Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
O deserto do Saara, um dos cartões postais do continente africano, ocupa perto de 8 milhões e 600 mil km². Cerca dum quinto é areia, o restante inclui vastas extensões planas de rocha, cascalho e algumas montanhas como a cordilheira de Hoggar, na Argélia. As culturas de vegetais e legumes se dão em 90 grandes oásis. Porém somente uma pequena parte do Sahara está no Marrocos, a maioria na fronteira com Argélia. Assim, no dia 27, vamos eu e Raul dar um bandaço naquela região, contratando para tal uma agência de turismo perto de nosso riad. O falante dono, machista como a maioria dos homens, quando lá vou sozinha me trata meio desdenhosamente, mudando o tom quando levo Raul. Ah, esses macho...cados!! A viagem de ida - 560 km - é dividida em 2 etapas: pernoite no primeiro dia na vila Ait Sedratejbel El Soufla, seguindo viagem no segundo dia até as dunas, ponto final da trip, quase na divisa com Argélia. Atravessamos diversas cidades de médio e pequeno porte, limpas e com boas construções. Marrocos, aparentemente, não é um país pobre, não!! Bueno, nosso grupo com gente de vários países é bem legal. No 1º dia, trafegamos inicialmente pela excelente Rota Nacional 9 (aliás todas estradas pelas quais circulamos foram boas) donde se vêem as montanhas do Atlas, algumas com as encostas nevadas, outras verdinhas de vegetação. Estamos atravessando um dos 12 estados marroquinos: Draa Tafilalet. Sua principal atividade econômica baseia-se na agricultura e na pecuária que, contudo, vem sendo impactada pela crescente desertificação da região. À medida que entramos em território bérbere, as casas se confundem com a paisagem ora de coloração ocre ora parda. Os bérberes chamam a si próprios Imazighen, que significa "homens livres" ou "homens nobres". Esta interessante junção de várias etnias, exclusivamente africanas, espalha-se pelas montanhas e desertos do noroeste da África donde é originária. Sua presença na região remonta há 5 mil anos. A população atual está em torno de 15 milhões de pessoas. Diz-se que 70% dos marroquinos descende deste povo. Nosso anfitrião, por exemplo, é bérbere pelo lado materno, ao passo que árabe pela linhagem paterna. Os tuaregues, o mais conhecido dos 3 principais grupos bérberes, são pastores nômades que ainda vagueiam pelo deserto do norte de África. Na sua maioria, são muçulmanos, mas conservam suas línguas e dialetos próprios que mudam conforme a região. Nossa primeira parada é Ait Ben Haddou, considerada Patrimônio da Humanidade, tornada famosa devido a dezenas de filmagens, destacando-se a série Indiana Jones e Game of Thrones. Constituída por um grupo de pequenas fortalezas (kasbahs ou alcáceres), com dez metros de altura cada uma, o primeiro alcácer foi fundado em 757 e começou como a residência duma única família. Em alguns alcáceres, há 4 torres destinadas cada uma a servir de habitação às 4 mulheres permitidas pelo Alcorão aos homens de posses. Simmm, tinha de ter grana pra ter mais duma esposa. Ao homem pobre só era permitido uma mulher. Oito famílias ainda vivem nos alcáceres; o restante dos habitantes mora agora numa aldeia mais moderna, no outro lado do rio Ounilla cuja água é inacreditavelmente salgada já que o oceano está a centenas de kms!! Subi até o alto duma colina donde se tem uma visão do altiplano marroquino com uma fileira de montanhas do Atlas pontuando a paisagem. Aqui a paisagem se torna cada vez mais árida prenunciando a área desértica que está por vir. E a viagem continua até Ouarzazate, cidade de médio porte, limpa e com boas construções, chamada "porta do deserto", já que se situa numa zona de transição entre as montanhas do Atlas e o deserto do Saara. A região em volta é um dos locais de Marrocos mais usados como cenário por realizadores de cinema de todo o mundo. Nos anos 1960, começou a ser um lugar de rodagem de filmes históricos, entre os quais o célebre Lawrence da Arábia. A cidade é sede dos estúdios Atlas Corporation e tem um museu do cinema onde são expostas peças dos cenários e vestuário usados em alguns filmes rodados na região. Após a breve parada em Ouarzazate, seguimos até a velha Kasbah de Todgha, situada no vale do rio Dades. Aqui, somos guiados por um guia, parecido com Al Pacino, metido a engraçadinho, que nos leva a visitar uma cooperativa de tecelãs bérberes. Fabricantes artesanais de tapetes, as mulheres trabalham apenas 3 horas, demorando de 5 a 6 meses pra finalizar 1 peça. Usam pelagens de camelo baby e adulto, bem como de ovelha. O do camelo baby parece veludo de tão macio. As técnicas de tecelagem são passadas de geração a geração. Vejo ao longo da rodovia placas de cooperativas femininas agrícolas e de artesanatos. Bom saber que as mulheres aqui também sabem se organizar. Seguimos então até a espetacular parte final do canyon Todgha, resultado do trabalho de erosão do rio Dades. Aqui a garganta se estreita de tal modo que em certo trecho tem apenas 10 metros de largura. Somente na estação da seca é possível atravessá-lo porque na época das chuvas a forte correnteza do rio impede sua visitação. Enfim, chegamos na vila Hassi la Bied, uma das portas de entrada às excursões no deserto Merzouga. Aqui deixamos a van e embarcamos numa 4x4 até nosso acampamento, um dos muitos situados entre dunas cuja coloração é avermelhada. Entretanto, não chegamos a passear em Erg Chebbi, o maior conjunto de dunas de Marrocos porque a agência, manipulando nossa ignorância, nos iludiu ao dar a entender que iríamos adentrar Sahara adentro. Assim, o que vimos foram dunas um pouco maiores que as das praia do Cassino e não aquela monumentalidade a que assistimos nos filmes e fotos. Raul e eu ficamos muito aborrecidos por termos sido enganados pelo esperto marroquino, dono da agência. Enfim, não foi de todo mal, afinal não é qualquer um que pode dar um rolê no lombo de camelos à tardinha no sol poente. À noite, show de música bérbere com homens tocando seus instrumentos tradicionais e cantando canções típicas ao pé duma fogueira pois a noite está muiito fria. Dia seguinte, acordamos cedo e após o desjejum, vamos dar outro rolê nos camelos. Faz um frio terrível, em torno de 4ºC!!, minhas mãos congelam porque estou sem luvas. Depois duma ½ hora, os guias param num lugar situado a 2 km do acampamento e fazem uma fogueira pra nos esquentar. Dali embarcamos no 4x4 e voltamos até a vila Hassi la Bied onde embarcamos na nossa van retornando a Marrakech. Embora tenha sido uma trip convencional, daquelas que a bunda achata de tanto ficar sentada dentro dum carro e parando 1 hora se tanto nos lugares, Raul e eu concordamos que valeu não só pelas lindas paisagens e vilas milenares visitadas, como ainda por termos conhecido um pouquinho deste tão interessante povo bérbere!!
