quarta-feira, 18 de julho de 2012

E vengan las montanhas!

Até então o soroche não havia dado pinta. Eis que, durante a madrugada, acordo com dor de cabeça e leve náusea. Sem falar do puta frio (a sensação é de ter não 2 pés e sim 2 barras de gelo nas extremidades inferiores) que sinto já que a droga de meu saco de dormir não me agasalha o suficiente. Nem sei o que é pior: se a gélida temperatura ou os incômodos provocados pela altitude. Juro que não me entendo. Faz tempo que venho pras montanhas e não to-mo ten-to: insisto em usar o mesmo saco vagabundo adquirido uns pares de anos atrás. Por quê, meu bom deus, tu ainda não comprou um saco decente feito com plumas de ganso, hein, senhorinha de ½ idade? Dá pra explicar ou será um jeito mesquinho de expiar teus pecados hein criatura? Vá lá saber....vixeee!! Bueno, quando acordo me sinto bem melhor. Paira tão-somente uma leve pressão na cabeça, o que já é lucro. Em se tratando de dor de cabeça, mulher é casca grossa porque a maioria sofre desse desconforto desde quando - guriazinha - começa a menstruar. Assim, o organismo vai se blindando estoicamente à dor. Quando olho pro céu, azul, sem qualquer vestígio de nuvem, me dou conta de que sou uma privilegiada por estar rodeada de tanta belezura. Cintia, Bruna e o namorado estão partindo pro Peru. Lastimo que o convívio com a mulher de Marski tenha sido tão breve. Instrutora de Pilates, atividade que pratico há 8 anos, adoraria ter trocado idéias com essa profe sobre o assunto. Terminado o desaiuno nos tocamos até o Tarija onde faremos treino sobre o glaciar. Considerando que os Andes têm 8.000 km de extensão e, em certos trechos, 160 km de largura, a Cordilheira Real tem medidas modestíssimas: 125 km de comprimento em 20 de largura. Compreendida entre o lago Titicaca e La Paz, os nevados que a delimitam são o Illampu, ao norte, e o Illimani, ao sul. O maciço Condoriri, distante 60 km de La Paz, situa-se justo na metade dessa subcordilheira andina. Deve esse nome porque, dentre os 13 picos que o formam, todos na cota dos 5 mil, um deles exibe formato semelhante a de um condor de asas abertas. Depois do Huayna Potosí, o Condoriri vem a ser a região mais procurada por quem está iniciando ou já tem algum conhecimento de montanhismo. Europeus e americanos são figurinhas fáceis de serem encontrados aqui, pois o grau de dificuldade pra fazer cume é médio, mesmo quando se trata de picos mais técnicos como Cabeza de Condor ou Alpamaio Chico. Após atravessar uma zona coberta de douradas tsampas (espécie de tundra altoandina), drenada pelo fino caudal do rio Condoriri, ingressamos no árido terreno irregular coberto de cascalho até a base do glaciar. No meio do caminho, paramos pra observar a estreita canaleta Wayoming que conduz à Asa Direita do Condoriri. Um dos rapazes, muito gentil, oferece-me um de seus bastões, o que aceito, aliviada. Cabeça de vento que sou, esqueci os meus em Porto Alegre. Meu relógio Garmin registrou, do acampamento aos pés do glaciar, uma distância de 2,5 km feitos em 2 h 15 min. Tão cansativa foi a pernada – agora, sim, tô sentindo à beça os efeitos da altitude - que quando chego duvido se vou dar conta de treinar. Ainda mais tendo de usar botas duplas de plástico com crampones. A preguiça é incomum. Maledeta altitude....arghhh!! Sacudo a preguicite e, com certo esforço, faço os exercícios que consistem em subir e descer a rampa inicial do glaciar cuja inclinação gira em torno de 30 a 40º. Cansada, dou por encerrado meu treino e passo, então, a prestar atenção na turma. Como sempre sói acontecer em esportes de aventura, a ala feminina é minoria: apenas eu, outra cliente e a cozinheira. Já o macharedo é presença acachapante. Evidente que meu olhar bate inicialmente em Davi Marski. Com sua presença carismática, o líder da expedição se impõe de imediato. Esse paulista, que trocou sua bem sucedida carreira de profissional da informática pela incerta atividade de guia de montanha, tem uma bizarra fixação por seu estado de permanente flatulência (na altitude, tal fenômeno intestinal se potencializa de forma constrangedora). Assim, faz questão de propagandear cada lançamento de seus petardos fétidos. Que são vários e diversos por dia. O contraponto do escatológico Davizinho é o discreto Fred, seu lugar tenente. O fleumático carioca nem tenta fazer sombra ao seu esfuziante amigo. Como em todo grupo, há a turma dos quietinhos e a dos salientes. Claro está que Marski ocupa o primeiríssimo lugar no ranking dos exibidos, seguido de Marcus, o Marquitos, um pernambucano de 23 anos, cujo temperamento levemente arretado, não o impede de revelar um que de ingênuo. Marquitos, vez por outra, é alvo da zombaria elegante de sua namorada, a adorável Sabrine. Dona de lindos olhos verdes e um corpitcho delgado que nem vara de bambu, esta guria, na flor de seus 21 aninhos, torna-se musa da rapaziada. Já Tato, embora pertença à tribo dos que entra mudo e sai calado, ostenta, mesmo de manhã cedinho, um sorriso legal no rosto. Renato e Rafael, muito focados, dão a impressão que irão detonar todos os cumes que encontrarem pela frente. Este último, não só pelo físico, desmilinguido, como pela risadinha, lembra um daqueles personagens de desenho animado, Beavis e Butt-Head. O fortão da turma é Patucci, nosso consultor sobre problemas de saúde, graças ao seu diploma de veterinário. Ele e Marski são os nossos paramédicos, hahaha!! Oliver, venezuelano, cursando pós-graduação em engenharia aeronáutica no Brasil, tá penando pra se aclimatar tanto que, durante a pernada, o cara não caminhou, se arrastou igual lesma. Enquanto esperamos ele chegar ao glaciar, fofocamos que talvez ele não dê conta de cume algum amanhã. Por fim, os guias bolivianos, Mario e Marco Antonio, completam a trupe. E claro, não dá pra deixar passar em brancas nuvens a peça fundamental em qualquer expedição que se preze: a cozinheira! Com suas tranças quase alcançando o bumbum, Yola, como é conhecida a índia Yolanda, exala cordialidade e bom humor invariáveis, esparramados num corpo generosamente carnudo. Considerando as condições precárias duma cozinha de acampamento, os cozinheiros fazem milagres. Yola não foge à regra: prepara pratos deveras saborosos. Apesar do bom jantar, estou sem fome alguma. Esforço-me pra provar a sopa e o macarrão. Na sobremesa, banana frita, mal toco. Quando me retiro pra barraca, sou brindada com um cenário deslumbrante: o céu furadinho de estrelas. Vidinha mais ou menos, né?

2 comentários:

Miriam Chaudon disse...

Adoro quando retiras lá do fundo do baú palavras inusitadas! Dão um toque especial nas suas aventuras!!!

cintia marski disse...

Bea! Que texto delicioso de ler! Gargalhei com a descrição da turma!