sábado, 8 de março de 2014

Garganta Kaingang

Mal chegadas, quarta à noite do pedal no Uruguay, eu e Fatima planejamos nossa viagem a Praia Grande já pra amanhã. A guria curitibana tá louca pra provar dum canionismo embora já tenha feito cascades. Um inclusive numa cachu de 180 m em Prudentópolis. Mas cascade é moleza, basta rapelar a cachoeira e zé fini. Já canionismo envolve técnicas verticais (rapel, escalaminhadas e desescalaminhadas), natação e marcha aquática em leitos de rios. Saímos quinta de Porto no início da tarde. Como não almoçáramos ainda, resolvo desviar da BR 101 e seguir pela Estrada do Mar. Isso porque no Km 1, há um restaurante, o Luzzardo, cujos pratos além de bons são fartos e baratos. O risoto de camarão inclui salada, polenta frita e ...... feijão!! Quando estamos quase chegando em Torres, nova parada, dessa feita na Tenda do Véio pra degustar um suco de abacaxi feito na hora. Cada uma pilota seu carro já que Fatima veio motorizada de Curitiba. Quando começo a avistar os canyons, já bem próxima a Praia Grande, meu coração dispara de alegria. Faz tempo não sinto a sensação reconfortante de retornar a um dos lugares que escolhi amar deste planeta! Já não posso dizer o mesmo a respeito de minha cidade natal, Rio Grande. Pois é....o Rio Grande que eu amo, o da minha infância, não existe mais, só nas minhas recordações. Bueno, antes de ir pra pousada, passo no Flavio, guia e proprietário da Canyons e Peraus (http://www.canyonseperaus.com.br), e combino um canionismo pra sábado. Faremos a Kaingang, garganta que eu já fizera com Kaloca há 3 anos. Como não guardo o registro dessa indiada pois na época perdera a máquina na margem esquerda do rio Mampituba, topo repeti-la. Conosco irão mais 2 pessoas. Faço uma surpresa pros meus queridos da Colina da Serra e chego de improviso. Bom demais ser recebida com afeto e alegria pelos donos da pousada, Maria e Paulo. Nem bem sentáramos, abro uma garrafita de vinho branco que trouxera de Porto. Cheias as taças, a charla prossegue animada na espaçosa cozinha recém reformada. Um potreirão de grande a peça! Maria, minha querida Mariolinda, solícita como sempre, atende meu pedido: omelete mais salada verde. Fátima, que já tinha mandado a abstinência dianética pras cucuias, tragoleia como gente grande!! Na sexta-feira, acordamos sem pressa. A programação é light. Após o café da manhã, cheio de gostosuras, eu e Fatima pegamos a guia Monalisa, parceira de inesquecível perrengue dentro duma garganta das redondezas há um par de anos atrás, e vamos de carro até a porteira situada a 1 km da cachoeira dos Borges. A trilha, facílima, atravessa uma adorável mata atlântica que não exige destreza tampouco esforço físico. Ao fim do sendero,  eis a linda queda d’água de 70 metros, que se situa no outro lado do Mampituba, já em terras gaúchas. Aqui nestas plagas é assim: ou tu tá em Santa ou no Rio Grande! Basta cruzar o leito do rio pra trocar de lado. Voltamos pra pousada e, novamente a meu pedido, Maria se puxa e faz aquela maionese feita em casa. Acompanhada duma carne de panela que, de tão macia, até faca dispensa! E dale vinho tinto, dessa feita! Após a séstea, pegamos as bicis e descemos os 2 km da serra do Faxinal até a ponte enveredando pela estrada geral que leva à Vila Rosa. Mostro os canyons Índios Coroados e Malacara à amiga e voltamos pela rua Leão onde plantados às margens da estrada alguns arrozais já exibem espigas amarelas. Dormimos cedo neste dia sem grandes libações alcoólicas já que o horário combinado pra gente se encontrar amanhã é às 5 horas na cabana de Kaloca. Dali, Kaingang em nós.....uhuuu!!
Choveu durante a noite....ai ai ai. Maria, apesar da hora, 4 e 30, nos espera com um café quentinho na cozinha. Comento com Pauleca que se Flavio não telefonou até agora é porque a indiada está de pé. Pegamos meu carro e vamos até a cabana de Kaloca onde pouco depois chegam Andre e Laura, o casal que também irá conosco. Ele, milico reformado, mora em Curitiba; já ela é natural de João Pessoa onde vive e trabalha. Conheceram-se pelo Face, e aproveitando o feriado de carnaval, Laura veio visitar o namorado. Ainda sonolenta, cedo a direção a Paulo. E toca a subir a serra do Faxinal onde em Cambára, pra sacudir o sono, paramos numa padaria e fazemos um lanche reforçado. Pouca demora, pegamos a RS 020 rumo a São Chico. Ultrapassado o trevo pra Jaquirana, rodamos talvez coisa duns 15 km e quebramos à esquerda, enveredando por uma estradinha de chão batido marca diabo parando os carros a mais ou menos 3 km do Kaingang. Nos despedimos de nossos motoras e iniciamos a pernada até o vértice da garganta, de onde despenca uma impressionante queda d'água de 80 metros. Enquanto os guias armam a parada, baixa uma névoa tornando mais cinzenta a manhã. Apesar do mau tempo, sinto-me alegremente excitada, não só porque faz 3 anos não me aventuro num canionismo como por estar sendo guiada por dois queridos e velhos conhecidos,  os excelentes canionistas Flavio e Kaloca! Sou a primeira a descer e quando chego ao platô que antecede os 20 metros finais, sinto as ganhas o jorro forte da tromba d’água batendo no capacete, tanto que, quando alcanço o chão, sinto minha cabeça latejar um pouco. Laura