domingo, 22 de julho de 2012

Merda....queria tanto esse cume!

Acordo tarde no sabadão, com uma baita preguiça. Tenho, por motivo óbvios, uma bela justificativa. Não só a altitude deixa a gente molengona, como ontem culminei um 5 mil. Mereço, portanto, um dia de dolce far niente, ou num bom português, de ficar só na vadiagem. Dum azul imaculado, gostaria de riscá-lo não fosse tão inalcançável esse mata-borrão conhecido como céu. Na hora de meu sagrado alongamento, Sabrine, Marquitus e Davi resolvem me acompanhar. Claro está que Davi, como não podia deixar de ser, se queixa da insolente flatulência que o vem azucrinado desde que pisou em solo boliviano. Os demais fotografam e tiram sarro de Marquitus (porque é o mais jovem integrante da ala masculina, os demais, um bando de prevalecidos, se arriam no gurizinho) por causa de certas posições - digamos assim - um tanto quanto ginecológicas que resultam de alguns exercícios. O rapaz, cabra macho, sim senhor, nem se abala com tais picuinhas. O vento, até então uma simples aragem, se intensifica. E a leve brisa se transforma em rajadas curtas e fortes. No almoço, trutas (recém pescadas na laguna Chiarkota, estão fresquitas) servidas com fartas porções de batatas fritas fazem a galera delirar de prazer. Dos deuses esse prato! Como é usual, dale conversa fiada, terminada a refeição, embora a temperatura na tenda-refeitório seja saariana, atingindo a marca dos 37º C! E olha que estamos a 4.700 m! Resisto até certo ponto, porque, afora o calor, nada a ver prolongar ainda mais minha permanência, sentada nestes desconfortáveis banquinhos de campanha. Não há coluna vertebral que lhes resista! De pancinha cheia, tomo o rumo de minha tenda. Melhor posição que a horizontal pra fazer a digestão está pra ser inventada. Avanço mais um pouco na leitura em espanhol de Corta Fuegos, escrito por Henning Mankell, um sueco a quem considero um dos grandes mestres da atual literatura policial, quando escuto “baterem” à porta. É o bom Marquitus, convidando-me a ir até a laguna com eles. Próximo à margem, num barco, um casal de paulistas mais o guia se preparam pra pescar trutas. Fico sabendo depois que a guria é a Belle Duarte, escaladora paulista, que dois dias depois fez cume no Cabeça do Condor. E conheço outro escalador, o Bruno, que fornece dados interessantes sobre umas montanhas pouco frequentadas nas cercanias do Illampu. Na noite estrelada, desponta o fino crescente lunar entre a Cabeça do Condor e sua Asa Esquerda. Pena que não vou vê-la cheia. Deve ser uma beleza ela bem redonda refletindo aquela brancura fulgurante nas águas escuras da laguna. Cesso minha divagação, meio que a contragosto, e trato de dormir. Amanhã tem atividade...ebaaa!!!
