segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A mula e as pipocas

Quando acordo a primeira coisa que faço é olhar meu termômetro-bússola que marca aqui dentro da barraca – 1ºC. Meus pés demoraram muiitooo a esquentar ontem à noite! Quando saio da barraca sou premiada com um visual incrivelmente lindo!! O solo branquinho, coberto de neve e um céu azul sem nuvem alguma com aquela bola alaranjada, deliciosa, que é o sol, brilhando firme e forte no alto. O maior barato. E finalmente consigo ver o Jomolhari, embora paire, encobrindo seu cume, um largo penacho de nuvem. Mesmo assim dá pra perceber suas largas encostas nevadas. De fato, é uma montanha muito imponente. Afinal, é um 7.000! Pois os queridos guris não montaram a mesa do café da manhã ao ar livre? Suponho que seja para que eu possa curtir o Jomolhari enquanto faço o desjejum. Só pode ser isso! Ah, mas não vai rolar. Bem capaz que vou comer aqui fora fazendo -3ºC! Peço delicadamente – ai de mim ofender a delicada suscetibilidade de Jigme Boy, já basta um faniquito, outro não vou ter muita paciência, não! - que a recoloque dentro da barraca-refeitório. Bueno, terminada a refeição, saímos, Jigme e eu, seguidos dessa feita não por Wangyel (seu dia de descanso de carregar mochila de almoço já que tem feito isso desde o início do trek), e sim por Nidup, o muleiro. Nossa meta é ir a Choro, situado a 3.800 m, que teria sido um de nossos acampamentos, caso houvéssemos feito a trilha Yaktsa. Infelizmente, o mau tempo não permitiu. Entramos num ensombrecido e cerrado bosque de pinheiros onde o sol ainda não penetrou. Belíssimo o contraste da neve cobrindo tudo ao redor com o verde escuro do pinheiral. A trilha segue a margem esquerda dum afluente do Rio Paro. As águas cristalinas do ribeirão ecoam murmúrios nervosos no silêncio da mata. Quando saímos do bosque e penetramos na vastidão dum espaço aberto, a paisagem torna-se luminosamente azul e dourada! À medida que nos aproximamos de Choro, avista-se ao norte Jichu Drakey, belíssima montanha cujo formato piramidal me encanta, tamanha sua perfeição, e, ao sul, o Passo de Takhung La. Apesar dos 10 km de pernada, nem senti o desnível de 200 m que conduz ao platô onde se localiza o acampamento pra quem faz a trilha Yaktsa. Além de Jichu Drakey, avistam-se várias outras montanhas nevadas igualmente belas. Almoçamos dentro dum redil de pedras destinados aos yaks. Ao largo, muitos deles pastam as ainda fartas pastagens. O saboroso almoço faz com que eu peça bis. Afinal, dá pra resistir à couve-flor ao dente, ao pimentão ensopado, à galinha desfiada e ao arroz com passas e castanhas de caju?! Agora 13 horas, o tempo está querendo se bobear...ai meu deus!! Nuvens começam a encobrir o sol e um vento frio sopra vez por outra. Esperemos que seja apenas um capricho passageiro de São Pedro. Voltamos pela trilha da margem direita que se encontra ensolarada já que escapa do bosque de pinheiros. Vejo um tanto de flores ao longo do caminho. São os últimos suspiros dos tempos amenos do outono. Delicadas prímulas de coloração violeta. Lindas elas! Do outro lado do rio, o sol já derreteu boa parte da neve que cobria tudo de manhã cedinho. Ao chegar ao acampamento Stupa lá pelas 15 e 30 horas, o Jomolhari ainda tem seu cume encoberto pelo véu de nuvens! Será o Santo Benedito que não vou ver o raio dessa montanha sem nenhum embaraço? E vejo, sabe o quê, comendo minha pipoca posta sobre a mesa do chá da tarde, montada ao ar livre? Uma das mulas, hahaha!!! Coisa mais querida!! Estou apaixonada por elas! Bueno, prefiro conversar quando estou parada. Caminhando não escuto direito já em português, imagina em inglês. E chega de quiprocós por causa dessa merda de idioma! Por isso, durante a janta, o papo cai sobre cerimônia budista de cremação, tema que considero fascinante. Jigme, já sabedor de minha condição de católica, faz uma interessante revelação: os cristãos são obrigados a enterrar seus mortos em lugares secretos! Segundo as leis budistas, enterrar é proibido (pensando bem, perigoso e anti-higiênico, não é mesmo?). Daí o motivo de todos serem jogados depois de cremados num rio. Quando saio da barraca-refeitório, aquecida pela boa janta feita por Sonam, a noite está deslumbrante! Estreladíssima, uma lua quase cheia brilha claríssima no céu. Apenas sobre o Jomolhari resta aquele odioso penacho de nuvens. E faz muito frio. A noite mais fria até aqui, tanto que dentro da barraca meu inestimável termômetro-bússola aponta -3ºC! Custo a dormir pois meus pés não se aquecem mesmo. E Dhendup também é culpado pela minha demora em pegar no sono. O belo e peludo cachorro de Nidup latiu um bom tempo. Eu louca de sono e o cão dale que dale a latir bem ao lado da barraca. Que raiva! Só não levanto e jogo uma pedra nele porque está frio demais pra isso....humpf!!

domingo, 6 de novembro de 2011

Envolta em brumas!

