Pretendo com este blog descrever viagens que fiz e farei por este tão lindo planeta, resgatando da memória as impressões armazenadas, algumas já esmaecidas pelo tempo, outras prudentemente registradas pelo olho mágico das lembranças fotográficas.
Domingo
de céu nem tão aberto assim quando saímos de Mundaú às 7 da manhã rumo a Icaraí
de Amontada, Johny, o mesmo barqueiro da navegação que fizéramos ontem à tardinha
no rio Mundaú, nos atravessa pro outro lado da península. Se assim não fosse, teríamos
que adentrar o continente, pegar 2 rodovias, a 163 e a 168, pra voltar a
pedalar na praia. Colocadas as bicis no barco, não dá 15 minutos e já estamos
no outro lado da península, poupando precioso tempo. Próximo a Mundaú, ainda se
vê vegetação de mangue, devido à presença do rio. Tô começando a apreciar esse
vento, a um porque ele é favorável, e a dois porque evita que eu sue como uma
condenada. A primeira praia pela qual passamos é Baleia seguida de Apiques. Contudo,
a ordem de Comandante Alencar é seguir em frente, sem paradinhas e assim aproveitarmos
a larga faixa de areia deixada pela maré baixa. Caso sejamos pegas pela preamar, teremos de pedalar,
ou melhor, empurrar as bicis ao longo de 3 km de arrecifes, próximos às dunas. Conforme ensinamento de Nara, o bom é sair quando a maré
cheia está nos seus últimos suspiros, num movimento de recuo, iniciando a expor, assim, maior extensão de terra. Ao
contrário do dia anterior, algumas nuvens de coloração acinzentada fogem da
usual brancura que costumam exibir. Será que choverá, pergunto aos meus botões?
Ao longo da costa, as folhas dos coqueiros farfalham ao vento. Paro duas vezes pra
fotografar dois pequenos cemitérios pousados sobre dunas. Com seus túmulos
branquinhos, caiados de cal, singelas cruzes de madeira escura assinalam sua origem
cristã. Desde Lagoinha, as indefectíveis estações eólicas têm dado o ar da
graça, exibindo a bizarrice moderna de seus moinhos de vento. Urubus repartem
entre si o enorme corpo morto duma tartaruga. É o ciclo natural da cadeia
alimentar: atiram ao mar os pescadores suas redes em busca do peixe-sustento,
ao passo que os urubus se atiram às carniças. Uma extensão grande de recifes,
cujos afloramentos estão bem visíveis em razão de a maré ainda estar vazando,
forma piscinas naturais cheias de água
transparente tão clarinha é. Muita gente pesca nos atóis, aproveitando a maré
baixa. Ultrapassado enfim o tal pedrario, Comandante Alencar permite que
paremos em Caetanos de Cima. Eu louca que estou pra bebericar tanto água de
côco quanto ypioca, fico desapontada quando a encarregada do Bar e Restaurante
das Mulheres avisa que está sem água de côco, tampouco vende cachaça. A explicação de
não vender o destilado tem origem no tanto que botam boneco (tradução do
cearês: badernaço de bebum) os homens ao beberem a danada. Pra minha alegria,
mal pedalados 2 km, eis Caetanos de Baixo, com mais opções de barzinhos que o de
Cima, e, graças a deus, sem as rígidas regras do estabelecimento anterior. Capitaneado
pela falante Claudia, entramos no Estrela do Mar, fresca tenda coberta por
folhas de coqueiro, que serve não só água de côco como ypioca. Tento avisar
Comandante Alencar e Menina Brandão mas fico em dúvida se entenderam meu
gestual sinalizando nossa paradinha porque as duas queridas estão 200 metros
além. Felizes da vida que nem pinto no lixo, eu e Cris nos lavamos na água de
côco, além de cerveja – ela -, e esta senhorinha de ½ idade, na branquinha. Claudia
gentilmente nos dá pra provar 2 espetinhos camarão ao alho e óleo. Oxente, boa demais essa vida! Percebemos eu e
Amotinada Tavares que Comandante Alencar se equivocou em relação à localização
da temida faixa de pedras, porque é aqui, próxima a Icaraizinho, que a dita
cuja se aninha. Na beira d’água, os primitivos currais de peixes feitos com
escuras varetas fincadas no mar, à semelhança dum labirinto, atraem os peixes pelas
sombras que lançam à água. E dale a atravessar pequenas barras formadas por
riachinhos. Delícia tudo isso! Já em
Icaraí de Amontada, praia, atualmente, eleita a queridinha dos
fortalenses, apelidada carinhosamente de Icaraizinho, tem um ar de paraíso
perdido, segundo os nativos, semelhante à Jericoacoara de 20 anos atrás.
