sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Passo dos Anjos

O vento que soprara durante a noite, provocando um chap chap enjoadinho no plástico da barraca, permaneceu, firme e forte, durante uma boa parte da manhã, enquanto caminhávamos ao longo do Passo dos Anjos. Suponho que o nome dado a esta crista – apropriadíssimo - advém não só do fato de não exibir qualquer vegetação embaraçante ao longo de seu trajeto como ainda à suave aclividade do terreno. Além do mais o visual é lindo! Em ambos os lados da estreita trilha, altas escarpas projetam suas sombras no vale que se estende abaixo. Vez por outra estaco e olho pra trás. Numa dessas paradas, eis que, mirando o horizonte, chama minha atenção, apontando a oeste, duas expressivas elevações. Não deixo por menos e logo estou aos gritos – já que ele se encontra bem a minha frente - perguntando ao Willian “o que é aquilo, hein, Príncipe?” Descubro então que são Itaguaré e Marins, outra clássica travessia da Mantiqueira, que também já está em minha alça de mira faz um tempinho. Observo, consternada, que um bom pedaço da vegetação apresenta fortes sinais de queimada. E fico sabendo mais tarde por Rodolfo do inadvertido descuido dum rapaz que derrubou um fogareiro coisa duns meses atrás. Como no meio vegetal a lei da regeneração é mais poderosa que no animal, flores que há um bom tempo não floresciam estão nascendo e tornando mais formoso ainda o Passo dos Anjos. Após uma hora e quinze minutos, a moleza acaba quando se tem pela frente um trecho invadido por esta planta daninha conhecida como capim-elefante ou capim-de-anta. Nanica - 1,53 apenas! - desapareço em meio ao alto capinzal cujos duros talos atingem em média 1,70 m de altura. Além de cuidar pra que sua longa e afiada folhagem não corte meu rosto, é foda caminhar em meio ao labirinto de estreitas trilhas abertas no matagal, permeadas por redondas touceiras dessa vegetação e robustos pedaços de rochas. Se neguinho vacila, leva calço após calço, podendo até se estabacar no chão. Embora a subida torne-se cada vez mais e mais íngreme, um alívio livrar-se do pentelhante capinzal e ingressar num pequeno bosque de mata atlântica. A breve caminhada sob a refrescante ramagem é super bem-vinda depois de penar na canícula durante boa parte da manhã. E o sol já vai alto no céu quando alcanço o ombro do Capim Amarelo, assim chamado devido à coloração amarelada exibida por essa planta depois de seca. Seria mais apropriado - no meu entender, é claro, porque mais poético – chamá-lo de Capim Dourado, tendo em vista o reflexo dourado da vegetação quando exposta aos raios de sol. Encontro Rodolfo sentado ao chão, descansando um pouco dos 30 kg de peso que leva em sua cargueira. Avisto, então, os picos da Pedra da Mina, Cabeça de Touro e Tartaruga situados a leste. Beleza pura vê-los, do lugar onde me encontro, como se estivessem um ao lado do outro, o que mais tarde descubro ser uma ilusão de ótica ou lá o que seja! Espremido entre a Pedra e o Tartaruga, do Cabeça só se entrevê parte de seu cume. Uma pausa duns bons 30 minutos permite aos fumantes enrolar seus palheiros com vagar. Lili Docinho, senhora de fino trato, não suja as mãozinhas fazendo cigarrim, não!! De sua mochila, saca um sofisticado maço azul cintilante contendo 10 cigarrinhos de palha enrolados, no capricho, por um sinhozinho passaquatrense, expert no assunto. Dá até vontade de voltar a fumar mas resisto bravamente ao espúrio desejo. Há 10 meses sem pôr um pito na boca, não vai ser agora que vou ceder à tentação....ah, não vou mesmo!! Se bem que às vezes me dá umas ganas de chutar o balde, mandar tudo à merda, e voltar a tragar meus cigarrinhos com aquela volúpia que tanto conforto me proporcionou durante 42 anos. Porque continuo amaaando fumar! Bueno, de volta à trilha após o merecido repouso, atingimos, em 40 minutos, o topo do Pico do Capim Amarelo. Do alto de seus 2.490 m, permanecemos justo o tempo necessário pra tirar fotos sob um céu triazul, sem fiapo algum de nuvem a maculá-lo. Linda demais esta Mantiqueira!! A descida, um íngreme declive, vai perdendo sua agressividade aos poucos, aplainando por completo quando desemboca num bosque. Afora arbustos e árvores de pequeno e médio porte, o