Se dentro da barraca está 0ºC, nem gosto de pensar quanto faz lá fora. Taciturna paisagem esta: céu cinzento da manhã à noite!! Desde que carquei meus pés neste país não peguei um dia sequer de sol a valer. E agora fudeu tudo mesmo! Tá nevando forte em Bhonte La (4.890 m), Takhunk La (4.520 m) e Thombu La (4.380 m), os três passos que se situam ao longo da tal trilha alternativa, a Yaktsa. Uma pena esta merda de tempo. Liquidou totalmente com a chance de eu avistar o Jomolhari. E somos obrigados ainda a percorrer a mesma trilha palmilhada há 2 dias atrás. Assim, eis-nos rumo a Thangthangkha, atravessando os já conhecidos vales de Dangochang e Takethang. Não que me incomode muito, mas que seria bom ter dado a tal banda por uma trilha desconhecida, ah, seria, sim!! Durante a caminhada no vale, no alto duma stupa, um falo feito em argila avisa que o local se encontra protegido dos demônios. Como os budistas são supersticiosos! Não imagina isso, não! Ao passar por uma propriedade de pastores, não resisto e entro dentro do quintal ao ver uma mulher acocorada diante duma nak tirando leite. Só pra especular como é o leite. Mais espesso e sem espuma do que o da vaca...pronto, satisfeita está minha curiosidade! Reza a crença, conta Jigme, que, quando se vê uma mulher tirando leite deste animal, algo auspicioso poderá acontecer. Será que o tempo vai melhorar e poderei ver alguma montanha?! Percebo Jigme diferente comigo. Responde às minhas perguntas com certa reticência, quase má-vontade, diria eu. Não deixo pra depois e resolvo questioná-lo. Ele com ar magoado explica que Wangyel (ah, os solícitos amigos!!) disse pra ele que eu havia dito que não confiava mais nele, Jigme. Ai ai ai....deve ter sido algum mal-entendido por causa deste maledeto idioma, o inglês, que não entendo muito bem. Trato de consolá-lo, garantindo que confio nele, sim! E que deixe de ser bobo! Como cachimbo da paz, distribuo chocolate e balas de menta que ele adora (durante o trekking tem sempre me oferecido das suas). Desfeito o mal entendido, prosseguimos nossa caminhada, deixando pra trás os amplos espaços, percorrendo agora uma estreita trilha aberta no sopé duma encosta de montanha. Após meia-hora de caminhada, já no interior do bosque de pinheiros, minúsculos flocos de neve deixam os galhos das árvores enfeitados de branco, alguns exibindo lindos formatos de estrelas. Perto de de Thangthangkha, há um posto militar cuja razão de existir se deve à proximidade da fronteira com o Tibete. Ali estão aquartelados não só militares butaneses como indianos. Com Forças Armadas insignificantes, não resta outra alternativa ao pequeno país do que se deixar ser protegido da China pela Índia! Quando passamos por Thanghthangkha, onde não poderemos acampar porque o lugar será ocupado pelos hóspedes do irmão mais moço do rei, um cartaz sobre uma pilha de lenha avisa “this wood is only to the VIP”. Hahahah!! Essa é boa!! Bem que eu queria ser hóspede real também!! Em consequência, nossas duas barracas voltam a ser montadas pela segunda vez ao lado da já familiar stupa. Como nosso acampamento é doutro lado do rio, situado num pequeno outeiro, vejo passar lá embaixo os tais convidados reais. A comitiva conta com 50 mulas, dezenas de serviçais e guarda-costas de carabinas em riste! Entre os convidados - todos jovens – não se encontra o nobre anfitrião. Agora 17 e 10 neva pra caramba! Tá muito frio e acho que vai ficar pior. Quando vou jantar, flocos espessos caem sobre mim enquanto me dirijo à barraca-refeitório. Chego quase a enterrar o pé na neve fofa que cobre completamente o chão. Durante a janta, aproveito pra indagar de Jigme sobre drogas na sociedade butanesa. Sem fazer segredo, conta que a mais consumida é a maconha, ilegal, embora cresça naturalmente por todo o país! Se quem for pego fumando um baseado, for menor de 18 anos, leva uma tremenda duma reprimenda. Se maior, prisão, com máximo de 3 anos. Pra estes há a possibilidade de ter a pena reduzida, caso possam pagar uma multa em dinheiro. O valor é destinado àquelas pessoas super necessitadas. O consumo de cocaína, como é de se esperar, agita as classes altas. E rola alcoolismo, sim, no país que se gaba de cultivar a Felicidade Interna Bruta!

sábado, 5 de novembro de 2011

Bem baixada num antigo feudo butanês!

