domingo, 24 de abril de 2011

Glória, enfim!!

Uma delícia acordar nesta límpida manhã de sábado de aleluia, sentindo um leve arrepio na pele causado pelo frescor matutino. Nem bem decorrida meia-hora após sair do acampamento das formigas glutonas, já estou eu retirando a blusa de manga comprida, ficando apenas com a de manga curta. Sinto que será um dia daqueles, de fritar miolos, bem como o diabo gosta: quente pra caramba! O sobe e desce morretes rasgados por uma estrada de areia avermelhada ocorre sem maiores sobressaltos físicos. Exceto num trecho descendente, cuja superfície coberta de lajes escorregadias me fez cair, o restante foi tranqüilo. De repente, roncos de motores anunciam nova horda de motoqueiros. Tá na cara que a tal trilha-sabonete constitui um autêntico desafio aos audazes pilotos. E fico pasma - afinal, há três dias venho encontrando essa turma do moto cross! - com a paixão que os mineiros devotam a esse esporte. A breve reflexão, no entanto, é interrompida por um quadrinho protagonizado por uma dupla de pai e filho. Cômica pra mim, pra eles, com certeza, não! O guri, um piá de 12 anos, ao atravessar um córrego, um pouco maior que uma poça d’água, perde o controle e atola a moto. Sozinho tenta erguê-la, no que é impedido pelo pai que, irritadíssimo com a imperícia do filho, afasta-o com rispidez, retirando ele próprio o veículo do lodaçal. E, mais grosso que nó de pinho, não se contém e tasca sem dó nem piedade no guri um joelhaço psicológico de dar inveja ao analista de Bagé: “mas não é possível, sô, você com a idade parece que fica mais burro!” O contraste entre a cara de palerma do guri e a expressão brava do pai é gozadíssimo. Como não sou politicamente correta, caio na risada diante da descompostura paterna! Quando chegamos ao sítio do Seu Zé Casimiro, situado aos pés da serra do Facão, uma agradável surpresa nos espera: Bernardo e Renata já lá se encontram. Tinha cá com meus botões que o casal não cumpriria com o prometido, retornando pra Delfis ou BH quando ontem se despediram de nós no Bateia. “Eita duplinha de fé, vocês, hein! Bom demais reencontrá-los”, declaro enquanto os abraço demoradamente. Contam que acamparam numa área reservada aos turistas, localizada quase às margens do rio Facão. E a bela cachoeira formada pelo rio, só conhecemos da descrição feita por Bernardo que, segundo ele, forma um lindo e largo poço cujas águas esverdeadas são super cristalinas. Seu Zé Casimiro, magro, de meia-idade, porte empinado, mais observa do que conversa. Este é mineiro da gema mesmo! Aproveitamos pra descansar enquanto aguardamos que Bernardo e Renata arrumem suas tralhas. Novamente reunida, a galera retoma a caminhada. Na paisagem, impera o perfil imponente da serra do Facão. Durante 3 km percorremos uma estrada de chão batido que Fabio, o navegador do grupo, anuncia ser uma BR (?!), conforme acusa seu GPS. E a sofisticada bússola aponta sem vacilo nossa rota: uma cerca de arame farpado a ser ultrapassada que conduzirá a uma campina que levará a......Basta, não importa onde vai dar. Confio em quem me guia. Isso é suficiente! Bueno, antes de alcançar a tal pradaria, se faz necessário atravessar um riacho cuja largura exige acrobáticos pulos da galera duma margem a outra. O esforço físico é recompensado por um campo repleto de delicadas flores, discretamente coloridas. O nome do lugar não poderia ser mais sugestivo: Vale do Céu. Daqui já se avista a serra da Babilônia onde se destaca o preciso formato piramidal do Morro das Cruzes. Ao fim de outra estradinha, surge uma propriedade, transformada agora em pousada cujas construções de alvenaria branca com portadas e janelas pintadas de azuis dão um charme extra ao lugar. Até capelinha a antiga fazenda tem! Almoçamos ali e obtemos permissão do gerente do estabelecimento para colher bergamotas, nos fartando de comê-las, escarrapachados na grama! Descoberto um pé de limoeiro, colhemos algumas dessas frutas, ingrediente indispensável no preparo da