Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
Quinta-feira bem cedinho, o táxi que Raul contratara no dia anterior nos conduz de Bissau até São Domingo, distante 125 km. Se é que se pode chamar de rodovia, a péssima condição da via nem asfalto tem em certos trechos, o que leva o motora a reclamar com justa razão. A paisagem de
savana exibe pântanos aqui e acolá. Faz frio quando chegamos a São Domingo, cidade guinense fronteiriça
ao Senegal. Fazemos os trâmites de imigração em ambas as aduanas e pegamos um
toca-toca pra Ziguinchor onde fica o porto. Embarcamos no navio Aline Sitoé
Diatta, heroína senegalesa morta aos 24 anos, em luta contra os franceses.
Estamos acomodados numa cabine para 4 pessoas: nós 2 mais uma peruana, já coroa,
naturalizada em Benin, e seu jovem e belo marido senegalês de cuja cabeça pendem
pesadas tranças rastafari. O navio tem 3 decks. Inicialmente, navega-se, em
torno de 3 horas, ao longo do Rio Casamanse com uma parada em Karabaque para
embarque e desembarque de passageiros. A partir daí, o barco singra as águas do
Atlântico. Além do restaurante que abre apenas para as refeições, há um bar funcionando
permanentemente no 2° deck. Música africana toca o tempo todo. Há muçulmanos
rezando compenetradamente suas orações à tardinha tanto no lado externo quanto
interno do navio. Chegamos
a Dakar às 7 da manhã de sexta e fico impressionada quão grande e populosa
a capital do Senegal é, com centenas, sei lá, milhares de arranha-céus e rodovias de pistas duplas, embora
nem toda a modernidade tenha - graças a deus! - eliminado os vestígios da velha África com seus
vendedores de comidas nas calçadas e aquela boa bagunça típica de países de 3º
mundo. O clima parece mais
fresco que em Bissau. Pegamos um táxi até cité Djily Mbaye onde alugamos um
quarto numa casa cujos moradores são muçulmano, como aliás o são
85% da população senegalesa. O bairro é moderno com boas residências apesar de as ruas
serem em sua maioria de chão batido. Duma mesquita próxima, escuta-se o pregão do muezin conclamando os fieis à oração matutina. Deixamos as bagagens no nosso amplo quarto
com banheiro e vamos à cidade passear. Leva-se quase uma hora num percurso
de 8 km porque o tráfego, pesadíssimo, com horrores de carros, é tipo arranca e pára,
uma chateação. Em frente ao museu das Civilizações Negras, numa feliz coincidência,
encontramos Antonia!! Infelizmente o museu está fechado e só abrirá após o
feriado de ano novo. Almoçamos os 3 num restaurante frequentado por nativos de
Dakar cujo prato do dia, tipicamente senegalês, chama-se chep (porção grande de
arroz, galinha ensopada, cenoura, aipim, repolho e outros 2 legumes
desconhecidos que não descubro quais são porque no Senegal falam francês). O ambiente,
bem simples, mais parece quintal de casa. A convite de Antonia vamos ao Museu Senghor. Não gosto do tal museu, na verdade a antiga residência
do famoso escritor e político, que tanto ajudou a difundir a cultura africana. Terminada
a chata visitação, pegamos outro táxi (não rola andar a pé porque as distâncias
são longas) e nos tocamos até o monumento ao Renascimento da África,
esse sim, vale a pena conhecer!! São 3 estátuas gigantescas representando uma
família em que a criança pousada no musculoso braço do pai aponta pro norte. É impressionante!
Sábado, vamos de táxi ao centro
onde mulheres sentadas às calçadas oferecem deliciosos petiscos regionais, além
da famosa manteiga de karité, vendida a preço de banana. Agora a pé, passamos
pelo Palácio Presidencial, onde 1 soldado belamente fardado monta guarda diante
dos portões da enorme residência pintada de branco. Sempre caminhando, entramos no interessantíssimo museu de Artes
Africanas (IFAN), onde estão expostas diversas manifestações artísticas da África
Ocidental, como a maravilhosa coleção de máscaras funerárias além do tam-tam ou
bombolong, o instrumento musical usado para comunicação entre as tribos. Dali continuamos numa longa pernada pela Corniche até Almadie, entrando no mercado onde há
dezenas de bancas vendendo artesanato senegalês. Tudo lindo e colorido. Não resisto a tanta belezura e compro um leque arredondado. O
trânsito à noite é tão pesado quanto durante o dia, tanto que levamos quase 1
hora pra vencer meros 6 km do restaurante Bazoff ao nosso hotel. No domingo, vamos
a Goreé, distante 2,5 km da costa, embarcados numa chalupa cuja navegação não
dura mais que 20 minutos. Percebo conforme nos aproximamos da ilha que sua ponta
leste é plana enquanto a ocidental exibe um penhasco projetado sobre o mar. Paga-se
1 taxa de cessão de serviços municipais de 500 francos para visitá-la. Rodeada
pelo mar cristalinamente azul-esverdeado, a pequena vila, ora com casarios em estilo provençal, ora em estilo ibérico com balcões
de madeira, exibe profusão de azaleas e buganvílias colorindo as ruas de variadas cores. As torres de
telefonia móvel, pra passarem despercebidas, são disfarçadas de
palmeiras! Lembra-me de certa maneira a uruguaia Colônia del Sacramento. No
mercado de artesanato Le Castel, a oferta de roupas coloridíssimas e peças em
madeira e palha é um colírio pros olhos. Tem de regatear porque senão as vendedoras põem
os preços nas alturas. Muito pitoresco o modo como as mulheres limpam os
dentes: ao invés de fio dental usam uns pedaços finos de pau que ficam
esfregando sobre e entre os dentes. A partir de uma feitoria fundada pelos portugueses em Goreé, a ilha foi, entre os séculos XV e XIX, um
dos maiores entrepostos de comércio de escravos, levados do continente africano aos 4
cantos das Américas. Como não
podia deixar de ser, entramos na Casa dos Escravos que abrigou 20 milhões de
escravos durante 350 anos, oriundos em geral da Nigéria e Benin. Na casa, que comportava em média de 100 a 200 africanos, homens, mulheres, crianças e
adolescentes eram amontoados em celas coletivas, divididos conforme gênero e
idade. Nos homens eram colocados grilhões e bolas de ferro. Era permitido ir 1
vez por dia ao banheiro, excetuadas as adolescentes já que em suas celas 1 buraco servia
a tal fim. Na cela dos recalcitrantes, pequeno e estreito cubículo, eram jogados os rebeldes.
