barbacoá (já subi até seu topo e a paisagem lá de cima é trilegal, podendo ser avistado, quando não há nebulosidade, o litoral distante um pouco mais de 30 km); à direita, o morro do Facão e ainda a Serra do Cavalinho onde há uma trilha que desemboca no Itaimbezinho. Atravessamos, então uma ponte de arame, construída sobre o Mampituba, alcançando a margem sul do rio situada em plagas gaúchas. Eu super receosa de que a ponte não agüentasse o peso da moto bem como o nosso, me agarro com força em Caloca.....uuuiiiiii que medinho!!! Chegamos na trilha que nos levará às cachoeiras e para tanto temos de atravessar um bananal plantado numa encosta bem íngreme. O interessante neste canionismo é que iniciamos a aproximação, subindo a partir do poço da segunda cachoeira. Assim, é possível se ter, ao invés de outros rapéis, uma visão frontal da cachoeira, ou seja, do que iremos enfrentar quando formos descê-la. É uma bela queda d’água com cerca de 38 metros, cheia de degraus naturalmente escavados no basalto, rocha muito dura porque formada pela compactação de sucessivos derrames de lava vulcânica. Geologicamente é considerada a vovó de todos os três tipos existentes. Subimos uma pequena ravina o que nos obriga a fazer uma miniescalada. A mata cerrada impede a passagem dos raios de sol. Evito me apoiar nos xaxins, uma espécie de feto, mais conhecidos como samambaias. Seus caules, embora de aparência inofensiva, são cobertos de traiçoeiros espinhos. Helicônias pespontam de vermelho o verde da mata. Variedades de bromélias podem ser vistas aninhadas nos ramos das árvores e espalhadas pelo chão. A típica vegetação tão característica da mata Atlântica. Chegamos então ao topo da garganta. É um canionismo vapt vupt com apenas 3 cachoeiras, sem grandes dificuldades técnicas. Iniciamos os procedimentos usuais: vestir as roupas de borracha - longboards, as mesmas usadas por surfistas -, as cadeirinhas e os capacetes. Caloca já está amarrando as cordas nos grampos, colocados quando da conquista da via no início de janeiro. Abaixo de meus pés, a 400 metros de altura, espraia-se longínguo o vale. Respiro fundo e começo a descida. Com as chuvas, as cachoeiras estão bombando. Muita água, gente! E lá vou eu desafiando aquele paredão de rocha, meio receosa depois do meu pancadão no Rapel do Café em janeiro. Chego no poço, suspiro, desato a corda do oito e espero Caloca que desce, tal qual uma salamandra, tamanha sua agilidade. O trajeto até a segunda cachoeira é curtíssimo, pouco mais de 30 metros. Com 47 metros de altura, também, não apresenta maiores dificuldades: as paredes apresentam-se cobertas de musgo impedindo que as botas escorreguem na pedra molhada. O tempo ainda nublado descortina vez por outra o brilho tímido do sol. Antes de iniciarmos o rapel da terceira e última cachoeira, comemos nossos lanches. Meu olhar passeia pelas paredes da garganta e aprecio o “silêncio” da mata. Barulhinho bom esse!! Por fim, eis-me na borda da menor das três quedas d’águas: 28 metros de descida me esperam. Olho pra cima e vejo uma réstia de sol iluminando a copa das árvores. Escorrego mansamente pelas paredes e a forte pressão da água castiga minha perna esquerda que dói um pouco. Pra fugir dessa situação, conduzo meu corpo pra direita, desviando da queda d’água.....ufa!!! logo já estou alcançando o poço. Caminhamos de volta até ao ponto onde havíamos deixado a moto. Os mosquitos e as mutucas atormentam minhas pernas e braços descobertos (no dia seguinte, estavam febris de tanta inflamação, inclusive doloridos nas juntas.....arre, insetos infernais!!). E lá vamos nós de volta a Praia Grande, eu na carona da moto, sempre um pouco receosa, imaginando que se Caloca derrapa numa daquelas inúmeras pedras que assoalham a estrada de chão batido, com certeza, vou ganhar belas e doloridas esfoladuras. Foi pôr o pé na pousada que a chuva desabou, firme e forte, um caudal d'água dos bons! Pois pra minha surpresa, fico sabendo que enquanto estivéramos no Rio Grande do Sul, distante pouco mais de 20 km, chovera o dia inteiro em Praia Grande. Obrigada, São Pedro....santinho prestativo este!