Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
Deixo
a ensolarada Las Palmas para trás ingressando numa acinzentada Lisboa. Desde
2006 não venho à capital portuguesa quando conheci o país num tour de 2 semanas
com minha mãe, percorrendo-o de norte a sul. Assim, eis-me aqui novamente pra revê-la
e saborear sua deliciosa culinária. Uma beleza esse novo sistema de visa da
comunidade européia. Qualquer país que você entre, a primeira carimbada no
passaporte vale pra qualquer outro sem necessidade de carimbar folhas e folhas do
documento a cada país visitado! Adotando o mesmo sistema de Barcelona, escrevo
email ao hotel português solicitando infos de sua localização. Dessa forma, após
descer do avião com minha maletinha de 10 kg, entro no metrô convenientemente
situado na saída do aeroporto. Feita uma baldeação, ops conexão (mais chique,
né?), em 20 minutos estou na estação Restauradores, distante 300 metros do hotel
por mim reservado. Como na Espanha aqui também há bikes e patinetes elétricos pra
alugar, dirigidos em sua maioria por jovens. Largo a maleta no hotel - são
apenas 16 horas - e saio pra dar uma banda. Tinha me esquecido de quão
encantadora é Lisboa! Que cidade fotogênica tanto que nem o tempo enfarruscado consegue
embaçar sua beleza. Tantas as opções de restaurantes no Rossio que fico meio
atarantada ao ler os menus afixados às portas dos estabelecimentos. Acabo por
entrar num bem simples e peço arroz de tamboril só porque o nome evoca - que viagem
– o tamborilar da chuva no telhado. O delicioso ensopado com peixe, amêijoas e
camarão vem acompanhado por arroz branco bem soltinho. O vinho, pois pois, é um
encorpado tinto português. Dia seguinte, vou a pé até a praça Martim Moniz e, enquanto
estou comprando a passagem pra embarcar no elétrico 28, o cobrador me alerta
"rápido que está vindo 1 manada", hahaha!!! O passeio que dura 1 hora
termina no campo de Ourique, em frente ao cemitério dos Prazeres. Refaço a rota
do bondinho a pé percorrendo, inicialmente, a Estrela onde entro numa
confeitaria e provo os orgasmáticos ovos moles de Aveiro acompanhado de um
expresso (ah, que experiência gustativa divina!!), passo pelo Chiado e pouca demora estou
atravessando a rua Augusta que termina no imponente Arco do Comércio. Almoço na
Baixa 1 leitãozinho à Bairrada, que vem a ser nosso porquinho à pururuca, cujo parceiro é o bom tinto português. O tempo tá esquisito com o sol mal dando
as caras no intervalo entre uma garoa e outra. Bem alimentada, subo a Alfama
até chegar ao largo de Santa Luzia donde se vê abaixo o amplo curso do rio ‘Tejo
exibindo-se não mais em naquinhos como até então o vislumbrara entre os vãos
das estreitas e tortuosas ladeiras lisboetas. Um músico turco dedilha o saz, instrumento
de cordas típico de seu país. Na parede externa da igreja de Santa Luzia, 2
enormes painéis em azulejos brancos e azuis reproduzem cenas da vida portuguesa
dos séculos passados. 100 metros além, outro largo, igualmente voltado pro Tejo,
o das Portas do Sol, hoje, entretanto, sem a presença da flamejante estrela.
Dali, vou até as muralhas externas que circundam o Castelo de São Jorge e num
trajeto de 200 metros escuto 3 manifestações musicais: desde a alegre cançoneta
do leste europeu, executada do alto dum balcão de uma casa centenária por 2 rapazes,
passando pelo africano tocando xilofone sob a sombra duma laranjeira, à audição
de jazz interpretada pelo jovem em seu saxofone. À noite, subo as ladeiras
que levam ao bairro Alto pra assistir a um show de fado vadio (assim chamado
quando os cantores são amadores) na tasca do Chico. O estabelecimento é pequeno
com poucas mesas tanto que permaneço a maior parte do tempo ao redor do minúsculo
balcão. O prato mais pedido do cardápio vem a ser o pirotécnico chouriço assado
grelhando sobre labaredas que ardem na pequena cumbuca de cerâmica. Vários artistas
se apresentam, com predominância de mulheres entoando o choroso estilo musical
(adoooro). Dia seguinte, encontro com a cearense Cristina, amiga duma amiga,
que aqui está a morar com o marido. Como eu não entrara ontem no castelo de São
Jorge, limitando-me a vaguear pela sua parte externa, pergunto-lhe se já o
conhece. Diante da resposta negativa, pegamos a escada rolante que liga a
Mouraria à Alfama evitando assim ter de subir as ladeiras que ligam um bairro
ao outro. Desembocamos numa rua chamada sugestivamente Calçadinhas da Costa do
Castelo. Embora a garoa não dê trégua, eu e Cris nem nos abalamos, seguimos
firmes e fortes porque não somos feitas de açúcar tampouco de sal. A paisagem
do alto da colina onde o Castelo foi erigido é magnífica. Avista-se a parte
antiga de Lisboa com seus casarios antigos encimados por telhados avermelhados
bem como o onipresente Tejo cortado ao sul pelos 2 km da ponte 25 de abril que
liga a capital a Almada. Nos jardins fronteiriços ao castelo, uma dezena de
pavões exibe suas magníficas caudas. O edifício foi construído no século XI pelos
mouros durante a ocupação na península Ibérica, onde reinaram durante 700 anos.