Acordo às 6 e 30 e meu termômetro-bússola marca 2ºC. Durante a noite nevou porque quando acordo o solo está atapetado de branco. Flocos de neve flutuam no ar quando sou chamada por Wangyel pro desjejum. Jigme comunica que, infelizmente, não poderemos continuar o trekking através de Lhingzhi, obstruída pelo excesso de neve que vem caindo nos últimos dias sobre os passos de montanhas. Tanto que no Bhonte La, o passo que enfrentaríamos amanhã, caso não houvesse o mau tempo, a neve chega a atingir o joelho, pois a altitude é de 4.800m. Ainda resta uma esperança, informa Jigme, de seguirmos por uma rota alternativa, conhecida como Yaktsa. Tudo dependerá de como o tempo se comportará nos próximos dias. Os guias estão de cara porque este outono tem sido atípico, com muita queda de neve. Imagine como será o inverno, então! Minha dor na lombar diminuiu sensivelmente após eu ter me medicado ontem. Terminada a refeição matinal, partimos, Jigme, seu fiel assistente, Wangyel, e eu por uma trilha aberta num flanco de montanha. Uma subida bem íngreme porém breve conduz ao lago Tshophu (em que tsho significa lago e phu alta colina). Da forma como Jigme o mencionara, todo orgulhoso, supus que fosse algo esplêndido. Imaginei um daqueles lagos cujas águas exibem a bela coloração azul-esverdeada, resultado do degelo de glaciares. Em lá chegando, ao invés duma turquesa líquida, rodeada de neve, encontro o quê? Uma poça mixuruca, despida de qualquer atrativo cujas águas escuras impedem, ainda por cima, que se vejam as trutas que ali residem. Mas trato de esconder meu desapontamento porque a faceirice dos dois guris com o tal lago é comovente. O céu tá mais cinzento e baixo. Coisa horrorosa esse tempo, meu deus!! Se tempo bom houvesse, a visão do Jomolhari seria total. Entretanto, nada se vê da montanha mais famosa do país. Sua visibilidade é nula...merda!! Jigme aponta pruma encosta onde, ao longe, um bando dos famosos himalayan blue sheeps passa correndo pro outro lado da montanha. Velozes, essas ovelhas selvagens são deixadas em paz, sem que ninguém tente capturá-las. E ai de quem o faça! Aliás a questão da preservação ambiental no Butão é levada a sério. E não é de hoje, não!! Há muito anos o governo vem educando o povo nesse sentido. De cuidar bem cuidadinha de sua flora e fauna. Durante todo o passeio segue nevando. Às vezes mais forte, outras somente uns quase invisíveis floquinhos de neve. Nem acredito no que estou vendo: o sol! Raios que os partam! Assim como veio, se vai, e, à francesa, sem sequer se despedir!! Puta que os pariu de merda!! Quando estamos descendo do lago, encontramos dois nativos de Linghzhi vindos de Paro. Como não há um bom mercado naquele vilarejo, os moradores têm de se deslocar até Paro pra comprar mercadorias mais substanciais. A caminhada de ida e volta dura 6 dias. E eles confirmam o que nós já sabíamos. Que, realmente, a trilha até Lhingzhi se encontra coberta por espessa camada de neve. Intrigada, cutuco Jigme do motivo de os dois homens passarem pelo Bhonte La enquanto nós não podemos. É possível sem os animais, explica o rapaz. Levá-los implica riscos que os muleiros não querem correr. Tudo por conta do chão escorregadio coberto de neve endurecida. Se a mula resvala, periga quebrar uma pata. Daí tem de sacrificar o bicho porque ele já era. Já próximos ao acampamento, alguns homens tentam capturar um yak fujão que procura se abrigar nuns arbustos. Coitado, daí mesmo que a sorte dele complica. Enredado no cipoal dos sailex, mais fácil fica agora sua captura. O bicho numa derradeira tentativa de escapar ao cerco investe irritado contra os homens. Assustado com a reação do yak, um garotinho que assiste à cena, trata de pôr sebo nas canelas, fugindo do entrevero. Dou risada do seu jeitinho medroso, e ele corresponde com um largo sorriso. Coisa mais querida! Fazendo hora enquanto espero o almoço, vou assistir ao tradicional doego, jogo que se assemelha à pelota. Em vez de bolas, pedras chatas. E jogam a dinheiro. Cada partida vale 50 ngultrum. O equivalente a um pouco mais de 1 dólar. Almocinho ótimo o de Sonam. A tradicional sopa butanesa que vem a ser um caldo com verduras e pequenos trocinhos de massa tipo ravióli mais pedacinhos de carne de gado. Dois pratos indianos e um espinafre com molho de leite bem apimentado. E, como não poderia deixar de ter, arroz!! Ai se faltar esse cereal numa mesa butanesa!! Às 13 e 30, a temperatura está 12ºC. Eu, naquela modorra pós-almoço, escuto o tamborilar da neve caindo sobre o teto da barraca bem afofada dentro de meu saco de dormir. Dura pouco a nevasca, questão de 10 a 15 minutos. Escuto Jigme me chamando, e lá vamos nós conhecer Jango Dzong, um complexo de construções em ruínas. Espalhados, dos diversos edifícios só restam vestígios de muros. Uma delas situada no topo duma colina chama minha atenção. Segundo Jigme, é impossível acessá-la. Observo, entretanto, a existência duma via, que exige uma pequena escalada. Faço várias tentativas, mas desisto, não quero me arriscar sem corda. Machucar-me nesses ermos seria foda!! E Jigme temeroso de que eu me espatife não ajuda em nada também! Se ele ainda me desse uma mãozinha, eu encararia na boa o tal barranco que deve ser um 3º! Quando já em chão firme, o guri, com a mão no coração, exclama quão assustado se sentiu. Que fofo!! Durante o passeio, numa