Nelson Mandela quando lá esteve saiu em lágrimas do lugar. Dia 31, pela
manhã, caminhamos na praia, onde donos de cavalos e cabras levam seus animais para serem banhados nas águas do Atlântico. À tarde, almoçamos no Caesar’s, restaurante cujo cardápio
atraente oferece gostosa comida senegalesa, com preços razoáveis. Sua internet é
boa e da varanda onde estamos acomodados vemos o movimento no boulevard La
Republique. Terminado
o almoço, dou umas bandas pelos arredores enquanto Raul tatua no atelier dum francês um baobá na panturrilha da
perna direita. Paro diante da banca dum vendedor de bebidas e compro ataya, chá
amargoso e doce. Ainda prefiro o tuba, o
maravilhoso café com especiarias, que vem a ser mutatis mutandis 1 chay que usacafé ao invés de chá. Resolvemos então encarar a tarefa de ir à rodoviária pra saber como se vai pra Gâmbia. Tranquilizados já que
não é necessário comprar passagens com antecedência, basta apenas chegar e
escolher o veículo disponível no momento, voltamos pra casa, antes passando no super onde compramos comida pra fazer à noite. Afinal, hoje é véspera de ano
novo!! Preparo na espaçosa cozinha, onde um casal da Mauritânia também prepara
sua ceia, um fricassê pra mim e Raul. Brindamos com bordeaux rosé o novel 2019 que se aproxima,
enquanto lá fora espoucam centenas de brilhantes e coloridos fogos de artifício!! Jere jef, Dakar!!
Não
há voo direto do Brasil a Guiné Bissau. Necessário conexões em Marrocos,
Cabo Verde ou Lisboa. Escolho a última não demorando mais que 4 horas no aeroporto português.
No voo Lisboa-Bissau, sentada ao lado dum homem cuja cor retinta de tão preta,
como dizia minha vó, revela sua inequívoca origem africana, trato de puxar assunto. Conversa-vai, conversa-vem, quando pergunto se a mãe dos filhos mora em Bissau, o simpático guineense declara não sem uma ponta de malícia que está desbloqueado (?!) hahahaha. Inquieta,
com câimbras nas pernas, trato de passear no avião, terminando a caminhada na fila do
toalete, bom lugar pra se bater um papo. A mulher, que lá se encontra, comenta
que vem de 2 costelas, lançando mão dessa imagem pra explicar sua ascendência
guineense-cabo verdiana. Falante, esclarece com autoridade que “os homens são uns malandretes,
uns safados.” Um rapaz, também aguardando sua vez de ir ao toalete, confirma,
sorridente, a observação. Mas o que fazes, senhorinha, metida num avião a
caminho da quase desconhecida Guiné Bissau, hein? Indo ao encontro de Raul que vive e trabalha em
Bissau, capital do país! O que não se faz por um filho, não é mesmo? Nunca
em meus planos ou sonhos cogitei visitar a África. O foco sempre foram as altas montanhas,
motivo por que considerava até então os Andes na América do Sul e o Himalaia na
Ásia suficientes pra me proporcionar toda a dose de aventura desejada. Só terminada
a viagem, já no Brasil, foi que senti às ganhas a importância de ter conhecido uma
parte do continente africano....valeu, Raul Luar!! No pequeno aeroporto de
Bissau, Raul me espera juntamente com Frederico e Carlos, vice-cônsul
brasileiro. Tenho apenas vislumbres de ruas ora escuras ora iluminadas enquanto
sou conduzida até o apartamento onde ficarei hospedada, gentilmente, cedido por
outro amigo de Raul, o Jorge, português que trabalha como optmetrista numa
ótica 6 meses por ano. Nesta noite, conversamos deitados lado a lado na cama
de casal, eu e Raul até quase amanhecer: o filho, animadíssimo, cheio de assuntos,
tem muito a me contar. Não consigo ainda atinar porque Raul preferiu vir pra Guiné
Bissau, onde 2/3 da população vive abaixo da linha da pobreza. Pouco maior que
Alagoas, sua população não supera 1 milhão e oitocentas mil pessoas. Situado na costa
ocidental da África, banhado pelo oceano Atlântico, seu relevo, predominantemente
plano, revela savanas no interior, ao passo que o litoral, formado por planícies
pantanosas, é constituído por cordões de ilhas denominadas Bijagós. O clima
tropical exibe duas estações: a chuvosa e a seca. Estamos agora no período da
seca, com dezembro e janeiro sendo os meses mais frescos. Mesmo assim, as
temperaturas se mantêm elevadas devido aos ventos quentes vindos do deserto do
Sahara que enchem a atmosfera de poeira. Meu primeiro dia em Bissau é
impactante!! Grave problema detecto de cara na cidade: sem lixeiras e aterro
sanitário, o lixo é jogado ao léu nas ruas e ali mesmo queimado! Tal desleixo, gravíssimo,
mais do que o feio impacto estético causado, envolve riscos à saúde pública. Apesar
disso abstraio (fazer o quê, né?) e deixo a cidade e seu ritmo alegre me
envolver enquanto caminho ao longo das ruas de chão batido, poucas com calçamento. Embora localizada no estuário do rio Geba, impraticável banhar-se em suas águas pois é zona de mangue...uma pena!