Restam preservadas 11 torres cujo acesso se dá através de escadas que terminam
nos chamados passeios de ronda pois por ali circulavam os soldados encarregados
da segurança do castelo. E nós fizemos também uma ronda – turística, é claro - ao
redor do castelo apesar de o vento estar soprando forte a ponto de revirar os guarda-chuvas.
Consigo evocar , neste breve tour, a magia daqueles tempos medievais, pra mim a
época mais interessante da História. Terminada a visitação, tratamos de
procurar um restaurante pois já são quase 17 horas e nem almoçamos ainda. A
essa hora não é muito fácil encontrar lugares abertos que sirvam almoço porque tanto
em Lisboa quanto na Espanha os bons restaurantes fazem intervalo de descanso
entre almoço e janta. Felizmente, encontramos um aberto e nos lavamos em
fartas porções de bacalhau regadas, pois pois, a vinho tinto. De sobremesa, um
pudim divino de laranja. E nós as duas, alegres, de pancinha cheia, descemos
a Alfama entrando na Sé, a imponente catedral da cidade. Faço os habituais 3
pedidos a que tenho direito, saindo do escuro templo pro lusco-fusco do fim de
tarde. Estamos tão contentes uma com a companhia da outra que resolvemos prolongar
mais a convivência entrando na charmosa enoteca Tábuas. Lá fora a chuva continua
a cair miudinha enquanto eu e Cris brindamos à vida e à recente amizade!
Pertencente ao reino de Espanha, a
Região Autônoma das Canárias vem a ser um arquipélago de ilhas vulcânicas
emergindo em pleno Oceano Atlântico. Antes da
chegada dos espanhóis no século XV, as Canárias já eram povoadas pelos
guanches, originários das populações berberes do Norte da África. Reza a lenda
que criminosos daquele continente eram abandonados nas ilhas além de terem a
ponta da língua decepada como castigo por seus crimes. Das 7 ilhas que compõem
o arquipélago, meu destino é Gran Canaria, mais precisamente Las Palmas, uma
das capitais das Canárias, em cuja área metropolitana vivem mais de 600 mil
habitantes. Porque situada ao norte seu clima está mais sujeito a oscilações
térmicas entre inverno e verão do que as cidades que se quedam na ponta sul da
ilha. Mesmo assim a temperatura média durante o ano gira em torno de 22º C, o
que posso constatar nos 3 dias em que aqui permaneço. Exatamente por este clima
privilegiado atrai turistas de toda a Europa. Seu relevo montanhoso confere à
paisagem aquele charme misterioso que só as terras serranas possuem. Das 5
praias existentes na cidade, destaca-se Las Canteras onde se concentra a
maioria dos bons hotéis. Além do turismo de lazer, há o desportivo,
destacando-se surfe, trek, ciclismo, montanhismo, esportes náuticos e parapente. Mais
que o turismo, o que impulsiona às ganhas a economia de Gran Canaria é o que arrecada de taxas
cobradas dos navios pelo uso de plataformas, distantes 400 metros da costa,
para abastecimento, reparos e compra de víveres. Não foi aleatória minha
escolha por Las Palmas. Quero rever uma prima que não vejo há mais de 40 anos!!
Com sua família, ela se mandou do Uruguay, no início deste século, pra tentar nova
vida além-mar, no que obteve sucesso. Maria Amalia e seu marido Daniel foram me
buscar no aeroporto além de me alojar num apartamento cedido, gentilmente, por
eles, diante do mar, em Las Canteras. Combinamos que à noite irei jantar em sua casa distante algumas quadras donde estou hospedada. Cansada, após almoçar a saborosa paella (a 1ª que como em terras espanholas), deito, adormecendo
assim que ponho a cabeça no travesseiro. Restaurada pela soneca dou uma banda
ao longo da rambla separada da praia por um muro encimado com gradis de ferro. Devido à maré alta, a praia está reduzida a uma estreita faixa
de terra. A minha frente o Atlântico exibe sua vastidão azulada contida por barreiras de coral, distante poucos metros da praia. Não exibindo a sofisticação de Madri tampouco a de Barcelona, Las Palmas tem estilo arquitetônico simples, sem muito rebuscamento. Até 1970 era uma vila
de pescadores. Com o boom do turismo, houve uma baita alavancada econômica na
região, transformando-se na próspera comunidade dos dias atuais. No
amplo e extenso calçadão, dezenas de restaurantes com mesas na calçada. Embora
o céu se mostre nublado, a temperatura no relógio digital acusa 25º C. Que
salto térmico dos 9º C de Barcelona quando de lá parti pela manhã. Algumas
pessoas caminham na praia e um que outro surfista passa carregando suas
pranchas. Também pudera, já são mais de 17 horas. Dia seguinte, Maria Amalia e
seu filho Franco são meus guias num tour pelo centro histórico.