Como faço há 2 anos desde que Raul,
meu único filho, se mudou pra Bissau, capital de Guiné Bissau, vou no final do
ano ter com ele. Aproveitamos então pra conhecer alguns países, africanos. Assim sendo, só permaneço 2 dias em Bissau, justo
pra renovar meu visto. Dia 20 de dezembro nos tocamos pra Marrocos, um dos países (os outros são Argélia e Tunísia) pertencentes ao Pequeno Magreb, situado no noroeste da África. Na época do Império Romano, era conhecido como África menor. Em 1956, Marrocos que, até então, era
protetorado francês, tornou-se independente, constituindo-se atualmente numa
monarquia constitucional. Nosso primeiro destino em solo marroquino é Casablanca onde nos hospedamos no ape de Omar, amigo de Raul. Embora não seja capital do Marrocos, é sua mais populosa cidade com cerca de 5,5 milhões de habitantes. Situada à margem do Atlântico, tem o maior porto do norte da África, sendo o
centro financeiro e industrial do país. Moderna, com amplas avenidas, a cor branca prevalece nas
construções, daí a origem de seu nome. Ao estilo mourisco entremeia-se o legado
arquitetônico francês. A ampla variedade de restaurantes, cafés
e bistrôs oferece, além da culinária marroquina, a de outros países, dando à Casablanca certa feição cosmopolita. Quando
chegamos ao apartamento de Omar, sua mãe, a carinhosa e hospitaleira Zeina, nos
espera com um tacho de cuscus, tradicional comida árabe feita com sêmola de
trigo, ao contrário do nosso cuscus feito com milho. Dia seguinte à nossa
chegada, vamos com Omar a uma cafeteria onde provamos um tradicional desjejum
marroquino. Lá se encontram além da mãe de nosso anfitrião, Rabiaa e Ali,
respectivamente, cunhada e irmão de Omar. O nome da moça significa primavera. Provo
harira, a sopa nacional marroquina. Trata-se dum caldo de muita sustância feito
com carne, tutano, lentilha, grão de bico, aletria temperado com diversas
especiarias. Terminada a refeição, passeamos no boulevard La Corniche onde só é
permitido ver o lado externo da Mesquita Hassan II,
construída parcialmente sobre o mar, sendo a segunda maior mesquita do mundo
islâmico. Com seu teto retrátil permite que os fiéis rezem tanto à luz do dia
como sob a luz da lua e das estrelas. No
retorno pra casa, vejo alguns mendigos nas calçadas. E o véu
muçulmano, o hijab,
continua sendo muito usado no país, tanto que Zeina só o retira
quando Raul não se encontra no ape. Como é usual, em qualquer cidade muçulmana,
os minaretes das mesquitas sobressaem entre os prédios, ouvindo-se o
chamamento dos muezins 5 vezes ao dia, convocando às preces os fieis. No
terceiro dia, deixamos Casablanca num confortável ônibus rumo a Marrakech
percorrendo uma excelente autoestrada. Marrakech, a cidade vermelha, assim chamada
pela coloração de suas construções, situa-se no sopé da cordilheira do Alto Atlas.
É a quarta maior cidade do país com cerca de 1 milhão de habitantes. Chegamos à tardinha na cidade
marroquina que mais atrai turistas no Marrocos. A sua parte antiga, conhecida como Medina
ou Almedina é cercada por muralhas com 19 km de perímetro, cujo propósito nos tempos dantanho era de proteger a antiga
cidadela. Classificada como Património Mundial desde 1985, a Medina de
Marraquech abriga o maior mercado (souk) tradicional bérbere, composto por um labirinto
sinuoso de ruas estreitas, muitas delas cobertas por telhados de pedra ou
madeira, exibindo centenas de lojas. Chatos vendedores de rua quase arrastam os
turistas pra visitarem seus bazares...que pentelhagem....socorro Alá!! Aqui, são
vendidos, desde os tradicionais produtos de couro e tapetes bérberes até eletrônicos de última geração. Em algumas
tendas, a estonteante oferta de ervas aromáticas, destacando-se rosa mosqueta,
pedra de granada, canela e macela. A oferta de doces tanto nas
ruas quanto em confeitarias tira a gente do sério. Ali e acolá vendedores em cujos carrinhos espigas de milho assam
em braseiros sempre acesos. Entretanto, um perigo o movimento incessante de motos nas apertadas
ruas sem calçadas da Medina. Os motoristas tiram fininhos impiedosos dos
pedestres. Aliás, os marroquinos não são lá muito bem educados no trânsito
assim como os brasileiros. Além de laranjeiras e bergamoteiras, enfeitam as calçadas das
avenidas centrais, canteiros com pés de roseiras em diversas colorações. De qualquer
ponto da cidade se vê a Mesquita Koutubia, e nos seus arredores, vendedores de
água paramentados com seus trajes típicos oferecem o líquido. Na praça Jamaa
Lafna, coração da Medina, impera o comércio de comidas: tendas de frutas com romãs, caquis, laranjas, bergamotas, maçãs,
melões e manga bem como de frutas secas. Mais adiante, tendas de carnes, peixes e frutos do mar. Competem lado a lado quiosques
de comidas regionais. Se à noite o espetáculo das lamparinas acesas
dispostas no chão da praça é de encher os olhos, durante o dia quem faz a festa
são os macacos e as cobras oferecidos por seus amestradores para tirar foto com os turistas. Embora medrosa, pago pra tirar foto com uma cobra tipo naja. Adorei!! Igualmente, se paga se quiser filmar músicos tocando seus
instrumentos típicos enquanto homens dançam ao som das melodias no interior da roda
formada por turistas e nativos. E contadores de estórias desfiam as façanhas e lendas do povo bérbere. Pena que que eu não entenda patavina da
língua. Disponíveis pra se dar um rolê na cidade há, a duas quadras da praça, caleças
de aluguel conduzidas cada uma por 2 garbosos cavalos enfeitados com flores de
plástico coloridas na cabeça. Estamos hospedados na Medina, num riad que vem a
ser aquela construção árabe com pátios internos em seu interior. Nosso riad
é um hostal bem legal, sendo que os hóspedes, em sua maioria, são jovens oriundos de várias cidades europeias, exceto uns pouquíssimos africanos. De seu terraço, ao final da tarde, dá pra
curtir o canto dos muezins chamando pra penúltima prece enquanto o sol se põe
no ocidente tingindo de rosa a neve acumulada no topo das montanhas do Atlas. Durante
os 5 dias em que permaneci em Marrakesh conheci atrações turísticas super interessantes
como Jardin Majorelle comprado por Ives Saint Laurent e seu companheiro, Pierre
Berger. Restaurado, foi aberto ao público após a morte do casal. No jardim, além duma coleção de cactus trazidos de vários pontos do planeta,
há o interessantíssimo museu bérbere mostrando a cultura deste povo que constitui
70% da população marroquina. Numa das muitas pernadas dentro da Medina, dei de
cara com o maravilhoso Museu de Arte Culinária Marroquina onde, em
duas salas voltadas para um dos jardins, há a exibição de 2 mulheres
demonstrando como se faz cuscus e extração de azeite de oliva. Aqui desfruto um
típico almoço com 3 saladas de entrada: tomate caramelado, pasta de berinjela e
taktouka, mais briwat (tipo de pastel) de vegetais com queijo e sekare. Prato
principal, tajine de frango com confit de limão. Sobremesa, pastilla au lait. Bebida, chá. Uma
observação, o feijão com arroz dos marroquinos é tajine, que pode ser bem
simples, apenas usando legumes e verduras, até os mais sofisticados que levam
carnes e peixes. Perto dali fica a Kasbah, região movimentada, ainda dentro da Medina, pra onde me toco a fim de visitar as Tumbas Saadianas. Neste mausoléu coletivo estão sepultados cerca de 60 membros da dinastia saadiana, que reinou em
Marrocos nos séculos XVI e XVII. Roseiras brancas e arbustos de camélias vermelhas
foram plantados ao pé das sepulturas cavadas no chão, enfeitadas com ladrilhos coloridos. Um lugar
muito tranquilo se se desconsiderar a quantidade de turistas assanhados em
tirar fotos diante dos túmulos. Ainda na Kasbah, passo ao largo da mesquita Moulay
El-Yazid a caminho da Porta Bab Al Agnaou, um imponente portão do
século 12 em forma de ferradura, decorado com inscrições do Alcorão. O último
lugar a ser visitado foi o Jardim Menara, casa construída por 1 sultão para seus
encontros amorosos. Do jardim Menara tem-se uma bela visão das montanhas que abraçam
Marrakech com seus picos ainda nevados nesta época do ano. Deixamos Marrakech, após o natal, porque estamos Raul e eu super a fim de fazer um tour no famoso Sahara....simbora pro deserto!!
