domingo, 2 de março de 2014

Carnavalizando Montevideo

Aproveito a festa pagã mais badalada pelos brasileiros pra fazer uma aventurazinha: pedal no Uruguay organizado pela Rota Sul Adventure (http://www.rotasuladventure.com.br). Fatima, que chegara de Curitiba na quinta à noite, recusa, pra meu espanto, o vinho que sirvo durante a janta. Recente seguidora duma doutrina, a tal de Dianética (que mais tarde venho a descobrir ser nada mais nada menos do que a Cientologia), explica que deverá guardar abstinência durante o tempo do tratamento que durará sei lá quantas semanas. E ela começou - dá pra acreditar? - antes da viagem!! Deus que me livre, mas por que essa maluca não deixou pra começar o tratamento após o pedal, santo cristo!! Cá, com meus botões, duvideó que ela vá resistir até o final de nossas pequenas férias. Já no espírito do feriadão, resolvo, na sexta, promover um esquenta esportivo, introduzindo Fatima nos embalos de minha mais nova curtição: o stand up paddle. Pegamos as bicis e nos tocamos até a SAVA, clube náutico situado às margens do Guaibão. Remamos uma hora e quando estamos terminando a atividade aquática, entra, de redomão um vento sudoeste marolando as até então tranquilas águas do rio. Por pouco não levamos um calço da ventania. Na madrugada de sábado, após Edgardo pegar um pessoal no aeroporto, emendamos BR 116 com BR 471,  rumo ao Chuy. Após os trâmites na fronteira, seguimos pela Ruta 9 até Montevideo onde arribamos por volta de 11 horas. No grupo de 35 pessoas, predomina a gauchada. No mais, curitibanos, paulistas e um deslocado magrão chinês. O busão estaciona em frente ao mercado do porto, onde iremos almoçar. O movimento é intenso: centenas de turistas desembarcam dos transatlânticos em rápidos city tours pela cidade. O prato escolhido pela maioria, por supuesto, é a indefectível parrilla. Peço, porque sem chance de roubada em termos de maciez, entrecot e papas fritas. Regado com um encorpado tannat, vinho tinto muito bem pisado pelos uruguaios! Ed oferece duas versões de pedal. O tour pra quem quer fazer compras e rodar sem pressa, outro mais forte pros fominhas. Em que ainda me incluo, aleluia!! Nosso objetivo é o Cerro, uma colina de 132 m acima do nível do mar, situada no outro lado da baía de Montevideo. Ali, no início do século XIX, foi construído El Fuerte, com o propósito de defender a cidade dos invasores. Bueno, seguimos, inicialmente, em direção ao Prado, bairro cujo apogeu ocorreu no século retrasado quando a aristocracia uruguaia escolheu as imediações do arroio Miguelete para construir casas de veraneio. Fazemos uma parada no Jardim Botânico e passeamos por entre suas alamedas arborizadas, usufruindo da abundante sombra de seus corredores. Uma pausa bem vinda já que o calor não se mostra nada tímido. O tipo de pedal? Urbano, por supuesto, cabrón! Afinal, estamos no centro da capital uruguaia, trafegando ao longo de calles, avenidas e boulevards. Ainda que sábado, véspera de feriado de carnaval, o movimento de carros não é desprezível. Contudo, o bom de pedalar em Montevideo, em qualquer circunstância, é a educação dos motoras. Observam, via de regra, a distância de 1,5 m que deve ser mantida em relação às bicis. Quando entramos nas vias rápidas, me torno uma Armstrong de saia. Motivo? O medo, hahahaha. Me cago toda com o fuzuê de carros zunindo a 100 km/h mesmo que seja a 2 metros de distância dessa senhorinha que vos escreve. Em chegando ao Cerro, não deixo de notar que muitas ruas ostentam placas homenageando países como Rússia, Etiópia, Bélgica, Suécia, China e outros tantos mais que há neste planeta. A vista é panorâmica do alto da colina. Vislumbra-se em 360º a baía de Montevideo, distinguindo-se perfeitamente o enorme prédio da Aduana e sua azulada cúpula em formato ogival. Um transatlântico zarpa do porto em direção ao “Rio de La Plata de color marrom”, tomando de empréstimo esse excerto de Ya No Duele, belíssima canção interpretada por Bajofondo. Retornamos ao ponto de partida, o mercado. Meu relógio Garmin marca 37 km dum pedal sem grandes esforços já que a elevação máxima foi 123 m (http://connect.garmin.com/activity/456001067). Após o desmonte das rodas dianteiras das bicis, deixamos Montevideo rumo a Colonia Del Sacramento onde pernoitaremos 3 dias. Nem me dou conta de que é Carnaval.