Pegamos um bus e descemos no parque San Telmo onde se localiza a pequena igreja
de igual nome, cujo interior dourado exibe pendurados do teto réplicas de
barcos de pesca que sobreviveram aos temporais. Apesar de gordas nuvens brancas, o sol brilha radioso no
céu. Caminhando pelas ruas do centro vamos até o largo onde se encontra o
teatro Perez Galdoz. Sempre a pé, Maria Amalia e Franco me levam ao museo Colón,
residência onde Cristóvão se hospedou quando esteve na ilha em 1492 antes de
rumar pra América Central. Curto demais o interior da casa com piso de
pedra e pátios internos. E fico embasbacada ao saber como eram pequenas as
3 caravelas, Nina, Pinta e Santa Maria. Passamos por muitas plazas, como a de
Santa Ana onde se encontram a Catedral e as Casas Consistoriales, a de San
Domingo, a de Cairasco onde sobressaem os belos prédios do
Gabinete Literário e do hotel Madri, o primeiro hotel construído na ilha, além da colorida plaza de Las Ranas.
Almoçamos num bistrô deliciosos tapas escolhidos pelos primos. À tarde, já
sozinha porque a vida de trabalho segue pra Maria Amalia e Franco, alugo uma bici e dou um
rolê legal ao longo da ponta nordeste da ilha. Gran Canaria é muito bonita com
suas montanhas debruando a orla marítima. Depois de deixar a bici numa
praça, com o sol já se pondo, caminho pela rambla matando tempo até a hora de
ir pra casa de minha prima jantar com eles. Paro pra assistir à apresentação
dum casal vestido à moda celta tocando e cantando músicas desse estilo musical.
No sábado, vamos passear por algumas cidades da ilha. No carro, dirigido por
Daniel, além de mim vão Maria Amalia e Juliana, filha do casal. Observo que as estradas que ligam Las Palmas as outras cidades são muito boas e bem sinalizadas, embora sinuosas, já que cortam encostas de montanhas. O verdor da vegetação é complementado aqui e acolá por arbustos de flores amarelas. Atravessamos o Pueblo de
Miraflores, cruzando a seguir moderna ponte estaiada. Nos acostamentos, ciclistas pedalam com certo esforço pois o trecho é de subida. Nossa primeira parada é Teror, pequena cidade cujo clima é bem
mais fresco, já que situada a 543 metros acima do nível do mar, comprovado pelo
termômetro marcando 17º C às 11 da manhã! As ruas têm calçamento de pedra
basáltica e as casas exibem balcões de madeira. Aqui se encontra a Basilica da
Virgem del Pino, padroeira da Gran Canaria, cujo altar todo trabalhado em prata
é lindo! Pra não fazer jus ao ditado “saco vazio não para em pé”, entramos os 4 numa
mercearia onde ao redor do balcão pessoas comem e bebem quitutes regionais.
Tenho praticamente uma epifania gastronômica enquanto degusto fatias de queijo
de cabra acompanhadas pelo vinho, levemente adocicado, produzido na ilha. Fico
de olho num bocadillo recheado com chouriço de Teror e queijo. Mas me contenho,
porque tenho almoço pela frente e não quero lotar de todo o estômago. Bem
alimentados, continuamos a viagem e da estrada vislumbro lá embaixo o
azulado Atlântico e Las Palmas. O dia se mantém parcialmente soalheiro. Nossa
próxima parada é Firgas onde em degraus jorra cascata de água oriunda de poços
artesianos. Mais acima na mesma rua, enfeitam o piso enormes quadros
azulejados, representando cada um as 7 ilhas do arquipélago da Gran Canaria.
Numa dobra de rua, eis a pitoresca estátua em homenagem às lavadeiras,
simbolizada por 2 mãos lavando peça de roupa diante dum córrego. Deixamos
a encantadora Firgas porque ainda temos mais uma cidade a visitar: Arucas.
