segunda-feira, 23 de julho de 2012

Acabou-se o que era doce!

Embora já sejam 8 horas e a manhã esteja lindamente azulada, a gélida temperatura castiga meu corpo. Tanto que, quando vou escovar os dentes na bica, congelo rapidamente os dedos e uma puta dor açoita minhas mãos durante 20 minutos. Yola serve um desaiuno à boliviana: api, beberagem obtida da fermentação do milho escuro, temperada com limão e canela, e buñuelos, massinha doce frita (equivalente às cuecas viradas). Em todas as viagens, rola sempre o mesmo sentimento de desolação quando vejo a movimentação dos guias e arrieros desarmando as barracas e colocando as bagagens nos lombos das mulas. Não é nada muito profundo, apenas uma sensação desagradável. Quem gosta, hein, de finais de festas, ainda mais quando o farrancho foi de arromba, não é mesmo? E expedições, no meu entender, significam exatamente isso: uma festa em movimento! Daí sentir-me macambúzia quando terminam. Voltamos pela mesma trilha por mim percorrida quando aqui cheguei há 7 dias atrás, a de Rincón. Posso assim curtir o cenário cuja visão me  fora furtada porque na vinda caminhara à noite. Durante a descida, surge, no fundo do vale, a pequena laguna Jankokota em cuja margem algumas lhamas pastam. Menos de 1 km adiante, jaz a laguna Kallankota que exibe, em seu espelho d’água, o branco reflexo invertido da Cabeza del Condor. Em alguns trechos da trilha, as águas do rio Condoriri ainda se encontram congeladas. Tudo porque durante as madrugadas a regra é a temperatura despencar alguns graus abaixo de zero. A duração da caminhada não chega a 1 hora, terminando na comunidade de Rincóncito. Vivem no lugar 4 ou 5 famílias de pastores de lhamas. Essa atividade pecuária é a principal fonte de sobrevivência dos índios do altiplano boliviano, embora, a cada ano que passe, o trabalho de arrieros (feitos majoritariamente pelas mulheres) engrosse substancialmente o magro orçamento familiar. A nossa espera, um ônibus amarelo lembra aqueles school buses de filmes americanos. Um bando de lhamas tangido por duas índias passa diante de nós. Pouca demora, os índios colocam uma corda à volta do rebanho, improvisando um cercado, enquanto gritam em aimará palavras de ordens entre eles e pros bichos. Nem as mulheres, carregando às costas seus bebês, enrolados em panos coloridos, se furtam da função. Embarcamos no velho ônibus cujos assentos duros tornam mais desconfortável a sacolejante viagem ao longo do esburacado trecho de chão batido. Antes de chegarmos a La Paz, uma parada em El Alto, a convite de Jenaro. Tudo porque o amável boliviano quer obsequiar seus clientes. E, pra isso, oferece, embora singelo, um delicioso almoço. Galinha e batatas assadas além de saladas são servidas num terraço. Esparramado a nossa frente, desfrutamos a visão luxuosíssima do Illimani. Que beleza! Davi, vegetariano de carteirinha, cisca no prato dos outros o tomate, a alface e a batata, renegados, sem qualquer pudor. Muito irado esse Marski, hehe.... À noite, celebramos nossas conquistas num pub bem maneiro que fabrica sua própria cerva, o Heineke Fuks. Servida em canecões  de 1/2 a 3 litros, o cardápio oferece uma original caneca em formato de bota! Como não sou chegada nesta beberagem, vou de vinho. Peço um Cabernet Sauvignon, da Campos de Solana, vinícola boliviana que produz buenaços vinhotes feitos na província de Tarija! Harmoniza as mis maravilhas com o prato que pedi: um estrogonofe de carne de lhama com massa. Rafael lá pelas tantas surge todo pimpão escoltando duas belas gurias. Rola um certo alvoroço entre os rapazes e não demora muito para que Renato se desloque até a ponta da mesa onde o grupinho se encontra. O que não é de se estranhar! Afinal, na nossa expedição, as únicas duas mulheres são inalcançáveis. Uma não atrai – euzinha - porque é uma senhorinha de ½ idade, a outra – Sabrine -, embora atraente e jovem, está comprometida. O conversê torna-se mais animado à medida que mais canecas de cerva são depositadas sobre a mesa. Porém o estado de euforia não se deve exclusivamente ao álcool. A bebida apenas estimula o lado fanfarrão que, dependendo do temperamento de cada um, se manifesta com mais ou menos ímpeto. Pensando bem, nem se cuida tanto de fanfarronice e sim de vaidade por praticar um esporte que apenas uma minoria, no planeta do futebol, se dedica. Acontece às vezes de os perrengues sofrerem um engrandecimento significativo, em especial quando o sujeito usa poderosa lente zoom ao narrar suas façanhas, como já tive oportunidade de constatar. Claro que deve ser considerado o lado subjetivo de cada situação. O que é difícil pra mim, não é pro Joãozinho e vice-versa. Enfim, não sem razão, todos nós estamos prosas. Caramba, cada um de nós papou de um a três cumes em 7 dias, oigalê!!
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Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Bea, gostei muito da sua percepção e sentimento sobre as expedições : " uma festa em movimento".