segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Vadiando em Alto Paraíso

Hoje, segunda-feira, só vou ficar na vadiagem em Alto Paraíso. Nada de trekking, apenas dar uma banda pela cidade sem pressa, filmando e fotografando. Como com prazer, devagarinho, meu delicioso desjejum (que alívio poder mastigar sem pressa, sem ter de ficar olhando o relógio de 10 em 10 segundos!) enquanto Lucia conversa comigo. Dona de meu tempo, saio sem rumo. As ruas ainda apresentam-se molhadas da chuvarada que caiu durante a madrugada, e lá vou eu bem satisfeita explorando dessa vez as ruas laterais – basta da avenida principal! Fico até um pouco envergonhada de tantos pontos de exclamação, mas fazer o quê? Eu gosto desta cidade! O sol se mantém até 10 da manhã. Aproveito pra filmar um pouco enquanto caminho. Do pátio de um colégio escuto o rumor de vozes de crianças brincando durante o recreio, mulheres com sombrinhas se protegem do sol e um cavaleiro, a trote largo, aponta no fundo da rua, apressado; o colorido prédio da prefeitura, e os terrenos baldios exibindo enormes cupinzeiros de altura chamam minha atenção. Que astral o desta cidade! Tomo o rumo da avenida já que preciso descarregar o cartão da máquina. Entro numa das duas lan house existentes na cidade, quando então começa uma chuva fraca pra logo depois virar pancadão. Diminui um pouco, aperta, e quando a gente pensa que vai estiar, fica naquele chuvisco enjoado estendendo-se até quase 2 da tarde. Fico ilhada na lan house quando adentra o estabelecimento Mina. Com sua voz metálica e grossa, característica de todo fumante inveterado, pede “tou com fome, o que tem pra comer?”. Saímos pra rua e nos sentamos a uma das mesinhas dispostas na varanda. Ficamos de bate papo até que ela, descontente com a coxinha de galinha que comera, me convida pra almoçar no restaurante do Hotel Central situado justo ao lado. Freqüentado por uma galera que não tem muito tempo ou não gosta de cozinhar, serve bufet de comida caseira sem grandes pretensões, preço modesto. Pra mim, é um luxo ficar ali, com tempo de sobra, na varanda, apreciando o movimento do meio dia na avenida Ari Valadão Filho. Depois do almoço, atravessamos a rua e entramos no Telinus Scotch Bar, logo em frente. É um bar ao estilo pé sujo com dois recintos: um pequeno com algumas mesas e cadeiras de latão onde há um balcão e a indefectível televisão sempre ligada; já no outro, amplo, mesas de sinuca onde nos findis rola um dancerê de forró regional, animadíssimo. Pachequinho está ali bebericando sua cerveja junto com uns amigos. Sento e peço uma dose de conhaque. Como não tem Domecq, me resigno e bebo o que há: Presidente....trinco os dentes e engulo, fazer o quê?! Fico na boa batendo um papinho até perceber que a chuva deveras estiou. Dou tchau pro pessoal e vou visitar Marcela que costuma almoçar em casa. Conversamos um pouco e vamos pro jardim onde um pé de jabuticabeira carregado de frutas implora que as provemos. Como até fartar a frutinha, está doce, docinha, uma delícia! Saímos juntas, Marcela de volta pro trabalho, eu retomando minha andança pela cidade. Passo por lojas cujo comércio de venda de quartzo me chama a atenção. As pedras sejam elas preciosas, semipreciosas ou simplesmente pedras me fascinam! Não resisto e compro uma bem grandona, de quartzo amarelo. Um barulhinho bom se faz ouvir produzido por sinos de vento feitos de quartzo polido. Tudo tão sossegado! Sinto fome e entro no Empório Paraíso dos Pândavas, uma lanchonete com menu de comidinhas integrais e orgânicas super apetitosas. O wrap escolhido, de berinjela e tomates grelhados, muzarela de búfalo e cream cheese, acompanhado