pergunta a Flavio se não há uma rota alternativa que não seja a dos rapeis nas cachus. Desconfio que a paraibana se assustou com a altura da cachu de 80 metros, hehe. Não adianta muito ser verão quando nos encontramos no interior duma estreita e úmida garganta, sem sol que aqueça este buraco de 700 m de profundidade, motivo por que começo a encarangar. Pra espantar o frio, convido Fatima a caminhar comigo até a segunda cachu. É uma miniatura se comparada à primeira: deve ter 5 m, se tanto! A parada, igual à da anterior, é num grampo P. As distâncias entre as quedas d’águas são curtas, tanto que 500 metros adiante já alcançamos a terceira cachu com 50 metros, linda pra caramba. É uma rampa com degraus bem acentuados, facilitando em muito o rapel. A garganta vai se apertando mais e mais à medida que se perde altura. E o que é esse cheiro de mato, meu deus?!! Nenhum perfume, por melhor que seja, consegue rivalizar com o odor de terra úmida e matéria vegetal em decomposição. A quarta cachu, de 30 m, é outra bela rampa ainda mais horizontalizada que a anterior. A ancoragem é feita na borda esquerda da parede onde, embora haja maior volume de água, o musgo evita que a bota resvale no basalto. Percebo que, na metade do rapel, Fatima embatuca entre seguir mais à direita ou à esquerda. Como tem pouco conhecimento técnico, escolhe a primeira opção. Quando termina, chamo ela na chincha: “ô guria, te liga, no próximo rapel, não for-ça a cor-da, não tenta desviá-la pra longe de seu eixo de ancoragem, senão tu pode pen-du-lar.”  E segue a exaustiva caminhada ao longo do leito do rio. Poder, entretanto, desfrutar a exuberante vegetação da mata atlântica compensa a judiação do esforço físico. Adoro tal ambiente, a-do-ro. Quando Fatima percebe que estou filmando faz um gesto de ok mas perde o equilíbrio, hahahaha!! Essa guria me diverte muito. É engraçada sem querer. O pedregoso leito do rio, até então irregular, transforma-se num lajedo facilitando a caminhada até o beiral da quinta cachu. Está é das boas: 100 m de queda livre. Daqui já se pode avistar o paredão sudeste do canyon Josafaz. Contudo, pouca demora, se eleva do interior do canyon um nuvaredo, impedindo que se continue curtindo a paisagem. Necessário fazer 2 breves rapeis de aproximação. O primeiro, do final do lajedo até a borda mal sustenta os dedões dos pés, hehe. Pendurada na parede, olhando pra baixo, nem acho tão alto assim os 90 metros que me separam do chão. Tudo uma questão de perspectiva. Nos 10 m iniciais, desço em meio a um matinho enfezado grudado na rocha. Ultrapassada a miniflorestinha, o paredão exibe-se liso, sem vestígio de vegetação. Começa então a descida em negativo. Tento impedir que meu corpo rodopie livremente mas sou vencida pela força da corda. Acontece então o que temo: de costas pra parede não há como não encarar o vazio. Controlo o nervosismo respirando profundamente. Vez por outra até ouso brecar a corda de modo a contemplar, já com certa serenidade, a paisagem (mas sempre terei medo de altura, sempre). Após breve parada no largo platô, rapelo rapidinho os 20 m restantes, arribando no fundo do poço, raso que nem poça d’água, hehe. Apesar do medo, tanto que ela pediu pros guias não avisá-la quando chegasse na de 100 m, Laura desceu com galhardia a cachu. A essas alturas, Andre já exibe sinais evidentes de cansaço embora seu bom humor espante qualquer sinal de irritação provocada pelo cansaço. E quando paramos pro almoço, comenta que se pudesse escolheria um lugar tipo termas do Gravatal. Vem, contudo, na parceria, acompanhando Laura. Ela, por sua vez, não dá a mínima pro mimimi do namorado quando ele se queixa de dor na costela (o coitado caiu umas trocentas vezes nas pedras). Ala putcha, que durona a paraibana. Vai ver, é por isso que o homem gamou nela. Exemplo a ser seguido Laura, hehe. Começa a chover, ai ai ai. Quando chegamos na 6ª e 7ª cachus, com respectivamente, 20 e 55 m, somos obrigados a dar um balão na mata. Impossível encarar um rapel nelas. As duas cachoeiras formam um brete estreitíssimo e por causa do chuvaral de 3 dias atrás mais o de hoje estão bombadíssimas. Kaloca improvisa, então, no paredão norte da garganta, coberto de mato, um rapel com parada num tronco de árvore por onde descemos. Quando chego a terra firme, olho e percebo quão lindo é este lugar: a cachu de 55 metros desce verticalmente iluminando com a brancura de suas águas a grota escura por onde jorra. Infelizmente, acabou a brincadeira com as cordas, rapel nas restantes cachus nem pensar. Tão muito cheias. E dale a caminhar, ora pelo mato ora retornando ao leito do rio. Finalmente encontramos a trilha que leva à margem esquerda do Josafaz. Que por sua vez está com um considerável volume de água. Cruzamos o rio, entrelaçando as mãos em corrente. Ao chegar na casa de Zé Fernandes, Pauleca e Alberi já lá se encontram. Mas as emoções continuam porque, de dentro duma caixa de isopor, Flavio retira um espumante e várias taças, hahaha!!! Brindamos à vida, à deliciosa indiada e às futuras!! Que vengam otras!!

Um comentário:

flavio getulio Lima disse...

eheheheh..massa Bia! muito boa a leitura e essa indiada conteza fica na memoria daqueles q tiveram..hihihihi..Grande Abraço