sábado, 24 de novembro de 2007

Retorno ao cerrado goiano na época das chuvas

Pois não é que acabo retornando a Alto Paraíso por conta de um curso que fiz em Brasília?!! Como ainda tinha créditos de horas no serviço, aproveito pra dar uma esticada e me toco pra lá com intenção de fazer outros passeios. Esperam-me na rodoviária Marcela e Misael. Abraços e beijos são trocados, é bom, tão bom a alegria do reencontro! Vamos pra Pousada Jardim do Eden largar minha mala onde Lucia me aguarda com aquela sua delicadeza encantadora. Dessa vez, reserva-me o quarto Mil Folhas (da outra vez fora o Verbena); explica que a cada vez que eu lá retornar vou sempre ficar num quarto com nome diferente, "pra provar de todas as ervas", acrescenta alegre. Vamos eu, Marcela e Misa pro Alquimia. Com três ambientes, este bar apresenta uma parte interna envidraçada com balcão e banquinhos ao redor mais um estrado, ao fundo, servindo de palco onde na sexta e sábado rola som ao vivo. No alpendre, mesinhas e cadeiras de plástico brancas, afora uma reluzente mesa de sinuca. Nas traseiras, uma danceteria cuja função só acontece nos findis. Chego na pousada e basta deitar a cabeça no travesseiro que logo adormeço. Hoje, sábado, levanto animada, vou conhecer a cachoeira do Cristal. Ah, Lucia e seu desjejum!! Coisa mais boa voltar a provar seus quitutes preparados com todo capricho. Pergunta se eu quero uma panqueca quando chega Eduardo, seu marido, músico, tranqüilo que nem ela. Batemos um papo legal sobre energias positivas e crescimento espiritual, mas infelizmente é tempo de partir. Vou até a casa de Marcela que já estava atrás de mim. Me convida pra ir com ela de carro até Cristal, declino do convite, prefiro ir a pé com Pacheco, o guia da vez nesses dois dias de trekking na região. Aliás, tenho de registrar que esse paulista radicado há quase 20 anos em Alto Paraíso foi considerado o melhor guia de ecoturismo do ano de 2006! E tenho ele só pra mim, hehehehe....oba!!! O dia está legal embora nuvens grossas prenunciem chuva, pois a temporada da seca já era. Daqui pra frente até abril, chuviscos, chuvas e pancadões, podendo durar horas ou até dias. Na saída da cidade, pergunto o quem vem a ser um muro de taipa rodeando uma propriedade. Pacheco explica que é a ONG Oca Brasil cuja finalidade é o ensino de técnicas de preservação ambiental do cerrado. Me convida pra conhecer, acrescenta que Andreza, sua mulher, uma catarinense meiga, dona de belos olhos castanhos rodeados de fartos cílios, trabalha ali. Aceito o convite e me encanto com o que vejo: tucanos voando pra lá e pra cá, tudo muito bem cuidado, os prédios embora rústicos, feitos de pedras da região, são confortáveis, sala de cinema e refeitório. A comida servida é toda integral utilizando produtos plantados sem agrotóxicos. Reencontro, agradável surpresa! uma velha conhecida, a Mina, gaúcha como eu, que conhecera por ocasião de umas férias na Guarda do Embaú. Foi aquela alegria, ficamos recordando aquele verão de 99 em que ela arrendara um barzinho, localizado às margens do rio Da Madre, que explorou junto com o marido, levando a reboque três de seus filhos. Mas, infelizmente, não dá pra ficar mais tempo, Marcela nos espera no Cristal. E lá vamos nós estrada afora, inclusive Andreza que já terminara seu expediente. A caminhada é curta, coisa de uma hora, fácil, avistando-se durante o trajeto as serras que fazem parte do complexo da Serra Geral do Paranã, limite leste da Chapada dos Veadeiros. Eu pasmo diante da mudança na paisagem, ao contrário de setembro, quando as árvores se apresentaram pardacentas e despidas de folhas e o campo crestado pela ação inclemente do fogo das queimadas, tudo isso agora se tranformara como num passe de mágica. Parece outro lugar, entretanto é o mesmo: bastam algumas chuvas e