Não canso de admirar a coloração de pele dos guineenses: tal qual pérola negra
(licença, viu, Luiz Melodia?), brilha, sedosa, sem mescla alguma. Movimentada, a
zona central da cidade, chamada praça, é ocupada por dezenas de vendedoras de
comida envoltas em seus trajes coloridos que, sentadas às calçadas, apregoam em
voz alta seus produtos: mariscos, polvos, lulas, camarões, peixes, carnes,
galinhas vivas, fatias de côco, bananas, laranjas já descascadas, mamões, abacaxis
em rodelas, ovos cozidos, castanhas de caju, amendoim. Homens, escarrapachados
em cadeiras, trocam euro por franco CFA a um preço um pouco melhor do que nos
estabelecimentos bancários. Compro uma banana e uma fatia de abacaxi que vem a
ser meu café da manhã. Mulheres passam por mim carregando comida em bacias de
plástico aninhadas sobre as cabeças. Como vim a descobrir mais tarde, foram
elas que utilizando este expediente astucioso conseguiram repassar armamento e
munição aos soldados guineenses que lutaram na guerra contra os portugueses no
século passado. Guiné Bissau, como entidade soberana, é um bebê ainda: apenas, em
1973, logrou declarar sua independência de Portugal! A população pode ser
dividida nos seguintes grupos étnicos: fulas (por serem nômades se espalharam
por toda África) e os povos de língua mandinga, que compõem a maior parte da
população; há ainda os mandjacos e balantas (2 primeiras etnias guineenses a
estudarem no exterior), mancanhas, saracules, pepel e bijagós. As crenças
tradicionais africanas convivem bem com o islamismo professado por metade da
população. A economia do país depende principalmente da piscicultura e da
agricultura, destacando-se as culturas da castanha de caju e amendoim, principais
produtos de exportação. Almoço nos dias em que permaneço em Bissau no
restaurante Bayana, lugar aprazível, com caramanchão feito de vegetação artificial
e mesas de pneus. O menu com pratos típicos é bem gostoso, destacando-se
mancara com citi (galinha com creme de amendoim). Provo os sucos de veludo e
cabaceira e os acho meio sem graças. Bueno, o plano é passar o natal em
Bubaque, uma das 20 ilhas habitadas das 88 pertencentes a Bijagós, não
ultrapassando a população insular 33 mil pessoas. Devido à sua biodiversidade,
desde 1996, Bijagós foi declarada pela UNESCO Reserva Ecológica da Biosfera. Há
2 parques nacionais espalhados pelo arquipélago: o de Orango e o Marinho de
João Vieira e Poilão. Pousadas apenas em Bubaque, Rubane, João Vieira, Orango e
Kere. Embora o estilo musical predominante em Guiné Bissau seja o gumbé, em Bijagós
reina o kundere. Na ilha de Orango, o sistema matriarcal faz com que as mulheres
escolham seus homens. Pra tanto, preparam um prato à base de peixe, deixando-o
à porta das tabancas onde eles vivem. Se for comido, significa que o cara aceitou.
Então, dia 21, nos mandamos pra Bubaque num barco que, além de comportar nos 2
deques pessoas e suas bagagens, carrega cachorros, galinhas, porcos e
carneiros!! Até todos se acomodarem a bagunça é grande mas quando o apito soa
indicando que o barco está prestes a zarpar todos sentam-se em seus
lugares. Um pequeno bar, no deque inferior, vende batatas fritas de saquinho, a
apreciadíssima sande (sanduíche) recheada com fígado ensopado, refris e cerveja.
Há passageiros, contudo, que levam viandas, geralmente com peixe e arroz, pra
comer durante a travessia. Pouquíssimos turistas, além de mim e Raul. Normalmente, os 73 km de Bissau a Bubaque é
feito em 4 horas, entretanto devido à avaria em um dos motores, a viagem
arrastou-se durante 6 horas!! Ao longo da travessia, na vastidão do Atlântico,
enxergo 2 ilhas, a grandota das Galinhas e outra bem pequena em que pontões rochosos
afloram à beira d’água. Ao entardecer, dois espetáculos: a oeste, o pôr do sol torna o céu
deliciosamente incandescente, ao passo que, a leste, a lua cheia brilha no céu
sem qualquer respingo de nuvem. Chegamos à noite, no porto há muita gente
esperando parentes e amigos. Apesar de todo mundo ansioso pra desembarcar, por
o pé em terra firme, há bem pouco empurra-empurra. Vamos direto à pousada Cruz
Pontes onde ficamos hospedados durante os 5 dias de nossa permanência em Bubaque.