E lá vamos nós, eu mais Pedro Emilio, rumo ao destino final da trip: Jalapão. Hoje, segunda-feira, coincidentemente, 1º de julho, saímos cedinho da vila São João porque temos pela frente quase 600 km até Palmas. Embora curta muito a capital do Tocantins, a permanência é vapt vupt. Jalapão me aguarda. Trato então de aproveitar muito bem o dia na cidade, pedalando até Luzimangues, num solaço de 34º C. Banho-me nas águas mornas e transparentes do lago Tocantins, jantando à noite, eu e Pedro Emilio, saboroso tucunaré na praia da Graciosa enquanto assistimos Brasil x Argentina pela Copa América. Na quarta, constato com satisfação que a TO 130 que liga Palmas a Ponte Alta está boa ao contrário do ano passado quando se apresentava exasperantemente esburacada. A partir de Ponte Alta, o horror começa: a TO 255, de chão batido, cheia de costeletas, é uma provação física e emocional. Os 105 km até a sede da fazenda Progresso é como se estivéssemos dentro duma britadeira e não dum carro. Milma e Antonio ficam contentíssimos quando me vêem, se tornando amigões de Pedro Emílio instantaneamente. Penduro a rede perto da densa mata que se espalha ao longo do córrego Frito Gordo embora Antonio me alerte sobre o risco da passagem de onças à procura de capivaras que costumam se banhar no rioNovo, distante 30 metros. Pois certa noite, lá pelas 3 da madruga, escuto, após os latidos nervosos de Pluto, o ruído pesado das patas do felino correndo na mata. Santo deus, que medo! Chamo Pedro Emílio e peço-lhe “rápido, criatura, acende a fogueira!”, o que ele faz em 10 segundos. E de olhos bem abertos, acordadíssimos, esperamos ansiosos o dia clarear! Com tal cagaço, rapidinho, mudamos as redes de lugar! Bueno, meu objetivo ao retornar pra cá, não é turistar e sim construir uma tapera no talhão por mim adquirido ano passado quando cá estive. Pra tanto, vou a Mateiros, distante 70 km, enfrentando outro trecho tenebroso da TO 255, coberto de areia fofa. À medida que nos aproximamos das dunas, vai se agigantando o inconfundível formato de rolha de espumante do morro Sacatrapo. O movimento de veículos com turistas é intenso já que estamos no mês de julho, férias escolares. Em chegando a Mateiros, procuro Poeta, especialista na construção de taperas. Promete que, terminado o rancho que está construindo, começará o meu. Quando retorno à fazenda Progresso, vou dar um vistaço na minha chácara. Nem lembrava quão linda é, estou encantada. Com sua pequena praia de areias douradas à beira do rio Novo que, de tão limpo, ainda é reduto dos exigentes patos mergulhões, vislumbra-se além da mata ciliar extensa vereda de buritis onde o capim dourado já começa a dar pinta. Meus deus, que incrível, sou dona dum pedaço lindo de puro cerrado, nem acredito! Batizo a chácara de Vereda Dourada!! Antonio e Milma que venderam parte da fazenda Progresso prum deputado de Palmas se mandam, contentes, pra Porto Nacional onde começarão vida nova. Deixado pra cuidar do lugar, Rubens. Natural de Ponte Alta, fala mansa, cuida com capricho do restaurante, preparando saborosos pratos caseiros, em especial peixes por ele pescados no rio Novo. Narra que, fugindo da aridez do sudoeste do Piauí, seus pais vieram pra cá em busca duma vida melhor. Montada em jumento a mãe, e o pai em mula, o jovem casal alcançou após 5 dias de cavalgada Mateiros. Após descansarem dois dias, seguiram viagem, atravessando a serra da Muriçoca pra se estabelecerem duma vez por todas em Ponte Alta. Na década de 60, explica Rubens, Mateiros e Ponte Alta eram carentes de certos recursos, o que obrigava os nativos a longas incursões ao Maranhão, carregando nos lombos de mulas rapadura, toicinho e cachaça trocados por sal, querosene e outros víveres. Após a partida do casal Antonio e Milma, nós nos mudamos pra chácara vizinha cujo dono mora em Brasília porque o deputado e seus amigos promovem festas ruidosas quando vêm passar o findi aqui. Queremos sossego... xô som alto até as 3 da madruga tocando sertanejo sem parar. Enquanto aguardo a chegada de Poeta, os dias seguem deliciosa rotina: lavo louça e roupa à beira do rio Novo; sobre pequenas fogueiras improvisadas por Pedro Emilio no meio do terreiro, cozinho pros desjejuns mingaus de aveia com melaço de cana e sopões de legumes nos almoços e jantas; chapatis, feitos por Pedro, reforçam as refeições. Vez por outra, deliciosas fritadas de lambaris, pescados pelo Xamã Sideral, são regadas a cachaça da terra! À noite, uma raposa passeia blasé do outro lado da cerca olhando de canto de olho pra nós. Na escuridão, seus olhos luzem no meio do mato, nos observando. Pedro Emilio não para de ver estrelas cadentes riscando o céu sem nuvens. Invejosamente, acuso-o de estar inventando, impossível tanta estrela despencando céu abaixo assim, caramba!! Pura inveja minha, porque não consigo ver uminha!! Hoje, 17 de julho, quarta-feira, vou pras Cariocas, praia distante 500 metros donde estamos, juntar-me ao pessoal da 4 Elementos que opera no Jalapão um combo de raft no rio Novo mais passeios pelos fervedouros e dunas. Conheci Galera, um dos sócios desta empresa de ecoturismo, através do Antonio, e me “convidei” pra fazer o raft. Quando chego ao acampamento, os guris da equipe chamam minha atenção pro eclipe parcial da lua que se delineia no azulado céu de fim de tarde. No 1º dia, parte-se das Cariocas e após 6 horas chega-se ao acampamento nos Buritis Pelados, após enfrentar dezenas de corredeiras cujos níveis variam de 1 a 4, destacando-se pelo grau de dificuldade Icion, Coice da Anta, Pata da Onça e 4 Elementos. Inúmeras praias de areia dourada ora ladeadas por densa mata ora descortinando a vastidão das veredas de buritis. Patos mergulhões flutuam na correnteza enquanto martins pescadores e biguás dão rasantes nas transparentes águas do rio. As queimadas são uma constante durante os 23 km do percurso. Embora curto o trajeto do 2º dia, o raft reserva emoções de tirar o fôlego e provocar frio na