quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Entre lagunas e nevados

Bexiga apertada, acordo à noite e pra meu consolo, quando saio da barraca pro pipi, dou de cara com o Ausangate totalmente descoberto cercado por zilhões de estrelas. Que mijada mais cênica essa, putzgrila!! Quando levanto de manhã - merrrdaa!! - o nuvaredo voltou a encobri-lo. Da piscina, escapam rolinhos de fumaça. Porém não me animo a mergulhar na tépida água devido a temperatura ambiente beirar os 2º C. Um pouco antes de deixarmos o povoado de Pacchanta, por volta das 9 horas, eis - aleluia - o Ausangate desembaraçado de qualquer vestígio de nevoeiro. Na sua cara norte, alternam-se a negritude das rochas e a alvura dos glaciares. Após 20 minutos de caminhada, paro e viro pra trás, enxergando, lá embaixo, a vila de Pacchanta reduzida a minúsculas casinhas. A trilha, demarcada por pedrinhas, segue em direção ao Ausangate. À minha esquerda, o Cayangate vai despontando da terra como se fosse um gigantesco cogumelo albino. Tão grande quanto o Ausangate, o maciço é muito lindo também! No meio do nada, sentadas no chão, duas índias, tendo diante de si mercadorias expostas sobre mantas, aguardam os turistas. Os dois guias se detêm pra conversar com as mulheres. Aproveito, enquanto espero o conversê terminar, pra especular o material. Encanto-me com uma fita bordada, arrematada por pompons coloridos que trato de colocar ao redor de meu chapéu. Assim, bem enfeitada, retomo faceira a caminhada. Como estamos em ascensão, a temperatura vai caindo, em especial, quando estamos cara a cara com o Ausangate e seus dois grandes glaciares. Contornamos sua face norte, e, na baixada, Daniel aponta a laguna Azulcocha cuja coloração, entretanto, é esverdeada. Mais adiante, lado a lado, duas pequenas lagunas de nomes Embra (significa fêma) e Macho. Na primeira, o espelho d´água, duma invulgar tonalidade azulada, reflete os flocos brancos e arredondados de nuvens estacionadas no céu. Ao norte, já dá pra se avistar perfeitamente o Campa e o Yana Ccaqa; passados 20 minutos, volto a encará-los e uma névoa baixou, sem contudo encobri-los. Gosto do resultado da foto que tiro: como se um fino véu suavizasse seus ásperos contornos. Dani observa que a cerração significa provavelmente queda de neve sobre a montanha. Putz, oxalá não haja muita precipitação porque senão amanhã vai ser osso enfrentar trilha coberta com neve fofa. Estamos num vale ladeado por diversos nevados pertencentes à cordilheira Vilcanota. À direita, o sempre presente Ausangate cujas morenas de cor cinza escuro formam altas colinas aos pés dos glaciares. Lá pelas tantas, começa a cair uma aquanieve e a temperatura baixa mais ainda. Quando passamos diante duma laguna, sou atraída pela forte coloração turquesa da água. Não dá outra, posiciono a máquina porque não há como deixar de fotografar tal belezura. Algumas turistas de meia-idade que lá estavam em trajes de banho, aparentemente saindo das águas friíssimas do pequeno lago, começam a berrar e a gesticular, sinalizando com tal pantomima que não querem ser fotografadas. Fico pasma com tamanha pretensão. Quem disse que eu quero fotografar aquelas velhotas feiosas? A explicação de tão agressiva conduta se deve ao fato de o bando de doidas estar ali realizando rituais xâmanicos. Segundo essa prática espiritual, a fotografia roubaria as almas de seus seguidores. Putz, mas que tipo de espiritualidade têm umas criaturas que agem duma forma tão histérica, hein?! Bueno, após passarmos por mais três lagunas de cor turquesa, começamos a subir a encosta duma montanha onde há dezenas de alpacas de pelagem branca e preta pastando icchu. A vegetação nesta altitude de 4.000 m é formada basicamente por gramíneas cuja tonalidade amarelada contrapõe-se ao verde das lagunas e ao tom ocre e cinzento das encostas das montanhas. Uma palheta de cores a fudê de bonita! Até então só aparecendo as pontas de seus cumes, neste ponto da trilha já é possível avistar, em toda a inteireza, Pucapunta e Rutapunta. São uma beleza! Quase completamente embranquecidos pela neve, esses dois picos merecem a denominação de nevados. Chegamos ao acampamento-base às 15 horas e logo após começa a cair granizo cuja precipitação intermitente se prolonga até as 18 horas. Nesse ínterim, até sol dá pinta pras bandas do ocidente, revelando pequenos rasgões de céu azul. A região ao redor do acampamento Pachaspata fica coalhada de branco. A neve lembra bolinhas de isopor ou de sagu (como quiserem), fazendo crak crak quando se pisa nela. Pipoca e chá são servidos de lanche enquanto a mininevasca cai lá fora. O barulho soa exatamente como grão de milho estourando na panela. Cada vez que dá uma estiada, a gente sai pra filmar e fotografar, voltando correndo pra barraca, a cada nova queda de granizo. Embora - agora sim - sofrendo os efeitos da altitude, afinal já estamos na cota dos 4.600 m, onde se localiza nosso acampamento, Juju está encantada com o espetáculo da queda da neve. A guria nunca presenciara algo parecido. Durante a janta (estou achando a comida muito fraquinha e o cozinheiro nada talentoso), Daniel garante que amanhã fará bom tempo, portanto, desencano rapidinho de meus temores de o ascenso ao Campa não se realizar devido ao mau tempo. E assim, me jogo, tranquila, mais uma vez nos braços de Morfeu.........buenas noches!! 

 

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