Simples, os quartos têm banheiro e ventiladores. Os com ar condicionado custam
mais caro. O café da manhã é básico: pão, margarina, geléia, nescafé, chá,
leite em pó e água quente numa térmica. O dono, Seu Paulino, embora de poucas
falas, sempre sorri quando o cumprimento. Algumas ruas em Bubaque são
ladrilhadas com conchinhas de modo a evitar a erosão. No mercado, diante do
porto, mulheres vendem coquinhos de dendê, mariscos, mexilhões e outros frutos
do mar. Agitação intensa enquanto cargas são transferidas do cais ao interior das
pirogas. Aos desavisados parece que as pessoas vão brigar, contudo é o jeito de
ser dos guineenses falando alto, de forma enérgica, cuidando pra que seus
pertences sejam acomodados em segurança. Quando partem, a calmaria se instala
no porto restando apenas o bailado leve das gaivotas voando sobre a água
esverdeada do canal que separa Bubaque de Rubane. O ar refresca um pouco à
noite, já durante o dia é deliciosamente cálido. Dia seguinte, vamos eu, Raul e
Antonia, uma brasileira, naturalizada alemã, que conhecemos durante a viagem de
barco, pedalando até Bruce, linda praia, localizada na ponta sul da ilha. São
15 km de estrada plana, chão batido, cercada por densa vegetação. Dentre as
variedades de árvores, destaca-se a palmeira do dendê, donde além do óleo é
extraído vinho. Esta bebida, conhecida como vinho de palma, pode tanto ser
consumida fresca quanto fermentada, adquirindo assim certo teor alcoólico. Ao longo do
caminho, em ambos os lados da estrada, despontam aldeias, chamadas tabancas, com suas moradias de adobe e
teto de palha. Em Bubaque há 7 tabancas, cada uma com 2 mil pessoas, sendo, portanto, a ilha mais
populosa do arquipélago. Crianças saem correndo das casas gritando “branco,
branco” quando nos vêem passar. São encantadoras e não se negam em ser
fotografadas ao contrário de suas mães que fazem gestos negativos quando
percebem que estou apontando a câmera em suas direções. Homens em bicicletas
carregam nos guidões galinhas vivas e varas com peixes. Ao chegar a Bruce, o
mar verde, calmo, levemente morno, convida a prolongados mergulhos em suas
águas onde balouçam barcos coloridos ancorados a 100 metros da praia. Almoçamos
no restaurante de Mana Fatu 1 garoupa inteira com batatas fritas e salada, regada
a refeição a Cacho Fresco, um branco português bem geladinho. No terreiro da
propriedade, desenvolvem-se os preparativos pra inauguração da pousada de Manu
Fatu. Ao ar livre, sobre trempes, onde abaixo a lenha, já em brasas, arde,
enormes tachos contendo arroz com carne, dobradinha e chep jhed (molho feito
com pedaços de cebola, pimenta, cenoura e pimentão) cozinham. Vez por outra mulheres
com compridas varas de madeira remexem o interior dos panelões donde saem fumarolas
e bons odores. Como temos horário pra entregar as bicis alugadas, não podemos ficar
pra festa que terá apresentação de música e dança kundere!! Mas o que é do homem o bicho não come
hehehe!!! Na véspera de natal, eu, Raul, Antonia mais 2 dinamarqueses vamos de lancha
a Rubane onde, no resort Ponta Anchaca, almoçamos e assistimos ao cair da noite
sabem ao quê? Show de kundere!!! Durante a dança, os dançarinos carregam
chocalhos feitos com tampinha de refrigerantes que ecoam agradável som metálico
em contraponto à batida seca dos tambores executados pelos percussionistas. Costurados
às vestimentas das dançarinas objetos de metal e vidro mais pulseiras de madeira
atadas aos tornozelos complementam a percussão. Emocionante reconhecer a origem
do samba no batuque dos tambores e nos passos de dança!! Entretanto, a
complexidade e variedade dos movimentos corporais dos dançarinos de Kundere, em
especial dos pés, superam em muito os de nossos sambistas, exigindo extraordinário
vigor e preparo físico. Claro está que retornei a Bubaque em estado de graça!! Dia
de natal, Melchior, dono da Saldomar, rústica e charmosa pousada, prepara lauto almoço para hóspedes e
não-hóspedes. O catalão adora contar a bruta e complicada relação com o pai, terminando
a narrativa com a dramática revelação de que seu viejo, um homem duro que
nunca chorara, desmanchou-se em lágrimas, pouco antes de morrer, pedindo
perdão por ter estigmatizado a homossexualidade do filho. Finaliza dizendo em alto e bom som “tengo
cojones” enquanto bate no peito, pra provar ao interlocutor que embora
homossexual é macho pra caramba. Escutei 3 vezes essa estória sem que houvesse
qualquer floreio a mais ou a menos, até os socos no peito foram 3! Manhã seguinte, retornamos a Bissau, alugando uma lancha que vence em 1 hora e 20 minutos o que demoráramos 6 horas na viagem de vinda!! Temos pressa, amanhã bem cedinho estamos indo pra Dakar passar o ano novo! Albarabake, Bissau!!