Agora estamos descendo razão por que a temperatura torna-se cálida, fazendo com que eu
dispa o blusão de fleece e fique de camiseta de manga curta. E o sol definitivamente domina o céu! Impressionante a
igreja em estilo gótico no alto duma colina. Nem a catedral de Las Palmas é tão
grandiosa. Entramos no parque municipal de Arucas onde conheço a árvore
típica da Gran Canaria, o drago, com sua minúscula copa erguida pro alto como
se fosse um espanador de cabeça pra cima. Arucas é outra cidade agradável
com ruas empedradas e casarios antigos com balcões de ferro. Maria Amalia escolhe o
restaurante em função do prédio se tratar duma típica residência da Gran
Canaria. O almoço é um autêntico picoteo: papas arrugadas con mojos, queso
ahumado a la plancha con mojos y miel, croquetes, pulpo frito estupendamente
crocante, berenjenas fritas (divinas) con miel de palma. De sobremesa, o
tradicionalíssimo gofio, numa versão gourmetizada. Pra beber, vinho tinto,
espanhol, por supuesto!! Dessa forma, encerro o dia com outra epifania
gastronômica!! Domingo, meu último dia em Las Palmas, Maria Amalia e Daniel me pegam
pra dar um passeio pela rambla das Canteras onde está rolando uma maratona. Pra
animar os maratonistas, uma murga feminina, fantasiada com tutus de tule
colorido, fazem apitaço coletivo, ao passo que mais a frente outro grupo feminino toca
tambores. Vamos até o auditório Alfredo Kraus, moderna construção diante do
mar, onde rolam diversos eventos culturais ao longo do ano. Vez por outra, muçulmanas
marroquinas passam por nós com seus esvoaçantes e coloridos trajes que as
envolvem da cabeça aos pés, salvo o rosto. De forma a abrir o apetite antes do almoço
na casa de meus primos, paramos os 3 num bar pra beber vinho. Como a sesta é
sagrada em se tratando de espanhóis e uruguaios, deixo os primos em paz e vou
pra casa descansar um pouco também. Contudo, não permaneço muito tempo na cama,
trato de alugar uma bici e dar outro rolê. Dessa feita, pedalo na avenida marítima que fica na ponta nordeste de Las Palmas. Com o
indefectível Google Maps chego na ciclovia e vejo emergindo do mar as
gigantescas plataformas onde os navios estão aparcados. Ao longo dos 7 km da
ciclovia, mais plataformas onde sempre há navios estacionados. Passo pelo
Real Club Nautico de Gran Canaria onde dezenas de iates e lanchas se encontram.
O pedal continua por San Cristóbal Marinero, antigo bairro de pescadores, cujas
casinholas são pintadas de cores fortes e vibrantes. Do alto da ciclovia, a
playa de Las Lajas cuja areia é bem escura ao contrário das de Las Canteras.
Termino o pedal no mirador onde se encontra a belíssima escultura representando
Triton, deus das profundidades marinhas. Na segunda-feira, pego um ônibus e me
toco pro aeroporto, Lisboa me aguarda. Valeu, Maria Amalia querida, nosso reencontro foi tudo de bom, prima!!
Após nosso retorno a Bissau,
permaneço ainda uma semana na cidade com breve escapada a Bubaque no fim de
semana pois na terça troco o continente africano pelo europeu. Assim, na quarta
de manhã, já em Madri, vejo a sorridente Michele aguardando-me no desembarque
do aeroporto de Barajas. O motivo por que resolvi dar um rolê de 5 dias na capital
da Espanha foi justamente pra rever a amiga que pra cá se mudou de mala e cuia
– literalmente – já que faz parte daquela autêntica galera gaudéria que vive com
a cuia na mão. Ainda bem que ela foi me buscar porque pra mim é um mistério
qual linha de metrô pegar, qual conexão fazer e por aí afora até se alcançar o destino
final. Trocamos o trem subterrâneo pelo ônibus que nos deixa enfim em 4
Vientos, bairro onde ela mora. Embora faça frio, em torno de 9º C, o dia está ensolarado
e o céu, azulado, despido de nuvens. Neste 1º dia na capital espanhola, me
limito a pôr o papo em dia com Michele enquanto bebemos um chima - claro! - e a
descansar porque estou sem dormir praticamente a noite inteira já que parti de
Bissau às 23 horas, chegando em Lisboa às 3 da madrugada donde peguei o avião das
7 pra cá! Mas na quinta, pernas pra que te quero, lá vamos nós ao centro da
cidade onde ficam diversos pontos turísticos importantes como o Palácio Real
com entrada livre entre 16 e 18 horas, poupando-nos assim preciosos
euros. De todas as imponentes e luxuosas salas e salões da imensa residência
real a que mais me impressionou nem foi a dourada sala do trono mas uma saleta cujas
paredes e teto são revestidas com colorida porcelana em alto relevo. Que vida
suntuosa a daqueles nobres!! É um sem fim de mármore de Carrara, aparadores
gigantescos feitos com madeira de lei, paredes cobertas com suntuosos papeis de
parede, candelabros colossais somente possíveis de serem pendurados num salão
com pé direito altíssimo, sem deixar de mencionar os enormes espelhos e suas molduras
ricamente ornamentadas. Mas o que curto mesmo, exatamente porque mexe com o lado
infantil de minha personalidade, é o adorável carrossel diante do Palácio Real.