tenda improvisada com plásticos azul e cinza, uma família de nômades habita. As três adoráveis crianças têm as bochechas vermelhas de queimadura de sol. Por falar em casa, as habitações dos agricultores têm três pisos: enquanto o térreo, por óbvio, é reservado aos animais, no primeiro, habita a família. Já, no último, são armazenados víveres e feno. Inobstante continue nevando, às vezes mais intensamente, os nativos seguem sua rotina diária de trabalho, seja cortando lenha ou pastoreando seus rebanhos. Com raras exceções, os butaneses são magros e não muito altos. Quando retornamos do passeio, chá com pipocas. Agora, 17 horas o termômetro marca 2ºC e às 19 a temperatura caiu mais 1º! Wangyel, super delicado, dá um toque avisando que o jantar está servido. Saio da barraca sem muita gana, porque o frio me deixa covarde. Só quero saber de ficar no quentinho do saco de dormir. Quando chego à tenda-refeitório me derreto com a gostosa jantinha, sempre composta de cinco pratos!! Durante a refeição, peço a Jigme que me conte mais sobre o esporte nacional, o arco e flecha. E Jigme Boy não se faz de rogado. Fico sabendo então que rolam diversos campeonatos durante o ano. O campo deles é formado por duas paredes afastadas uma da outra por 160 m onde são colocados os alvos. O arco e as flechas são de bambu. Penas enfeitam o cabo das flechas, sempre em número de duas, enquanto as pontas são de metal. A corda do arco é trançada com uma espécie flexível de cipó. E as peças são devidamente colocadas num cilindro de bambu. Tudo muito artesanal! Conversa vai conversa vem, outras curiosidades sobre o país me são reveladas. Até o reinado de Jigme Dorgi, vô do atual rei, havia pena de morte. Uma delas – durante a narrativa, fascinada, tento imaginar o desespero do condenado - consistia em atar mãos e pés de criminosos, colocando pedras em suas costas, atirando-os ato contínuo dentro de rios. Atualmente, a prisão perpétua é a maior sanção no sistema penal butanês. Dos crimes, dependendo das circunstâncias, não é o homicídio o mais grave, não, é a retirada indevida de objetos sagrados do interior de templos. Com todas essas interessantíssimas informações pululando em minha cabecinha, adormeço, bem satisfeita!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Os vales de Dangochang e Takethang

A poderosa correnteza do rio Paro e o tlim tlim do sininho, pendurado ao pescoço da madrinha da tropa de mulas, são os únicos sons audíveis no silêncio desta fria manhã de sexta-feira em que o termômetro marca 9º C. Quando levanto pra ir ao banheiro, o muleiro já atou os embornais aos focinhos do bichos, contendo a ração diária, preparada, caprichosamente, em parcimoniosas porções arredondadas. Nublado permanece o céu desde ontem à tarde, embora a concentração de cerração localize-se mais a oeste, enquanto a leste rola uma chance de o céu abrir – quem sabe - no decorrer do dia, já que são apenas 7 e 30 da manhã. Após o desjejum, servido ao ar livre, numa mesa armada ao lado da stupa, seguimos, como de hábito, eu e Jigme, à frente, deixando para trás os três rapazes. Alegres, arrumam a matalotagem, enquanto Sonam diz qualquer coisa naquele estranho e gutural idioma que os fazem rir muito. Perceptível a influência do cozinheiro sobre o pequeno grupo, incluído aí Jigme, formalmente o líder da expedição. Acontece que o cozinheiro é muito mais malandro que os três juntos. Tem um jeito vivaz e senso de humor. Escuto à noite de minha barraca, quando já deitada, os outros dando risada do conversê dele. Em breve, nos ultrapassarão, juntando-se a nós, então, Wangyel, responsável por carregar a mochila que contém o almoço. O caminho através da floresta é praticamente pavimentado por pedras à semelhança do de Itupava. Morre aqui, entretanto, tal semelhança, porque, graças a deus, as pedras não são escorregadias como as da serra paranaense, fazendo com que a gente leve, não um, e sim, vários tombos durante a pernada. De fato, Itupava é pra fazer uma só vez! Saímos da floresta e entramos no vale de Takethang, vale este não muito largo, cujas encostas de montanhas exibem as partes superiores pintalgadas de neve. A exuberância dos bosques de pinheiros cede lugar a uma paisagem econômica, onde crescem arbustos de pequeno porte, distinguindo-se o sailex em cujos galhos finos, já desfolhados, restam uns pequeninos frutos vermelhos. O solo coberto por gramíneas é um pasto natural pros rebanhos de yaks que já se avistam amiúde. Alguns dos animais, os melhores, têm, pendurados, nos cornos, penduricalhos confeccionados com o próprio pêlo, tingidos de vermelho. Algumas flores de caule longo lembram as sempre-vivas dos nossos cerrados! Uma breve pausa para o almoço, ótimo, como sempre. Sonam se puxa no cardápio. Não repete os pratos embora lance mão dos mesmos ingredientes. A comida forte, apimentada, vem a calhar já que aquece o corpo neste dia tão friorento. Pra aumentar a baixa sensação térmica, o céu, que mostrou há bocado pedacitos azulados, permitindo a passagem de fugidias nesgas de sol, volta a ser toldado de cinzento. Vez por outra minúsculos flocos de neve caem. Bandeirolas coloridas de orações budistas enfeitam não só os parapeitos de algumas pontes como tremulam diante das poucas casas pertencentes aos pastores de yaks. E, claro, sempre presentes ao redor das brancas stupas, construídas