segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Vila Boa de Goyaz

Em setembro de 2020, rumo ao Tocantins, resolvo conhecer Goiás Velho que já me chamara atenção ano passado quando voltando de Palmas vi a placa indicativa da cidade à beira da rodovia. Como estava apressada em chegar ao sul, deixei pra lá. De Cuiabá, onde pernoito 2 dias na casa de meu afilhado espiritual, o hospitaleiro Oswaldinho, filho de minha amigona Osnilde, a Goiás Velho são 760 km que faço, por óbvio, num dia. Saio às 5 e meia da manhã e tenho de esperar até as 6 no posto pra abastecer o carro porque eles só abrem a partir deste horário. Após rodar 140 km em 2 rodovias estaduais, pego então, a partir de Campo Verde, a BR 070 que me deixa à beira da histórica cidade goiana, antiga capital do estado de Goiás. Habitada ainda no século XVII pelos índios goiases, - daí a origem do nome -, a existência de minério de ouro provocou diversas incursões de bandeiras paulistas. Foi então fundado o arraial de Sant’Anna, alçado, posteriormente, à condição de vila administrativa, com o nome de Vila Boa de Goyaz. Entretanto, no final do século XVIII, tal riqueza acabou por se esgotar face à sanha expropriatória dos colonizadores portugueses. Com o esgotamento da extração aurífera, a atividade econômica voltou-se à agropecuária. Mesmo assim, cultural e socialmente, a cidade mantinha-se sintonizada com as modas do Rio de Janeiro, então capital do Império, mantendo intensa atividade cultural e artística com apresentação de saraus, jograis, exposição de artes plásticas e produção literária, além de um ritual único no Brasil: a Procissão do Fogaréu, realizada na Semana Santa. O município foi reconhecido em 2001 pela UNESCO como sendo Patrimônio Histórico e Cultural Mundial por sua arquitetura barroca peculiar, suas tradições culturais seculares e a natureza exuberante da região. Pois bem, nesta linda cidade, cuja preservada arquitetura colonial barroca se deve muito à mudança da capital para Goiânia, no início do século XX, fico 2 dias flanando por ruas revestidas com pedras irregulares, bonitas de ver mas ruim de caminhar, especialmente pra quem esteja usando salto alto (não é meu caso), deveras desafiante. Rodeada pela Serra Dourada e os Morros de São Francisco, Canta Galo e das Lages, Goiás Velho é cortada pelo rio Vermelho com lajedos aflorando de seu leito desmilinguido de água já que se está na estação seca. Unem ambas as margens 3 pontes sendo 2 de madeiras com passarelas destinadas aos pedestres. Na margem direita, percebe-se que os casarios, estreitos e compridos, são mais modestos se comparadas àqueles construídos na margem esquerda. Nas construções predomina o branco com esquadrias em azul, abrindo-se raras exceções ao marrom e amarelo nas aberturas. Justamente na margem direita, assenta-se a casa de Cora Coralina, importante poetisa brasileira, cujo 1º livro foi publicado quando ela tinha 76 anos de idade, embora escrevesse versos desde a adolescência. Sua obra poética tem como tema principal o cotidiano da vida simples de uma mulher do interior brasileiro. Doceira de profissão, engrossava o orçamento doméstico fazendo doces pra fora. A goiana alimentava, assim, não só a mente como o corpo das pessoas. De seu casarão, só pude conhecer o frondoso quintal cheio de frutíferas do cerrado, protegido por baixo muro de taipa. Na margem oposta, na avenida beira rio, sentada sobre uma mureta de pedra, eis Cora vendo a vida passar. Não há turista que não pare pra tirar fotos e selfies junto à estátua da poetisa- doceira. Em homenagem a ela, a trilha de 300 km destinada a caminhantes e ciclistas, interligando cidades históricas goianas, foi intitulada Caminho de Cora Coralina. Em Assim Eu Vejo a Vida, Cora Coralina resume seus 95 anos de idade neste impressivo e breve poema, abaixo transcrito:

A vida tem duas faces:

Positiva e negativa

O passado foi duro

mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria

Que eu possa dignificar

Minha condição de mulher,

Aceitar suas limitações

E me fazer pedra de segurança

dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes

Aceitei contradições

lutas e pedras

como lições de vida

e delas me sirvo

Aprendi a viver.

Já na margem esquerda, sobressae a verdejante praça Brasil Caiado, rodeada por casarões imponentes, onde se destacam o Museu das Bandeiras e o Chafariz de Cauda. Mais perto do rio, a praça do Coreto, construção arredondada, cujas amuradas em madeira exibem caprichadas filigranas pintadas de branco. Deliciosos picolés de frutas do cerrado são vendidos no bar situado na parte inferior do prédio. Numa das pontas desta praça, a igreja Nossa Senhora da Boa Morte, hoje museu, infelizmente fechado, como tantos outros atrativos turísticos por conta da maldita praga do Covid 19. Nas ruas, o chilrear da passarinhada é fundo musical constante, uma algaravia sonora gostosa de se escutar enquanto caminho sem pressa ao longo de ruelas perfumadas por umbuzeiros em flor, na tarde que finda. No mercado público, restaurantes, lancherias, casas de artesanato e armazéns onde são vendidos doces da região e cachaças de alambique sen-sa-cio-nais, destacando-se as de murici e arnica do cerrado. Não só Minas Gerais faz boa cachaça, sô!! Num simpático boteco de esquina, almoço empadão goiano, quitute recheado com galinha e legumes. Também provo bolo de arroz que não tem nada a ver com aquele feito aqui no sul, já que aqui, no centro-oeste, se usa farinha de arroz. Como não podia deixar de ser, destaca-se rente à margem direita do rio Vermelho, uma casa de polvilho, característico comércio das regiões centro-oeste e nordeste do Brasil, impondo-se, graça a deus, este tão saboroso e nutritivo legado indígena. A igreja de São Francisco de Assis destaca-se não só pela alegre coloração branca, azul e amarela de suas paredes como pela torre vazada de madeira que guarda o sino, apartada da construção de pedra. Quer saber duma coisa? Gostei muito mas muito mais de Goiás Velho do que de Pirenópolis que conheci ano passado. A Vila Boa de Goyas encanta pela riqueza de seu conjunto arquitetônico, exalando ainda fortíssimos ecos do passado colonial. Conseguia sentir a vibração daquele passado enquanto zanzava pela cidade. Sem falar na presença imaterial mas constante da doce e poética Cora Coralina!!

 

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