barriga!! Após os guias portearem o bote vazio até o remanso após a Velha, nós damos um balão nela caminhando por uma trilha que conduz à beira rio. Reembarcamos no bote e remamos em direção à gruta situada numa reentrância da cachoeira, que despenca sua espessa cortina d’água diante de nós. Agora sim, começa a verdadeira adrenalina: enfrentar as turbilhonantes corredeiras Frankstein, Índio e Éxtase que se sucedem vertiginosamente uma após a outra. Infelizmente, este curto e emocionante trecho de raft termina na prainha do rio Novo onde Pedro Emilio me aguarda. Como urge comprar mais víveres, dali vamos pra Ponte Alta onde nos hospedamos na Pousada Progresso cuja gerente, Vanda, narra sem pressa, a cabeluda estória de sua vida. Mulher guerreira sustentou os 9 filhos fazendo quitutes pra fora. Dos 3 maridos, apenas com o segundo foi feliz. Como alegria dura pouco, ele morreu, deixando-a viúva eternamente saudosa. A mando dum genro de olho nas suas terras, foi enviado pistoleiro contratado ao custo de R$ 1.500,00 pra matá-la. Mas não é que o cabra se encantou por Vanda e desistiu de dar cabo de sua vida, só não matando a peste do genro porque ela o impediu?! E os dias se sucedem tranquilos. À tardinha, costumo ir até Rubens pra carregar o celular porque onde Pedro e eu estamos não há energia elétrica. Contra a infernal mosquitama que ataca impiedosamente de manhã cedinho e ao pôr do sol, nada melhor que armar um fumacê feito com folhas secas. É tiro e queda! Finalmente, no dia 22, chega Poeta, pilotando sua motoca, cheio de energia, pronto pra fazer a tapera. Natural de Mateiros, o cinquentão, de físico aprumado, é trisimpático e muito falante ao contrário de seu ajudante, Jesuíno, do tipo que entra mudo e sai calado dos ambientes. O apelido Poeta se deve ao gosto de conversar em forma de repente, quando baixa a inspiração. Pedro, que se hospedou em sua casa quando estivemos em Mateiros, me conta encantado que Poeta antes de adormecer e ao acordar escuta música de ninar. Aproveito e acrescento ao seu apelido Poeta, Camões do Jalapão, porque, assim como o bardo português, ele também é caolho. Perdeu seu olho direito numa emboscada armada por um cabra malvado que, despeitado por ter perdido 3 partidas de sinuca, o feriu, gravemente, permanecendo o pobre 28 dias em coma. Embora o bandido não tenha sido punido pela justiça dos homens, morreu num acidente de carro, “com a espinha partida”, acrescenta Poeta sem qualquer pingo de triunfo. Poeta mais Jesuíno levam 1 dia derrubando a golpes de machado os sassafrás pretos e as pindaíbas que serão usadas na construção da tapera. No dia seguinte, esse material é arrastado, literalmente, não só pela minha camionete como pelas motos de Poeta e Jesuíno até a clareira onde será erguida a tapera. Acompanho dia a dia o processo de construção. Não há como não ficar apreensiva com o trabalho duro e arriscado de Poeta e Jesuíno quando escalam os 4 metros de buritis pra cortar do alto das palmeiras as folhas a serem usadas na cobertura do telhado. Em 6 dias, eis erguidíssima a “casinha”!! E Poeta se torna, além de Camões, o Niemeyer do Jalapão!! Pedro Emilio mais eu penduramos ali as redes, passando nossa última noite no Jalapão na tapera recém construída!! Paralela à construção da tapera, muito festerê com Igor e família que pra cá vieram desfrutar alguns dias na sua chácara, vizinha à minha. Com eles chega também o casal Maria Emilia e Lucas mais os filhos Antonio e Francisco. Aqui é assim, tudo muda quando menos a gente espera: da calmaria à agitação, num piscar de olhos. Antes de retornar a Palmas, vamos a Mateiros pela última vez onde tenho a oportunidade de conhecer a família de Poeta, comandada pela amorosa tia Maria. Matriarca da família, além das 2 filhas, criou um tanto de sobrinhas e sobrinhos, incluído aí Poeta. Em sua espaçosa residência, vive uma penca de parentes entre adultos e crianças. Hospitaleira, oferece talhadas de melancia pra quem chegue na casa. Após a breve permanência em Palmas, justo um fim de semana, em que me hospedo na casa de Maria Emilia, desfrutando boas conversas regadas a cachaça, muito pedal e pôres do sol inesquecíveis às margens do Tocantins, volto a toque de caixa pra casa, antes passando em Cuiabá pra pegar minha amiga Osnilde que também retorna ao sul. Pra finalizar tal relato, confesso que durante os 30 dias vividos no Jalapão me senti tal qual sucuri em brejo....feliz demais!!!
Na sexta,
14 de junho, com a Chapada dos Guimarães se distanciando no horizonte, o plano
é dormir em Barra do Garças onde fiquei ano passado. Ao ali chegarmos, enquanto abasteço o carro, por sugestão dum
frentista, seguimos pra Aragarças, já em solo
goiano, procurando o balneário Água Santa por ele indicado. À beira do mítico
Araguaia, o lugar conta com excelente estrutura de camping, restaurante e
piscinas de águas termais. Como pano de fundo, a serra do Roncador que se
estende por 800 km do Mato Grosso ao Pará. Baita dica a do rapaz, valeu, meu bruxo!
Permanecemos até domingo de manhã, lastimando partir de tão agradável lugar. Contudo
aproveitamos bem o sábado, pedalando por estradinhas de chão batido de manhã e
navegando de voadeira no Araguaia à tarde. Durante o passeio, vejo dezenas de
aves, destacando-se as lindas garças de plumagem rosada, mergulhões e os fugazes botos cinza
que mal dão pinta fora d’água. Super piscoso, o Araguaia é delírio da galera
que gosta de pescaria, motivo por que se vêem, em plataformas projetadas sobre
suas águas escuras, turistas empunhando sofisticadas varas de pescar. Enquanto
rumamos pra Brasília, me dá na telha conhecer Pirenópolis motivo por que desvio
então de rota. Pedro Emílio fica muito contente porque lá morara há 30 anos. O
lindo e preservado centro histórico exibe antigos casarios pintados em cores vivas.
Pernoitamos no Jardim Secreto, cujo dono, Diogo, pertence também à tribo dos
alternativos (diferente porém da do Xamã já que a sua é a de 1 homem só).