até nestes cafundós. Percorrendo agora o vale de Dangochang, crianças chamam minha atenção. Seus belos olhinhos amendoados miram curiosos a curiosa turista. Não resisto e eis-me a sacar fotos dos pimpolhos. Nada tímidas posam, todavia, sem afetação alguma! O termo certo pra definir suas posturas seria compenetradas. Conforme ganhamos altitude, menos impetuoso se torna o rio Paro, ganhando ares de quase languidez se comparado ao frenético turbilhonar de sua correnteza quando rasga a floresta. A quantidade de yaks pastando evidencia a importância destes bovinos como um dos suportes econômicos de milhares de famílias, produzindo leite, queijo e chugo. Este último vem a ser uma iguaria típica, resultante da solidificação do leite da nak (fêmea do yak). Cortado em pequenos retângulos parece bala de côco. Mas só na aparência porque o gosto sabe a sebo...arghh!! Ah, e tem mais! De seu pêlo, farto e grosso, são tecidas cordas, assaz resistentes. Os pastores de yaks, por força do desaparecimento da forragem durante o inverno, se tornaram nômades. Conduzindo seus rebanhos, migram até as terras baixas onde sobram pastagens. Trocam então, queijo, manteiga e chugo por outras mercadorias, sobrevivendo até o início da primavera, quando então retornam às terras altas onde a pastagem voltou a crescer abundante após o degelo da neve sobre o solo. Muitas famílias constroem toscos refúgios de pedras cobertos com uma lona onde vivem durante o verão e outono. Se uma família tiver mais de 100 yaks, é considerada pelos padrões butaneses ricas, tá ligado? Além da pecuária, a agricultura é outra fonte de renda, destacando-se a cultura do arroz, seguida pela do milho, trigo e cevada. Contudo, a principal fonte de riqueza do país é a venda de energia hidroelétrica à Índia. Como santo de casa não faz milagre, em muitos locais, a eletrificação ainda não foi implantada. Mas os butaneses, com maior poder aquisitivo e idéias mais afeitas à modernidade, investem em energia solar, motivo pelo qual testemunho sobre o telhado de 3 casas as tais placas solares. Já a telefonia celular alcança praticamente todos os rincões. Pode faltar luz, mas de celular ninguém se priva! Prova disso é a inconfundível silhueta metálica da torre de telefonia móvel, encarapitada no cocuruto duma montanha, próxima a Soe Village. O pequeno agrupamento de casas, que cresceu no meio do vale, ganhou o status de vila e adquiriu assim o direito de ter construídos escola, hospital e, como não poderia deixar de ser, um centro veterinário, em função da intensa atividade pecuária que rola na região. A partir deste vilarejo, a trilha é praticamente plana até o acampamento, situado às margens do rio Paro, aqui reduzido a um pequeno filete d’água. Estrategicamente escolhido, o local, empinado a 4.080 m de altitude, queda aos pés do pico principal do Jomolhari. Pertinho, encontram-se as ruínas de Jango-Dzong (dzong significa fortress), que pertenceu a um dos muitos reinos existentes no país antes de sua unificação, no século XVII, pelo venerável Zhabdrung Ngawang Namgyal, um lama tibetano budista. Merda....fiz uma puta contratura no quadril direito. Primeira vez em trekking que sinto tanta dor na lombar. Após o chá da tarde, durmo um pouco, já que o frio de 1º C me faz desistir de continuar a leitura. Folhear livro com luvas é muito chatooo!! Quando sou chamada por Wangyel para a janta, uma lua crescente e algumas estrelas brilham no céu....obaaa!!! Será que amanhã conseguirei ver o Jomolhari? Hoje não rolou, infelizmente. O tanto que vi foi a pálida visão acinzentada duma parte de seus flancos. E olhe lá!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Às margens do Rio Paro

Completamente revigorada após uma longa noite de sono, sem qualquer interrupção, nem mesmo aquela saidinha rápida pra fazer xixi, acordo lá pelas 6 e 30. Quando vou ao banheiro - uma tendinha onde o homem das mulas cavou um buraco no chão, com direito inclusive a papel higiênico -, sou saudada com um céu nublado, vestígios de cerração e um chuvisco leviano pairando no ar. No desjejum, tentam me servir arroz, ovo frito e lingüiça. Peço, encarecidamente, que só sirvam torrada e mingau, além de chá, é claro. Explico que, em meu país, evitamos almoçar no café da manhã, hehe. Os três homens que compõem o staff são deixados pra trás, desmontando o acampamento, enquanto eu e Jigme Boy, como passei a chamá-lo, às 8 e 30 em ponto, seguimos pela estreita estradinha que acompanha a margem direita do rio Paro, sinuoso que nem cobra. A bem preservada floresta de pinheiros exala um leve aroma de resina que lembra aqueles desinfetantes usados em sauna. As folhas de arbustos e árvores exibem a coloração típica de outono de paragens situadas no hemisfério norte: amarelo-ouro, laranja-ferrugem e vermelho-bordô. À medida que ganhamos altura, o Paro torna-se um rio de agressiva correnteza devido ao tamanho avantajado das rochas alojadas em seu leito. A espuma branca em contraste com o estupendo verde-esmeralda de suas águas dá um toque colorido ao dia cinzento. Troncos de madeira fazem de pontilhão em alguns córregos cujo destino é engrossar mais ainda o já caudaloso rio Paro. Até então a trilha não foi difícil. Se subida houve, foi tão sutil que nem percebi. Jigme aponta uma árvore descascada e explica que isso acontece (a detonação) porque a resina altamente