Bueno,
lá vou eu junto com Fernando no carro de Raul, amigo do guia, rumo à Bolívia. Após
rodarmos 60 km deixamos pra trás a província de Salta, penetrando na província
de Jujuy. A partir de Volcán, a paisagem começa a mudar porque já se pode
perceber melhor a quebrada de Humahuaca, um vale profundo e estreito por onde
corre o rio Grande, nesta época do ano apenas um fio de água. Paramos na estrada pra curtir o
belíssimo cerro de Los 7 Colores situado em frente a Purmamarca, vilarejo
fincado a 2.130 metros. Como não podia deixar de ser, entramos na pitoresca e
turística vila cujas casas, algumas de arenito rosado, dão um toque caliente às
ruelas. Aproveito, enquanto os demais amigos de Fernando não chegam, pra dar um
rolê pelo pueblito. Lojas, cafeterias e restaurantes, além de dezenas de bancas,
onde as índias expõem seus artesanatos, circundam a praça. No canto leste,
cercada por um muro branco, a igrejinha de Santa Rosa de Lima, igualmente
caiada de branco, registra em sua frontaria a data da construção: 1648. Subo ao
mirador El Porito donde se avistam de perto os multicoloridos cerros e a vila
abaixo. Encontro então no restaurante onde iremos almoçar os homens que irão também
subir o Licancabur. Pertencentes à conservadora sociedade saltenha,
economicamente muito bem de vida, todos são sessentões salvo um, de 40 anos, chamado
Manoel, que se revela o engraçadinho do grupo. Chega falando em voz alta,
tratando os amigos "carinhosamente" de pelotudos e disparando no me rompan los huevos quando contrariado. Consciente de que falar mal das mulheres arrancará riso fácil, em especial se for da sua, é o que faz assim que senta à mesa, garantindo dessa forma a atenção geral. Autodenomina-se un
pentejo gracioso, quando na verdade não passa dum tipo vulgar. A partir de Purmamarca, seguimos pela ziguezagueante
e empinada Cuesta de Lipán onde do alto de seu mirador, a 4.170 metros, posso
admirar a linda e sinuosa RN 52 que liga a quebrada de Humahuaca a puna de Jujuy. A caminho de Alfarcito, a paisagem econômica, composta por
gramíneas espinhentas, comíveis apenas por lhamas e vicunhas, é abruptamente
interrompida pela brancura da planície de Salinas Grandes, um deserto de sal
explorado por particulares. Situada no altiplano, a 3.600 metros, Alfarcito de la Puna ou San Francisco de
Alfarcito, embora não conte com mais que 150 almas espalhadas em casas
de pedra, palha e barro, tem - eba! - wifi coletivo, pousada e restaurante. Venta
pra caramba o que não me impede de subir ao mirador de La Cruz donde avisto a laguna Guayatayoc em cujas margens as aves
saciam a sede, em especial, após as chuvas intensas que caem no verão,
amenizando assim o teor de salinidade de suas águas salobras. Domingo, rumo a Paso
de Jama, entramos brevemente em Susques, pueblo maior que Alfarcito, em cuja
arborizada avenida destaca-se, além do busto dum general, a simpática igrejinha com
telhado de palha. Mulheres aproximam-se do templo para assistir à missa
matutina. Os demais homens do grupo, em número de 3, vão na camionete pertencente a Manoel. Decorridos 106 km, rodando ainda pela
RN 52, alcançamos os 4.200 metros do Paso de Jama, fronteira da Argentina com
Chile. Muito rápido os trâmites burocráticos de saída da Argentina e de entrada
no Chile porque tanto aduana quanto imigração são compartilhadas, localizando-se
no mesmo prédio, em guichês contíguos. Andamos mais 120 km até Hito de Cajon, outro
passo da cordilheira dos Andes, que divide dessa feita Chile da Bolívia. A
obsoleta Bolívia não adota o compartilhamento de
fronteiras, motivo pelo qual, após carimbarmos nossa saída do Chile, temos de
rodar alguns kms até o posto boliviano, finalizando – ufa! - nossa entrada na
Bolívia. Na aduana, em frente ao refúgio Laguna Verde, se paga 25 dólares a
título de entrada na Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa onde se
situam vários vulcões, destacando-se Sairecabur e Putana a oeste, já do
Licancabur, que iremos subir amanhã, só se vê seu cume escondido pelo flanco
norte do Juriques. De alguns vulcões inativos, como Suzana, é possível a
extração de enxofre. O refúgio Laguna Verde, situado a não desprezíveis 4.450
metros de altitude, em realidade, se queda diante da laguna Blanca, separada por
estreita faixa de terra da laguna Verde, mais ao sul. Às suas margens, flamingos
e outras aves aquáticas dão o ar de sua graça. No meio da tarde, o vento começa
a se fortificar e a poeira levantada tal qual uma echarpe bege esvoaça pelo ar.
O espetacular pôr do sol, colorindo a paisagem dum rosa metálico, me consola um pouco do ataque que sofrera de Manoel durante o almoço.