Praticante de Daime, abandonou emprego público em Goiânia, se estabelecendo
aqui onde toca sua pousada e camping. Dormimos em redes penduradas no quintal,
contudo nosso objetivo é acampar em local não tão urbano, por isso nos mandamos
pro camping Raízes, lugar adorável à beira do rio das Almas, no meio do mato,
onde penduramos as redes. O dono, Fernando, super amável, deixa até lenha
armada pra fogueira noturna. Foi tanto o frio nas duas noites em que lá
pernoitamos que, na segunda, enchemos garrafas plásticas de 500 ml com água
quente de modo a aquecer os pés. Em compensação, a lua cheia abrilhantava a
escuridão cada vez que eu levantava, tiritando, na madrugada pra urinar! No
último dia em Pirenópolis, contrato Carmem Cecília, tatuadora que vive na
pousada de Diogo, pra nos servir de guia. Ela nos leva a lugares onde não
é cobrada taxa de visitação. Assim conhecemos uma parte da cidade de Pedra e as
belas cachus das Andorinhas e Sonrisal, sendo que nesta última sucessivas
quedas d’água terminam em poços de esverdeada limpidez. A caminho da segunda
cachoeira, paramos no mirante do Ventilador donde se avistam Pirenópolis e a
chaga representada pela pedreira escavada na encosta da serra dos Pirineus que rodeia a
cidade. O passeio termina com a subida ao ponto mais alto da região, o pico dos
Pirineus. Nem só às atividades físicas dedico minha estadia em Pirenópolis. Há
também momento cultural quando descubro no museu do Divino, a sen-sa-cio-nal
exposição de esculturas de terracota feitas pela nonagenária artista plástica
Safia que trabalha com o barro desde 0s 7 anos de idade. Na quarta, agora sim,
a caminho de Brasília, passamos por Salto do Corumbá, lindíssima queda d’água à
beira da BR 414. Etanol baratíssimo desde Mato Grosso do Sul, uma beleza. Em MT
chega a 2,60. Na capital federal, ficamos no quitinete emprestado por minha
amável prima Maria Luiza, pertinho do ape de Jorge Otavio e Sonia, outros
primos queridos com quem na última noite nos divertimos muito jogando cartas os
quatro na casa do casal. Conheço outra faceta de Brasília, invadida por frente
fria que traz além de queda de temperatura rajadas fortes de vento....que merda!
Durante os 5 dias na cidade, não descuramos de nossa rotina de exercícios
físicos, pedalando todos os dias nas suas boas ciclovias. E a parte cultural
foi preenchida por audições de MPB, em especial chorinho e forró,
proporcionados por Clarissa, outra prima, que canta e encanta em vários bares
da cidade. Era pra gente ter partido de Brasília no domingo mas como Pedro
Emílio foiatropelado, ou melhor, atropelou de bicicleta um carro no sábado à
tarde (a consequência foi que acabou no hospital de Base pra dar pontos na
cabeça porque estava sem capacete, o tonto), somos obrigados a estender nossa
estadia por mais um dia. Isso porque nosso próximo destino, Vila São Jorge, é
carente de recursos hospitalares, e vá que nesse meio tempo tenha o Xamã alguma
convulsão. Por precaução, partimos na segunda-feira, quando a caminho da
Chapada dos Veadeiros, paro na Vovó
Herminia prum lanche-almoço. O estabelecimento, especializada em quitutes
goianos, tem como carros-chefes suco de milho, empadão goiano e pamonhas com
diversos recheios. Ao chegar à Vila vou direto e reto pro Canto da Coruja sendo
recebida pelo incansável Buba, pau pra toda obra no sítio. O camping sofreu
melhorias significativas, passando a ter um setor de glamping, cozinha aberta com
fogão caipira e centro de meditação na colina distante 200 metros da sede.
Também ali se encontra Carlos, simpático catalão de Barcelona, permutando
trabalho por hospedagem e comida. Veio pro festival de slack line já realizado
em Cavalcante. Descubro a exótica cachaça de jambu, comprando além duma garrafa
desta bebida, outra de arnica. Nos deliciosos 5 dias que ficamos na vila, muito
pedal pelas redondezas, pernada ao mirante das Estrelas onde curto baita pôr de
sol e 2 trilhas no PN Chapada dos Veadeiros: a do Carrossel, Saltos e
Corredeiras, num dia e a dos Canyons e Cariocas, noutro. Almoços na Nenzinha,
bufê de saborosíssima comida caseira. Na sexta, pé no acelerador: próximo
destino, Terra Ronca que não consegui conhecer ano passado, mas neste, sim...uhuuu!!!
Situado no nordeste de Goiás, o Parque Estadual de Terra Ronca abriga mais de
200 cavernas secas e 60 molhadas, sendo considerado um dos maiores complexos de
cavernas na América do Sul. O local abriga 7 das 30 maiores cavernas do Brasil.
Aliás, seu nome vem do som dos rios dentro das cavernas que ao reverberar pelas
paredes lembra roncos. A maioria delas destina-se apenas a pesquisadores; ao
turismo estão reservadas 17, sendo 11 delas grandes complexos de diferentes
níveis de dificuldade. Quem parte de Brasília, têm 2 rotas pra visitar o parque.
A primeira é pegar a BR 20 até Posse e depois seguir pela GO 108 até Guarani de
Goiás. Já que estou em Alto Paraíso, escolho continuar pela GO 118, seguindo
pela GO 112 que exibe ásperas formações rochosas em parte de seu trajeto. Após
sua relativamente boa estrada de chão batido, enfrenta-se o poeirento e
avermelhado terreno da GO 447, um martírio. Almoço em Vazante, distrito de Divinópolis, cuja
comida caseira feita pelo dono (a mulher teve de sair) é de lamber os beiços!
Xamã se serve 3 vezes! Atravessamos Divinópolis e logo estamos na pacata São
Domingos onde dormimos. A simpática cidadezinha, localizada à beira do lago São
Domingos, pede um pedal, é claro!! Assim, pedalo pelos arredores, curtindo a
bela paisagem das rochas de coloração avermelhada que formam a serra Geral cujo
destaque é o pontudo morro do Moleque. No sábado, enfrentamos os 41 km da GO
110, estrada de chão batido bem ruinzinha até a vila São João Evangelista.
Trata-se duma pequena comunidade com algumas centenas de moradores. A rua
principal, sem calçamento, é onde a maior parte da vila se assenta. Sua
localização é estratégica, considerando que as cavernas as quais são permitidas
visitação se situam mais próximas desta vila do que de Guarani. São Vicente
situada a 10 km da vila não está aberta à visitação pois necessita de rapel pra
atingir seu interior e no momento não há guia que faça tal atividade. Angelica,
a 25 km, também antes da vila, ao passo que Terra Ronca I e II, São Mateus e
São Bernardo distam, respectivamente 13 km e 23 km depois da vila. O guia
contratado, João Pedro, é um simpático e paciente rapaz de 22 anos. Seus pais,
Laureci e Rubem, donos do camping onde estamos, são muito amáveis. Ela
me presenteia com ovos de suas galinhas e oferece café adoçado quando, sentada à varanda de sua casa, aproveito o wifi inexistente no camping. Hoje vamos a São Mateus. Poucos são os dias nublados no centro-oeste, hoje, contudo, assim se encontra o céu, pouco importando já que vamos nos embrenhar
nas estranhas da terra. Do interior do carro, vemos, além duma onça
parda (pensei que fosse um cachorro rotweiler) cruzando a estradinha que dá
acesso à caverna, duas seriemas que, assustadas, fogem campo adentro. Nada
fácil percorrer a São Mateus. Temos de descer bastante até alcançar sua
estreita boca, originada por sucessivos desabamentos, escondida por densa
vegetação. Seu escorregadio e íngreme terreno calcáreo exige cuidado. A caverna cheia de altos e baixo, cortada pelas rasas e límpidas
águas do rio São Mateus, conta com vários salões interligados por corredores, alguns bem estreitos. Os espeleotemas
são interessantes: alguns lembram pela textura corais, outro um branco pássaro, num salão mais adiante, uma estalagmite representa com perfeição a Torre de Pisa! A bem da
verdade, cavernas nem me atraem muito, exatamente pela ausência de luz em seus interiores, porém há vários anos, desde 2007, nutria curiosidade em conhecer a região. São
2 horas de intenso sobe e desce e quando saio da caverna respiro aliviada ao
rever a luz do dia. Descubro que Xamã se sentiu oprimido, meio sufocado pela escuridão tanto que na volta deu um pique pra sair ligeirinho do breu, o coitado. Creio que foi o único passeio que ele não curtiu muito dos tantos que fizemos durante a trip. Se a manhã fora nublada, à noite o céu brilha coberto de estrelas.