inflamável de sua casca serve como excelente combustível nos fogões a lenha, usados ainda na maioria das residências butanesas. Acrescenta que, à noite, é usada como tocha pra iluminar os caminhos. Se vocês pensam que eles desmatam os bosques pra conseguir tais vantagens, enganam-se redondamente! Orgulham-se e cuidam deles muito bem. Pra cada árvore derrubada plantam três!! Claro que a mão forte do governo, super atento, não dá mole e está sempre incitando o povo a preservar sua rica cobertura vegetal. Neste aspecto, o butanês, graças a Buda, é bem obediente, aleluia!! Uma coisa, de cara, chama minha atenção durante o percurso. Como não notar a chamativa gengiva vermelha das pessoas com quem venho cruzando! A princípio, pensei que fosse hemorragia, causada por gengivite. Mas passa um, passam vinte com os dentes avermelhados. Observo, ainda, no chão, manchas dessa cor. Daí, não me contenho e pergunto a Jigme o motivo disso tudo. Responde que tal coloração se deve ao dhoma, uma noz (parecidíssima com noz moscada, até os sulquinhos brancos são iguais), chamada em inglês bettle nut. Aviso ao bom guia que trate de conseguir uma pra mim. Quero prová-la! Olha só o que faz uma noite sem dormir! Ontem, tão mas tão cansada me sentia que nem curti quase nada da caminhada. Hoje, sinto-me forte, alegre. Aproveito cada passo que dou. Foi por pouco tempo que o sol deu as caras, coisa dumas 2 horas, se tanto. Fica naquele joguinho de vai-e-vem, até que é, em definitivo, tirado de cena pela pesada cortina de nuvens. Paramos pra almoçar numa linda clareira em meio ao bosque de pinheiros. Wangyel, o assistente de Jigme, que viera a nossa frente, carregando o almoço, já está lá nos esperando. Distribuída em cinco pequenas viandas de alumínio, acondicionadas em uma grande térmica azul, está a comida. Wangyel põe as panelinhas na grama e me serve uma terrina com sopa de verduras. Arroz, espinafre, brócolis e galinha, tudo saborosíssimo, vem a seguir. Bem alimentados, seguimos trilha afora. Agora, sim, o caminho começa a ficar mais íngreme pois se trata duma subida de certo respeito. O verdor do lindo bosque é quebrado aqui e ali por toques avermelhados das folhas de outras árvores que não pinheiros. E a visão trepidante do rio Paro com suas frenéticas verdes águas disparando vale abaixo faz com que tudo vire festa. À medida que se ganha altura, o frio vai pegando e sou obrigada a pôr a jaqueta (até então estava apenas com camiseta mais blusão de fleece). Embora um fofo, Jigme fala um inglês com péssimo acento. Custo a entender o que ele diz. Uma pena porque adora falar sobre seu país. E eu adoraria poder entendê-lo melhor. Jigme, aliás, vem a ser um rapaz de feições delicadas. Bonito e fotogênico, sai bem em todas as fotos que tiro dele. Não se importa em posar pra mim nesta ou naquela situação e de repetir as fotos quando eu percebo que não saíram boas. Um exemplo? A sua paciência - ou resignação diante duma turista tão chata - comigo ao lhe pedir que caminhe 4 vezes sobre uma das muitas pontes ao longo do trajeto. Tudo por conta da luz que nas primeiras tentativas ficaram pra lá de ruim. Após a tal subida que, de fato, foi o trecho mais perrenguento até então enfrentado, chegamos ao acampamento às 16 e 15. Pra descobrirmos que o cozinheiro e as mulas haviam acampado do outro lado do rio, ao lado duma stupa que Jigme apontara pra mim quando por ali passáramos há 40 minutos atrás. E durante os 2 km que tivemos de refazer, Jigme se mostra passado, desculpando-se várias vezes pelo contratempo. Contratempo esse devido a um mal entendido, em inglês, idioma que não domino bem. Ontem, comentara com Jigme que não gostava muito de muvuca. Ele tratou de repassar isso pra Sonam, que levou ao pé da letra meu inoportuno comentário. Resolve, por conta própria, o pressuroso cozinheiro me isolar, ao lado da santa stupa, onde sabe que ninguém mais irá acampar e, portanto, me perturbar! Tudo pra me agradar. Dá pra ficar braba? Um tantinho contrariada, confesso que fiquei. Afinal, quando alcançamos o suposto acampamento estava já bem cansada não só dos 22 km de pernada quanto da altimetria que atingiu um desnível de 800 m, situado, a maior parte, a uma altitude superior a 3.000 m. Claro que preferia ter ficado naquele primeiro acampamento, porque, a um, o visual é muito bonito, podendo se avistar, parcialmente, a encosta nevada do Jomolhari. E a dois porque gosto de bater papo com os demais turistas mesmo que meu inglês não seja dos mais fluentes. Mas foi uma contrariedade que durou pouco tempo, até porque aqui, em Soi Thangthangkha, a 3.600 m de altitude, a sensação de impermanência é a regra. E a janta feita por Sonam, veio renovar meu bom humor. Quem resiste a uma sopa de cogu, seguida de arroz preto, massa com chilli e atum, tudo isso complementado com – novamente – cogumelos refogados no leite? A sobremesa, uma frugal mação, já cortadinha em pedaços (não tenho vergonha alguma de declarar que adoro esses pequenos luxos), serve pra refrescar a boca depois de tanto chilli. A noite, bem fria, traz com ela um pouco de vento. Meus pés sentem o rigor da altitude, e geladinhos, custam a aquecer. Nenhuma pinta de estrela no céu. Sei lá, acho que o tempo vai aprontar alguma e sinto que não é coisa boa, não!!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O mandingueiro falo butanês!

