sexta-feira, 22 de abril de 2011

Campo minado na 6ª Feira da Paixão

Quando acordo lá pelas 7 da manhã, só restam cinzas da fogueira feita, ontem à noite, por Serjão. Como a galera ainda não apareceu, Serjão e Marco começam a elaborar mis hipóteses e chegam ambos a uma triste conclusão: a travessia gorou, Dib e o pessoal retornaram a Delfis, sabe-se lá por quê. Serjão me oferece sua casa, propondo que façamos pequenas excursões de bate-volta pra eu conhecer os atrativos que o entorno de Delfinópolis oferece. Será meu plano B, caso o pessoal realmente tenha desistido da travessia. Até começo a me conformar e achar atraente a idéia de terminar meu feriadão de Páscoa na pacata cidadezinha mineira. Os dois homens, entretanto, não sossegam o pito e resolvem dar uma banda pelas redondezas afim de ver se encontram o grupo. Decidem, num primeiro momento, que apenas Serjão irá. Marco permanecerá no acampamento junto comigo pra me proteger (do que não entendi...só se for dos pernilongos, hahaha!!). Deixo que eles viajem nessa nóia e nem argumento tentando convencê-los do contrário. Eles, inquietos - a bem da verdade, mais Serjão que Marco - vão até a estrada, voltam, retornam até a estrada, até que, sérios, declaram que vão procurar o grupo. Juntos. Esses dois estão bem bolados, uai. Há 15 minutos não queriam que eu ficasse sozinha nem por decreto e agora partem, na maior, me deixando plantada no acampamento sem mais nem menos! Parecem uma versão caipira do Gordo e do Magro, hahaha!!!Estou eu comodamente instalada na barraca, lendo um bom policial, cujo entrecho se passa em Veneza, quando escuto vozes. Saio e vejo André, Serjão e Marco cruzando a ponte enquanto o resto do grupo segue mais atrás. E tudo se esclarece. Devido ao adiantado da hora, resolveram dormir noutro local, situado 15 minutos distante do nosso. André, Cassandra, Rubão, Paola, Vivi, Fabio, Lu e Soto partem na frente, enquanto nós ficamos desarmando nossas barracas. Bernardo, com um arzinho acabrunhado, comunica que ele e Renata não seguirão mais conosco. A moça, que faz sua primeira travessia, não resistiu ao esforço físico despendido ontem, infelizmente. O jovem músico e fotógrafo garante que estarão nos esperando ainda hoje no acampamento do rio Facão. Nesse meio tempo Serjão declara que volta pra Delfis. Não vai mais continuar a travessia. Surpresos, eu e Marco, em coro, questionamos dele: "O que houve Serjão?" Está magoado com Dib que, segundo ele, acusou-o de não ter espírito de equipe porque não aguardou o restante do grupo, ontem, se mandando na frente com Marcão e comigo. Meu deus, que dramalhão!! O negão com o beiço lá nos peitos arruma sua mochila com ar amuado. Marco e eu tentamos dissuadi-lo de voltar atrás em sua decisão. Entretanto, ele se mantém irredutível. Quando eu, já resignada em continuar a pernada sem ele, começo a caminhar pra alcançar o pessoal, percebo que Marco conseguiu, ulá lá lá, convencê-lo a continuar a jornada. E assim, às 9 da matina, deixando Bernardo e Renata às margens do Bateia, pegamos uma trilha que, embora se faça num terreno plano, se apresenta encharcado a mais não poder. Com cuidado e um pouco de sorte, Marco e eu conseguimos evitar de pisar na lama preta, o mesmo não sucedendo com Serjão que vacila e enfia a perna até quase o joelho naquele lodaçal escuro. Se não fosse o lodo, que empata demais a caminhada, o trajeto não teria levado 45 minutos. Finalmente, alcançamos terras secas onde se tem o último ponto de água do dia num pequeno córrego de águas límpidas. Água daqui pra frente só no acampamento à tardinha. Tem início, então, uma sucessão de pequenos aclives e declives, percorrendo uma trilha pedregosa onde abundam canelas de emas, estas sim, de porte avantajado, diferenciando-se das encontradas ontem, cujos pequenos cotos só atrapalharam a caminhada. Um saco! Raro o arbusto que ainda retém no talo a linda flor violeta, já que o momento de sua floração se está a esgotar. Pois saibam vocês que as flores da canela de ema são comestíveis e da raiz se extrai chá pra acalmar dores reumáticas e lombares. Pensam que acabou? Só não!! Seus caules podem ser usados como lenha, e, pasmem, se bem batidinhos, até pincel viram! Portanto, se o vivente se perder no cerrado, fica não em má companhia, caso se encontre num campo de canelas de emas. Come, se aquece, acalma aquela dorzinha nos costados da forte caminhada e ainda pode pintar o sete com o que sobrou do caule!! Lá vou eu seguindo o estreito trilho que rasga a vegetação, tendo como cenário, à minha direita, durante um bom tempo, a represa Peixoto, as cidades de Glória e Passos, mais os distritos de Ponte Alta e Olhos D’água, lá embaixo, no vale. Céu azul de anil. Esparsas, as nuvens são insuficientes – uma pena - pra toldar o sol que, inclemente, já na casa dos 30º C, castiga a manhã. Estamos