Pousadas charmosas com boa infra atraem os turistas de maior poder aquisitivo. Porque açoitada essa parte do litoral durante alguns meses do ano pelos
fortes ventos alísios, a prática do kite surf vem cada vez mais se difundido, o que seduz a galera jovem e descolada da capital. E após
pedalarmos 41 km em 4 horas e 45 minutos, chegamos à pousada Villa Mango, onde celebraremos
com um baita almoço o memorável pedal. Sorridentes, faceiras, inesperadamente, uma cachoeira de
água geladésima cai sobre nós na forma de nova reprimenda aplicada por Comandante
Alencar! Tudo por causa de nossa breve parada no Estrela do Mar. Além de nos
penalizar com frio tratamento, decreta nosso banimento sumário de
futuros pedais a serem organizados por ela. Valha-me deus, Comandante
Alencar, dessa feita não lhe dou razão alguma, não! E acredite se quiser, a meiga cearense foi emburrada até Fortaleza!!
Embora, hoje,sábado, não tenha pedal, Nara dá
toque de alvorada às 7 da matina. Só falta a corneta pra gente se sentir num
quartel. A guria cearense é linha dura, oxente, motivo por que começo a chamá-la
de Comandante Alencar. E lá vamos nós, após o desjejum, caminhar ao longo da
praia. Nuvens encobrem vez por outra o astro-rei, motivo por que nem me
preocupo em cobrir minha alva barriga. É um desastre a coloração deste meu corpitcho: somente rosto, braços e pernas – estas um pouco acima dos joelhos - bronzeados. O resto, duma brancura europeia, graças
aos antepassados maternos, oriundos do norte da Itália. Quando estamos voltando pra casa, Nara, com sua fala mansa, em tom sempre baixo, começa a me dar um pito por causa do que rolou ontem. Afe maria, e eu até então crente que não resultaria maiores consequências da nossa irrefletida decisão. Triste engano, o meu! Deixem estar que vou revelar tudinho o que se passou. E deus que nem me perdoe se não é a pura verdade o que passo então a contar. Pois tudo iniciou quando, ontem, ao pararmos em Flecheiras, Nara,
cuja bici não é das mais adequada às areias praianas, comunicou que iria pedalar na
rodovia. Deixou, contudo, nós três livres pra continuarmos o pedal pela praia. Parceria
é parceria, disse eu, e assim ficou decidido que iríamos juntas as quatro asfalto
afora. A Comandante e Menina Brandão largaram na frente, ficando eu e Cristina pra
trás, tudo tudo porque a paisagem pedia pra ser filmada. Nesse ínterim, Nara e Alu já
se haviam se distanciado de modo que as perdemos de vista. Bueno, percorridos cerca duns 5
km, Cris se queixou de que tava foda pedalar na estrada pois o calor emanado do
asfalto era demais pra bola dela. Convidou-me então pra voltarmos a pedalar à
beira mar. Sem muito pensar, aceitei a proposta, e embicamos em direção à praia.