No domingo, vou só eu visitar as 2 Terra
Ronca que em priscas eras foi uma só caverna. Com o desmoronamento de seu teto,
restou dividida em duas, daí a denominação Terra Ronca I e Terra Ronca II.
Quando estamos a 1 km da caverna, já é possível avistar a estrutura das rochas
escuras que formam seu teto. Quando lá chego, deslumbro-me com sua gigantesca
bocarra, que permite o vazamento de generosa porção de luz solar, de modo a permitir seja iluminado bom pedaço dos 800 metros de sua travessia. Me sinto literalmente uma formiga.
Já de cara curto pra caramba a Terra Ronca I, exibindo, a alguns metros de sua
entrada, rocha vazada no formato de coração, com o sugestivo nome de Pedra dos
Namorados. O amplo e plano salão, cortado pelas claras e cálidas águas rio da Lapa,
desemboca noutra abertura que sai na cerrada e verdejante mata conduzindo à
segunda caverna. A trilha, linda, persegue o onipresente rio da Lapa que
continua Terra Ronca II adentro. Recordou-me pelos perrengues das subidas e
descidas os anos de canionismo em Praia Grande/SC. Desce-se até sua primeira
entrada, pequena se comparada à I, para após 100 metros, alcançar a segunda
boca. Neste segundo salão, igualmente plano, já na escuridão total da caverna, quebrada pela fraca
iluminação de nossas humildes lanternas, atravessamos até a margem oposta do rio cuja correnteza,
neste ponto fortinha, exige que nos agarremos em providencial corrimão feito com corda. A água por pouco não bate no meu queixo. Cumpre esclarecer: sou de
estatura mignon. Avisto de longe um pequeno rasgo de luz que aumenta à medida
que me aproximo da claraboia, assim chamado o desmoronamento na parede final da
Terra Ronca II. Tal espetáculo só acontece de abril a julho quando os raios de
sol vazam pelo buracão iluminando os espeleotemas que ornamentam suas paredes.
Que ignorante sortuda eu que desconhecia tal detalhe! Terra Ronca me reconciliou com as
cavernas....adorei ambas!! A caminho do mirante, no teto da caverna,
escuto o trinar do periquito guerreiro, ave em extinção, cuja plumagem
alaranjada colore seu peito e cabeça. Dali de cima, se tem uma ampla visão da Serra Geral
que tanto admirara quando estivera em São Domingos há 2 dias atrás. Encerro o
domingão, curtindo o visual super lindo da cachoeira das Palmeiras, situada a 8
km das Terra Ronca I e II. Realmente, Goiás e Santa Catarina são, em minha
opinião, os mais belos e interessantes estados brasileiros! Infelizmente há que deixá-lo porque o destino final da viagem é Tocantins...simboralelê!!
Diferentemente
do ano passado, minha nova incursão Brasil adentro parte da catarinense Ponta
do Papagaio, na praia da Pinheira, onde a família de Pedro Emílio, meu parceiro
de trip, tem uma casa de veraneio. Permanecemos 2 dias pedalando além de uma
deliciosa caminhada no vale da Utopia, na serra do Tabuleiro. O dia, mais
bonito impossível: céu azul, poucas nuvens, temperatura amena. À noite,
enquanto Pedro Emilio assa gorda tainha, cozinho batatas. Os assíduos leitores,
curiosos, provavelmente, estão se perguntando “quem é esse tal de Pedro
Emilio”? Tá tá, já tô abrindo parêntesis – bem grande, viram?! - pra explicar
que conheço Pedruska há pouco tempo, remando numa guarderia, situada na vila Conceição
em POA. À maliciosa pergunta duma amiga “teu love, Bia?” respondo que, no
momento, dividimos apenas mesa, o futuro só a nós pertence. Bueno, voltando a
Pedro Emilio: ele é o que meu filho chama de Biriri (maluco beleza) e regula de
idade comigo. Repentista, faz versos poéticos quando vai com a cara da
criatura. É um faz tudo por excelência, situação vantajosíssima, gente assim
não se aperta em qualquer lugar do planeta pra ganhar o pão nosso de cada dia.
Viver de bico exige culhão, inerente dos aventureiros raiz porque permite
liberdade de movimento. Embora não tenha frequentado faculdade tem diplomas em
diversos cursos, entre os quais estética automotiva, martelinho de ouro e
permacultura. Até hoje, contudo, ainda não teve oportunidade de exercer tais
ofícios. Mas tá na batalha. E quase esquecia o mais importante de todos os
canudos: os 3 meses de sobrevivência na selva que, com justa razão, Pedroka, orgulhosamente,
ostenta! Legal e sem frescuras, curte vida ao ar livre além de estar sempre
pronto pra pedalar e remar comigo. Na quinta, 30 de maio, nos mandamos BR 376
afora, pernoitando na paranaense Marialva, num hotel bem legalzinho à beira da
rodovia. Dia seguinte, percorremos breve trecho em São Paulo, logo adentrando
Mato Grosso do Sul, com pernoite em Bandeirantes, pequena cidade à beira da BR
163, onde aproveitamos pra pedalar um pouco assim que chegamos. O bom em viajar
de carro é que se pode levar bikes e caiaques pra se exercitar ao longo da
viagem. Após 5 dias de estrada, chegamos em Cuiabá, no meio da tarde. O querido
Oswaldinho, filho da amigona Osnilde, nos espera com sua sorridente
cordialidade. Permanecemos na capital mato-grossense 3 dias, pedalando
caminhando no parque Mãe Bonifácio e assistindo filmes no Netflix, convivência
esta entremeada de muito conversê e risadas com nosso bem humorado anfitrião.
Seguindo sugestão de Taci, namorado de Tiago, o caçula de Osnilde, vamos
conhecer Tangará da Serra distante 240 km a noroeste de Cuiabá. A cidade com
pouco mais de 100 mil habitantes é considerada a 5ª mais populosa do estado.
Da. Maria, dona do hotel California, onde nos hospedamos, conta que quando lá
se estabeleceu, há 44 anos, a luz era de gerador, sendo desligada às 22 horas.