por uma salada de folhas verdes, não só é de bom tamanho como me deixa pra lá de satisfeita. A massa, de panqueca, finíssima e com bordas crocantes, é muito bem feita! Encontro, quando estou saindo, com a italiana com quem viajara, no ônibus, vindo de Brasília pra cá. Abraça-me efusivamente. Trocamos algumas palavrinhas e volto pra rua. Os arcos de pedra construídos na entrada da cidade clamam pra serem filmados. Como toda pequena cidade brasileira, é de saltar aos olhos a quantidade de gente andando de bicicleta. Homens, mulheres, crianças, todos pedalam aqui! Típico de povo pobre. Mas não é só em Alto Paraíso, viu? Na China também; já na Holanda - reflito com meus botões - deve ser puro charme, pois o país não é nada pobrinho, não! Desço a avenida e resolvo ir até o estádio de futebol. É uma surpresa e das boas! A paisagem é linnnnndaaaa!! Avista-se o Morrão e as serras onde se situam as cachoeiras do Cristal e da Água Fria. Um belo cartão postal da cidade!! Pena que descobri no último dia!! É bom demais ficar ali apreciando o fim de tarde. Jovens atletas treinam correndo ao redor do campo. Tô na boa, melhor impossível. À noite, pizza na Ocalila com Marcela e Misael. Um bom vinho, pizza excelente, bem fininha e crocante. As estórias, de prender o fôlego, contadas por Misa fazem as horas passar voando. A da chegada de Jesus patrocinada por um grupo de estrangeiros, dentre os quais se destaca, além de Ringo Star, um sobrinho da Margareth Tatcher, é qualquer coisa de boa! Eu escuto, num misto de incredulidade e encantamento, a bem contada narrativa de Misa sobre aquele grupo de milionários que, numa noite de 1987, bate à porta de sua casa e contratam-no para construir um anfiteatro. O objetivo? A descida (ou a subida) à Terra de Jesus ET. “Eram uns seis ou sete carros, todos caminhonetões poderosos, um deles com placa da embaixada da Inglaterra”, conta Misa. O templo, segundo as instruções recebidas, deveria ter 5 metros de pé direito e tamanho suficiente para abrigar 3 mil pessoas. O chão seria coberto de quartzo branco da melhor qualidade. Pagaram a ele, à época, o equivalente a 20 mil reais pra iniciar o trabalho. Foi construído um acampamento onde o tal grupo ficou por 30 dias ajudando Misa, sendo que um deles era o baterista dos Beatles.
Foram embora com promessas de voltar em breve. Passado dois meses, um dos chefes retorna dizendo que a obra acabara porque o ET Jesus, desgostoso com a briga pelo poder entre os membros do grupo, achara por bem interromper o projeto de construção do templo. “Além do mais”, acrescenta o homem, “Alto Paraíso está carregada de energias negativas”. Misa finaliza a estória acrescentando que essa teria sido a quinta tentativa de construírem o tal templo!! Mas pensam vocês que a coisa pára por aqui? Só não!! Como estou, deveras, me alongando, só vou dar uma palhinha: Misa estava trabalhando nos arredores da cidade quando viu - essa é pra pasmar mesmo!! - pousando no cocoruto de um morro em pleno meia dia!! dois discos, um maior, outro menor, ambos de cor branca e achatados! Pra quem não crê em estórias de carochinha, comecem a acreditar, sim! homens de pouca fé: há VI-DAS em outros planetas!!

Um comentário:

Rosa Helena disse...

Querida Bea :
Achei o máximo tuas viagens..Tanta intimidade com a natureza ! Invejei teu banho de cachoeira..aliás tudo ! Me deu uma vontade enorme de fazer o mesmo !!!
Escreves muito bem. Descreves tudo com clareza ,simplicidade e delicadeza ! A riqueza de detalhes é de quem fala do que ama..Podes enveredar por este caminho com sucesso, tenha certeza ! Tens talento para a escrita. Um abração, ROSA HELENA WESTPHALEN .