Embora sejam 3 da manhã, estou na ponta dos cascos, tanto que saio do saco de dormir, rapidinho. Não há melhor estímulo pra curtir este domingo faceiro que escalar uma montanha. A bola da vez é o Pirâmide Blanca, outro 5 mil. Sinto-me forte e muito afinzona de fazer este cume. Dessa vez, do grupo, sou a mais fraca, motivo por que Davi decide que irei solita com Marco Antonio, ao passo que Jamil, Patucci, Tato, Renato e Rafael serão guiados por Fred, Davi e Mario. Saímos do acampamento 4 horas, já que o Pirâmide, situado antes do Tarija, demanda menos tempo. Demora pouco, o dia clareia, e o sol começa a dar pinta bem a nossa frente. Já durante a caminhada entre o acampamento e o glaciar, eu voltara a sentir o mesmo incômodo no peito do pé esquerdo que me aperreara na sexta-feira enquanto descia o Tarija. Tsk tsk tsk....nada bom isso! Calçados os crampones, subimos a íngreme rampa de gelo onde tem início o glaciar. O caminho já me é familiar. Afinal, é a minha terceira investida nestas paragens! Delimitado o glaciar a oeste pelo cerro Huallomen e a leste pelos cerros Aguja Negra, Ullusion e Illusioncita, avisto 400 m adiante, o pontinho escuro conhecido como cerro Diente. À sua direita, sobressai a imponente Pirâmide que de Blanca só no nome. Em tempos de aquecimento global, suas rochas escuras encontram-se pouco escondidas pela neve. E a merda da bota insiste em continuar machucando meu pé. Marco Antonio, atencioso, desaperta os cadarços dos botinões. De nada adianta. A porra da bota não dá refresco. É penoso caminhar assim, desse jeito. Após consultar meus botões, me dou conta de que pra fazer cume não basta apenas subir, há que se descer, cabrón! Jogo a toalha, ou melhor, dou meia-volta volver, após já ter palmilhado 1/3 do percurso. Se já é difícil caminhar num terreno acidentado como o de alta montanha, imagina fazer isso calçando equipamento fodido. Magoa o pé e também o ânimo! Chego à conclusão que se a desistência do Alpa não me abateu foi porque houve uma aceitação legal de minha limitação física. Mas ser obrigada a deixar pra lá o Pirâmide, por causa dumas botas de merda, ah, isso não! E dói mais porque eu estava imprimindo um ritmo forte de caminhada. Nem iria ficar muito atrás dos guris! Enfim, vivendo e aprendendo. Na próxima vez, não serei pão-dura, cuidarei, isso sim, de alugar um bom equipamento! Encontro na descida Fred e Davi que recém estão subindo, tudo porque estavam tendo problemas com os crampones. Perguntam o que há, explico e desejo-lhes bom cume. Enquanto se distanciam, escuto o conversê animado dos dois diante da perspectiva de mais uma aventura. Sinto, então, uma ponta de inveja do que eles enfrentarão e eu não...droga!! Durante o descenso, Marco Antonio conta que, ano passado, um dos instrutores do CAP (Clube Alpino Paulista) desistiu do Pirâmide devido ao cansaço. Fico super reconfortada com tal informação, porque essa galera do CAP é bem casca grossa. Seu treinamento tem uma levada de estilo militar. Tanto que, este ano, um deles luxou feio um ombro e teve de antecipar seu retorno ao Brasil. Quando chego ao acampamento, Oliver, Marquitos e Sabrine, que decidiram deixar pra lá o Pirâmide devido ao cansaço dos cumes conquistados na sexta, curtem uma caracará expulsar a bicadas o filhote do ninho. Ele, insistente, bem que tenta voltar. Ela não arrega, emite uns pios e barra-lhe, em definitivo, a entrada ao ninho doce ninho. Cá entre nós, mas como o bicho homem é cheio de dedos em relação à prole, não é mesmo? Muitas vezes sua tolerância é tanta que as crias saem de casa já quase idosos. No mundo animal, inexiste esse sentimento deletério conhecido como culpa! Por isso, na próxima encarnação, por Buda, quero retornar nem que seja na pele duma ameba. Sentados ao sol, ficamos jogando conversa fora até que um vento frio nos empurra pra dentro da barraca-refeitório. Pouca demora, lá vem Yolita trazendo um panelão – ebaaa – de sopa de legumes bem quentinha. À tarde, pela primeira vez nestes 6 dias em que estou no Condoriri, surgem nuvens cinzentas no céu. Cogita-se inclusive a possibilidade de queda de neve, caso a quantidade de nuvens teime em aumentar. Qual o quê, tudo falso alarme, porque, tão logo escurece, se vê o céu coalhadim de estrelas e uma lua crescente, já bem mais taludinha, brilhando lindaça sobre o Condoriri. Vidinha mais ou menos essa, né?
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Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Amiga, me encanta admirar as fotografias de suas viagens! Que fotografias mais lindas!!!!
Você é muito boa nos "clicks"!!!!!!!