domingo, 16 de novembro de 2008

Canionismo na Garganta do Orbal

Decido, ao invés de festejar meu niver dando uma festa em Porto, ir pra Praia Grande. Faz três meses e meio que lá não vou desde quando retornei do Paquistão. Estou louca pra fazer um canionismo. Assim sendo, pego o ônibus das cinco da tarde até Torres e em lá chegando freto um táxi que, em 40 minutos, me deixa na Pousada Colina da Serra, meu destino final. Mariazinha me abraça demoradamente. Uma jantinha bem simples me aguarda: bife, salada de couve, arroz, feijão e um aipim cozido que, de tão macio, derrete na boca. Tudo de bom! Como de hábito, tomo dois copinhos de cachaça de abacaxi, e ficamos tagarelando até quase meia-noite quando me despeço e vou pro berço. Deitada na ampla cama de casal, escuto uns ruídos no forro da cabana. Fico grilada: serão ratos? Mas desencano logo, estou cansada demais pra me assustar com os roedores, isso se são eles mesmos, fazendo tal zoeira no telhado. No dia seguinte, no café da manhã, comento com Maria. Ela esclarece que ou são passarinhos ou corujas, fregueses habituais nesta época do ano, que se aproveitam das frestas no forro pra entrar e construir seus ninhos. Durante os meus três dias de permanência, quando à noite eu me recolhia, foi uma algaravia só de aves sobre a minha cabeça. Provavelmente os pais ensinando seus filhotes a voar. O fuzuê, segundo Mariazinha, reina durante o período em que os filhotinhos levam pra aprender a alçar vôo sozinhos. Sexta-feira, conforme combinara com Kaloca, nos tocamos pra Garganta do Tupy. Na vez anterior em que lá estivéramos, um tiozinho, dono de uns bananais na região, nos informara da existência de outra cachoeira, localizada mais além da primeira que costumamos rapelar. Saímos, então, no mato à procura. Foi fácil encontrá-la: pequena, deve ter, talvez, uns 20 metros de altura. Quando estávamos nos distanciando, vislumbramos, uns 10 metros mais acima, outra queda d’água. Acertamos que na próxima vez iremos grampeá-las e assim aumentar o número de rapéis que se faz nesta garganta. De três passarão a ser cinco, significando mais emoção. Os rapéis são fáceis e rápidos porque a distância entre as três cachoeiras é curta, no máximo 50 metros entre uma e outra. Contudo, ao contrário das outras vezes em que aqui estive, hoje há uma boa quantidade de água devido às chuvas incessantes que vêm castigando a região há dois meses. Satisfeita com a pequena aventura, aproveito a aragem fresca do meio da tarde e, na garupa da mota, aspiro o cheirinho gostoso de mato. Convido meu guia, pra depois da janta, tomar champanha comigo na pousada. Afinal, venho, já, há 56 aninhos desfrutando a vida neste planeta. Trouxera pra bebemorar com os amigos um vinho branco e uma champanha na bagagem. Depois de alongar e tomar banho, vou pro refeitório, Pauleca, de volta do serviço, conversa com Maria na cozinha. Beijocas e abraços. Ocupo meu lugar habitual junto à churrasqueira. Ele traz pra eu provar um copinho de marisqueira, uma cachaça, feita em Torres, contendo, entre vários ingredientes, cravo e canela. Não dá pra recusar. Entorno três doses apenas, me guardando pro vinho branco. Durante a janta, o papo é a onipresente crise econômica provocada pelos desvarios do sistema hipotecário americano. Kaloca chega e eu abro a garrafa de champanha. Paulo recusa e vai se deitar, amanhã levanta cedo, quatro da manhã, pra trabalhar em seu posto de gasolina. Kaloca se limita apenas a uma taça porque se sente indisposto do estômago. Maria e eu, então, somos “obrigadas” a enxugar, praticamente, sozinhas a garrafa do espumante dinamarquês (bem legalzinho até). No dia seguinte, sábado, o programa é a Garganta do Orbal, lugar ainda desconhecido pra mim, situado ao lado do cânion Índios Coroados. A origem do nome varia de pessoa pra pessoa. Na versão de Toninho Schimit, Orbal vem do nome das casinhas construídas pelos mateiros em suas andança pelas matas. Já Alice conta uma estória diferente. Segundo ela, Orbal vem