agora na crista da serra Grande, uma bifurcação da serra Preta, que, juntamente com uma outra enfiada de morros, forma o vale da Bateia, à semelhança dum gigantesco anfiteatro. Muita confabulação entre os navegadores Fabio e André sobre o melhor caminho a seguir. De certo, o GPS aponta um morrinho cheio de vara-mato que nos deixa apreensivos. Eu, mais desnorteada que cego em tiroteio, saco de minha bússola e comprovo que estamos indo pro sul. Pelo menos isso sei. Pra quem consegue se perder em shopping até que estou progredindo no quesito orientação. E tem início uma subida e descida no tal vara-mato da serra Grande, mais pra vara-pedra, tamanha a quantidade de pedras que forram o terreno. Durante 25 minutos, percorremos outro jardim de canelas de emas, pontuado por árvores cujas copas exibem farta e verde folhagem. E sem aviso prévio, a caótica vegetação rupestre cede espaço ao cenário absolutamente clean dos campos limpos. Cobertos apenas por gramíneas, na paisagem minimalista da savana, despontam aqui e acolá mirrados arbustos despidos de folhas. Pouca flor, destacando-se a estrelona, cujas pétalas brancas, em número de 5 a 6, apoiam-se num finíssimo e longilíneo caule. Besouros zumbem no calor forte do início da tarde enquanto almoçamos embaixo da sombra rala duma árvore. Eita calorzão bom! Muito pé de arnica, tanto da branca quanto da melada, a que presta pra fazer remédio. Pego um galhinho e guardo. Servirá pra avivar o sabor duma cachaça que ganhei há 3 anos quando estive na chapada dos Veadeiros. Vejo aqui de cima, dum outro ângulo, o pequeno vale do rio Bateia e o trajeto acidentado de subidas e descidas percorrido até aqui. E sem chance alguma de sombra nos campos limpos, a pernada, cruzando a vasta campina, dura 2 horas e 30 minutos. Caminhando na estradinha de areia branca, mais uma vez se faz visível, à esquerda, a onipresente serra da Gurita. Batizada, neste trecho, de serra do Cemitério, seu paredão oriental crivado de ravinas mostra-se já ensombrecido, embora sejam apenas 3 da tarde. Dezenas e dezenas de motoqueiros vêm subindo do vale até a serra, numa procissão infernalmente ruidosa, deixando atrás de si um rastro de polvadeira. No encruzo da Serra Branca, deixamos a estrada e pegamos uma trilha descendente, no meio da campina, até adentrarmos novamente os campos rupestres. Decorridas oito horas e meia de pernada, num total de 18 km e 500 m de desnível, já quase noite, com todo mundo cansadíssimo, André, nosso capitão, resolve não seguir adiante até a cachoeira do rio Facão como previsto. Acampamos, pois, à beira dum riacho cujas águas transparentes revelam belos lajedos esverdeados. Quando termino de montar minha barraca, cheia de cuidados pra não colocá-la em cima dum dos inúmeros formigueiros que minam o terreno, percebo que se faz tarde pra tomar banho e desisto de entrar na água. Limito-me apenas na lavação de rosto e pescoço e em escovar dentes. Afinal, ontem tomei banho, um dia sem, faz mal não! Serjão arma uma fogueira rapidinho em cuja volta se reúne a galera que cozinha, em pequenos fogareiros, seus ranguinhos. O casal Fabio e Vivi se esmera na comilança. Até antepasto, com linguiça e azeitonas, sua janta tem! Já Dib e Cassandra comem sofisticadas comidinhas liofilizadas. A cachacinha esperta rola de mão em mão. E aí todo mundo fica mais risonho ainda. A conversa animada estende-se durante algum tempo até que o cansaço bate e o povo começa a debandar pras suas tendas. Eu já deitada, quase dormindo, escuto Vivi aos gritos anunciar “elas tão comendo a barraca”. Curiosa, salto pra fora e pergunto “quem, criatura, quem?” A, até então, pacata Vivi, muito agitada, responde “as formigas, Bea, as formigas”. Assim, ela e Fabio são obrigados a transferir a barraca prum outro local distante do famigerado formigueiro. Recomendo-lhes, portanto, que passem repelente no toldo pra afugentar a sanha comilona desses diligentes insetos. E volto pra minha barraca, refletindo sobre a mudança dos costumes. Tsk tsk tsk...até formigas não guardam mais jejum neste dia santo que é a sexta-feira da Paixão...tsk tsk! Um corisco prateado risca veloz o escuro do céu: é uma estrela cadente dando o ar de sua graça na noite fresca do cerrado. Coisa boa esta vida no mato!
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2 comentários:

Miriam Chaudon disse...

"Coisa boa essa vida no mato"....do mato viemos e depois nos afastamos.
Agora queremos voltar ao mato...coisa estranha o ser humano, não é mesmo?
Parece que as pessoas precisam mesmo "perder" para depois dar valor.

Apenas reflexões...ando muito pensativa ultimamente...hehehe!
Lindas fotos!

Beijo prá você Bea!

Anônimo disse...

É maravilhoso poder fazer passeios como esse. A natureza é fantástica.
Deve ser incrível a reflexão que se faz quando se trilha caminhos assim...