Casas de madeira e ruas sem calçamento. Não havia ainda plantações de soja ou
de milho. Segundo os paus rodados (forasteiros), os cuiabanos não são de muito
trabalho, se contentando com pouco, motivo por que foram os de PR, SC, RS e SP
que introduziram, após correção do solo, as plantações em larga escala de soja
e de milho, dando início ao agronegócio. As viagens eram demoradas em razão de
as estradas chão batido, na época da chuva, virarem traiçoeiros atoleiros. Pra
alongar as pernas, pegamos as bicis e pedalamos pela cidade conhecendo o bosque
municipal, pequena área verde de mata de cerrado onde cotias circulam entre a
vegetação. Dia seguinte, conferimos os Saltos Maciel e das Nuvens banhados pelo
rio Sepotuba. Ao contrário do primeiro que não possui nenhuma infraestrutura, o
segundo, conta com restaurante e pousada mais passarela para bem desfrutar a
bela e larga queda d’água. Enquanto rodávamos pela boa estradinha de chão
batido até o Salto das Nuvens, Pedro Emilio, rebatizado por mim Xamã Sideral
devido ao temperamento avoado e estilo de vida alternativo, comenta “olha as
vaquinhas ali, olha o olhar delas, que sutileza”...hahaha. O bom nesta parte do
país é que se come peixe de rio pra caramba, tanto que no almoço pedimos
ventrecha (costela) de pacu, delícia de pescado. Feita a digestão, nos tocamos
pela igualmente boa estrada de chão batido até a cachoeira do rio Formoso. O
passeio é uma roubada: 25 pilas pra ver uma queda d’água medíocre, em nada se
comparando em beleza às anteriores. Minha pouca experiência com índios me leva
a crer que eles não são lá muito simpáticos, sempre transparecendo leve desdém
pelos brancos. Queriam nos cobrar 170 reais pelo camping!! Eu hein!! Claro está
que nos mandamos da aldeia, preferindo dormir em Campo Novo do Parecis. Pra
tanto enfrentamos desde Barra dos Bugres até início da MT 358 uma péssima
rodovia cheia de buracos, um pesadelo. Em Itanorte, sou obrigada a comprar na
beira da estrada, num restaurante, 11 litros de gasol por 70 pilas dum
aproveitador, porque em 150 km de rodovia entre Tangará da Serra e Campo Novo
do Parecis inexiste unzinho posto de combustível. Adoro hotel fuleiro à margem
de rodovia. Assim, não dá outra, nos hospedamos num à margem da BR 364 em Campo
Novo de Parecis. Na 5ª feira, 6 de junho, desistimos de conhecer Vila Bela da
Santíssima Trindade, situada a sudoeste, trocando Campo Novo do Parecis por
Nobres. Se Pedro Emilio já se embasbacara com as lavouras no Mato Grosso do
Sul, ficou mais siderado ainda com as extensas lavouras, em ambos os lados da
MT 010, de cana, soja, girassol, algodão e milho que tornam o Brasil uma grande
potência do agronegócio. Pedro Emilio tanto se extasia com as plantações a
perder de vista e seus silos gigantescos como com a beleza do cerrado nessa
época do ano bem verdinho. Calor gostoso de 28º C e céu azul fazem com que eu
me sinta muiiitooo contente! Chegamos a Nobres e encontramos, à beira do rio
Nobres, um acampamento ideal, primeiro dos tantos que ainda teremos pela
frente. À tardinha os banhos no rio são os melhores porque a água aquecida pela
insolação diária apresenta-se com temperatura calidamente ideal. Sempre bom
estar alerta, não em estado de pânico, pois aqui sucuris e onças podem dar
pinta, portanto olho vivo. Esta parte do Brasil não perdoa desavisados, estamos
na Disneylândia, não. Exceto o caseiro e sua família, só dá nós no
sítio....ebaa!!! Depois de dias dormindo em camas, fazendo comida no conforto
duma cozinha ou comendo em restaurantes, bom demais da conta fazer fogo de chão
pra cozinhar e dormir em rede. A pequena Nobres é uma agradável cidadezinha,
com larga avenida cortada por um canteiro central e casas confortáveis. Muita
gente andando de bicicleta. Ligado por uma agradável estradinha de chão batido,
o camping, onde estamos dista 5 km do centro da cidade, apelidado pelo povo do
centro-oeste e norte "rua". Certa manhã, retornando ao camping,
avistamos desengonçado animal de forma indefinida se arrastando em direção à
estrada, prontamente identificado por Pedro Emilio como um tamanduá bandeira.
Eita bicho deselegante! Com o passar dos dias, a família do caseiro revela-se
muito pedinchona. Ora o homem pede que eu o leve de carro até a "rua"
para comprar cerveja, ora a mulher querendo refri quando saímos à tardinha até
o centro. Mas o guri, um dos 3 filhos do caseiro, é o campeão: tudo que vê
quer, seja banana, bolacha ou o que mais tenha na nossa caixa de mantimentos
pra onde espicha seus gulosos olhinhos. Lembra uma mosquinha varejeira rondando
a gente, o pentelho. Na sexta, 07 de junho, passeio de bici ao longo da MT 241
até o encontro dos rios Cuiabazinho e Manso que formam o Cuiabá. Perfeito o céu
nublado porque assim não se sofre muito pedalando já que o termômetro deve
estar acima dos 30º C. De rango nesses dias só coisinha leve: salada de verdura
e legumes misturada com atum além de salada de frutas. Esta ao ser finalizada
atrai os filhos do caseiro que a devoram impiedosa e alegremente. À noite,
batata doce mais pão tostado com azeite e ervas finas, regando a ceia o tinto
português Periquita. E a água do rio emanando seu barulhinho bom a 30 metros da
minha rede!! Entre os muitos pássaros, na mata ao redor, há um que se destaca
pelo seu trinar semelhante a alarme de carro, tanto que ao ouvi-lo pela
primeira vez pensei que fosse o da caminhonete que disparara!! No sábado, o dia
lindo, sem nuvens, 34º C, organizamos um piquenique na cachoeira do Bananal,
distante do camping 2 km. A trilha ao longo aa bela e verdejante mata se dá ao
longo do acidentado rio Nobres cheio de pequenos saltos e jacuzis. À noite, a
mulher bêbada, de soluçar, vem bater papinho comigo. Quer me levar até sua casa
onde Pedro Emilio já se encontra com seu marido comendo carreteiro. Consigo
convencê-la a caro custo que sozinha estou bem, obrigada pelo convite, até
amanhã! Domingo, o dia pra variar segue lindo. Resolvemos explorar melhor os
arredores de Nobres e acabamos descobrindo o sítio Vale das Águas, na Vila Roda
d’Água, distante 40 km da cidade. Os donos, Luciano e Tati, consentem que nós
acampemos embora o lugar ainda não esteja aberto a tal atividade. Ele nem quis
cobrar mas fizemos questão de pagar a mesma diária de 20 pilas que pagáramos em
Nobres. A 500 metros da sede passa o rio Salobra cuja nascente, na Gruta Azul,
exibe transparentes águas azul-esverdeadas. Dá pra ver nitidamente
piraputangas, piaus e pacus nadando rente ao leito do rio. Lugar paradisíaco.
