terça-feira, 17 de junho de 2014

Pedal Tô Fora da Copa - Parte 1

Feriadão se aproximando, deu ganas de armar uma boa indiada. Propus então às amigas com quem pedalei no Uruguay um cicloturismo no Paraná. Das 5 somente 3 confirmaram. É assim então que Juju e eu, na terça, nos mandamos com nossas guerreiras magrelas pro aeroporto. Melhor que acondicionar em mala bike foi a sugestão de Ricardo, da Adventure Bike Shop, pra embalar as bicis: retirados os pedais e torcidos os guidons, encamisamos cada uma em 3 metros de espuma 18 mm, reforçando as laterais com mais espuma, de modo a proteger bem câmbios e freios. O embrulho, amarrado com 4 extensores, parecia ao final um gigantesco presunto. Não demorou mais que 20 minutos embalar as 2 bicis, que foram assim despachadas, pagando-se um excesso de bagagem irrisório. E nada aconteceu às nossas queridas, nem na ida tampouco na volta!! Isso que, durante o voo de retorno a Porto, Ju me acordou e, aflita, declarou “Senhorinha, esquecemos de esvaziar os pneus!” Foi um deus nos acuda. Torcemos as mãos, rezamos, prometemos mundos e fundos, inclusive agir com mais seriedade nas futuras viagens caso nada acontecesse às bikes. Mais sorte que juízo nós tivemos. A imperdoável distração não rendeu transtorno algum porque pneus e câmaras se mantiveram intactos, dá pra acreditar? Felizes da vida com a perspectiva de 5 dias de lícita vagabundagem esportiva, propus a Juju um brinde enquanto esperávamos nosso vôo. E assim foi que entornamos 2 tacitas de vinho Valduga. Quando passamos ao salão deembarque, infelizmente, só tinha um tal de vinho do Nono. O insuportável odor e paladar de suco de uva evitou que continuássemos nossa agradável libação alcoólica. Gostamos dum tragoleu mas que seja com vinho buenacho! Fátima, nossa anfitriã, nos esperava no aeroporto, em São José dos Pinhais com........uma garrafa e 2 taças de vinho!! Senti que inevitavelmente um tragoléu seria consumado. No carro, um típico cacacá bem feminino, com cada uma querendo falar mais que a outra, tamanha a alegria do reencontro. E a noite rendeu até as cinco da manhã pras duas doidinhas, porque esta senhorinha aqui se rendeu aos braços de Morfeu, comportadamente, por volta das 2 da madrugada. Antes de dormir, porém, curto a tagarelice de minhas duas novas amigas. Fatima, pequena e magra, é elétrica. Sua animada vozinha, importada da Disney, guarda longínquo eco de Pato Donald. Quando olha de viés e reduz seus olhos esverdeados a duas fendas desconfiadas, lembra Calvin. Ser de outro planeta, a Monster, é personagem saído diretaço de estória em quadrinho! Já Jucilene, quando a conheci, não dei um centavo por ela. Mignon (aliás, somos as 3 um trio de minis), tirei ela pra patricinha metida a aventureira. Ela não só é uma assumidésima pati como também tem pegada pras indiadas, tanto que obrigou esta senhorinha a morder a língua. E de nhapa ainda leva jeito pra mecânica, a danada! 


Bueno, dia seguinte, quarta, após um almocinho maneiro num restaurante asiático - regado só a refri pra curar a ressacona - nos tocamos pra Antonina chegando à noite na cidadezinha, localizada em frente a baia de mesmo nome. Com pouco mais de 18 mil habitantes, Antonina possui prédios antigos bem conservados, destacando-se a bela estação ferroviária, o teatro municipal, as igrejas da Matriz e de Bom Jesus de Saivá, dentre outros prédios históricos, certificados da fase áurea do mate que fez dela, à época, o quarto porto brasileiro. O roteiro, bolado por Fatima, a paranaense do grupo, é um pedal circular com 4 dias de duração, iniciando e terminando em Antonina. Destemidas, dispensamos carro de apoio e guia. Pra tornar a aventura ainda mais porra louca, nenhuma de nós sabia trocar pneus ou entendia muito de mecânica. No bagageiro da minha bici e no da Ju, pequenas maletas; às costas, mochilas, contendo o mínimo indispensável de roupa. Juju, sem qualquer pretensão, prendeu sobre a maleta havaianas petit pois. A guria causou! Charme que só as bonequinhas têm! Fatima, não tão amadora quanto Ju e eu, dispensou mochila, acoplando 2 alforges ao pneu traseiro. Cansadas, esgotadas de tanta excitação e ainda sentindo os efeitos da esbórnia da noite anterior, desabamos nas camas, dormindo sem muita delonga.

 
Na quinta-feira, dia de Corpus Christi, antes de deixarmos Antonina, nos fotografamos umas as outras com nossas magrelas diante do tradicional tapete feito de serragem colorida, montado ao redor da praça da Matriz. Ao cabo de 20 km, pedalando ao longo do acostamento da rodovia PR 440, dobramos à direita, entrando na PR 405, estrada de terra que conduz à Guaraqueçaba. O trajeto, até então plano, começou a apresentar aclives e declives que embora razoáveis exigiram certo esforço físico. Afinal, já estávamos subindo a Serra Negra de Guaraqueçaba. Foram 38 km assando a virilha no chão batido. Diga-se de passagem, um chão batido bem legal, com pouca pedra solta e sem muita buraqueira digna de nota. Passando por um armazém, não é que um cachorro se invocou comigo e fincou os dentões na minha panturrilha? O resultado foi que quando retornei a Porto tive de me vacinar contra raiva porque, abobada, não parei pra perguntar ao dono se o cachorro era vacinado. O tempo nublado não aliviou, permanecendo cinzento nos 3 dos 4 dias de pedal, sem falar da umidade em torno de 90%! Foi então que a bici da Ju começou a dar piti. Cada vez que ela acionava o câmbio traseiro pra subir as lombas, a corrente caia fazendo com que a guria, que pedalava clipada, comprasse vários terrenos. Mas têm males que vêm pro bem. Só assim Juju aprendeu a recolocar a corrente no cassete e iniciou seu aprendizado de mecânica. Após 48 km, paramos pra comer pastel na lanchonete da Corina. Um arraso o petisco, com farto recheio! Como havíamos deixado Antonina quase ½ dia, a noite nos surpreendeu. Sorte nossa que o pior do trajeto, as descidas e subidas, já tinham acabado. Acendemos nossos faroletes e enfrentamos a escuridão, pedalando (animadésima, diga-se de passagem) ainda 45 minutos, quando então chegamos a Tagaçaba, distrito de Guaraqueçaba, quase 19 horas. A pousada, das três que nos hospedamos, foi a mais xinfrim. Em compensação, a dona, Janete, mais atenciosa impossível. Jantamos uma pescadinha super saborosa com os devidos complementos de arroz, feijão, massa e salada. Finda a janta fomos pro quarto. Só queríamos saber de nos encostar porque o sono tava batendo forte. Também pudera, foram 58 km de giro. E não é que a Monster resolveu divergir de mim, sustentando que seu cronômetro marcara 61 km? A celeuma perdurou nos demais dias, com as duas abestadas batendo boca sobre uma pífia diferença de 3 km!

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