Ahhh e o que são as estátuas vivas cujas ousadas posições dos artistas me deixa
boquiaberta?! E aquelas casas com 3, 4 e 5 andares com seus balcões de ferro
trabalhado (alguns exibindo a bandeira espanhola) e altas portas envidraçadas,
hein?! Na sexta, eu e Michele nos tocamos até o centro outra vez. O objetivo é
visitar os 20 hectares dos Jardines del Campo del Moro, cujos destaques são a
visão esplêndida das traseiras do Palácio Real, o chalet de la Reina, em estilo
tirolês e, dentre os paseos, o De Los Mosquitos (imagino aquela aristocracia
espanhola se autoestapeando pra afugentar os famigerados insetos). Damos um
rápido rolê pelo sem graça Jardines de Sabatini, outro jardim externo ao
Palácio Real. Entramos no museo Cerralbo, repleto de preciosidades, sendo que a
que mais me encantou foram os magníficos e coloridos lustres de Murano pendendo
de tetos ricamente entalhados. Por outro lado, considero bem insosso o colossal
interior da Catedral Santa Maria La Reina de Almudena, embora sua cripta seja
arrasadoramente interessante com todos aqueles túmulos em mármore não só
alojados em capelas ao longo das naves laterais quanto no piso de pedra clara. Depois
desta intensa peregrinação, precisamos repor as energias e o melhor lugar é o mercado de San Miguel, uma espécie de templo gastronômico de tapas,
expostos nas vitrines das bancas dispostas uma ao lado da outra. De enlouquecer
a variedade de sanduichinhos, cones com frutos do mar e enfiadinhos de
azeitona, tiras de pimentão, bocadinhos de queijo e camarões. Mais não enumero
porque senão encheria 1/2 página descrevendo-os. Montamos cada uma seu prato e
nos sentamos em tamboretes diante duma comprida mesa onde outros turistas além
de espanhois lá se encontram num clima de alegre confraternização proporcionada
pelo álcool e boa comida. Michele e eu brindamos com um tinto encorpado
(espanhol, por supuesto) o reencontro! Dia seguinte, junta-se a nós, Dani,
outra brasileira que vive em Madri, amiga de Mi. A pedida do sábado é visitar
os resquícios arquitetônicos núbio-egípcios, chamado Templo de Debod. O prédio
principal está fechado à visitação motivo por que acho meio sem graça os tais
monumentos vistos apenas de fora. Como o teleférico fica bem pertinho, nos
tocamos pra lá, embora esteja chuviscando. Esta viagem aérea proporciona um dos
melhores vistaços que se pode ter não só de Madri como do Palácio Real,
Catedral de La Almudena e do rio Manzanares que corta a cidade. O passeio termina
na Casa de Campo, o maior parque da capital madrilenha. À noite, vamos à La
Latina, bairro repleto de bons restaurantes e bares. Escolhemos um de tapas, com
cara de bar de velho (hahaha), porque a maioria, cheio de jovens barulhentos,
nos impediria de conversar tranquilas. Pra acompanhar os petiscos, não menos
que 2 garrafas de tinto (novamente espanhol, por supuesto)! Exceto o dia de minha
chegada e o da partida, o tempo se mostrou cinzento, com ocasionais chuviscos, mantendo-se
a temperatura sempre ao redor dos 9ºC. Até que o inverno espanhol não está sendo
tão severo. Assim, domingo, o céu permanece nublado enquanto atravessamos os
jardines del Buen Retiro, conhecido simplesmente como El Retiro. Numa ponta do
lago, destaca-se o grandioso monumento Glorieta de
Afonso XII. Provo o autêntico churros que vem a ser finos e compridos canudos
de massa doce frita pero sem recheio. Pra acompanhar saboroso e espesso
chocolate quente onde se mergulha a guloseima! Achei Madri atraente e fiquei impressionada
com a boa vontade, gentileza e educação dos madrilenhos, contrariando
entendimento anterior que até então nutrira pelos espanhóis nas minhas andanças
por este mundão. Arriscado generalizar que francês é assim, russo assado e por
aí afora, não é mesmo? A língua muitas vezes é chicote do rabo....olé!
Segunda, zarpo de Madrid no
trem que parte da estação Atocha, passando pela última vez diante das gigantescas
esculturas dos rostos de 2 bebês que, na concepção do autor Antonio López
Garcia, representa a passagem do tempo: o de olhos abertos, significa o dia, já
o de olhos cerrados, a noite. Apesar de mais caro que avião, escolho ir de trem,
porque assim posso curtir um pouco a paisagem até Barcelona, distante 500 km. A
curta viagem de 2 horas sofre, a partir de Zaragoza, brusca mudança na paisagem:
o até então árido cenário vai se transformando em verdes campos à medida que
Barcelona se aproxima, influência dos ares úmidos do Mediterrâneo já que a
cidade está à beira mar. Como estou realizando a proeza de viajar com uma mala
de 10 kg de modo a não precisar despachá-la, pego o metrô (espertamente,
escrevera email ao hotel solicitando orientação), descendo em plena rambla! Com
auxílio do Google Maps acho o hotel sem estresse algum, situado no coração do barrio Gotic que é um arraso: suas estreitas e escuras ruelas desembocam em arcadas
que por sua vez dão passagem a mais ruelas escuras e estreitas. E as casas são
feitas de pedra como os castelos de antigamente! Estou em-can-ta-da de poder
desfrutar ambiente tão medieval. Assim como em Madrid, os mendigos se abrigam
em arcadas somente à noite, durante o dia tu nem vês sinal deles. E nas janelas
não mais a bandeira espanhola e sim a da Catalunha. O centro de Barcelona
