domingo, 28 de junho de 2009

Trek cultural

Como o hotel não serve café da manhã, descubro uma confeitaria (pastelaria D’Karla) a meia quadra de distância. Abre às 6 e cerra às 22 horas. Há quitutes deliciosos, destacando-se os iogurtes com frutas e empanadas de carne. Vale a pena provar também o pão, sempre crocante, com queijo serrano. O dia está quente tanto que uso blusa de manga curta (já à noite esfria, exigindo agasalho) e o céu despejado de nuvens. Huaraz, situada a 3.090 m, localiza-se no Callejón del Huayllas, pequeno vale espremido entre as cordilheiras Negra e Blanca, ramificações da Cordilheira dos Andes. A cidade e seus arredores são irrigadas por cinco rios, destacando-se o Santa por sua extensão e larga bacia de captação, cujo leito flui entre as duas cordilheiras, desembocando no Pacífico. De um lado a Cordilheira Negra, à oeste de Huaraz; doutro a Blanca, situada à leste da cidade. O contraste entre as duas cordilheiras é preto no branco, literalmente. Enquanto a primeira deve seu nome à coloração escura de suas rochas e a pouca quantidade de nevados porque não é alta o suficiente para mantê-los, a segunda é um deslumbre de brancura, exibindo impressionantes cerros toldados de neve cuja atração máxima é o Nevado Huascaran, o mais alto do Peru, com 6.768 m. Começo meu processo de aclimatação com um pequeno trekking de 3 horas, guiada pelo guia Saul com o objetivo de visitar o sítio arqueológico Ichic Willkawaian (casa pequena do neto, em quechua). Pequenas construções quadradas feitas de pedra, as chullpas, escuras e de pé direito baixíssimo, obrigam a gente a andar meio agachada. Chama minha atenção um lindo nevado, o Cashan (significa espinha em quéchua) com seus cumes leste e oeste apontando à distância. No departamento de Ancash, do qual Huaraz é a capital, há muitos vestígios de velhas culturas pré-incas, destacando-se a cultura Chavin, a mais antiga de todas que se impôs durante quase mil anos. Mas o que me atrai mesmo são as flores (na outra encarnação, quero ser botânica) que colorem os campos. Uma, em especial, destaca-se devido à linda tonalidade arroxeada e delicada fragrância doce que exala. Pertence à família das lupinus e sua semente, chamada chocho (formato de ervilha embora de coloração branca), come-se temperada com salsa, tomate e cebola. Deve tal legume, entretanto, ser posto, durante três dias de molho, pra perder o forte ressaibo amargo (culinária também é cultura). Retorna-se, descendo uma estradinha um pouco mais exigente que a da ida porque se trata duma ladeira bem inclinada e arenosa. Escorrego algumas vezes enquanto desço, mas nada, ufa, que me leve ao chão! De repente, numa curva da trilha, surge, bem a minha frente, o esplendor branco do nevado Huascaran com seus cumes norte e sul banhados pelo sol do início da tarde. Como é lindo e imponente. Os peruanos têm motivos de sobra pra se sentirem orgulhosos de tal colosso! O passeio finda nas termas de Monterrey, um balneário com piscinas e duchas de águas calientes. O lugar está cheio de gente! Também pudera, é domingo. Desisto de entrar, sou nem um pouco chegada em aglomerações, ainda mais as domingueiras. Pego, então, uma van já que não tô afim de encarar na pernada os 7 km até Huaraz (tá um sol danado de forte), e pago a modesta quantia de 1 sol (60 centavos) à mulher do motorista que recolhe o dinheiro sentada no interior do veículo. Chego na cidade e, como já são 15 horas, vou direto ao restaurante Encuentro onde me sento a uma mesa na esplanada em frente. Um pisco sour enquanto espero a comida que ninguém é de ferro. Ô driquezinho bom esse! A sorridente garçonete traz uma salada mista de alface, espinafre, cenoura, tomate, cubitos de queijo, brocólis e abacate, regada com vinagreta de iogurte, acompanhada por presunto serrano ladeado por fatias de cebola roxa e pão bem quentinho. Vejo chegar Oskar, Ana e Marcos que fizeram juntos comigo o passeio. O casal de bascos e o baiano vêm ao meu encontro, e acabamos almoçando todos juntos. Oskar pede um prato típico, Pachamanca serrana, que consiste num cozido de tamales (vem a ser a pamonha peruana), camote (batata doce de cor fortemente alaranjada), habas (um tipo de ervilha), okas (tubérculo pequeno cujo formato lembra uma minicenoura de sabor adocicado) e três variedades de carnes, servidas numa panela de barro; de sobremesa, humita, a pamonha doce deles. Estou no céu: boa companhia, comida gostosa e curtindo uma cultura diferente e pra lá de interessante. E viva o Peru!
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Um comentário:

Kaoru Noda disse...

Bea, sempre acompanho suas aventuras e só tenho a dizer que é sensacional.
O relato, nos leva a uma viagem dos sonhos.
Parabéns e espero mais relatos das aventuras.
Forte abraços.
Kaoru