caipirinha que nosso bartender Serjão vai fazer pra nós hoje à noite, hehe. Até então a pernada que fora moleza - praticamente, no plano – termina, quando o GPS indica o próximo destino: uma descida íngreme cujas pedras soltas demandam bastante atenção de modo a evitar que se torça um pé ou se caia estatelado de bunda no chão. Daqui do alto já se avista o rio Ribeirão Grande, promessa dum refrescante tchimbum, como diz o Soto. Merecida recompensa após cinco horas na trilha, calcorreando desde as 8 da matina, quando deixamos pra trás o acampamento das formigas glutonas. Ao alcançar a margem do rio, embora de altura modesta, está lá, escavado nas rochas um largo degrau por onde deslizam jorros de espuma branquésima. Um pouco mais tarde, quando já nos encontramos no alto da colina, é possível visualizar o outro degrau que antecede aquele avistado de sua margem direita. Atende a cachu pelo gaiato nome de Rasga Saco, que não faz jus a sua formosura e à tonalidade intensa do verde-esmeralda de suas águas! A travessia é feita com cuidado porque rola um tanto de correnteza. A galera, ninguém é marinheiro de primeira viagem, faz o usual nesse tipo de passada: corrente humana. O macharedo, com seu forte instinto protetor em relação às fêmeas, dê-lhe que te dê-lhe em ajudar, com seus braços fortes, a mulherada. Prestimosas, Cassandra e Paola, as primeiras a atravessar o rio, também auxiliam estendendo as mãos pra gente se apoiar. Impagável, Soto canta aquela música – a das vitórias do Airton Sena na Fórmula 1 - em homenagem a cada um de nós que alcança a margem esquerda. Vai então que o guri se vira pra mim e manda que eu filme a cena enquanto narra a travessia, disparando bobagens do tipo “toda faceira aí, a sereia, iemanjá” pras gurias que estão aos trancos e barrancos tentando manter o precário equilíbrio provocado pela agitada correnteza. Tal contraponto clownesco à seriedade do grupo, compenetradíssimo em se ajudar mutuamente, me arranca frouxos de riso. Enquanto o grupo se restabelece da pequena aventura aquática, observo a ladeira que nos aguarda. É uma senhora lomba, com uma inclinação super acentuada. Putz grila, hoje a porca vai torcer o rabo e a cobra vai fumar porque esta subida é áspera pra caramba! Eu, que saíra do acampamento, levando a barraca na mochila (varetas e espeques, contudo, Soto, gentil, se oferecera pra carregar), me rendo. Como não quero alugar o Dib mais uma vez, peço então a Serjão que faça essa mão pra mim. Prestativo, ele amarra a barraca na sua cargueira, facilitando com esse gesto, em muito, o restante de minha caminhada. Os 2 km de subida - pouca coisa - duram 50 intermináveis minutos. Quando se pensa que acabou tem mais um tanto. Quando aquela infindável ladeira termina, eu, já esgotada de todo um dia de pernada – foram 16 km embaixo dum sol a fudê –, percorro com dificuldade os 15 minutos da estrada plana que leva à pousada do Mirante, onde os mais ligeiros já lá se encontram, bebendo, gulosos, várias e diversas louras geladas. Só faço o brinde e passo pra água mineral. Sou muito fã de cerveja, não. Quanto aos acepipes, estes não refugo, não! E mando ver no queijo com presunto, no aipim e no peixe fritos, servidos em largas travessas. Pinta então uma amigável cizânia: Bernardo, sequelado nos dez dedos dos pés onde despontam lustrosas bolhas, mais Renata, Vivi (bolhas nas plantas dos pés), Fabio (também com gordas bolhas nos dedos dos pés) e Lu optam por ficar na pousada e ir pro Gloria amanhã de táxi. Os demais decidem seguir adiante. Eu, na dúvida, ora quero ficar ora quero ir. Depois de muito “vou ficar” e “vou embora”, acabo pegando a estrada novamente, me juntando a Dib, Cassandra, Rubão, Paola, Soto, Marcão e Serjão. Nem bem decorridos 20 minutos, percorrendo uma estrada de areia avermelhada, resolvemos acampar num campo limpo cuja grama alta atrapalha um pouco a montagem da barraca. Sou, ainda, muito amadora nessas lides, afinal, é a primeira vez que tenho de armar solita a