nasceu no barrio Gotic por um motivo muito óbvio: perto do porto onde tudo
acontecia naquele tempo dantanho. Lugares como Gràcia eram vilarejos que
posteriormente foram incorporados à cidade. Isso tudo me foi contado por um
atendente de bar enquanto eu tomava o último cálice de vinho da noite. Evidentíssimo
o orgulho que os catalães têm de seu passado e de sua terra. Depois de largar
as bagagens no hotel (são apenas 18 horas!), me mando pra desbravar os
“sinistros” becos chegando após 3 minutos de caminhada na plaça Sant Jaume onde
tá rolando uma manifestação de taxistas contra motoristas de Uber, haja vista
que estes pagam menos impostos que aqueles. Acabo na Barceloneta, como é
chamado o porto, caminhando tranquila apesar do adiantado da hora: quase 22
horas. Dia seguinte, continuo a desbravar o barrio Gotic e chego na Plaça Real onde
caturritas voam de palmeira em palmeira matraqueando sem parar. Aliás, super
comum esse tipo de árvore enfeitando as avenidas da cidade. Ato contínuo,
retorno à plaça Jaume e embarafusto pela pitoresca (tudo é pitoresco no barrio
Gotic!) Carrer del Bisbe, rua cortada pela exótica ponte gótica, construída no topo
entre 2 edifícios permitindo assim a passagem aérea entre eles. Mais adiante, a
imponente fachada gótica da Catedral, também conhecida como La Seu, remontando
ao século XIV. Em seu luxuoso interior, distribuem-se ao longo das 2 naves
laterais ricas capelas em cujos altares jazem imagens de santos. Na frente do
templo, uma banda com piano de madeira toca alegre blues de New Orleans ao
passo que na rua lateral à Catedral uma moça entoa trecho da ópera Carmem, Habanera.
Apesar do frio, o sol brilha no céu azulado, não dá pra querer melhor, afinal estamos
em pleno início do inverno europeu. Alugo então uma bici que se revela uma boa
bosta. Consigo apenas dar uma banda até o parque de la Ciutadella onde se
localiza o parlamento da Catalunha, descobrindo que o pneu traseiro está murcho.
Procuro um lugar pra enchê-lo mas além de furado seu ventil está completamente
podre! Desisto da bike e volto a usar minhas pernas indo até o Palau Guell, contentando-me
em curtir apenas sua fachada. Na verdade, não sou bem uma fã das obras de Gaudi
apesar de reconhecer a sua baita originalidade numa época em que a estética
clássica predominava no continente europeu. Agora, escrevendo esta postagem,
fui dar um vistaço na internete pra procurar o nome certo do museu e ao ver as
fotos, em especial as do terraço, confesso que me sinto arrependida. Fica pra
outra vez. O mesmo ocorre em relação à Casa Batlló: limito-me a curtir apenas seu
incrível exterior com balcões que, segundo o catalão ao meu lado, representam
máscaras usadas nos bailes de carnaval. Em relação a esta casa, contudo, não me
sinto mal porque algumas salas estão sendo reformadas com andaimes atrapalhando
a visitação. Na verdade, estou mais a fim de passear pelo barrio Gotic, me
perder em suas ruelas tortas, algumas onde o sol nunca dá as caras e desembocar,
inesperadamente, em pequenas ou grandes praças, provar na terra dos tapas e dos
pinchos todos os petiscos que meu estômago aguentar, assim como sentir água na
boca ao ler os menus afixados na frente dos restaurantes querendo comer tudo o
que vejo descrito. Percorrer os corredores da Boqueria, mercado em cujas bancas
vendem-se desde peixes e frutos do mar fresquinhos, acomodados sobre grosso
colchão de gelo, às delicatesses como nozes, figos, frutas desidratadas e in
natura, chocolates, doces de marzipã com formatos pra todos os gostos, queijos
e os famosos presuntos serrano e pata negra. Ahhh, capítulo à parte, as vinaterias
onde são privilegiados os vinhos produzidos na Catalunha, por supuesto. Pra não
dizer que descurei do lado cultural, entro no bizarro Museu de Cera curtindo
demais a bela casa antiga e seu ambiente sombrio, me divertindo com a
representação canhestra de alguns personagens, quase irreconhecíveis, caso das
estátuas do Príncipe Charles e sua mulher, Camilla Parker Bowles. Dou uma baita
pernada ao longo do Passeig de Gràcia onde os belos prédios antigos enfeitam ambos
os lados da rua. Dobro na Avigunda Diagonal onde as antiquadas residências são
substituídas por altos e modernos edifícios. A greve dos taxistas continua
firme e forte, ocupando os grevistas dessa feita a plaça de Catalanuya. No meu
último dia em Barcelona, o dia amanhece frio, com céu absolutamente encoberto e
uma garoa marota molhando as ruas da cidade. Na metade da tarde, surpresa, o
céu se abre e o sol volta a brilhar firme e forte. No final da tarde, vou ao
cerro de Montjuic lamentando ter perdido o passeio de teleférico porque quando
lá cheguei já havia se encerrado a atividade. Mesmo assim a vista da cidade e
do porto com o sol dourando os telhados e as cúpulas das igrejas vale o cansaço
de já ter caminhado 20 km durante o dia, afora o esforço de subir as escadarias
que conduzem ao topo. Fico arrepiada quando passo pela plaça Jaume com a comovente
manifestação dos venezuelanos contra o governo Maduro, finalizando o ato com a
multidão entoando o hino nacional. Termino a noite e minha breve estadia de 2
dias em Barcelona, assistindo no porão dum bar perto do hotel a uma jam session
enquanto beberico algumas copas de vinho.....tinto e catalão, por supuesto!!