das cuecas Zorba usadas pelos guris quando tomavam banho nos poços das cachoeiras. Acordo com uma pontada na cabeça. Percebo, aborrecida, que a ressaca exclama “presente, Bia”. Merda, penso com meus botões. Embarco no táxi que nos levará até o ponto da estrada onde iremos embarafustar picada adentro até o início dos rapéis. O dia tá bem legal, sol, calorzinho, mas eu estou desanimada, naquele cansaço típico de pós-tragoléu. Ciente de que enfrentarei dez cachoeiras com pouca altura, a maior em torno de uns 25 metros, no início, até sinto um certo entusiasmo. Depois, o cansaço provocado pela ressaca começa a pegar forte. As cachoeiras bombam de água. Por isso, nós evitamos descer por entre aquela volumosa massa de água, orientando os rapéis mais pras bordas das cachoeiras. Pra piorar, algumas delas apresentam certas dificuldades técnicas, porém o que colabora pra eu não curtir muito a aventura é meu estado físico. Pela primeira vez, está sendo torturante fazer um de meus esportes favoritos. Desidratada e cansada devido à ressaca, torna-se um sacrifício, confesso, vencer esta garganta. Mea culpa, minha máxima culpa!! Pra piorar, a distância entre as cachoeiras não é pouca coisa, não! O percurso entre a oitava e a nona quedas, já quase no fim da garganta, parece nunca ter fim. Eu me arrasto nas pedras, a maior parte do tempo de bunda, escorregando entre as pedras molhadas usando os braços como alavança. A vontade que me dá, várias e diversas vezes, é sentar numa pedra e chorar tal qual uma criancinha, e dizer ao Kaloca "me deixa aqui, véio, amanhã eu continuo, tá bem?" Sei lá como, reúno minhas parcas forças e lá vou eu num ritmo lento demais que me deixa mais esgotada e emputecida. Amaldiçôo, intimamente, Kaloca (que não tem culpa de nada), até que me rendo, deixo o orgulho de lado e peço arrego. Ele estende sua forte mão e assim, me auxiliando, consigo andar mais rápido sobre as pedras escorregadias do leito do rio. Embora eu esteja de saco cheio, porque fatigadíssima, curto mesmo assim a beleza do lugar pontilhado por várias pequenas quedas d'água, afora aquelas maiores por onde rapelamos. A mata densa forma um túnel verde sobre o rio. Por entre a cerrada vegetação, escapam raios de sol avivando o colorido das folhagens. Espessos tapetes de musgo forram as enormes rochas basálticas. Primeira e última vez que faço um canionismo de ressaca....never more!! Tão mas tão esgotada me sinto que, após a janta, vou me deitar e, olha, que são apenas 21 horas! No domingo, resolvo tirar o dia pra visitar meu querido Toninho Schimit, dono do bar Malacara, situado às margens do rio de mesmo nome. Fico por lá um tempinho observando ele e Alice jogarem bilhar enquanto converso com Eni. Volto, sem pressa, até a pousada, aproveitando pra filmar o pequeno cemiterio que se debruça sobre a Estrada Geral da Vila Rosa. Faz tempo queria fazer isso. Adoro cemitérios. Este tem uns túmulos que o pessoal apelidou de CoHab porque lembram as tais habitações populares. Ao chegar à pousada, largo minha mochila na cabana e vou até o refeitório. O dia nublado e friozinho pede uma bebida quente. Maria prepara um chazinho de hortelã pra mim e um café pra ela. Deito numa ponta do sofá, Maria se acomoda na outra. E ficamos naquele papo mole de fim de tarde enquanto uma chuvinha de molhar bobo cai lá fora. E de janta, a minha querida, faz um picadinho de carne cortado a mão com moranga!! E um arroz branco, bem soltinho. E uma farofinha com cenoura ralada, mais feijão com um caldo bem grossinho. E de salada, alface, colhida há pouquinho da horta, com cebola e tomate. A sobremesa é compota de maçã boiando numa espessa calda cor de caramelo. Pra rebater tanta doçura, um café bem forte, sem açúcar. E bem alimentada, vou me deitar, embalada pelo som da passarinhada fazendo aquele bulício sobre a minha cabeça. Amo este lugar!!
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Um comentário:

Paulo Cesar Fabro disse...

Bia, quem é essa moça coxuda aí ????
:)