domingo, 1 de janeiro de 2012

Cachoeirão: o anfiteatro de pedras!

Desapontando os maledicentes, acordo sem ressaca. E olha – hein - que misturei ontem cachaça com vinho tinto, hahaha! Localizada em pleno coração do Parque Nacional da Chapada Diamantina que, por sua vez, fica bem no centro do estado da Bahia, a pousada do Império encontra-se mais precisamente no, assim chamado, Pati de Baixo, em contraponto ao Pati de Cima. Medeia as duas regiões o Pati do Meio onde se localiza a imponente formação rochosa do Castelo com suas diversas grutas de quartzito!! Pois no primeiro dia de 2012, nosso guia nos brinda com um passeio até as entranhas do Cachoeirão, lugar que, em 2006, quando em visita ao Pati do Meio, tive a oportunidade de conhecer de cima. Às 10 da matina, já estamos com o pé na trilha, um carreiro estreito que rasga a mata de galeria, situada às margens do riacho Cachoeirão. Antiga, portanto super batida, em certos trechos a trilha ainda guarda vestígios dum velho muro de taipa. Nubladíssimo, o dia não dá qualquer indício que vá melhorar. Brumas envolvem os paredões rochosos da serra do Cotiguiba, criando um cenário espectral naquele leque de rochas avermelhadas. Segundo Dmitri, vamos enfrentar uma aclividade de 250 m entre a pousada e o nosso destino final. Quando entramos na gargantinha, que leva ao Cachoeirão, as pedras ganham volume. Passamos a perambular sobre matacões exigentes, com vários lances de escalaminhada. O cuidado se faz necessário porque as pedras estão escorregadias devido ao excesso de limo. A curta garganta desemboca numa gigantesca reentrância circular escavada ao longo de milhões e milhões de anos nos paredões que sustentam as serras do Cotiguiba e do Sobradinho. Ao longo das altíssimas paredes que formam o espetacular anfiteatro rochoso jorram, quando chove muito na região, quase duas dezenas de cachus. No momento, só duas exibem modestas quedas d’água, tudo por conta da estiagem atípica na região. Da mais alta, daí o nome Cachoeirão, com 250 m de altura, nem pinta de água, infelizmente. Gaviões pé de serra circulam no topo da serra. Uma lapa enorme destaca-se no fundão do anfiteatro, lembrando aquelas capelas laterais, construídas ao longo das naves das grandes igrejas. Das pedras revestidas de musgo verte água, tornando o lugar úmido e frio, tanto que nós puxamos das mochilas jaquetas e camisetas a fim de nos agasalharmos. Num pequeno lago, admiro o reflexo de galhos e folhas dum intenso verdor na superfície de coloração caramelada. Na volta, entramos na casa super maneira de seu Eduardo. Xereto com seu filho se não há uma pinguinha à venda. A de Dª Edileuza, infelizmente, c’est fini!! No terreiro da casa desse nativo, dou de cara com uma planta super bizarra cujo caule exibe ao final um arredondado pedúnculo esverdeado donde brotam macios espinhos. Devido à semelhança com o saco escrotal, sua denominação popular passou a ter o bem merecido e maroto apelido de bago de velho. Quando chegamos na pousada, com a tarde pela metade, trato de largar minha mochila no quarto e corro até o rio pra me refrescar. Sara, Marcelo e Dmitri já lá se encontram, sentados num lajedo, situado em frente a um dos inúmeros remansos que as águas do Pati formam ao longo de seu leito. Tão delicioso o banho que se torna difícil sair do rio. Já sentada ao lado de Sara, indago como está o joelho que machucou ontem ao descer a ladeira do Império vindo de Andaraí. Por conta disso, a moça nem pôde nos acompanhar no passeio até o Cachoeirão, preferindo poupar o joelho pro resto da caminhada que ainda tem pela frente. Não dá pra ficar muito tempo à beira do rio porque as sempre esfomeadas mutucas picam nossos braços e pernas sem qualquer pingo de piedade. Ao passar pelo pátio da casa de seu Jóia, Dª Edileuza e sua filha, Doinha, sentadas na soleira da porta, oferecem pedaços de jaca que colheram há pouco da árvore. A fruta, deliciosa, deixa, contudo, uma desagradável gosma que esfregação alguma dá jeito. Água e sabão? Faz-me rir! Tento esponja e até bombril, por fim, desesperada, apelo e esfrego areia nas palmas das mãos. Nada!! Começo a ficar aflita e vou em busca da ajuda da única pessoa que sei que pode me ajudar: Dª Edileuza. Não dá outra. Ela quando vê minhas mãos daquele jeito, todas melecadas, sorri, divertida. Pega óleo de cozinha e despeja um fio em cada uma de minhas mãos, mandando esfregar. Pois não é que a cola sai rapidinho? Detergente igual à gordura pra retirar da pele gosma de jaca não há!! Uma beleza. Mangangás, em vôos rasantes, tiram fininho de minhas orelhas.....ala putcha!! Pois não é que a boa Dª Edileuza descobriu um tanto de cachaça? Sem perda de tempo, colho maracujás caindo de maduros e faço aquela caipirinha. Afinal, há que se festejar a sagrada hora do ângelus, vulgarmente conhecida como happy hour, cuja tradução livre passa a ser “pausa prum tragoléu”. Hoje é meu último dia com o grupo que segue viagem até Capão. Adoraria ir com eles porém nova viagem programada ao Uruguai com o objetivo, dessa feita, de pedalar com duas amigas, exige meu retorno a Porto Alegre até o final da semana. Assim, eu mais Marcelo, guiados por Doinha, iremos até Andaraí amanhã. Na cozinha de Dª Edileuza, Dmitri, auxiliado por Vini, Marcelo e Andre, prepara a janta, enquanto nós, as mulheres, ficamos na maciota, curtindo o macharedo envolvido com as prendas domésticas. A noite estrelada promete bom tempo, de modo que me deito feliz da vida com a perspectiva de fazer a última pernada de meu trekking debaixo de bom tempo.
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Um comentário:

Miriam Chaudon disse...

Mutucas e mangangás são mesmo irritantes! A primeira, com sua insistente voracidade para picar e a outra, com rasantes e zunidos que tiram do sério....
Ah! e da jaca só gosto mesmo é do doce!
Lindão esse passeio Bea!