No 1º dia do ano, cedinho,
pegamos um táxi até Pikine onde está localizada a rodoviária de Dakar e
embarcamos numa condução chamada sept
place, que vem a ser um carro adaptado para caber 7 pessoas, afora o motora, acrescentando-se para tanto um banco extra no lugar do bagageiro. O percurso entre
Dakar-Banjul, de 300 km, dura 6 intermináveis horas. Espremida no interior do
desconfortável veículo, sinto na própria carne o que vêm a ser as expressões “calor
senegalesco” e “apertado que nem lata de sardinha”. A rodovia senegalesa tem bom
asfalto e a paisagem corre célere pela janela do carro, revelando paisagem de
savana e seu capim dourado a perder de vista. Árvores com folhagens abundantes
são um contraponto aos baobás cujos galhos despidos de folhas lembram figuras
espectrais. Salinas pontuam de branco a planície senegalesa. Vilarejos, cujas
casas são em sua maioria de adobe com teto de palha, são protegidos por cercas feitas
com galhos tortos. Gente sentada em bancos, sob as copas frondosas das árvores,
conversam na quentura da tarde. Chegamos
a Amdallai e damos saída do Senegal para logo em seguida dar entrada em Gâmbia.
Os trâmites são rápidos, uma beleza, embora haja intenso controle militar com casamatas
e soldados armados. Mal cruzo a fronteira da Gâmbia, um enxame de mulheres e
crianças nos ataca, literalmente, oferecendo câmbio e amendoim. Troco
30 mil francos por dalasi, moeda local e descubro posteriormente que me dei mal
porque a mulher me pagou 1 ninharia pela moeda senegalesa. Que raiva, quem
manda ser afobada, né?! Juntamente com Lagga Jallow, enfermeira gambiana, que conhecemos na fila
da imigração, rachamos um táxi rodando 25 km até o porto donde sai o ferry. A
embarcação cruza o Gâmbia, nos deixando na margem esquerda do rio onde se
localiza Banjul. De lá, sempre com a simpática Lagga, pegamos outro táxi até Serekunda
onde está nosso hotel. De Banjul tenho apenas um rápido vislumbre, já que são
20 horas e a cidade carece de boa iluminação. Percebo, entretanto, que está
rolando uma festa de rua com som de tambores percutindo um ritmo animado que dá
vontade de a gente se sacudir. Gâmbia, um dos menores e mais pobres países da
África Ocidental, não passa duma estreita faixa de terra pantanosa, atravessada
pelo rio Gâmbia de leste a oeste. Cercada pelo Senegal por todos os lados,
exceto na parte oeste onde se limita com o Atlântico, seu clima é tropical. A população
beira 2 milhões de pessoas, sendo que a língua oficial, o inglês, se deve ao
país ter sido uma das colônias do Império Britânico de 1765 a 1965. A economia ampara-se
na agricultura, pecuária, pesca e, principalmente, no turismo. A maioria da
população é muçulmana. Banjul, capital da Gâmbia, conta com uma população de
34.828 habitantes, localizando-se na Ilha de Saint Mary, onde o Rio Gâmbia deságua
no Oceano Atlântico. A cidade, fundada em 1816 pelos britânicos, serviu como um
entreposto comercial e base para o combate ao tráfico de escravos. Já Serekunda,
onde estamos hospedados, vem a ser a maior cidade do país e seu principal
centro financeiro, corporativo e econômico. Nosso hotel é simples mas bem
localizado. A 20 metros, as águas verdes do Atlântico, diante do qual redes,
cadeiras e mesas espalham-se pelo jardim. Ao longo da orla, barracas de comidas
e muitos resorts. Pra quem gosta de surfe rolam boas ondas. Nem sei qual a
temperatura da água já que com forte resfriado trato de me preservar, evitando banhar-me. Ao
entardecer, paira uma leve névoa sobre a praia. A temperatura é bem quente e sem
vento. A parte do país por mim visitada é tão suja quanto os lugares por onde
estive no Senegal e Guiné Bissau. O mesmo problema aqui se repete: ausência de lixeiras
nas ruas, de modo que o lixo é jogado ao léu. Único lugar de toda a África
Ocidental, por mim visitada, onde as pessoas não foram simpáticas, em especial
as mulheres, atendendo com muita má vontade os hóspedes, foi neste resort onde estamos. Afora
que, sem noção alguma, os faxineiros varrem o refeitório durante o café da
manhã! Bueno, dia seguinte ao da chegada, Raul vai a Banjul ao passo que dou
uma banda a pé até o centrinho de Serekunda trocar dinheiro. Resolvo almoçar
comida de rua onde, atrás da delegacia, há bancas de comida. Pergunto às
mulheres se estão servindo almoço considerando já ser ½ dia. Respondem que
nas panelas o que há ainda é breakfast. Como mais parece almoço do que desjejum,
peço à simpática Fatu, a dona duma das bancas, um prato, fartamente,
servido com peixe, arroz e legumes. Sento à mesa do homem que vende chá e compro
uma taça da beberagem. Na delegacia rola um escândalo protagonizado por um
homem que berra e sacode as algemas com que foi atado às grades da janela da
frente do prédio. Fico sabendo que foram os parentes que o denunciaram porque
ele estava “muito louco de drogas”. Na quinta-feira, quem aparece pra ser meu
guia é Mohamed, jovem de 20 anos, que conhecemos no Senegal, em
viagem com sua escola ao país vizinho. Mohamed pretende ser guia nas horas
vagas mas além de não entender bem seu inglês, ele não me parece muito experiente
em tal mister. Inicialmente, quer me levar na vila, à beira mar, onde moram
seus pais. Garante, orgulhoso, que sua mãe irá preparar comida típica gambiana.