Nem só Bonito possui rios límpidos pra flutuação! Após almoço bem caseiro na
Erlanda, encerramos o domingão, fazemos bóia cross no rio Quebó. Embora o
percurso seja pequeno - 2 km -, 300 metros se dão no interior duma gruta em
absoluta escuridão...sensacional! Claro está que nos dois dias de estadia no
Vale das Águas, muito pedal nas estradas de chão batido de coloração
avermelhada. As noites frescas exigem saco de dormir. Na terça, 11 de junho, a
fim de pegar a barraca que eu esquecera em Porto Alegre e arrumar o som do
carro, retornamos a Cuiabá. Pela MT 351 avista-se uma visão como se fosse “das
costas” das famosas muralhas avermelhadas da Chapada dos Guimarães, diferente
daquela que se tem da tradicional MT 251 que une a capital mato-grossense
àquela cidade. Dia seguinte, quarta, ao deixarmos Cuiabá, resolvo fazer uma
parada no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães pra que Xamã Sideral conheça
o lugar embora eu já o tenha visitado em 2007. Pra conhecer o parque todo tem
de contratar guia que custa 200 pilas. Como ele não tá a fim de gastar toda
essa grana, visitamos, já que não exige guia, as cachus dos Namorados,
Cachoeirinha e Véu de Noiva. Terminado o passeio, resolvemos ficar na cidade e
escolhemos o camping Paraíso Alternativo cujos donos, Tamara e Juninho mais o
bebê Zaion, nos acolhem alegremente. Estendemos nossas redes no quintal e à
tarde, vamos eu e Xamã pedalando até o mirante do centro geodésico. Na quinta,
pedal urbano na super turística embora encantadora Chapada dos Guimarães quando
conheço Leo Rocha, dono de loja de artesanato indígena, saindo do
estabelecimento. Ficamos conversando por quase 1 hora sobre cobras, construção
de telhados com folhas de palmeiras, plantas e seus usos medicinais e claro
sobre Desafio em Dose Dupla em que ele participou. Revela que a Discovery
exigia pra bem dramatizar as cenas que eles comessem minhocas pros episódios serem
bem realistas. Esse mundo fake....tsk tsk tsk
Deixo
a ensolarada Las Palmas para trás ingressando numa acinzentada Lisboa. Desde
2006 não venho à capital portuguesa quando conheci o país num tour de 2 semanas
com minha mãe, percorrendo-o de norte a sul. Assim, eis-me aqui novamente pra revê-la
e saborear sua deliciosa culinária. Uma beleza esse novo sistema de visa da
comunidade européia. Qualquer país que você entre, a primeira carimbada no
passaporte vale pra qualquer outro sem necessidade de carimbar folhas e folhas do
documento a cada país visitado! Adotando o mesmo sistema de Barcelona, escrevo
email ao hotel português solicitando infos de sua localização. Dessa forma, após
descer do avião com minha maletinha de 10 kg, entro no metrô convenientemente
situado na saída do aeroporto. Feita uma baldeação, ops conexão (mais chique,
né?), em 20 minutos estou na estação Restauradores, distante 300 metros do hotel
por mim reservado. Como na Espanha aqui também há bikes e patinetes elétricos pra
alugar, dirigidos em sua maioria por jovens. Largo a maleta no hotel - são
apenas 16 horas - e saio pra dar uma banda. Tinha me esquecido de quão
encantadora é Lisboa! Que cidade fotogênica tanto que nem o tempo enfarruscado consegue
embaçar sua beleza. Tantas as opções de restaurantes no Rossio que fico meio
atarantada ao ler os menus afixados às portas dos estabelecimentos. Acabo por
entrar num bem simples e peço arroz de tamboril só porque o nome evoca - que viagem
– o tamborilar da chuva no telhado. O delicioso ensopado com peixe, amêijoas e
camarão vem acompanhado por arroz branco bem soltinho. O vinho, pois pois, é um
encorpado tinto português. Dia seguinte, vou a pé até a praça Martim Moniz e, enquanto
estou comprando a passagem pra embarcar no elétrico 28, o cobrador me alerta
"rápido que está vindo 1 manada", hahaha!!! O passeio que dura 1 hora
termina no campo de Ourique, em frente ao cemitério dos Prazeres. Refaço a rota
do bondinho a pé percorrendo, inicialmente, a Estrela onde entro numa
confeitaria e provo os orgasmáticos ovos moles de Aveiro acompanhado de um
expresso (ah, que experiência gustativa divina!!), passo pelo Chiado e pouca demora estou
atravessando a rua Augusta que termina no imponente Arco do Comércio. Almoço na
Baixa 1 leitãozinho à Bairrada, que vem a ser nosso porquinho à pururuca, cujo parceiro é o bom tinto português. O tempo tá esquisito com o sol mal dando
as caras no intervalo entre uma garoa e outra. Bem alimentada, subo a Alfama
até chegar ao largo de Santa Luzia donde se vê abaixo o amplo curso do rio ‘Tejo
exibindo-se não mais em naquinhos como até então o vislumbrara entre os vãos
das estreitas e tortuosas ladeiras lisboetas. Um músico turco dedilha o saz, instrumento
de cordas típico de seu país. Na parede externa da igreja de Santa Luzia, 2
enormes painéis em azulejos brancos e azuis reproduzem cenas da vida portuguesa
dos séculos passados. 100 metros além, outro largo, igualmente voltado pro Tejo,
o das Portas do Sol, hoje, entretanto, sem a presença da flamejante estrela.
Dali, vou até as muralhas externas que circundam o Castelo de São Jorge e num
trajeto de 200 metros escuto 3 manifestações musicais: desde a alegre cançoneta
do leste europeu, executada do alto dum balcão de uma casa centenária por 2 rapazes,
passando pelo africano tocando xilofone sob a sombra duma laranjeira, à audição
de jazz interpretada pelo jovem em seu saxofone. À noite, subo as ladeiras
que levam ao bairro Alto pra assistir a um show de fado vadio (assim chamado
quando os cantores são amadores) na tasca do Chico. O estabelecimento é pequeno
com poucas mesas tanto que permaneço a maior parte do tempo ao redor do minúsculo
balcão. O prato mais pedido do cardápio vem a ser o pirotécnico chouriço assado
grelhando sobre labaredas que ardem na pequena cumbuca de cerâmica. Vários artistas
se apresentam, com predominância de mulheres entoando o choroso estilo musical
(adoooro). Dia seguinte, encontro com a cearense Cristina, amiga duma amiga,
que aqui está a morar com o marido. Como eu não entrara ontem no castelo de São
Jorge, limitando-me a vaguear pela sua parte externa, pergunto-lhe se já o
conhece. Diante da resposta negativa, pegamos a escada rolante que liga a
Mouraria à Alfama evitando assim ter de subir as ladeiras que ligam um bairro
ao outro. Desembocamos numa rua chamada sugestivamente Calçadinhas da Costa do
Castelo. Embora a garoa não dê trégua, eu e Cris nem nos abalamos, seguimos
firmes e fortes porque não somos feitas de açúcar tampouco de sal. A paisagem
do alto da colina onde o Castelo foi erigido é magnífica. Avista-se a parte
antiga de Lisboa com seus casarios antigos encimados por telhados avermelhados
bem como o onipresente Tejo cortado ao sul pelos 2 km da ponte 25 de abril que
liga a capital a Almada. Nos jardins fronteiriços ao castelo, uma dezena de
pavões exibe suas magníficas caudas. O edifício foi construído no século XI pelos
mouros durante a ocupação na península Ibérica, onde reinaram durante 700 anos.
Restam preservadas 11 torres cujo acesso se dá através de escadas que terminam
nos chamados passeios de ronda pois por ali circulavam os soldados encarregados
da segurança do castelo. E nós fizemos também uma ronda – turística, é claro - ao
redor do castelo apesar de o vento estar soprando forte a ponto de revirar os guarda-chuvas.
Consigo evocar , neste breve tour, a magia daqueles tempos medievais, pra mim a
época mais interessante da História. Terminada a visitação, tratamos de
procurar um restaurante pois já são quase 17 horas e nem almoçamos ainda. A
essa hora não é muito fácil encontrar lugares abertos que sirvam almoço porque tanto
em Lisboa quanto na Espanha os bons restaurantes fazem intervalo de descanso
entre almoço e janta. Felizmente, encontramos um aberto e nos lavamos em
fartas porções de bacalhau regadas, pois pois, a vinho tinto. De sobremesa, um
pudim divino de laranja. E nós as duas, alegres, de pancinha cheia, descemos
a Alfama entrando na Sé, a imponente catedral da cidade. Faço os habituais 3
pedidos a que tenho direito, saindo do escuro templo pro lusco-fusco do fim de
tarde. Estamos tão contentes uma com a companhia da outra que resolvemos prolongar
mais a convivência entrando na charmosa enoteca Tábuas. Lá fora a chuva continua
a cair miudinha enquanto eu e Cris brindamos à vida e à recente amizade!