Quando chegamos a Mundaú, Comandante e Menina não estavam em casa. Iva, que ali já se encontrava há horas porque fora de auto, diz que Nara, preocupada, pegara o carro pra averiguar
o que nos acontecera. Baaah, pensei na hora: fudeu!! No retorno, Nara indaga por onde
viéramos. Cris e eu damos uma enrolada, não abrindo totalmente o jogo. Explico
que, um pouco antes de chegarmos a Mundaú, decidimos abandonar a estrada e vir
pela praia pra curtir o visual. Porém a perspicaz Nara, como boa psicanalista
que é, sacou a real mas deixou quieta nossa ½ verdade. E guardou a ralhação pro
dia seguinte, nos fazendo crer que estaríamos livres de qualquer
questionamento. Nem cogito em me
defender. Aceito a reprimenda e, como boa cristão cheia de culpa, peço perdão pra
ganhar a absolvição e, assim, me sentir aliviada. Feitas as pazes, voltamos novamente a ser amiguinhas. Ainda
pela manhã, vamos, Menina Brandão, Comandante Alencar e eu, a Amotinada Azevedo
(como passei a me autointitular após o imbroglio), até as dunas que circundam
o rio Mundaú, onde está plantado outro parque eólico. De dentro d’água, curto,
fascinada, o girar incessante das gigantescas pás metálicas desses modernos
moinhos de vento. No almoço, encanto Iva, exibindo minhas habilidades de
barwoman, ao preparar caipirinhas de limão com uísque ao invés de cachaça. Jamais
passou pela loira cabeça de Iva, minha irmã de tragoleu, ser possível o uso de
tal destilado neste famoso coquetel brasileiro. Como a beberagem foi forte, o corpo pede um descanso. Assim, sesteamos
até as 16 e 30 quando então saímos prum passeio de barco. A pequena embarcação a motor, pilotada pelo jovem e simpático Johny, percorre um trecho do rio Mundaú
cujas margens exibem cerrado manguezal. Um labirinto só esses
mangues formados por tramas de retorcidas e intrincadas raízes expostas ao ar
livre. Na vazante, os pescadores pegam, com as mãos despidas, os caranguejos que se escondem em tocas, cavadas rentes às lamacentas margens. Quando retornamos ao cais, o fenômeno
da super lua cheia, que a torna maior e mais brilhante que o normal,
arranca exclamações de admiração da Amotinada Tavares. Por ter se aventurado num belo tragoleu antes,
durante e pós almoço, a sempre contida Cristina, que mede cada palavra dita, tá
sem trava na língua. E como toda bebum, seu conversê limita-se àquela
cantilena efusiva e repetitiva tipo “olhem, coisa mais linda, bota lindo nisso,
olhem!!”, pontuando tudo com alegres risadinhas. E atrás das dunas, a lua, à
medida que vai subindo, perde sua coloração alaranjada para assumir de vez sua usual
brancura.
Há
coisa dum mês recebo um telefonema com prefixo 85 e logo me questiono “donde do
Brasil, oxente?” Era Nara Alencar, direto
de Fortaleza, a quem conhecera faz 3 anos
durante um baita pedal em Urubici. Claro está que não ficamos todo esse tempo
sem nos ver, porque coisa dum ano depois, ela me convidou pra pedalar na
capital cearense e adjacências. Aceitei no ato e me toquei de mala, mas sem cuia! Dessa feita, a guria me convida pra passar um fim de semana de modo a
participar do pedal 4 Mulheres e um Destino. E agora, eis euzinha, esta
senhorinha de ½ idade que vos escreve, uma vez mais, retornando à terra de José
de Alencar. Serão por acaso tais sobrenomes? O de minha amiga e do grande escritor? Preciso indagar Nara sobre. Do
aeroporto, após os festejos de praxe, sou levada pelas cearenses Narita e Alu Brandão prum restaurante de massas.
Intimamente, troco uma ideia com meus botões e faço aquela cara de desgosto que
expressa “comer massa? aqui, no Ceará?” Pois não é que tive de dar o braço a
torcer?! O restaurante Pasta e Pizzas tem em seu menu não só as tradicionais
massas, apelidadas de forno e especiais de fogão, como ainda as assim
denominadas massas de fogão, que vêm a ser aquelas com frutos do frutos do mar,
abundantes no litoral cearense. De lamber os beiços a comilança. Difícil resistir
e não pedir bis, tris e sair rolando tão boas as pastas são. Um arraso o
fettucini Maria Izabel, com carne de sol refogada com cebola, molho de tomate
e creme de leite. Além do ponto de cozimento perfeito, bem al dente, os
temperos e os ingredientes fazem a delícia de meu paladar. Além de mim, Nara (a idealizadora espiritual do pedal) e Alu (embora
debochada, é amiga leal, ciclista de ocasião e entusiasta das aventuras na
natureza), também se encontra à mesa Cristina Tavares (única conhecedora de