Abruptamente, o homem virara-se pra mim e declarara solene Beatriz eres
divina (pausa sádica) cuando quedas de boca cerrada. Impactada, a pateta não enfrentou a ofensa, deixando prevalecer, infelizmente, a baixa autoestima inculcada em nós, mulheres pelo depreciativo e velhaco discurso masculino de menos valia desde tempos imemoriais. Confesso que ainda sinto raiva de mim – olha só que loucura! - por ter deixado passar em brancas nuvens a grosseria gratuita daquele boçal que queria se fazer de humorista, a minha custa, pros amigos. À mulher, na perspectiva dos macho...cados, como denomino este tipo de homem, só é permitido abrir a boca pra dizer como o pau deles é gostoso, como são geniais e maravilhosos. Então sim, ella es hermosa hablando. Consigo agora
entender às ganhas porque muita mulher apanha e nem consegue denunciar seus
agressores. O baixo autoquerer-se, adquirido em séculos de submissão, reforça
os laços de aceitação da violência masculina. Pensam que alguém na mesa reagiu? Nem percebi se sorriram ou riram tão atordoada me senti. Todos permaneceram
calados, inclusive Fernando. Mas a implicância não parou porque pouco depois, em
comentários sobre futebol, o homem observa que o Brasil está liquidado neste
esporte. Ele realmente estava a fim de me provocar duma forma sórdida tanto é
que o golpe final foi desferido quando ele grita “Bolsonaro, Bolsonaro”, sabedor
de minha aversão ao então candidato a presidente do Brasil. Finalmente, esboço uma reação e levantando da mesa, num tom indignado, brado basta,
tudo tem limite!, conseguindo enfim calá-lo. Porra, viajara até o país deles pra participar do que imaginara
ser uma agradável aventura e estava sendo gratuitamente maltratada, atacada de forma covarde. Foram todos omissos e, portanto, cúmplices desse ataque
misógino e, porque não, xenófobo que sofri. Prevalece, mais uma vez, o tal "espírito de corpo",
inventado pelos homens de modo a arranjarem álibis fajutos pros seus desmandos. A
viagem perdera a graça. Tanto que, dia seguinte, enquanto estou subindo a
face norte do Lica, lá pelos 5.100 metros resolvo descer. Não foi por cansaço
físico, já que me mantinha sempre à frente de todos, atrás apenas do guia. Acontece
que fiquei enojada, farta até os gorgomilhos de conviver com essa gente. Enfatizo, contudo, que o pior de todos foi o Senhor Fernando Santamaria. O
papel desempenhado por ele, ou melhor, que não desempenhou como guia, foi desprezível. Explico.
Quando decido não mais continuar a subir o vulcão, ele todo pimpão segue com os
amigos ao invés de descer comigo, sua cliente! Abraça-me todo emocionado e elogia
minha generosidade de permitir que continue a caminhada rumo ao cume (espertamente,
ele se antecipou a qualquer reivindicação que porventura eu pudesse fazer,
tornando meu silêncio atônito como sinal de consentimento). Mas sua atitude
descortês não tem limites. À noite, quando estamos em San Pedro de Atacama me
deixa ir jantar sozinha porque prefere acompanhar Seus Amigos! E no dia
seguinte, durante o café da manhã, se eu não o tivesse chamado, ele teria se
sentado a outra mesa com Seus Amigos!! E eu pagando por isso!! 300 dólares pra
que o chupaculos desfrute do convívio dos a-mi-gos, esquecendo-se de que está
a trabalhar!! Tô me sentindo a otária. A cara de pau desse senhor é
inigualável. Bueno, nada como uma boa noite de sono pra restaurar a autoestima
abalada por tanta rejeição. Assim, na terça, no retorno a Salta, até porque seria
uma imbecilidade de minha parte deixar que essa gente me impedisse de
desfrutar a beleza do cenário durante o trajeto de San Pedro a Paso de Sico, mergulho encantada o olhar na paisagem. São dezenas e dezenas de vulcões, alguns com os cumes nevados, sobressaindo no árido altiplano
chileno. Numa curva de estrada, eis que surge o lindo salar de Talar tendo diante de si uma fulgurante laguna de
coloração turquesa. Pouco antes de Sico, Las Barrancas, impressionantes paredões
rochosos, semelhantes aos muros dum castelo medieval. A partir da Argentina, a
paisagem continua exibindo a aridez da puna entremeada aqui e acolá por salares, destacando-se
o de Rincon. Em Abra Chorillos, situada a 4.475 metros, começa-se a descer uma
fantástica estrada de chão batido com curvas deliciosamente fechadas até a empoeirada San
Antonio de los Cobres onde paramos pra almoçar no restaurante Huayra Huasi em cujo
cardápio o destaque são empanadas fritas. Chego enfim a Salta e, dia seguinte,
quarta-feira, pico a mula de volta pro Brasil. Durante a viagem chego à
conclusão que com esse grupo de argentinos pra lá de pelotudos pari uma
montanha mais alta que o Licancabur!