minha casa ambulante. Até então, sempre tive alguém que fez isso pra mim, hehe. Bueno, nas águas transparentes dum riacho, eu, Cassandra e Paola tomamos um refrescante banho. Banhados, limpinhos, damos início ao ritual da janta, salvo Rubão e Paola que já foram se deitar. Serjão lamenta-se porque deu uma topada numa pedra que lhe arrancou um naco de um dos dedos do pé. Jantamos à luz da via Láctea, com muitas estrelas cruzando o céu em graciosa queda livre. Domingo de Páscoa, dia da ressurreição de JC, acordo 6 da manhã. Faço meus habituais alongamentos, após o que começo a desmontar minha barraca e arrumar a mochila. Temos de chegar em Gloria a tempo de eu ir a Passos onde pegarei um ônibus até Ribeirão a tempo de embarcar no avião das 22 horas que me levará de volta a Porto...ufa!! Assim, às 7 e 30, damos início a caminhada cujo trajeto será de 16 km. Logo que saímos do acampamento, enveredamos num carreiro que conduz até a cachu do Mirante, cujas águas avermelhadas são um convite irresistível prum bom mergulho. Mas não dá pra curti-la, apenas o tempo justo pra fotografar toda aquela belezura. Durante 3 km, enfrenta-se uma ladeira onde os celulares já dão sinal. E toca a telefonar pra combinar com Zé Mauro nosso resgate no Glória. Infelizmente, sua caminhonete pifou, inviabilizando o frete. Quando cheguei em Delfis, na quarta, contratara um táxi pra ir a Passos comprar a passagem de ônibus pra Ribeirão, combinando, então, que ele a traria quando viesse nos buscar no Glória. Com essa de ele não poder vir, começo a me preocupar. Cassandra telefona pra alguns amigos de Delfis, tentando ver se descola alguém pra nos pegar no Glória, mas nada. Finalmente, Vera, mulher de Zé, descola um taxista que trará minha passagem e conduzirá parte do pessoal a Delfis...ufa!! O restante da caminhada é muito monótono: estrada de chão batido a perder de vista sob um céu azuladão, calor forte e muiiita poeira levantada por carros e motos que se amiúdam à medida que nos aproximamos de Glória. Dib acertadamente conclui que o trekking podia muito bem ter terminado ontem na pousada do Mirante. Estreitos cursos d’água insinuam seu brilho prateado através da vegetação verde escura do vale ou vão da Babilônia, dentre eles o córrego da Garrida e o rio Tamanduá. Se tivéssemos tempo (não sou só eu que tenho pressa de chegar, os outros também têm seus compromissos), seria ótimo pegar uma trilha e ir até lá embaixo tomar um banho pra retirar o pó que os carros e motos jogam em nós ao passar. Brinco com as gurias, comentando que a quantidade de pó que recobre meu rosto veio a calhar: tornou-se uma eficiente base de modo a disfarçar minhas rugas. Deixamos há muito pra trás a serra das Palmeiras, onde repousa a pousada do Mirante. Na paisagem, reina absoluta a serra da Babilônia com seus morros que se sucedem uns ao outros. Na entrada de Gloria, onde chegamos, pontualmente, às 11 e 30, Cassandra adota um cachorrinho órfão que é batizado de Leo. Dib, contrariado com o gesto da mulher, resmunga “ai Cassandra, não!”. E o inevitável pit stop num bar onde o pessoal se lava na cerva enquanto esperamos o táxi que trará minha passagem e levará Dib, Cassandra, Paola e Rubão pra Delfis. Serjão e Marco irão de ônibus mais tarde. Despedidas mis, lá partem os dois casais enquanto nós vamos até a rodoviária, encontrando num bareco em frente a praça quem?! Bernardo, Renata, Lu, Vivi e Fabio, num alto astral, confraternizando entre garrafas e mais garrafas de cerva. Até eu entro na roda e mando ver na loira gelada! Bom demais esse trem que é a vida, sô!!
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2 comentários:

Paulo Roberto - Parofes disse...

Inveja das suas indiadas boas com muitos kms!
Eu tô de molho me recuperando de pneumonia pode?
Veja meu blog pras fotos do jantar da montanha 2011!
Serra Fina semana que vem? (dias 27, 28 e 29)
bjão

Fazendo Trilhas disse...

Faz tempo q nao publicas nada :(
Vc está bem? Sentimos falta das tuas atualizações ;)