rudimentos básicos de mecânica de bici, a maranhense, dona dum humor peculiar, trata todo
mundo de colega). E pra coroar tão lauto jantar, aquele toquezinho sulista na refeição: espumante gaúcho, bem
geladinho pra brindar o tão aguardado pedal. De pancinha cheia, adormeço tal qual um anjo. Acordo na
sexta-feira, passado um pouco das 5 da manhã, e vislumbro através da janela uma
baita claridade! Devido ao dia amanhecer cedo nesta parte do país, e também por
causa do calor, às 6 e 30, quando saímos de Fortaleza – não de bici ainda e sim
de carro - bastante gente já está correndo no calçadão à beira mar. Ivanara, irmão
de Nara cujo nome de batismo é Ianara, nos deixa em Lagoinha, distante
100 km da capital, donde o pedal iniciará. Esta praia, pouco explorada pela
turistada, exibe um visual lindo formado por dunas, coqueiros e falésias
avermelhadas, que se situam a 100 metros do mar, se tanto. Pequenos percalços
com as bicis de Nara e Cristina nos obrigam a parar. A da primeira, um freio reticente enquanto a
da segunda, o guidão foi montado ao contrário. E não é que a criatura
ainda pedalou uns 500 metros com a bici assim? Na primeira praia após Lagoinha, a
sossegado Guajiru, fazemos um bem vindo pit stop. Peço uma água de côco de modo a
hidratar o organismo pro que vem depois: a deliciosa cachacinha cearense. Nem
bem pedalados 7 km, nova parada em Flecheiras, no bar duma bela pousada, em
frente à imensidão verde do mar. Amiúde, despontam, na faixa de areia, piscinas naturais resultantes da ação da maré alta. Peço uma dose de Ypioca
ao passo que as gurias vão de cerveja. Como sei que o povo de outros estados
adora quando os gaúchos falam à moda gaudéria, solto o famoso “baaah tche, barbaridade de boa essa Ypioca!” Elas adoram escutar eu falando "bah".... hahaha!! Embora não
seja de rajadas, o vento é constante. Sorte nossa que sopra numa direção
predominantemente SE-NO. Não à-toa, Narita, espertamente, bolou o percurso
rumo ao norte. Em diversos momentos não se faz necessário pedalar: o vento
se encarrega de empurrar a bici como se ela fosse um veleiro. Nas praias próximas às vilas de pescadores, coloridas velas de kite surf enfunadas
se erguem em rápidos vôos rentes ao mar. Céu de brigadeiro sem nuvem alguma embaçando o sol. A
lisura da praia só é interrompida por pequenas covas causadas pelo refluxo da maré. Várias barras formadas por riachos em cujas margens formam-se degraus.
Contudo não de molde a obstaculizar a travessia das bicis. Ao longo da
costa que conduz a Mundaú, perpendiculares ao mar, parques eólicos, formados
por esguias torres e hélices metálicas de coloração branca, exibem design
estilizado de moinhos de vento dantanho. O odômetro registra 38 km pedalados
ao longo de 5 horas e 15 minutos quando em Mundaú freamos em definitivo as bicis. Aqui pernoitaremos, até domingo, na residência
das irmãs Alencar cujo privilegiado quintal fica diante do rio Mundaú! Esta praia, nos dias
que correm, já é bem conhecida no circuito litorâneo do estado. Encantador, o
balneário, além das elevadas dunas e das lagoas, exibe piscinas naturais à
beira mar. O pequeno vilarejo conta com vários mercadinhos bem sortidos. Num
deles descubro o sorvete Pardal, famosa fábrica de sorvete cearense, que
prestigia os sabores regionais de graviola, cajá, castanha e milho. Me atraco num de graviola, uma delícia! Ao longo da rua da Praia, uma deliciosa sonoridade amadeirada de tac tac tac se faz ouvir. É o som produzido pelas rendeiras ao
manejar aos pares os bilros. O resultado do artesanato, herança portuguesa, zelosamente transmitida
de mães pras filhas, desde quando estas são meninas, é pendurado em
cabides, nas janelas das casas: vestidos, toalhas e blusas feitas de renda de
bilro ou birro. No almoço feito por Ivanara, macarronada com lagosta e porco a pururuca acompanhado por arroz. De bebida,
aceito a caipirinha de cajá preparada por Iva. As demais colegas mantêm-se firmes na cervejinha. Depois da
séstia, Iva faz deliciosas tapiocas recheadas com banana caramelada. Pouca
demora, saímos de casa pra aproveitar o que resta de pôr do sol. Na praça de
piso alajotado, construída justo no ponto de encontro das águas do Mundaú com as águas do Atlântico, ambas igualmente verdes, descortina-se do lado de lá do rio outra estação eólica,
plantada entre dunas. Já entardecendo, a paisagem adquire uma tonalidade
rosada, resultado dos últimos raios do sol poente. Tô no paraíso, oxente! Tenho ou não razão de estar prosa?