Mazaaahhhh
guria, de novo pegando a estrada?!! Mal esquento assento em casa e me mando
pra Argentina. Por qual fronteira entrar, então, hein senhorinha? Unidunitê, salame, minguê, a escolhida
é você, São Borja. Afora 60 km rodados, inicialmente, na BR 386, o restante transcorre na BR
287. Tanto uma rodovia quanto a outra apresentam asfalto deteriorado em largos trechos,
exigindo atenção redobrada desta motorista que vos escreve, já que o perigo é constante
ao dirigir em estradas tão precárias. Uma vergonha a maneira como nossos impostos NÃO
estão sendo bem empregados em infraestruturas básicas como as vias terrestres. E
deixo passar o motivo de o sistema ferroviário ter sido impiedosamente
desmontado no país! Desculpem o desabafo, sei que este blogue não se presta a tal
tipo de reivindicações, mas às vezes sinto muita raiva pelo modo como os
governantes tratam mal o Brasil...arghhh!!! Bueno, à medida que me aproximo de
São Borja, o relevo pontuado por leves ondulações, exibindo horizontes a perder
de vista, indica a presença do pampa. Ocupando inacreditável porção do
território gaúcho - 63%!! –, RS é o único estado brasileiro, juntamente com
Uruguai e Argentina, em abrigar tal bioma no planeta Terra! A pequena São Borja,
com pouco mais de 60 mil habitantes, situa-se à margem do rio Uruguai, sendo considerada
o 1º assentamento dos 7 Povos das Missões. Nos dias que correm, vive mais das
memórias dos ilustres nativos Getúlio Vargas e Jango Goulart, emblemáticos
presidentes brasileiros. Apesar de modesto, o hotel é limpo e tem garagem. Todo
cuidado é pouco nestes tempos violentos em que vivemos no Brasil onde os
assaltos à mão armada não são mais exceção. Dia seguinte, sábado, após o café
da manhã, atravesso a ponte Internacional da Integração sobre o rio Uruguai que
liga Brasil à Argentina. O pedágio é caro, 50 reais! Pode-se pagar em reais
ou pesos. Resolvo fracionar os 1.800 km até Salta em 3 dias. Ontem
foram 585 km de POA até São Borja, hoje será o dia mais longo, 650 km até Pampa
del Infierno onde vou dormir. Sigo pela Ruta Nacional 12 até Corrientes, cidade
grandota com 320 mil habitantes, vendo de relance ruas arborizadas, muitos
edifícios e uma praia cheia de gente à margem do Paraná quando cruzo a ponte sobre
o rio. Após Corrientes, a Ruta Nacional passa a ser a 16. Bem boas as rodovias
e embora tenham apenas uma pista, a velocidade máxima permitida é 110 km. Bastante
controle da gendarmeria, tanto que me param 2 vezes para revistar o carro.
Buscam drogas. Pampa del Infierno pertence à província de Chaco e sua alta temperatura justifica porque é assim
chamada. Os poucos hotéis são modestos e o escolhido por mim hospeda em sua
maioria trabalhadores braçais. Dou um rolê na cidade em busca de algo pra comer
já que o hotel não tem restaurante. Uma gracinha Pampa del Infierno com sua
calmaria de cidade pequena e ruas arborizadas. Encontro uma panaderia cheia de
gostosuras salgadas e doces onde compro algumas delícias engordantes. Retorno
ao hotel e na recepção peço um copo. Já no quarto encho pela metade o copo
com vinho que trouxera de POA acompanhado pelos petiscos comprados há pouco. Durmo
que nem uma angelita! No domingo, saio cedinho de Pampa, às 8, e após Mato
Quemado tanto a RN 16 quanto a paisagem mudam. A rodo torna-se esburacada num
trecho de 40 km. Já o cenário mostra uma natureza mais áspera com toques de aridez,
afinal estamos na região do chaco, constituída por distintos climas e
ecossistemas que abrangem além do pampa, florestas e também o
semiárido. Cartazes advertem “atese a la vida use cinturón de seguridad”. Paro
em Quebrachal e almoço deliciosas empanadas num despretensioso quiosque. Não há viva
alma nas ruas, pudera, o calor é de antecâmara de inferno. No final da RN 16 já
avisto o perfil de alguns picos da cordilheira dos Andes. Ao dobrar na RN 9
constato com alegria ser uma via duplicada e piso forte no acelerador, chegando
em Salta às 15 e 45 depois de 574 km. Pego um hotel perto da Plaza 9 de Julio,
centro da cidade, onde há diversos restaurantes com menu turístico cuja comida é
bem ruinzinha. Nem o torrontés se salva, tanto que deixo um tanto de vinho na taça.
