sexta-feira, 20 de julho de 2012

...dos cumes!

Acordo às 02 da madruga com céu estrelado e - 6ºC. Em se tratando de alta montanha, tal temperatura é ameníssima! Uma merda andar com bota dupla de plástico em terreno irregular e pedregoso, tanto que durante a caminhada até o sopé do glaciar Tarija, pareço um robô devido à perda de flexibilidade na região dos tornozelos. Em lá chegando, calçamos os crampones e nos encordamos ao guia Marco Antonio que segue à frente de nosso pequeno grupo. Decidem que eu por ser a mais lenta vou atrás do guia dando o ritmo da caminhada. Nem discuto, deixo quieto, embora internamente, reine a firme convicção de que Sabrine é a mais lenta de nós três. Há algum tempo atrás eu me incomodaria, e muito! Atualmente, o que importa é subir bem, ou como diz o Marski, caminhar como um velho pra chegar como um jovem ao cume, hehe. Duas vezes paramos devido a problemas nos crampones de Marquitos. Meus pés, até então quentinhos da caminhada, esfriam durante a espera....merda! Após três horas de subida constante, começa a clarear e consigo visualizar, emoldurado por duas montanhas, o Huayna Potosi. Abaixo, no vale, a laguna Chiarkhota destaca-se entre os cerros que a cercam. No mais, impera a brancura ofuscante do glaciar refletindo a jovem luz matutina. Coberta de pequenos penitentes, o cenário do glaciar está distinto do ano passado, dificultando mais ainda o ascenso à íngreme rampa que conduz ao platô, situado a 50 m do cume do Tarija. Justo neste local, Sabrine tem um acesso de choro. Arriada no gelo, é a própria imagem do desconsolo, declarando que não quer mais continuar. Marquitos, inconformado com a decisão da namorada, tenta dissuadi-la, o que gera um pequeno entrevero entre o casal, com ele insistindo e ela negando-se em prosseguir. Se Marco Antonio não intervém, o bate-boca iria se estender sabe-se lá até quando. Graças a deus, ou melhor, a Marco Antonio, a rusga é interrompida. O guia toma as rédeas da situação e convence Sabrine, com seu jeito manso e tranqüilo, em continuar a jornada. Usa para tanto o manjado argumento “é logo ali”. Só que o “logo ali” demorou bem uns 40 minutos, hehe. Vou fazer um pit stop na narrativa pra tecer algumas considerações sobre as causas prevalecentes dos sucessos ou fracassos em alta montanha. Até ano passado, eu concordava com a “corrente do fator psicológico” cuja tese defende que, se o cara “amarelou”, foi o emocional que o impediu e blá, blá, blá. Este ano, contudo, revejo meu ponto de vista e tenho pra mim que se atribui exagerada importância ao emocional em detrimento do condicionamento físico. Ora, ora, se neguinho tá fora de forma, não há força de vontade que o leve ao cume. Equilíbrio mental não se adquire enquanto se está na montanha! Ou se tem ou não! Com esta afirmação, longe de mim, passar a impressão que menosprezo o aspecto psicológico, só não! Apenas quero destacar também o lado - digamos, assim, mais material da questão - físico. Ah...e aproveitando o ensejo, ponho na roda uma qualidade moral meio fora de moda, ou melhor, totalmente “out”, chamada estoicismo, sem a qual atletas ou aventureiros chegam a lugar nenhum, tá ligado? Bueno, o caso de Sabrine é emblemático. O estresse emocional foi resultado de seu esgotamento fisico, tanto que posteriormente admitiu, que necessitava de mais preparo físico. Se não fosse a atitude de Marco Antonio, incentivando-a com as palavras certas, ela teria retornado ao acampamento sem fazer cume. Ciente de que este assunto rende muita polêmica, trato rapidinho de retornar aos 5.300 m do platô que antecede os cumes do Tarija e do Pequeno Alpamaio. Daqui a visão da Cordilheira Real é, sem sombra de dúvida, considerada unanimemente bela. Não só dezenas e dezenas de cerros localizados ao sul, quanto as espalhadas encostas do Huayna Potosí, ao norte, são avistadas. Se a visibilidade estiver 100%, e o sujeito for dotado de olho de águia, periga enxergar inclusive o Illimani. Depois duma curta pausa, de modo a recuperarmos o fôlego, continuamos a ascensão. Agora já pertíssimo da estreita crista (o crux da via) que me separa em 10 m do cume do Tarija, escuto risadas e percebo acenos daqueles que já lá estão. A travessia exige cuidadosas passadas com os crampones: uma após outra, sem pressa, de modo a evitar que as pontas se cruzem. Se isso acontecer, periga você tropeçar e cair. Claro está que uma queda no vazio é bem improvável porque, afora a gente se encontrar sempre