O pequeno reino do Butão, menor que o estado do Rio de Janeiro, tem como religião oficial, o budismo, introduzido no país no século VII DC pelo indiano Guru Rinpoche. Sua população não ultrapassa os 700.000 habitantes. E a capital, Timphu, conta com a modesta cifra de 60.000 almas. Aliás, a cidade, segundo padrões asiáticos, não passa duma town. Tal classificação se deve à ausência de sinaleiras nos cruzamentos. Nas ruas mais movimentadas, guardas uniformizados, envergando vistosas luvas brancas, comandam o tráfego. A partir do século XX, a teocracia budista, que vinha governando o destino da nação, cede lugar ao poder laico, representado pela dinastia Wangchuck. No início do século XXI, a última monarquia absolutista do planeta dá um adeus ao poder e transforma-se numa monarquia constitucional. O país, com isso, sela, em definitivo, seu novel status democrático, conclamando eleições, realizadas em 2008. Tais ousadias limitam-se, entretanto, ao campo político, já que as tradições mais ortodoxas do budismo permanecem zelosamente preservadas. Prova disso é o fato de serem ainda os monges os responsáveis pela escolha dos nomes das crianças recém nascidas. O idioma oficial é dzongkha, uma das 53 línguas pertencentes à família tibetana e a moeda atende pelo nome aparentemente impronunciável de ngultrum (leia-se niultrom). Ruminando tais informações obtidas no amansa-burro do Google, sou levada de carro até Drugyel Dzong, situado nos arredores de Paro. O complexo de ruínas, datado do século XVII, foi construído pra celebrar a vitória contra uma das muitas invasões do exército tibetano no território butanês. Justo daqui inicia minha "invasão" de oito dias, percorrendo a trilha conhecida como Jomolhari Trekking. Segundo Jigme, as condições climáticas são nada auspiciosas. Meu atencioso guia avisa que está inviável fazer o roteiro original que incluiria uma visita à vila de Lhingzhi e travessia do Yali La, um passo com 4.820 m. Tudo isso devido a prematuras nevascas ocorridas na semana anterior a minha chegada. Há, ressalva ele, a possibilidade – tudo dependendo do caprichoso comportamento climático – de se fazer a trilha Yaktsa, uma rota alternativa. Faço uma prece à Lord Buda, pedindo-lhe que convença São Pedro de poupar dos seus já frequentes ataques de mau humor o território butanês. Tudo pra evitar - tá bem, confesso meus propósitos egoístas - que o trajeto de retorno seja o mesmo da ida. Então, às 10 e 30, sob um céu encoberto, salvo por fugazes instantes em que o sol consegue furar a barricada de nuvens ao seu redor, ponho o pé na estrada larga de chão batido onde trafegam vez por outras alguns carros levantando nuvens de poeira. A temperatura amena dispensa o uso da jaqueta forrada com pele sintética, mas não o uso dum agasalho de fleece. A caminhada seria fácil se eu não estivesse exausta da noite em claro, por conta da diferença do fuso horário. Assim, a pernada torna-se um verdadeiro sacrifício. As fotos são tiradas sem prazer, maquinalmente. Nem curto por onde passo. Só tenho um desejo: chegar ao acampamento pra poder dormir. Mesmo assim, reparo nas stupas com as bandeiras coloridas das preces budistas e numa plantação de nabos onde a camponesa e seu filhinho trabalham com afinco. A nuvem de apatia em que estou envolvida é, bruscamente, interrompida quando, ao passar por uma casa, meus olhos são atraídos – não dá pra ignorar mesmo! – pelo desenho dum big caralho. Metralho Jigme com perguntas assanhadas. O rapaz, sem embaraço algum, explica que o desenho serve pra inibir os olhares invejosos, afastando, dessa forma, os demônios liberados pelas energias negativas da inveja. Simples e genial essa sacada dos budistas! Constranger como forma de proteção. Contra o mau olhado, pau na gentalha invejosa, hahahaha!! Muito boa essa!! Poxa, meu, agora, ao invés de usar figa ou pimenta, vou pendurar uma piroca no pescoço, hahaha!! Saímos da estrada e pegamos uma estreita passagem entre lavouras de arroz. O que sobrou, após a colheita, é apenas um solo revolvido, preparado já para o iminente inverno. Impossível não perceber, ainda que super sonada, a extensa cobertura de pinheiros nas encostas das montanhas. Quando paramos pra almoçar, desabo na grama e tiro um rápido cochilo. Chego a babar tamanho o cansaço! A pior parte, entretanto, é o trecho final. Um sacrifício vencer a infindável uma hora de pernada que me separa de Shana, o lugar onde irei acampar. Por breves instantes, chego a cochilar enquanto caminho. Nunca experimentara essa requintada tortura que é dormir de pé! Quando chego ao acampamento às 15 e 15, me jogo dentro da barraca e durmo até às 18 e 30, quando Jigme me acorda pra jantar. A ceia, deliciosa, conta com 5 pratos: sopa de cogumelos, arroz, espinafre, cogumelos ensopados e peixe acebolado. De sobremesa, maçã amassada com leite quente. De volta à barraca, vejo pontos luminosos atrás de mim. São os olhos das mulas que brilham na escuridão da noite sem estrelas, hehe. Agora já deitada, escuto o cincerro dos animais enquanto se movimentam no bosque, situado a poucos passos de minha barraca. Meu termômetro-bússola-apito marca civilizados 10º C, tanto que meus pés rapidinho se aquecem dentro do saco de dormir. Adormeço mal deito a cabeça no arremedo de travesseiro feito com um monte de roupas tiradas da mochila. A vida, gente, não é de todo ruim, não, hehe!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Retorno à Ásia