Desapontada volto ao hotel e pouca demora pego no sono tão cansada estou depois
de 3 dias viajando. Na segunda-feira, descanso no hotel até umas 11 horas,
afinal, o tirão de 3 dias na estrada está cobrando seu preço. Resolvo ir a pé
ao cerro San Bernardo cuja distância é ninharia. Resolvo subir até o topo do cerro de teleférico donde desfruto duma visão legal de Salta. A cidade situa-se no vale de Lerma,
rodeado pela cordilheira dos Andes cujos picos nesta região não ultrapassam os
4 mil metros. Compro uma salada de frutas deliciosa e desço as escadarias
mastigando devagarinho a refrescante iguaria. Durante a descida vejo muita
gente subindo. A maioria, caminhando, enquanto um e outro galgam correndo os
degraus. Haja fôlego pra tal façanha! Almoço num restaurante em frente ao
convento de San Bernardo cujo wifi é uma boa bosta. Salta com suas ruas arborizadas, lindas igrejas, rodeada por cerros andinos e clima ameno, realmente, faz jus ao apelido La Linda. Retorno ao hotel no meio da
tarde onde permaneço o resto do dia vendo televisão e bebendo, agora sim, um
torrontés saltenho de boa qualidade, comprado no supermercado. Enquanto beberico
o vinho assisto ao programa de variedades apresentado por Moria Casán,
setentona, super plastificada, cujas feições envoltas por compridos e lisíssimos cabelos lembram Morticia Adams. Divirto-me a
beça com a argentina que encerra a atração convocando as convidadas a que “levanten
las patitas”, o que elas fazem erguendo as pernas como se estivessem num show
de cancan. Moria, por sua vez, dirige-se até a câmera como se fosse adentrar no
dispositivo, despedindo-se com o alegre bordão “estoy ahora salindo de sua
casa”.....hahahaha....muito hilário!!! Quando estive em Salta em 2016 fazendo o
trek de Las Nubes contratara como guia, Fernando, mendocino, aquerenciado há
anos aqui já que é casado e tem um filho com uma saltenha. O argentino me agradara
bastante por sua gentileza e conhecimento da região. Quando vi no Face que ele estava
organizando uma expedição ao Licancabur, resolvo ir junto também. Por que não
subir aquele vulcão, onipresente em todos os pontos onde se esteja em San Pedro
de Atacama, cidade que conheci em 2007 escalando o Laskar, não é mesmo? Como
estou meio fora de forma, combino com ele, antes de partirmos pra Bolívia,
caminhadas pelos morros dos arredores. Então na terça, a primeira pernada é o ascenso
ao cerro Elefante (1.910 metros) e desnível de 466 metros com 3,5 km de trilha
situado na Quebrada de San Lorenzo. A trilha até o topo percorre a
yunga, mata nativa com centenas de
variedades de vegetação, destacando-se orquídeas, bromélias e cactus. Dia
ensolarado, sem nuvens no céu e temperatura atingindo picos de 34ºC, o que
deixa a caminhada bem pesada considerando não só a acentuada aclividade como o
terreno coberto com pedrinhas soltas, tipo cascalho. Do alto do cerro se
enxerga o centro de Salta e seus diversos bairros constituídos por condomínios
públicos e privados. À direita, o cerro San Lorenzo e à frente, abraçando o
vale de Lerma, a Cordilheira dos Andes. Lá no fundão, o cerro San Bernardo onde
ontem estivera. Na quarta-feira, lá vamos nós, subir o cerro San Lorenzo situado na quebrada de mesmo nome. A temperatura
mudou completamente: céu coberto de nuvens e temperatura em torno de 22º C. Com
2.220 metros e desnível de 893 metros, o cerro San Lorenzo tem distância de 10
km. A trilha, paralela ao agora minguado San Lorenzo, rio que somente no verão
exibe volume considerável, também percorre a yunga, Contudo, não é tão exposta e íngreme quanto a do cerro
Elefante porque se dá praticamente dentro da mata e 60% do percurso se
desenrola em terreno de suave aclividade. Apenas perto do cume rola uma subida
um pouco mais exigente mas nada que se compare à do dia anterior. Chega-se a um
platô donde se avistam os cerros Lajas, Lesser, Medano e Yacones. Após uma
subidinha amena de 15 minutos, pronto, eis o cume! Caminhamos até a outra ponta
do cerro donde se avista Salta. Ali almoçamos, nos demorando pouco porque
começa a esfriar e a ventar o que nos obriga a descer. Terminamos o trek comendo
no Kiosco La Quebrada, situado no início da trilha, deliciosas empanadas feitas
pelo atencioso dono. A caminhada mais linda inegavelmente é a do canyon do rio
Lesser, realizada na quinta-feira, apesar da garoa e do céu totalmente nublado.
Uma parte da trilha se dá em terreno plano cruzando potreiros. Na vegetação da yunga, destacam-se os ceibos, árvore nacional da
Argentina, cujas flores fazem um contraponto vermelho entre a verdejante e
farta copa. Há variedades de pequenas e delicadas flores, cuja coloração ora se
mostra branca, ora lilás ou então amarela. E renques de copos de leite!! À
medida que se avança, as flores rareiam e já se veem os paredões do canyon. No início, ambas as margens do
rio apresentam-se recobertas de pedras miúdas. Bastante musgo nos troncos das
árvores e poucas flores quanto mais se penetra no canyon. É necessária uma travessia no rio e logo se entra num
bosque cerrado ganhando-se altura. Lá embaixo o rio começa a se estreitar e as
pedras vão se tornando matacões. As subidas são suaves debaixo dum dossel
formado por luxuriante vegetação. São 4 as travessias até se alcançar a cascata
cuja altura não ultrapassa 50 metros com pouca água despencando paredão abaixo
porque a estação chuvosa ocorre no verão. E o céu nublado se mantém na sexta durante
o curto passeio de 5,5 km a Las Costas. As retamas, arbustos de cheirosa floração, estão a mil, atapetando o chão com suas pétalas amarelas. O terreno plano cede lugar a subidas amenas
terminando no topo da colina onde mais uma vez me deparo com a visão, dessa feita, enevoada de Salta, esparramada no vale abaixo.