Além de ter de se pegar sei lá quantas conduções até o vilarejo, não me sinto nada
bem por causa do resfriado. Declino assim do convite e proponho irmos a Tendaba
Camp onde há uma reserva e um parque nacionais. Chacoalhando num ônibus, tipo
àqueles existentes no Brasil na década de 50 do século passado, dura 4 horas o
trajeto de 140 km até Kwinella, vila localizada à beira da rodovia, porque as paradas são frequentes! Diversos
pontos de controle militar com casamatas e soldados armados ao longo da South
Bank Road que, ao contrário dos ônibus, exibe asfalto impecável. Como Tendaba
Camp dista 5 km do vilarejo, alugo um táxi com a incumbência de nos trazer de
volta. Decido que não vou dormir no acampamento já que estou cada vez me
sentindo mais indisposta. Vejo algumas mulheres de peito desnudo carregando às
ilhargas seus filhinhos enquanto assistem à discussão entre outras duas. Num
frágil equilíbrio que quase descamba pras vias de fato, o caloroso bate-boca só
termina quando um homem intervém conseguindo enfim apaziguar os exaltados ânimos
entre as jovens. A tal viagem de barco que quero fazer no rio Gâmbia nem
rola quando percebo a inexistência de toldo no barco. Sem condições de
permanecer 2 horas sem proteção no solaço das 13 horas. Retorno ao hotel lá
pelas 5 da tarde me sentindo um trapo, tanto que me jogo na cama e só acordo dia
seguinte. Já me sentindo melhor após automedicada com antibióticos comprados numa
farmácia dos arredores, na sexta, vou junto com a simpática família espanhola,
também hospedada no resort, passear nos manguezais do rio Gâmbia. Aboletados
num táxi, rodamos uns 10 km até o local donde partem as embarcações. E lá vamos
nós, sentados em bancos no barquinho com toldo, melhor equipado que o do dia anterior.
Por não durar mais de 2 horas, sendo a maior parte do tempo dentro do barco,
salvo uma curta caminhada no lodo do mangue até alcançar terra seca, pra conhecer uma
árvore com um enorme buraco em seu tronco, o passeio não é lá essas coisas. O tipo
de turismo superficial que muito pouco acrescenta, ainda mais quando já se
conhece incríveis manguezais, meu caso. No sábado, Mohamed vem ao hotel em
sua bici para darmos um rolê pelos arredores. Para tanto, alugo uma bicicleta em
Fajara. Pedalamos pouco mais que 9 km porque ainda não estou 100% cento boa de
meu resfriado ou seja lá o que está me deixando tão amolada. Durante o pedal conheço
o National Botanic Garden, pequeno, bem acanhado, sem placas que indiquem os
nomes de arbustos e árvores. De flor, só uma, bem bonita, de cor alaranjada. Os
serviços básicos na Gâmbia como eletricidade e água, são bem precários, embora
aqui as ruas sejam um pouco menos sujas. No domingo, bem cedinho, nos tocamos
pra rodoviária. É hora de retornar a Bissau já que Raul começa a dar aulas dia
seguinte, segunda-feira. Ao lado do ônibus, muçulmanos estendem o tapete no
chão de pedra e se põem a rezar a primeira oração matutina. A viagem marcada
pra começar às 7, só tem início uma hora depois porque a quantidade de
tralharedo a ser posta no bagageiro do veículo localizado na parte superior é
algo!! Cestas, embrulhos e baús enormes,
bicicletas, cadeiras e outras traquitandas são suspensas por cordas numa
complicada engenharia necessitando tanto de homens no chão quanto em cima do carro.
A viagem dura 12 horas num percurso de 298 km embora as estradas na Gâmbia e
Senegal sejam boas. O q atrasa são os check points na Guiné Bissau com o
objetivo de cobrar taxas de quem está trazendo compras feitas no exterior:
foram 8 em 120 km!! De tirar do sério até o mais santo ser humano!