o solo cobre-se de grama! As árvores exibem seus brotinhos verdes. No meio do caminho, começa um chuvisco. Ainda chove um pouco quando chegamos ao Cristal, pequeno balneário com restaurante, quiosques e camping, aproveitando as diversas quedas d'água e os poços formados pelo rio de mesmo nome. Lugar aprazível é muito freqüentado pelos moradores da cidade e turistas já que oferece uma boa infraestrutra pra receber visitantes, explorado pelo simpático Fernando, cujo apelido Tatu deve-se à sua parença com o personagem Tatoo, o anãozinho da Ilha da Fantasia, aquele do famoso seriado do final da década de 70 e início da de 80, lembram? Confesso que nem achei ele tão parecido assim com o tal artista, afinal nem muito baixo é!! Mas enfim... O fato é que sou super bem recebida, como uma galinhada trigostosa preparada por Mara, mulher dele, outra queridésima também. Peço uma dose de conhaque já que não sou lá muito chegada em cerveja e assim bem hidratada – hehehehe - vou com Pacheco até a cachoeira da Água Fria. No caminho ele vai me mostrando algumas plantas como a orelha de carneiro, macia, macia ao toque. Quando chegamos no alto da cachoeira, Pacheco me aponta uma linda queda d´água situada em frente conhecida como cachoeira dos Órfãos com 175 metros de altura. A paisagem lá de cima é esplêndida, dá pra avistar o vale do Moinho, que abriga uma pequena comunidade com pouco mais de 40 casas e as escarpas leste da serra do Pouso Alto. Continuamos o passeio até a ravina que conduz à Água Fria, esta já menor, com apenas 135 metros de altura. Essa trilha já requer mais cuidado: trata-se de uma descida até o poço formado pelas águas do rio da Água Fria. Atravessa-se o rio umas três vezes e isso me lembra por demais os meus queridos canyons de Praia Grande! Muito incrível a semelhançal! Pacheco mostra-se um guia interessantíssimo, contando "causos" divertidérrimos de suas aventuras na região. Rio muito messsmooo!! Ficamos por lá um pouco apreciando a imponente cachoeira cujas águas caem em volutas caprichosas pelo ar. Quando retornamos, vejo o quê?!! Um arco íris!! Poxa, muito bacana isso, é o segundo que me aparece este ano, o outro foi nas Torres del Paine em abril. Saco a máquina do bolso da bermuda e filmo bem doidinha, torcendo pra que saiam boas imagens. Sei lá se vou conseguir, desconfio que a luz do final de tarde e a câmera ruinzinha não vão colaborar muito.
Quando chegamos no quiosque já está rolando o maior churras patrocinado por Fernando em agradecimento à ajuda que Misa e seus empregados estão lhe dando. Foi assim: o camping do balneário foi queimado na época da seca, então, Misa pediu a seus empregados pra dar uma força pro Fernando cedendo dois sábados de descanso deles pra fazer um mutirão e reconstruir o alpendre. O ambiente, alegre, a peonada de Misa toda feliz bebendo cerveja, comida à farta (o feijão mexido com ovo duro é de lamber os beiços!), carne bem assada, suculenta e macia (olha, não é só gaúcho que faz bem churrasco, não!), todos alegríssimos. Beleza pura!! Marcela animadíssima com minha presença. Eu mais ainda....poxa, coisa boa a gente ser querida! A noite já se anuncia, mais uma vez não aceito a carona de carro da Marcela. Retorno eu, Pacheco mais Andreza a pé. A noite é de lua cheia e eu, com certeza, não deixaria por nada desse mundo de passear sob a luz do luar!! O campo iluminado tá clarinho, clarinho. Vez por outra nuvens abafam o brilho da lua, mas Pacheco usa sua lanterna e avançamos tranqüilos escuridão a dentro. O coaxar dos sapos, vez por outra o pio de uma ave apressada em direção ao seu ninho, quebram o silêncio da noite. Ao longe as luzes de Alto Paraíso apontam, eis-nos de volta à civilização....peninha. Eu por mim passava a noite toda caminhando!!

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