Novamente escolho a Ásia como roteiro de minhas férias. Contudo, nada de Tailândia, Indonésia ou Malásia cujas lindas e calientes praias são desejadíssimas não só por europeus, americanos quanto por brasileiros. Praia por praia, o Brasil tem às mancheias, pra todos os gostos: mar azul, mar verde, mar calmo, mar manso, mar morno, mar de tombo, exceto maremoto! Por isso quero o diferente, o inusitado. Daí minha preferência pelos países cujos relevos suportam os grandiosos picos superiores a 5 mil metros de altitude. Ora, o Himalaia juntamente com os Andes, digam as más línguas o que quiserem, são o Eldorado de qualquer um que se pretenda montanhista. Mencionado casualmente numa conversa, o Butão fica gravado numa parte qualquer de meu cérebro. E quando escuto notícias dele, em Kathmandu, num encontro com Carlos Eduardo Santalena, não dá outra! Pros restantes 20 dias de férias que o ano de 2011 ainda me reserva, cravo o dardo neste país, espremido entre China e Índia, e pra lá compro uma passagem..ebaaa!! Como tenho tendência ao estoicismo, enfrento com alegria a fastidiosa viagem que inicia, em Porto Alegre, no sábado às 19 horas, e finda às 13 horas de segunda-feira em Kathmandu. Não foi mais cansativa porque senta ao meu lado uma jovem carioca, a Ana Carolina, com quem converso quando não estamos ambas dormindo, ou ela rezando. Rezando! Isso mesmo!! Mal o avião decola de Guarulhos, a guria se agarra num terço, fecha os olhos e se põe a rezar com afinco. Entre uma oração e outra, não resisto à curiosidade e indago se o tamanho do medo é tanto assim. Afável, ela explica que, na verdade, não é bem por medo que reza. Aproveita quando está voando pra botar em dia seus deveres católicos. Reza então pela família, parentes, amigos, agregados, quiçá até aderentes, e como não podia deixar de ser, também, por uma boa viagem. Há com o que se entreter durante as 14 longas horas de voo. Eu, por exemplo, adoro ler. Assim, sempre trago livros (não um mas 2). O que estou lendo no momento são as fascinantes aventuras contadas por Ed Viesturs, no recém lançado “K2, Vida e Morte na Montanha mais Perigosa do Mundo”. E claro há os filmes. Dentre as trocentas opções de filmes que a Qatar Airlines põe à disposição de seus passageiros, escolho “Árvore da Vida”. Dormi sem saber o final. Confesso que a aclamada película não me tocou muito, não. Quando chego a Kathmandu, largo as malas no mesmo hotel onde ficara ano passado, situado nesta Thamel que adoro, e saio pra comprar meias, daquelas fininhas que se usa sob as mais grossas. Atribuo a ausência de bolhas nos pés ao fato de usar sempre este tipo de combinação: meias grossas sobre meias finas! Quando passo por um camelô, não resisto e compro um chapéu feito de retalhos, super maneiro. Afinal, tenho um bom álibi pra tal compra: esquecera o meu em casa. Uma grata surpresa quando entro no Face Book e descubro que um amigo paquistanês a quem conhecera no Paquistão, em 2008, se encontra em Kathmandu! Foi assim que, à noite, Syed Anwar e eu jantamos juntos, pondo as novidades em dia. Mundo pequeno, ainda mais agora com a internete, esse grande olho mágico que nos põe em contato num estalar de dedos com amigos e conhecidos da Conchinchina ao Chuí. Na terça, dilema pra escolher entre as tantas delícias oferecidas no cardápio da Pumpernickel Bakery and Restaurant. Decido-me por uma salada de frutas com iogurte e torta de maça com chá de masala. Depois aeroporto, onde enfrento duas horas de fila na imigração, tudo por conta dum festival religioso hinduísta que trouxe muito turista ao país. Já meio nervosa com a demora, percebo que, vez por outra, um funcionário da companhia aérea prestes a decolar trata de resgatar das filas seus passageiros, passando-os na frente dos outros na aduana. Só relaxo mesmo quando embarco na aeronave em cuja cauda sobressai o desenho dum belo dragão, símbolo da bandeira butanesa. Já perto de Paro enquanto o avião se aproxima do solo, duas características geográficas de cara saltam aos olhos: o relevo montanhoso e a abundante vegetação. O aeroporto de Paro, o único no país, exibe um padrão arquitetônico que se repete em todas as construções butanesas: fachadas revestidas com caprichosos desenhos estampados no madeirame das aberturas de janelas e portas. Um grande outdoor homenageia as bodas reais, exibindo a foto oficial dos belos e jovens monarcas. Dois guias aguardam no saguão do aeroporto, conduzindo-me ao carro, após educados cumprimentos. Ambos trajam gho, a tradicional vestimenta masculina. Trata-se duma espécie de quimono, feito, em lã, geralmente, numa padronagem quadriculada, cujo comprimento alcança o joelho. Completam o traje meias pretas ¾ e sapatos escuros de bico fino. Faz frio, afinal estamos no outono e a uma altitude de 2.280 m. Meu hotel, de frente pra pista do aeroporto, é um barato. A decolagem e aterrisagem dos aviões, cujos vôos não chegam a 10 por dia, são motivos de cliques de vários hóspedes. E no silêncio que se instala após essa movimentação, claramente audível o rumorejar incessante das delicadas marolas no rio Paro, cujas águas límpidas deixam entrever o leito coberto de pedregulhos. Enquanto aguardo os trâmites na recepção do hotel, uma garçonete oferece-me chá com biscoitos. Geralmente, viajo com o intuito de fazer trekking ou montanhismo, destinando apenas um minguado par de dias pra conhecer as cidades. Nesta viagem, decidi que, dos 17 dias de permanência aqui, oito serão reservados ao circuito conhecido como Jomolhari Trekking e o restante às atividades culturais. Daí o motivo de dois guias me aguardando no aeroporto. Jigme Thinley encarregar-se-á do trekking, enquanto Jamyang Penzin responderá pelo tour cultural. Depois da partida dos dois rapazes, não resisto às ofertas de massagens e escolho a que custa 56 dólares (a mais barata). Assim, passo uma hora sendo sovada e amassada pelas mãos hábeis duma mocinha que não poupa um centímetro de minhas carnes. Janto no amplo salão de refeições onde acomodado, em duas enormes mesas, um grupo de alemães de meia-idade conversa alegremente. Do bufet, sirvo-me de arroz, refogado de legumes e pimentão picante, chamado emma datshi. No meu quarto o WiFi não funciona, motivo pelo qual fico no refeitório um bom tempo postando fotos no Face Book e batendo papo com quem está ainda acordado no Brasil, já que a diferença de fuso horário é de 8 horas a mais. Tão excitada estou que não prego olho a noite toda. Leio, edito mais fotos, apago a luz, tento dormir, não consigo, acendo, novamente, o abajur, leio mais um pouco e quando percebo o dia faz toc toc na janela! E hoje começa o trekking....xiiiii.........vou estar um caco pra pernada!!!