Acordo domingo em Colonia e vislumbro da janela do quarto do hotel um céu azulão, esbranquiçado aqui e ali por nuvens esfiapadas. Na medida certa pra se obter boas fotos. Além de fotogênico, o dia promete ser quente. Coisa boa...adoro! Retornar a essa adorável cidade, onde estivera há 2 anos atrás pedalando com uma amiga, é bom demais. O programa, pela manhã, é ameno. Pedal de 4 km até o centro histórico onde, graças a deus, ainda abundam charmosas construções, remanescentes dos tempos coloniais quando espanhóis e portugueses fincaram os dentes em contínuo revezamento até 1828, data da independência do Uruguay. Não acompanho o grupo no breve tour pelas vielas da ciudad vieja. Já as conheço. Prefiro fazer companhia à Dieini, intitulada, carinhosamente por mim, primeira-dama da Rota Sul Adventure. Não só por ser mulher de Edgardo, proprietário da agência, como pela sua postura elegante. Em frente ao portão de armas que guardava a vila em tempos dantanhos, tagarelamos as duas num conversê descompromissado. Quando o grupo chega da visitação, eu, Fatima, Greice, Denise, Marcio, Elke, Ana, Marcus, Silvia e Ju partimos em busca de algum restaurante onde almoçar. Escolhemos um de esquina, onde nos acomodamos,  ao ar livre, por supuesto! O dia está esplêndido. À nossa frente, a igreja do Santíssimo Sacramento, caiada de branco, confere um ar vetusto às nossas libações alcoólicas. No ar, a vibrante execução musical duma dupla de violonistas. Em uníssono, escolhemos a tradicional mistura montevideana de espumante com vinho branco, conhecida como medio-medio. A vida continua bela embora minha bicicleta nem mais seja amarela. Pena que quando voltamos ao hotel, não dá tempo pra curtir a piscina externa de onde se descortina a rambla e o rio de La Plata, porque o pedal até a Villa Celina inicia daqui a 30 minutos. Ed divide o grupo em 2, como sempre. Aqueles que não querem se puxar e os que amam suar e inchar as coxas. Como ainda tenho forças, apesar de já ser uma senhorinha de ½ idade, acompanho os do pedal forte. Na saída de Colonia, contornamos as muralhas da Plaza de Toros, construção inacabada já que matar touros, nos dias que correm, é considerado politicamente incorreto. Bueno, pouca demora, ingressamos numa estrada de chão batido. Vamos quase até às margens do rio San Juan onde os endinheirados uruguaios possuem casas de veraneio, inclusa aí uma das residências presidenciais. No final da tarde, um vento forte torna o pedal mais exigente. Toco uma marcha mais leve na bici embora o terreno seja plano. Bota melhora na performance. O jantar na tal estância demora pra caramba a ser servido. E como prato principal, costela. Não consigo entender o porquê de os gaúchos tecerem tantas loas a esse osso com tão minguada e dura carne. O que salva do fiasco – no meu entender - a tal janta é o vinho. Tannat, por supuesto! Voltamos a Colonia de busão porque o povo depois da comilança arriou embora o roteiro original previsse retorno de bici. Contudo, não há do que se queixar: meu relógio marca 48 km (http://connect.garmin.com/activity/456001046). Quando chegamos ao hotel, eu, Fatima e Ju nem pensamos em dar um bordejo até o centro da cidade na intenção de conhecer “la movida colonense”. Estamos cansadíssimas. Assim, Ju e eu, ocupando a sala, cada uma deitada em sua cama (à Fatima coube o único quarto) exercitamos nossas línguas com vigor e alegria até 2 da madrugada. O assunto? Homens, por supuesto! E um tiquinho, só um tiquinho, de maledicência sobre a vida alheia.

3 comentários:

Miriam Chaudon disse...

Hahahahaha!!!! Adorei o final do texto! Que linda festa pagã a sua, Bea!

denise carneiro disse...

Endosso cada palavra...kkkkk aguardo mais descrições sobre o maravilhoso passeio.

denise carneiro disse...

Adorei! Aguardo mais!