encordada ao guia, os caras são super treinados e dotados de muuucha força física. Qualquer resbalão, eles te seguram forte, impedindo conseqüências mortíferas. O mínimo que pode acontecer, afora o cagaço, é sofrer alguns hematomas. O mais grave? Algum(s) membro(s) quebrado(s). Como ainda tenho bastante medo de altura, me atrapalho um pouco com os crampones mas logo venço o último degrau e, ulálá, estou enfim encarapitada no topo do Tarija. Pela primeira vez, dá pra acreditar? Ano passado, ledo engano, quando eu pensara tê-lo conquistado, alcançara apenas o seu antecume, o tal platô onde estivera há pouco. Sinto uma puta raiva quando me dou conta do baita equívoco. E põe baita nisso. Tudo resultado da “boa” - arghhhh!!! - comunicação entre mim e o baixinho do meu guia, aquele nanico ignorante, aquele ser praticamente analfabeto que mal sabia falar espanhol, quanto mais entender meu “castiço” portunhol!!! E eu que ainda tive a soberba de proclamar em alto e bom som que achara o Tarija sem graça...pode?! Ai meu deus, que vergonha...puta merda, meu, que horror! Fico de cara comigo mesma. Totalmente desavisada e desorientada eu. Nunca vi igual. O que esperar duma criatura que consegue se perder dentro dum shopping hein?! Dura pouco meu desgosto até porque agora tenho real motivo pra comemorar. Sem grandes espalhafatos já que sobrou pouca energia devido ao super desgaste físico. Acho ótimo quando verifico que apenas nosso grupo se encontra no cume. Caso houvesse mais gente, ia ser uma muvuqueira das mais apertadas, porque nós 13 estamos quase o ocupando por inteiro. O cume, de fato, não passa dum corredor estreitíssimo com pouco mais de 10 m de comprimento, coberto quase totalmente por neve firmemente compactada, salvo em alguns trechos onde afloram rochas graníticas. No lado que leva ao Alpamaio, um brete rochoso, ao passo que, no lado oposto, um precipício branco escancara um vazio duns 60 m. O contentamento circula entre nós, tanto pra quem fez cume pela primeira vez (e não é que Oliver conseguiu apesar das apostas em contrário?!) como pra quem já é macaco velho como Marski e Fred. Sempre bate uma emoção quando se está encarapitado num pico andino de mais de 5.000 m! Marski pergunta quem vai fazer o Alpa. Quando olho a super íngreme ladeira que leva àquele cume, desisto, após breve reflexão. Sem chance de eu encarar. Não vale a pena tanto sacrifício. Aqui, começo a traçar, não sem um quezinho de frustração, meus novos limites. Do grupo, Patucci, Tato, Marcus, Rafael e Renato encaram o desafio de subir essa jóia da Cordilheira Real. Os dois últimos, contudo, dão conta apenas da desescalada de 2º grau ao longo do corredor rochoso que sai do topo do Tarija e termina numa rampa de gelo. Seria moleza, caso não estivessem a mais de 5.000 m e ainda por cima, calçando crampones! Conscientes da debilidade de seus corpos, os dois guris retornam ao Tarija. Mais tarde, no acampamento, Patucci me dá uma ideia do que foi a escalada ao cocuruto do Alpa. Após o tal brete de pedras que desemboca numa rampa de gelo, segue-se outra desescalada, curtíssima, novamente sobre terreno rochoso, iniciando uma curta ascensão ao longo duma rampa de gelo que desemboca num terreno relativamente plano coberto de neve. Aí então inicia o perrengão dos 200 m de subida na rampa totalmente nevada cuja inclinação varia de 45º a 75º. Lindo ver Tato, Patucci e Marquitos mais os guias Mario e Marco Antonio enfrentando a penosa ladeira tão linda quanto técnica. Os guris não levam mais que uma hora entre subida e descida (rapelando), exceto Marquitos, o menos forte dos três. E fico de boca aberta, quando vejo Mario encaminhando-se lépido e fagueiro em direção ao cume, indiferente aos efeitos dos 5.000 metros acima do nível do mar! Chego ao acampamento às 14 horas, tão cansada que nem tento alongar. Também pudera! Na trilha, desde as 2 da manhã, após caminhar durante 9 horas, sobra pouca energia. Yola traz água e eu sedenta, bebo, avidamente, 3 copos um atrás do outro. Quero mais, mais e mais!! Cumbres, por supuesto, hehe !!
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2 comentários:

ronie disse...

que demais, o tempo estava maravilhoso, perfeito!

as fotos estao lindas... que invejinha

Miriam Chaudon disse...

Hahahahaha!!!! Fico aqui imaginando, minha amiga, nós duas desorientadas perdidas por trilhas e montanhas....eu admirando florzinhas e passarinhos e você distraída nos seus clicks fotográficos! Comédia.