manda-chuva do pedaço são os bambuzinhos, outro inço asqueroso pra caramba de enfrentar! Porra, não sei o que é pior, se o capim-elefante ou os bambus!! E, confirmando a vocação ainda atlântica da mata, verdes bromélias brotam rasteiras ao chão. E nova descida pinta no pedaço, terminando ao pé do primeiro dos dois paredões que hoje enfrentaremos. Como a distância engana! O que de longe, lá do colo do Capim Amarelo, parecera uma parede com temível inclinação de 90º, revela-se agora uma suave rampa de rocha granítica que super adere ao solado das botas. Embora o sol esteja a pino, são já 13 e 30, a sensação de liberdade é boa demais. Mesmo os guris carregando mochilas pra lá de pesadas, quando reclamam de seus fardos é sem vestígio de azedume. Todos, enfim, comungam dum mesmo sentimento: alegria de escapar por alguns dias da vida urbana. Após uma caminhadita de 25 minutos, eis o Maracanã! Um dos tantos locais de acampamento ao longo da travessia, o amplo terreno gramado é circundado por pequenos capões. Ali nos abrigamos do sol, iniciando-se então os preparativos do almoço. E que almoço! Tão bom e tão simples! Pão preto de nozes e castanhas, finas fatias de lombo de porco, queijo, mostarda e mel. De bebida um delicioso Tang Pro de melancia. Segundo Marcelo, “até se sente as sementes”. Hahahaha, essa é boa. Quando mineiro exagera, exagera pra valer. Vira Barão de Münchausen. Estamos tão contentes que entramos na onda e fingimos acreditar na absurdez criada por Marcelo. É o que dá meninos e meninas brincando ao ar livre. Bem descansados e alimentados, deixamos o Maraca às 15 e 30, prontos pra encarar - agora sim - uma parede bem mais longa e perrenguenta que a primeira, exigindo o uso das mãos vez por outra. Carnudas amarílis tingem de vermelho as descoradas lajes graníticas. E a subida, apesar de vencido o paredão, continua bem forte. Pra complicar mais ainda, outra travessia – que droga! - num bosquete de vara-bambus. E as caminhadas sobre as cristas sucedem-se num sobe e desce constante. Do lado direito da trilha, uma profunda garganta lança sombras escuras sobre o vale do Paraíba que se espalha generosamente por território paulista e carioca. E o esvanecido perfil da Bocaina sinaliza a vizinhança oceânica algumas dezenas de quilômetros adiante. Compensando o recente entrevero num dos infindáveis capinzais que, via de regra, sucede aos enfadonhos bosques onde predominam os intragáveis vara-bambus, nada como um desafiante trepa-pedras pra lixar a ponta das unhas. E quando a gente se dá conta a tarde chegou ao seu final! O pico da Tartaruga se faz mais e mais presente à medida que nos aproximamos da Pedra da Mina. Willian conta que, do cume da Pedra da Mina, uma via de escape, percorrendo a crista do pico Enganador, permite àqueles que não querem ou não podem fazer toda a travessia – seja por falta de tempo ou de condições físicas – finalizem-na em Paiolinho, bairro de Passa 4. Usa-se ainda Paiolinho como atalho àqueles que desejam fazer o pouco frequentado Cabeça de Touro sem a necessidade de enfrentar dois dias de caminhada para alcançá-lo. Marcelo, que recentemente desceu da Pedra da Mina pelo Paiolinho, conta quão dureza é esse descenso. E porque a noite já deu um chega pra lá no dia, não conseguimos curtir as belas e coloridas águas avermelhadas do rio Vermelho. Embora tenhamos caminhado durante uns 40 minutos varando o capinzal já na escuridão, as lanternas nem são ligadas tão clara se encontra a noite. Iluminada por uma lua cheia absurdamente branca, a silhueta arredondada da Pedra da Mina avulta sem charme na paisagem. Aqui e acolá, entre as rochas, entrevejo como se dia fosse, realçados pelo prateado brilho lunar, ramalhetes de arnica-montana exibindo sua delicada e alva florescência. Rodolfo opta por acampar às margens do rio Claro, situado quase no sopé da Pedra da Mina. As 10 horas de pernada fizeram com que a singela mineirice da janta, composta de feijão, arroz, farofa e lingüiça acebolada, fosse saudada como um banquete. O silêncio só é quebrado quando surge, na roda, uma garrafa de vinho tinto. E pra adoçar os doloridos músculos e embalar os sonhos, Bis Lacta. Baita sobremesa, não é mesmo?

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